O Corcunda de Notre Dame
3. Fim de “O escudo que virou folha seca”
Quando ela entrou, pálida e claudicante, na sala de audiência, foi recebida
por um murmúrio geral de contentamento. Por parte dos ouvintes, era um sentimento de satisfação da impaciência, como no teatro, no final do último entreato da comédia, quando a cortina se levanta e começa a conclusão. Por parte dos juízes, era pela esperança de logo poderem jantar. Também a cabrita baliu de alegria. Quis correr até a sua dona, mas a haviam amarrado no banco.
A noite tinha caído. As velas, cuja quantidade não aumentara, forneciam tão escassa claridade que não se viam as paredes da sala. As trevas envolviam os objetos numa espécie de bruma. Mal sobressaíam uns poucos rostos apáticos de juízes. Mais adiante, numa extremidade da comprida sala, podia-se ver um ponto de vaga brancura se destacando sobre o fundo escuro. Era a acusada.
Arrastara-se até o seu lugar. Assim que Charmolue magistralmente assumiu o seu posto, sentou-se e voltou a se levantar, dizendo, sem deixar transparecer em demasia a vaidade pelo sucesso:
— A acusada tudo confessou.
— Filha da Boêmia — retomou então o presidente —, a senhorita confessou todo tipo de ações, envolvendo magia, prostituição e assassinato de Phoebus de Châteaupers?
O coração ficou apertado. Percebeu-se que ela chorava no escuro.
— Tudo que quiserem — respondeu com uma voz fraca. — Por favor, matem-me logo!
— Sr. procurador do rei no tribunal da Igreja — disse o presidente. — A câmara está pronta para ouvir suas requisições.
Mestre Charmolue exibiu um horrível caderno e começou a ler, com a ajuda de muita gesticulação e entonação dramática, um discurso em latim, com todas as provas do processo se articulando em perífrases ciceronianas, apoiadas em citações de Plauto, seu autor cômico favorito. Lamentamos não poder oferecer a nossos leitores essa página memorável. O orador a percorria em maravilhosa atuação. Sequer terminara o exórdio e o suor já brotava da testa, com os olhos que saltavam das órbitas.
Bruscamente, no meio de um período, ele se interrompeu, lançando um olhar — que em geral era ameno e até um pouco idiota — fulminante.
— Senhores — exclamou (dessa vez em francês, pois isso não estava no caderno). — Satã de tal modo está envolvido nesse caso que assiste a nossos debates e zomba da sua magnificência. Vejam!
Dizendo isso, apontou com a mão a cabritinha que, vendo Charmolue gesticular, de fato achara dever imitá-lo, tendo se sentado sobre o traseiro, reproduzindo como podia, com as patas dianteiras e a cabeça barbuda, a mímica patética do procurador do rei no tribunal da Igreja. Era, se nos lembrarmos bem, um dos seus preciosos talentos. O incidente, essa última prova, causou enorme efeito. As patas da cabra foram amarradas e o procurador do rei retomou o fio da sua eloquência.
Foi demoradíssima, mas uma peroração admirável. Cito a última frase, à qual se devem acrescentar a voz rouca e o gesto grandíloquo de mestre Charmolue:
— Ideo, Domni, coram stryga demonstrata, crimine patente, intentione criminis existente, in nomine sanctae ecclesiae Nostrae-Dominae Parisiensis, quae est in saisina habendi omnimodam altam et bassam justitiam in illa hac intemerata Civitatis insula, tenore praesentium declaramus nos requirere, primo, aliquandam pecuniarium indemnitatem; secundo, amendationem honorabilem ante portalium maximum Nostrae-Dominae, ecclesia cathedralis; tertio, sententiam in virtute cujus ista stryga cum sua capella, seu in trivio vulgariter dicto la Grève, seu in insula exeunte in fluvio Sequanae, juxta pointam jardini regalis, executatae sint!
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Pôs de volta na cabeça o gorro e se sentou.
— Eheu! — suspirou Gringoire, lamentando. — Bassa latinitas! 393
Outro homem de toga negra se levantou, perto da acusada. Era o seu advogado. Os juízes, em jejum, começaram a resmungar.
— Advogado, seja breve! — disse o presidente.
— Senhor presidente — respondeu o advogado —, uma vez que minha defendida confessou o crime, pouco me resta a acrescentar. Cito um texto da lei sálica: “Se uma estrige comer um homem e reconhecer este fato, deve pagar multa de oito mil deniers, que perfazem duzentos soldos de ouro.” Queira a câmara condenar minha cliente à multa.
— Texto ab-rogado — cortou o advogado extraordinário do rei.
— Nego — replicou o advogado.
— Votação! — aparteou um conselheiro. — O crime é patente, e já é tarde. Resolveu-se a votação sem que se deixasse a sala. Os juízes opinaram com o gorro, pois tinham pressa. As cabeças cobertas sucessivamente se descobriram à sombra da lúgubre questão colocada em voz baixa pelo presidente. A pobre acusada parecia olhá-los, mas sua visão tumultuada nada mais discernia.
O escrivão passou ao registro e fez chegar às mãos do presidente um longo pergaminho.
A infeliz ouviu o público se agitar, as lanças se entrechocarem e uma voz glacial pronunciar:
— Filha da Boêmia, no dia que decidir o rei, nosso senhor, ao meio-dia, será levada numa carroça aberta, de bata, descalça, com a corda no pescoço, diante do grande pórtico de Notre Dame e lá fará confissão de honra, com uma tocha de cera pesando duas libras na mão. Dali será levada à praça da Grève, onde será enforcada e estrangulada, no patíbulo da cidade. De mesmo a sua cabra. Deverá pagar ao Santo Ofício três leões de ouro, como reparação pelos crimes cometidos e confessados de feitiçaria, magia, luxúria e morte, contra a pessoa do sr. Phoebus de Châteaupers, que Deus tenha a sua alma!
— Ah! Devo estar sonhando! — ela murmurou, sentindo-se carregada por mãos rudes e decididas.
392. “Por esse motivo, senhores, na presença de uma estrige confessa, sendo patente o crime e existente a intenção criminosa, em nome da santa igreja Notre Dame de Paris, idônea para justiças de todo tipo, seja alta ou baixa, em nossa ilha sem mácula de la Cité, declaramos, pelo conteúdo do que dispomos, requerer, primeiramente, alguma indenização pecuniária, segundamente, arrependimento de honra, diante do grande pórtico de Notre Dame, igreja catedral, terceiramente, sentença, em virtude da qual essa estrige com a sua cabra, na praça vulgarmente chamada da Grève, ou na saída da ilha para o rio Sena, perto da ponta do jardim real, sejam executadas!”, em latim no original.
393. “Que pena! Latim deplorável!”, em latim no original.