O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 18 de 65

Páginas do PDF

O Corcunda de Notre Dame

7. Uma noite de núpcias

 

Instantes depois, nosso poeta se viu num pequeno recinto abobadado em

ogiva, isolado, quentinho, sentado diante de uma mesa que parecia muito convidativa às vitualhas de um guarda-mantimentos suspenso bem ao lado, tendo uma cama acolhedora em perspectiva e tudo isso a sós na companhia de uma bela jovem. A aventura tinha toda a aparência de mágica. Gringoire começava seriamente a se imaginar personagem de um conto de fadas. De quando em quando, lançava um olhar furtivo para ver se o carro de fogo atrelado a duas quimeras aladas, único a poder tê-lo transportado tão rapidamente do tártaro ao paraíso, não estava por ali. Às vezes, também, fixava obstinadamente o olhar nos buracos das roupas gastas que vestia, para se ancorar na realidade e não perder completamente o rumo. A razão, jogada de um lado para outro em espaços imaginários, estava presa apenas por um fio.

A moça não parecia prestar a menor atenção nele. Ia e vinha, mudava algum banquinho de lugar, conversava com a cabra e, vez por outra, fazia o trejeito com seus lábios. Sentou-se finalmente junto à mesa e Gringoire pôde considerá-la à vontade.

Você, leitor, já foi criança — e talvez tenha ainda a felicidade de o ser. Por isso, em mais de uma ocasião (no que me concerne, assim passei dias inteiros, que foram os mais úteis da minha vida), seguiu de moita em moita, à beira de um curso d’água, num dia de sol, alguma bela libélula verde ou

azul,143 quebrando seu voo com ângulos bruscos e delicadamente tocando a ponta de todos os raminhos da vegetação. Deve se lembrar da curiosidade apaixonada com que o seu pensamento e olhar se prendiam àquele pequeno turbilhão de asas púrpura e azul, que assobiava e zumbia, e entre as quais flutuava uma forma inapreensível, sob o véu do rapidíssimo movimento. O ser aéreo que confusamente se esboçava através do bater de asas parecia quimérico, imaginário, impossível de se tocar, impossível de se ver. Mas quando, finalmente, a libélula pousava na ponta de um junco e você, prendendo a respiração, examinava as longas asas de gaze, o longo corpo esmaltado, os dois globos de cristal, que espanto não experimentava e que medo de que novamente a forma se fosse como sombra e não passasse de quimera! Recorde essas impressões e facilmente poderá se dar conta do que sentia Gringoire contemplando, sob sua forma visível e palpável, Esmeralda, que ele até então só havia entrevisto por trás de um turbilhão de dança, canto e tumulto.

Mergulhado cada vez mais em seu devaneio, ele a si mesmo perguntava, seguindo-a vagamente com os olhos: “Será isso, então, Esmeralda? Uma celeste criatura! Uma dançarina de rua! Tanto e tão pouco! Foi ela quem deu o golpe de misericórdia no meu mistério pela manhã e ela quem salvou minha vida à noite. Meu gênio cruel! Meu anjo do bem! Com certeza, uma linda mocinha! E que deve loucamente me amar, para ter me escolhido dessa maneira.” “Aliás”, continuou ele, dizendo a si mesmo, com a sensação de verdade que era o fundo da sua personalidade e da sua filosofia, “não sei muito bem como, mas sou o seu marido!”

Com essa ideia na cabeça e nos olhos, ele se aproximou da jovem de maneira tão militar e tão galante que a fez recuar.

— O que está querendo? — ela perguntou.

— Pode mesmo perguntar isso, adorável Esmeralda? — respondeu Gringoire, com um tom tão apaixonado que ele próprio se surpreendeu ao ouvir.

A egípcia arregalou os olhos.

— Não sei o que está dizendo.

— Ora! — respondeu Gringoire, cada vez mais entusiasmado e achando, afinal, se tratar apenas de um falso pudor do gênero “Pátio dos Milagres”. — Não sou seu, doce amiga, sendo então, você, minha?

Simploriamente, tentou pegá-la pela cintura. O colete da cigana escapou das suas mãos como o couro de uma enguia. Ela saltou de uma ponta a outra do quarto, se agachou e se reergueu já segurando um pequeno punhal — antes que Gringoire sequer pudesse saber de onde o tal punhal tinha saído —, irritada e orgulhosa, os lábios inflados, as narinas abertas, as faces vermelhas como maçãs e as pupilas dardejando raios. Ao mesmo tempo, a cabritinha branca se colocou à frente dela e apresentou a Gringoire a primeira linha de batalha, armada com dois bonitos chifres dourados e bem pontudos. E tudo isso num piscar de olhos.

A libélula se transformara em vespa, mais do que disposta a picar.

Nosso filósofo estava paralisado, lançando sucessivamente à cabra e à jovem olhares bestificados.

— Santa Virgem! — murmurou, enfim, quando a surpresa permitiu que dissesse alguma coisa. — São duas leoas!

A cigana também rompeu o silêncio.

— É um tolo bem atrevido!

— Desculpe, senhorita — disse Gringoire sorrindo. — Por que então me tomou como marido?

— Devia deixar que o enforcassem?

— Então — quis saber o poeta, um pouco desapontado em seus projetos amorosos — casou-se apenas para me salvar da forca?

— E por que mais seria?

Gringoire mordeu os lábios.

— Bom… posso não ser ainda um Cupido tão triunfante quanto imaginei, mas por que, então, ter quebrado a pobre moringa?

O punhal de Esmeralda e os chifres da cabra continuavam em riste.

— Srta. Esmeralda — propôs o poeta —, façamos a paz. Não sou escriturário no Châtelet e não vou questionar o fato de carregar dessa maneira uma adaga dentro de Paris, apesar das ordenações e proibições do sr. preboste. Mas não deve ignorar que, há oito dias, Noël Lescripvain foi condenado a pagar dez soldos parisis por portar um bacamarte. Não insisto e passo ao que interessa. Por minha vaga no paraíso, juro não me aproximar sem sua licença e permissão; mas dê-me algo a comer.

Esmeralda saltou de uma ponta a outra do quarto e se reergueu já segurando um pequeno

 

punhal.

 

No fundo, Gringoire era “bem pouco voluptuoso”, como se descreveu o

sr. Despréaux.144 Não era dessa espécie de cavaleiro e mosqueteiro que toma as jovens de assalto. Em matéria de amor, como nos demais assuntos, preferia as contemporizações e os meios-termos. Uma boa e cordial refeição a dois lhe parecia, principalmente estando com fome, um excelente entreato sobrepondo-se ao prólogo e antes do desfecho de uma aventura amorosa.

A egípcia não respondeu. Fez seu gesto labial de desdém, ergueu a cabeça como um passarinho e deu uma gargalhada. O pequeno punhal desapareceu como havia surgido, sem que Gringoire pudesse ver onde a abelha escondia o ferrão.

Rapidamente, surgiu em cima da mesa um pão de centeio, um pedaço de toicinho, algumas maçãs maduras e um jarro de cerveja. Gringoire se pôs a comer com entusiasmo. A se ouvir o estalar furioso do garfo de ferro no prato de louça, podia-se achar que todo o amor de que dispunha tinha se transformado em apetite.

Sentada à sua frente, a jovem o olhava comer em silêncio, visivelmente preocupada com outra ideia, que a fazia sorrir de vez em quando, com a mão macia acariciando a cabeça inteligente da cabra, preguiçosamente encostada a seus joelhos.

Uma vela de cera amarela iluminava essa cena de voracidade e devaneio.

Apaziguados, porém, os primeiros balidos do estômago, Gringoire fingiu se envergonhar, vendo restar apenas a maçã.

— Não vai comer, srta. Esmeralda?

Ela respondeu com um sinal negativo da cabeça e o olhar pensativo foi se fixar na abóbada da cela.

“Em que ela tanto pensa?”, perguntava-se Gringoire. Procurando na direção em que ela olhava, continuou: “Não é possível que seja a carantonha daquele anão de pedra esculpido no fecho da abóbada que absorva tanto assim sua atenção. Que diabo! Com ele, posso enfrentar qualquer comparação!”

Aumentou a voz:

— Senhorita!

Ela parecia não ouvir.

Insistiu então, mais alto:

— Srta. Esmeralda!

Nada feito. O espírito da jovem estava alhures e a voz de Gringoire não tinha o poder de trazê-lo de volta. Felizmente a cabra ajudou. Começou a ternamente puxar sua dona pela manga:

— O que quer, Djali? — perguntou com vivacidade a egípcia, despertando assustada.

— Está com fome — disse Gringoire, feliz de poder entabular uma conversa.

Esmeralda começou a esfarelar pão, que Djali graciosamente comia em sua mão.

De qualquer maneira, Gringoire não deu tempo para que ela voltasse aos devaneios. Arriscou abordar uma questão delicada.

— Então não quer saber de mim como marido?

A jovem olhou atentamente para ele e disse:

— Não.

— Como amante? — insistiu.

Ela fez o trejeito labial e respondeu:

— Não.

— Como amigo?

Esmeralda voltou a olhá-lo fixamente e disse, após um momento de reflexão:

— Talvez.

O talvez, tão caro aos filósofos — empolgou-se Gringoire.

— Sabe o que é a amizade? — perguntou ainda.

— Sei — respondeu a egípcia. — É ser irmão e irmã, duas almas que se tocam sem se confundir, os dois dedos da mão.

— E o amor? — continuou ele.

— Ah! O amor! — sua voz tremeu e o olho resplendeu. — É ser dois, sendo um só. Um homem e uma mulher que se fundem como anjo. É o céu.

Falando daquela maneira, a dançarina de rua tinha uma beleza que singularmente afetava Gringoire e parecia em perfeita relação com a exaltação quase oriental das suas palavras. Os lábios cor-de-rosa e puros ligeiramente sorriam, a fronte cândida e serena se perturbava, às vezes, por algum pensamento, como um espelho que o ar exalado da boca embaça. Dos longos cílios negros baixados escapava uma espécie de luz inefável que emprestava ao perfil aquela suavidade ideal que Rafael depois encontrou no ponto de interseção místico entre a virgindade, a maternidade e a divindade.

Gringoire, mesmo assim, continuou.

— O que se deve fazer, então, para agradá-la?

— Ser homem.

— E eu, o que sou?

— Um homem tem elmo na cabeça, espada na mão e esporas douradas nos pés.

— Entendo — disse Gringoire. — Sem cavalo não há homem. Ama alguém?

— De amor?

— De amor.

Ela permaneceu pensativa por um momento e acabou dizendo, com uma expressão particular:

— Logo saberei.

— Por que não imediatamente? — retomou com candura o poeta. — Por que não a mim?

Ela o olhou com gravidade.

— Só conseguiria amar um homem que possa me proteger.

Gringoire ficou ruborizado e preferiu não insistir. Era evidente que a moça aludia a seu escasso auxílio na circunstância crítica em que ela se encontrava duas horas antes. A lembrança, apagada pelas demais aventuras da noite, retornou. Ele bateu na testa.

— É verdade, senhorita, deveria ter começado por aí. Desculpe minhas doidas divagações. Como fez para escapar das garras de Quasímodo?

A pergunta causou um estremecimento na cigana.

— Ah! O corcunda horrível! — disse ela, escondendo o rosto nas mãos e tremendo como subitamente tomada por um frio intenso.

— Horrível mesmo! — concordou Gringoire, sem abandonar de todo o que tinha em mente. — Mas como conseguiu escapar?

Esmeralda sorriu, suspirou e se manteve em silêncio.

— Sabe por que ele a seguiu? — retomou Gringoire, tentando um desvio para voltar ao que o interessava.

— Não sei — respondeu a moça. E acrescentou rapidamente: — Mas você também me seguia, por quê?

— Com toda boa-fé — respondeu Gringoire —, também não sei.

Houve um silêncio. Gringoire fazia pequenos entalhes na mesa com a faca. A jovem sorria e parecia ver alguma coisa através da parede. De repente começou a cantar, com uma voz que mal se articulava:

 

Quando las pintadas aves

Mudas están, y la tierra…145

 

Interrompeu-se bruscamente e passou a mão carinhosa pela cabeça de Djali.

— É um bonito animal — disse Gringoire.

— É minha irmã.

— Por que seu nome é Esmeralda? — perguntou o poeta.

— Não sei.

— A troco de nada?

Ela tirou da blusa uma espécie de saquinho oblongo pendurado no pescoço com uma correntinha de grãos de falso-plátano. O saquinho exalava forte odor de cânfora. Era coberto de seda verde, tendo ao centro miçangas da mesma cor, imitando esmeralda.

— Talvez por causa disso — ela respondeu.

Gringoire quis pegar o saquinho. Ela recuou.

— Não toque nele! É um amuleto. Poderia quebrar o encanto, ou o encanto fazer mal a você.

A curiosidade do poeta ficou ainda mais atiçada.

— Quem lhe deu?

Ela encostou um dedo nos lábios dele e escondeu o amuleto no seio. Gringoire tentou fazer mais perguntas, que ficaram praticamente sem resposta.

— O que quer dizer Esmeralda?

— Não sei.

— É em que língua?

— Acho que egípcia.

— Era de se imaginar. Você não é da França?

— Não sei.

— Tem pais?

Ela começou a cantar, a partir de uma antiga melodia:

 

Mon père est oiseau.

Ma mère est oiselle.

Je passe l’eau sans nacelle.

Je passe l’eau sans bateau.

Ma mère est oiselle.

Mon père est oiseau.146

 

— Não insisto mais — disse Gringoire. — Com que idade veio para a França?

— Bem pequena.

— Paris?

— No ano passado. No momento em que entrávamos pela porta

Papal,147 vi fugir para o céu uma toutinegra do pântano. Era final de agosto e previ: o inverno vai ser duro.

— E foi mesmo — concordou Gringoire, achando que davam início a uma conversa. — Passei-o tendo que soprar nos meus dedos para aquecê-los. Tem o dom da profecia?

Ela voltou a ser lacônica.

— Não.

— O homem a quem chamavam duque do Egito é o chefe da sua tribo?

— É.

— Foi quem nos casou — observou timidamente o poeta.

Ela fez o bonito tique habitual.

— Nem sei o seu nome — disse ela.

— Meu nome? Se quiser: Pierre Gringoire.

— Conheço outros mais bonitos.

— Malvada! — reagiu o poeta. — Não faz mal, não vai conseguir me irritar. Quem sabe venha a gostar de mim, me conhecendo melhor. Contou-me sua história com tanta confiança que lhe devo também um pouco da minha. Saiba então que me chamo Pierre Gringoire e sou filho do arrendatário do notariado de Gonesse. Meu pai foi enforcado pelos borguinhões e minha mãe estripada pelos picardos, durante o sítio de Paris, há vinte anos. Aos seis, então, fiquei órfão, tendo como sola para os pés apenas o chão de Paris. Não sei como cheguei até os dezesseis. Graças, às vezes, a uma vendedora de frutas que me dava uma ameixa, ou a um padeiro que me deixava alguma migalha. À noite, era recolhido pela polícia que me jogava na prisão, onde conseguia uma palha para dormir. Nada disso impediu que crescesse, mas também emagrecesse, como pode ver. No inverno, me aquecia ao sol, sob o pórtico do palácio de Sens, achando ridículo que as fogueiras de são João ardam no verão. Aos dezesseis anos, quis ter uma situação. Sucessivamente, tentei de tudo. Fui soldado, mas não era bravo o bastante. Fui monge, mas não era devoto o bastante. Além disso, não sou de beber. Por desespero, tornei-me aprendiz de carpinteiro, mas não era forte o bastante. Tinha mais inclinação para mestre-escola, mas, é verdade, não sabia ler. Não que isso seja um empecilho. No final de certo tempo, percebi que, para todo tipo de coisa, algo me faltava e, vendo que para nada servia, resolvi ser poeta e compositor de frases ritmadas. É uma situação sempre possível para um vagabundo, melhor do que roubar, como aconselhavam alguns amigos jovens e gatunos. Por felicidade, encontrei um dia dom Claude Frollo, o reverendo arquidiácono de Notre Dame. Interessou-se por mim e é a quem devo eu ser hoje um verdadeiro letrado, sabendo latim desde o Livro dos Ofícios de Cícero até o Necrológio dos padres celestinos, sem ser nenhum bárbaro em escolástica, em poética,

em rítmica e sequer em hermética, essa sofia das sofias.148 Sou o autor do mistério apresentado hoje, com grande pompa e participação popular, em pleno salão principal do palácio. Escrevi também um livro que terá seiscentas páginas, sobre o prodigioso cometa de 1465, que fez um homem ficar louco. E tive outros sucessos. Sendo um pouco marceneiro e artilheiro, trabalhei na grande bombarda de Jean Maugue que, como deve saber, estourou na ponte de Charenton, no dia em que foi testada, matando vinte e

quatro curiosos.149 Como vê, não sou tão mau partido matrimonial. Conheço truques interessantíssimos que posso ensinar à sua cabra. Por exemplo, a imitar o bispo de Paris, esse maldito fariseu com moinhos que respingam em todo mundo que passa pela ponte aux-Meuniers. Além disso, meu mistério vai me dar muito dinheiro em espécie, se eu for pago. Resumindo, ponho-me às suas ordens: eu, meu espírito, minha ciência e minhas letras, disposto a viver com a senhora da maneira que escolher, casta ou alegremente, como marido e mulher, se quiser, como irmão e irmã, se preferir.

Gringoire se calou, aguardando o efeito de sua arenga sobre a jovem. Ela tinha os olhos pregados no chão.

— Phoebus — disse ela, em voz baixa e, em seguida, virando-se para o poeta: — Phoebus quer dizer o quê?

Gringoire, sem compreender muito bem o que podia ter a pergunta a ver com a sua alocução, gostou da oportunidade de dar mostras de erudição e respondeu, se estufando:

— É uma palavra latina que quer dizer sol.

— Sol! — ela repetiu.

— É o nome de um arqueiro que era muito bonito, um deus — acrescentou Gringoire.

— Deus! — repetiu a egípcia.

E havia algo de pensativo e apaixonado no tom com que a repetiu.

Nesse momento, um dos seus braceletes se desprendeu e caiu. Gringoire se abaixou, prestativo, para pegar. Quando se ergueu, a jovem e a cabra haviam desaparecido. Ouviu o ruído de uma tranca. Era uma pequena porta, dando provavelmente para um quarto vizinho, que se fechava pelo outro lado.

— Será que pelo menos me deixou uma cama? — preocupou-se nosso filósofo.

Deu a volta pelo cômodo. De móvel que se adequasse para o sono havia apenas uma arca de madeira suficientemente comprida, mas com a tampa esculpida, o que causou a Gringoire, ao se deitar, mais ou menos a mesma

sensação que experimentaria Micromégas deitando-se sobre os Alpes.150

— Bom! — disse, e tentou se acomodar da melhor maneira. — Devo me dar por satisfeito, mas é uma estranha noite de núpcias. Que pena. Havia nesse casamento de moringa quebrada um toque de ingenuidade e de antediluvianismo que me agradava.

 

143. Em francês, demoiselle, libélula, é também “senhorita”, “mocinha”: Gringoire chegara até ali por seguir a jovem. (Demoiselle foi como, aliás, Santos Dumont batizou seu pequeno e mais bem-sucedido avião, em 1907, considerado o primeiro ultraleve do mundo, com 56kg.)

144. Nicolas Boileau-Despréaux, o poeta clássico Boileau, em seu autorretrato.

145. Ainda trecho de Canción de Mio Cid. Literalmente: “Quando as galinhas-d’angola/ Mudas estão, e a terra…”

146. Literalmente: “Meu pai é passarinho,/ Minha mãe é passarinha./ Atravesso a água sem nacela,/ Atravesso a água sem barca,/ Minha mãe é passarinha,/ Meu pai é passarinho.”

147. À altura da atual rua d’Ulm, perto do Panthéon.

148. “Sabedoria das sabedorias”, em grego no original.

149. Henri Sauval cita a bombarda “pesando quinhentas libras”, fundida por Jean Maugue e que, em 1478, matou seu criador e mais quatorze ou quinze pessoas na ponte de Charenton, lançando “para todo lado braços, pernas e cabeças”.

150. Micromégas, personagem epônimo do conto de Voltaire, tinha oito léguas de altura.