O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 13 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

2. A praça da Grève

 

Quase não se veem hoje em dia vestígios do que foi a praça da Grève de

então. Há a encantadora pequena torre que ocupa o ângulo norte da praça e que, já encoberta por ignóbil argamassa que aplana as vivas arestas das suas esculturas, talvez acabe desaparecendo, submersa pela torrente de casas

novas que tão rapidamente devora todas as antigas fachadas de Paris.100

As pessoas que, como nós, sempre passam pela praça da Grève e olham com pena e simpatia a pobre torrezinha sufocada entre duas casas vetustas da época de Luís XV podem facilmente reconstituir pela imaginação o conjunto de edifícios a que ela pertencia e ter uma plena ideia da velha praça gótica do século XV.

Como hoje ainda, a praça formava um trapézio irregular, tendo de um lado o cais e dos três outros uma série de casas altas, estreitas e sombrias. De dia, podia-se admirar a variedade dessas construções, todas esculpidas em pedra ou em madeira, numa completa amostragem das diversas arquiteturas domésticas da Idade Média, do século XV ao XI, desde o arco cruzeiro, que começava a destronar a ogiva, até o pleno cimbre românico, suplantado pela ogiva e que se via ainda, sob o primeiro andar da antiga casa da torre Roland, no ângulo da praça que dava para o Sena, junto à rua de la Tannerie. À noite, só se distinguia dessa massa de prédios o escuro recorte dentado dos telhados, correndo em volta da praça, numa cadeia de ângulos agudos. Pois é essa uma das diferenças radicais entre as cidades de então e as cidades do presente: são hoje as fachadas que dão para as praças e ruas, enquanto antigamente eram as paredes cegas. Nos dois últimos séculos, as casas viraram de lado.

No centro do lado oriental da praça erguia-se uma pesada e híbrida construção formada por três moradas justapostas. Eram conhecidas por três nomes que explicam suas história, destinação e arquitetura: a casa do Delfim, por ter sido habitada por Carlos V, antes de se tornar rei; a

Mercadoria,101 por ter servido de prefeitura; e a casa dos Pilares (domus ad piloria), por possuir uma série de sólidas colunas que sustentavam seus três andares. A cidade tinha ali tudo de que precisa uma boa cidade como Paris: uma capela, para orações a Deus; um tribunal de defesa contra, se necessário, a administração do rei; e, no sótão, um arsenal de artilharia. Pois os burgueses de Paris sabem não bastar, em qualquer conjuntura, rezar e pleitear as franquias da cidadania, mantendo sempre em reserva, num sótão da câmara municipal, bom estoque de velhos arcabuzes.

Já então, a Grève tinha esse aspecto sinistro, mantido ainda hoje pela ideia execrável que ela desperta e pelo sombrio prédio municipal de

Dominique Boccador, que substituiu a casa dos Pilares.102 Deve-se lembrar que uma forca e um pelourinho permanentes — a justiça e a escada, como

se dizia então —,103 lado a lado, cumpriam seu papel, fazendo com que os olhos se desviassem daquela praça fatal, onde tantos seres cheios de vida e de saúde agonizaram. E onde também teria origem, cinquenta anos depois, a febre de Saint-Vallier, causada pelo terror do patíbulo, a mais monstruosa de todas as doenças, já que não enviada por Deus, mas imposta pelos

homens.104

Devemos lembrar que a pena de morte — com suas rodas de ferro, patíbulos de pedra e toda uma parafernália permanente e fixa de instrumentos de suplício — há apenas trezentos anos atravancava ainda o calçamento da praça da Grève, do Halles, da praça Dauphine, da Croix du Trahoir, do mercado dos porcos, do pavoroso Montfaucon, da barrière des

Sergents,105 da praça dos Gatos, da porta Saint-Denis, de Champeaux, da porta Baudets, da porta Saint-Jacques, sem contar as inúmeras “escadas” dos prebostes, do bispo, do cabido, dos abades, dos priores com direito de “justiça”, e sem contar também os afogamentos legais no rio Sena. É consolador que hoje, tendo perdido sucessivamente todas as peças da sua armadura, seu aparato de suplícios, suas penalidades imaginosas e criativas, sua tortura, da qual ela a cada cinco anos renovava a aparelhagem no Grande Châtelet, essa velha soberana da sociedade feudal, quase banida das nossas leis e das nossas cidades, de Código em Código acuada, expulsa de praça em praça, tenha apenas, em nossa imensa Paris, um último refúgio infame na Grève, com aquela miserável guilhotina furtiva, inquieta, envergonhada, parecendo sempre temer ser pega em flagrante delito, tanto que rapidamente desaparece, logo depois de dar seu espetáculo!

100. Victor Hugo se refere à abertura da rua de Rivoli que, entre outras demolições, tomou a parte norte da atual praça do Hôtel de Ville.

101. Originalmente, nela se reunia o conselho dos comerciantes fluviais, cujo representante máximo, com o título de preboste dos comerciantes, era visto também como chefe da municipalidade.

102. Domenico Boccador foi o arquiteto responsável pela ampliação, no séc.XVI, do imóvel, destruído por ocasião da Comuna, em 1871. A praça da Grève era o local, ainda à época de Victor Hugo, das execuções públicas.

103. Como se chamavam, popularmente, a forca e o pelourinho.

104. Condenado à morte por traição, Jean de Saint-Vallier viu seus cabelos embranquecerem numa só noite, sendo tomado por violentíssima febre.

105. A fonte da Croix du Trahoir existe ainda, na esquina das ruas du Arbre-Sec e Saint-Honoré, bem no centro de Paris; o mercado dos porcos se situava na colina Saint-Roch, que não existe mais; o patíbulo de Montfaucon ficava na atual praça Colonel-Fabien (onde se encontra a sede do Partido Comunista francês, obra de Oscar Niemeyer); as barrières eram fora das portas de acesso à cidade, e até o séc.XIX tinham uma conotação “marginal”: era onde se passava o “tráfico”, pois junto à cidade e fora da sua jurisdição.