O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 22 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

2. Claude Frollo

 

De fato, Claude Frollo não era um personagem banal. Pertencia a uma

dessas famílias médias que a linguagem impertinente do século passado indiferentemente denominava alta burguesia ou baixa nobreza. E essa família havia herdado dos irmãos Paclet o feudo de Tirechappe, com vinte e uma casas vinculadas ao bispado de Paris e tendo sido objeto, no século XIII, de frequentes disputas judiciais diante da magistratura eclesiástica. Dono desse feudo, Claude Frollo era um dos 7 × 21 senhores legatários, nas

circunscrições de Paris e arrabaldes.226 Por muito tempo seu nome se estampou, inscrito como tal, entre o palacete de Tancarville, propriedade de mestre François Le Rez, e o colégio de Tours, no cartulário registrado em Saint-Martin des Champs.

Desde a infância, os pais de Claude Frollo o destinaram à carreira religiosa. Foi em latim que ele aprendeu a ler. Foi educado a baixar os olhos e a falar em voz baixa. Ainda criança, o pai o internou no colégio Torchi, na Universidade. Foi onde ele cresceu, entre o missal e o léxico.

De qualquer forma, era um menino triste, grave e sério, que estudava com afinco e aprendia rápido. Não gritava muito no recreio, pouco se envolvia nos tumultos da rua du Fouarre, desconhecia dare alapas et

capillos laniare227 e não havia absolutamente participado das agitações de 1463, que os analistas registraram gravemente sob o título de: “sexta perturbação da Universidade”. Raramente zombava dos estudantes pobres de Montaigu, chamados cappettes, nem dos bolsistas do colégio de Dormans, de tonsura rasa e traje tripartite de pano garço, azul e roxo, azurini coloris et bruni, como diz o documento do cardeal de Quatre-

Couronnes.228

De fato, Claude Frollo não era um personagem banal.

 

Por outro lado, era frequentador assíduo das grandes e pequenas escolas da rua Saint-Jean-de-Beauvais. E o primeiro aluno que o abade de Saint-Pierre de Val avistava, ao começar a leitura de direito canônico, era Claude Frollo, encostado num pilar, diante da cátedra da escola Saint-Vendregesile, armado de sua prancheta de chifre, mordiscando a pena, escrevendo em cima das pernas da roupa gasta e, no inverno, soprando os dedos para aquecê-los. O primeiro ouvinte que o sr. Miles d’Isliers, doutor em decreto, via chegar toda segunda-feira pela manhã, resfolegante, ao se abrirem as portas da escola do Chef-Saint-Denis, era também Claude Frollo. De forma que, aos dezesseis anos, o jovem seminarista pôde enfrentar um padre de igreja, em teologia mística; um padre de concílios, em teologia canônica; e um doutor da Sorbonne, em teologia escolástica.

Superada a teologia, Claude Frollo mergulhou em Decreto. Saiu de

Mestre das sentenças e caiu em Capitulares de Carlos Magno.229 Sucessivamente devorou, com o apetite que tinha pelas ciências, decretais sobre decretais, as de Théodore, bispo de Hispalle, as de Bouchard, bispo de Worms, as de Yves, bispo de Chartres. Em seguida, o decreto de Graciano, que sucedeu às Capitulares de Carlos Magno; depois a coletânea de Gregório IX e então a epístola Super specula de Honório III. Tornou clara, tornou familiar essa vasta e tumultuada etapa do direito civil e do direito canônico, em luta e em ação no caos da Idade Média, período inaugurado em 618 pelo bispo Teodoro e encerrado em 1227 pelo papa Gregório.

Digerido o Decreto, ele se lançou em medicina e artes liberais. Estudou a ciência das ervas e a ciência dos unguentos. Tornou-se perito em febres e contusões, ferimentos e abcessos. Jacques d’Espars o licenciou médico fisicista, Richard Hellain, médico cirurgião. Ele igualmente percorreu todos os graus de licenciatura, mestrado e doutoramento em artes. Estudou as línguas, isto é, o latim, o grego, o hebraico, triplo santuário muito pouco frequentado então. Uma verdadeira febre de aquisição e de armazenamento das coisas da ciência o consumia. Aos dezoito anos, as quatro faculdades já haviam ficado para trás. Para o jovem Claude Frollo, a vida parecia ter uma só finalidade: o saber.

Foi mais ou menos por essa época da sua vida que o verão excessivo de 1466 fez estourar a grande peste, que matou mais de quarenta mil criaturas

no viscondado de Paris.230 Entre as vítimas, disse Jean de Troyes, “mestre Arnoul, astrólogo do rei, que era homem de bem, sábio e agradável”. Pela Universidade se espalhou a notícia de que a rua Tirechappe estava sendo particularmente devastada pela doença. Era onde habitavam, no feudo familiar, os pais de Claude. Muito alarmado, o jovem estudante acorreu à residência paterna. Ao entrar, descobriu os corpos do pai e da mãe, mortos na véspera. Um irmãozinho, entretanto, ainda a usar camisola, estava vivo e aos berros, abandonado no berço. Era tudo o que restava a Claude de sua família. Ele pegou a criança nos braços e saiu pensativo. Até então, ele havia vivido apenas para a ciência, mas começava ali a viver para a vida.

Essa catástrofe foi um divisor de águas na existência de Claude. Órfão, primogênito, chefe de família aos dezenove anos, ele se sentiu bruscamente arrancado dos devaneios da escola para as realidades do mundo. Comovido por pio sentimento, foi tomado de paixão e devoção por aquela criança, seu irmão. Tal afeição humana revelou-se algo estranho e suave para Claude, que até então só havia amado os livros.

E esse sentimento se desenvolveu até um ponto singular. Em alma tão nova, foi como um primeiro amor. Pois o rapaz mal conhecera os pais, separado deles desde a infância, enclausurado e, de certa maneira, amuralhado pelos livros. Ávido, antes de tudo, de estudar e aprender, exclusivamente atento à própria inteligência, que se dilatava na ciência, e à imaginação, que se expandia nas letras, o pobre estudante não tivera ainda tempo de descobrir o lugar do coração. O jovem irmão sem pai nem mãe, aquela criança que caía bruscamente do céu nos seus braços, fez dele um novo homem. Claude percebeu haver no mundo outra coisa além das especulações da Sorbonne e dos versos de Homero. Percebeu que o homem precisa de afeto, que a vida sem ternura e sem amor não passa de árida, rangente e dilacerante engrenagem. Só que, ao mesmo tempo, achou — pois estava na idade em que as ilusões só são substituídas por outras ilusões — que as afeições de sangue e de família eram as únicas necessárias e que um irmãozinho a amar bastava para preencher toda uma existência.

Lançou-se então no amor pelo pequeno Jehan, com o ímpeto de uma personalidade já intensa, ardente, concentrada. A pobre e frágil criatura — formosa, loura, rosada e cacheada —, o órfão sem outro apoio além do irmão igualmente órfão, o comovia no mais profundo das entranhas. Grave pensador que era, Claude passou a ponderar sobre o irmão com infinita misericórdia. Cuidou, e se preocupou, como de algo muito frágil e recomendado. Foi para o menino mais do que um irmão, tornou-se uma mãe.

O pequeno Jehan perdera a mãe quando ainda mamava. Claude colocou-o então com uma ama de leite. Além do feudo de Tirechappe, ele recebera como herança do pai o feudo de Moulin, ligado à torre quadrada de Gentilly. Era um moinho em cima de uma colina, perto do castelo de

Winchestre (Bicêtre).231 Havia lá uma moleira que amamentava uma saudável criança; não ficava tão longe da Universidade. Claude levou pessoalmente para ela o pequeno Jehan.

A partir daí, sentindo a carga que lhe pesava nos ombros, ele encarou a vida de forma ainda mais séria. O cuidado com o irmãozinho se tornou não só a recreação, como também a finalidade dos seus estudos. Resolveu se dedicar por inteiro àquilo por que ele responderia perante Deus, sem procurar esposa nem outra criança, voltado apenas à felicidade e à fortuna de seu irmão. Voltou-se então mais intensamente à vocação clerical. O mérito, a ciência adquirida, sua qualidade de súdito imediato do bispo de Paris amplamente lhe abriram as portas da Igreja. Com vinte anos, por concessão especial do Santo Pontifício, ele se sagrou padre e passou a oficiar, como o mais jovem dos capelães de Notre Dame, no altar

denominado, pela missa tardia ali celebrada, altare pigrorum.232

Mais do que nunca mergulhado em seus queridos livros, que só eram abandonados para uma rápida visita ao feudo de Moulin, a mistura de saber e austeridade, tão rara àquela idade, prontamente garantiu a Claude Frollo o respeito e a admiração do claustro. Do claustro, sua reputação de erudito chegou ao povo, transformando-se pouco a pouco, coisa então frequente, em fama de bruxo.

Foi depois de celebrar, no dia de quasímodo, sua missa dos preguiçosos no altar a eles dedicado, ao lado da porta do coro que dava para a nave, à direita, perto da imagem da Virgem, que o grupo de velhas faladeiras havia chamado a sua atenção, diante do estrado das crianças abandonadas.

Quando se aproximou da infeliz pequena criatura, tão odiada e ameaçada, e viu todo aquele desespero, aquela deformidade, todo aquele abandono, Claude pensou no irmão, sendo de repente tomado pela quimera de que, caso morresse, o querido Jehanzinho poderia também ser miseravelmente deixado na prancha das crianças abandonadas. Tudo isso lhe veio ao coração ao mesmo tempo, uma grande piedade o impeliu, e ele pegou a criança.

Ao tirá-la do saco em que estava enfiada, viu que, de fato, era bem disforme. O pobre diabinho tinha uma verruga no olho esquerdo, a cabeça socada entre os ombros, a coluna vertebral arqueada, o esterno proeminente, as pernas tortas. Mas parecia vivaz e, apesar da impossibilidade de se discernir em que língua berrava, os gritos anunciavam ser uma criança forte e saudável. A compaixão de Claude aumentou diante de tanta feiura e ele fez o voto em seu coração de criar a criança pelo amor que devotava ao irmão. Desse modo, quaisquer que fossem no futuro os pecadilhos do pequeno Jehan, ele teria a seu favor essa caridade feita em sua intenção. Era uma espécie de investimento em boas ações que ele garantia para o irmão menor, uma bagagem de mercês, reservada de antemão, caso o danadinho se visse um dia carente desse tipo de moeda, a única aceita no pedágio do Paraíso.

Batizou o filho adotivo e deu-lhe o nome de Quasímodo, por querer lembrar o dia em que fora encontrado, ou por querer caracterizar com esse nome o quanto a pobre pequena criatura era incompleta e malfeita. Quasímodo, de fato, caolho, corcunda e capenga, não passava de um quase.

 

226. Victor Hugo livremente mistura à trama nomes e situações sociais historicamente reais, tirados dos registros que lhe serviam de fonte, com o intuito de criar um ambiente de época. Como proprietário de Tirechappe, Claude Frollo devia então pagar tributo ao bispado de Paris sobre as rendas recebidas. Era um dos sete proprietários particulares em Paris a usufruir de um censo (ou aforamento); no caso, sobre essas 21 casas (donde o “7 × 21”).

227. “Dar bofetadas e puxar cabelos”, em latim no original.

228. O colégio de Montaigu foi fundado em 1314 e durou até metade do séc.XVIII, no local da atual praça do Panthéon, com um sistema que favorecia os alunos pobres. Erasmo, Calvino e Villegagnon, entre muitos outros personagens ilustres, estudaram em Montaigu; os estudantes eram chamados cappettes por causa da capa que usavam. Jean Dormans, cardeal de Quatre-Couronnes, fundara em 1370 o seu colégio e exigia que os bolsistas se apresentassem como descrito para que fossem reconhecidos.

229. “Mestre das sentenças” é como era chamado Pierre Lombard, professor de teologia do séc.XII. A leitura dos seus aforismos foi por séculos a base do ensino escolástico. Os decretos reais conhecidos como Capitulares de Carlos Magno, ou também De Villis, do séc.IX, eram referência sobretudo no concernente à agricultura e à administração pública.

230. Como era chamada, sob o Antigo Regime, a circunscrição judiciária de Paris.

231. Kremlin-Bicêtre é um subúrbio da Paris de hoje. Em 1633, Luís XIII mandou construir um hospital, no lugar do antigo castelo de Bicêtre. O nome é uma corruptela de Winchester.

232. “Altar dos preguiçosos”, em latim no original.