O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 25 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

5. Continuação de “Claude Frollo”

 

Em 1482, Quasímodo tinha cerca de vinte anos, e Claude Frollo cerca de

trinta e seis: um havia crescido, o outro envelhecido.

Claude Frollo não era mais o simples estudante do colégio Torchi, o afetuoso protetor de um irmãozinho pequeno, o jovem e sonhador filósofo que sabia muita coisa e ignorava muitas. Era um padre austero, grave, sombrio, responsável por inúmeras almas. Era o sr. arquidiácono de Josas, segundo acólito do bispo, encarregado dos decanatos de Montlhéry, de Châteaufort e de cento e setenta e quatro vigários rurais. Era um personagem imponente e sombrio, diante do qual tremiam coroinhas de talar e avental, coristas, confrades de Saint-Augustin e também os clérigos encarregados das matinas em Notre Dame, vendo-o lentamente passar sob as altas ogivas do coro; majestoso, pensativo, de braços cruzados e a cabeça tão caída sobre o peito que só se via do rosto a ampla testa que se prolongava na calvície.

Dom Claude Frollo, aliás, não havia abandonado a ciência e nem a educação do irmão menor, que eram as duas ocupações da sua vida. Com o tempo, porém, a amargura se misturou àquelas tão doces atividades. Com o

tempo, diz Paul Diacre,238 até o melhor toicinho fica rançoso. O pequeno Jehan, apelidado du Moulin por causa do lugar em que fora amamentado, não avançou na direção que Claude gostaria. O irmão mais velho esperava um aluno piedoso, dócil, douto, honorável. O caçula, porém, como essas árvores ainda jovens que driblam o esforço do jardineiro e teimosamente se viram para o lado de onde vêm o ar e o sol, o irmãozinho só fazia crescerem e se multiplicarem as boas ramagens, espessas e luxuriantes, para o lado da preguiça, da ignorância e da orgia. Era um verdadeiro diabo, bem tumultuoso — o que levava dom Claude a franzir o cenho —, mas muito engraçado e sutil, o que acabava fazendo o irmão sorrir. Claude o havia confiado àquele mesmo colégio Torchi, onde ele próprio passara os seus primeiros anos de estudo e recolhimento, sendo então uma dor perceber que o santuário outrora edificado com o nome Frollo, com ele hoje se escandalizasse. Fazia então a Jehan severos e longuíssimos sermões, que o rapaz intrepidamente suportava. Afinal, o jovem vigarista tinha bom coração, como é comum em todas as comédias. Passado o sermão, entretanto, com igual tranquilidade ele retomava a rotina das suas sedições e enormidades. Podia ser algum béjaune (como eram chamados os calouros recém-admitidos na Universidade) que ele houvesse atormentado para dar boas-vindas, preciosa tradição que escrupulosamente se perpetuou até os dias de hoje. Ou podia, Jehan, ter encabeçado um bando de estudantes que classicamente se lançara a um cabaré, quase classico excitati, espancando em seguida o taberneiro “com porretes ofensivos”, saqueando festivamente a taberna e até assaltando os estoques de vinho na cave. Depois disso, vinha sempre um belo relatório em latim, que o submonitor de Torchi trazia cabisbaixo a dom Claude, com esse doloroso assinalamento: Rixa; prima

causa vinum optimum potatum.239 Dizia-se ainda — coisa horrível num menino de dezesseis anos — que as traquinices se estendiam muitas vezes até a rua de Glatigny.

Por tudo isso, contrito e desanimado com as inclinações humanas, Claude se lançou com ainda maior ímpeto nos braços da ciência, essa irmã que, pelo menos, não nos ri na cara e sempre retribui, mesmo que em moeda às vezes um tanto insípida, os cuidados com que a tratamos. Tornou-se então cada vez mais sábio e, simultaneamente, por consequência natural, cada vez mais rígido enquanto padre e cada vez mais triste enquanto homem. Para todos nós, há certos paralelismos entre nossa inteligência, os costumes e a personalidade que se desenvolvem sem descontinuar e só se rompem por motivo de grandes perturbações na vida.

Desde moço, ele havia percorrido o círculo quase inteiro dos conhecimentos humanos positivos, externos e lícitos, sentindo-se então

forçado, a menos que fosse impedido ubi defuit orbis,240 a seguir adiante e buscar outros alimentos para a insaciável atividade da sua inteligência. O antigo símbolo da serpente que morde o próprio rabo perfeitamente convém à ciência e tudo indica ter servido também a Claude Frollo. Várias pessoas graves afirmaram que, depois de esgotar o fas do saber humano, ele quisera

penetrar no nefas.241 Sucessivamente, comentava-se, ele havia provado de todas as maçãs da árvore da inteligência e, por fome ou desgosto, acabara mordendo a fruta proibida. Havia frequentado, como nossos leitores puderam ver, conferências de teólogos na Sorbonne, assembleias de belas-artes junto à estátua de santo Hilário, disputas de direito junto à estátua de são Martinho e congregações médicas junto ao batistério de Notre Dame,

ad cupam Nostrae Dominae.242 Os pratos permitidos e aprovados que essas quatro grandes cozinhas, as chamadas quatro faculdades, podiam preparar e servir a uma inteligência tinham sido devorados, trazendo saciedade sem acalmar a fome. Ele continuou então a cavar mais adiante e mais fundo, abaixo de toda essa ciência finita, material, limitada. Arriscando talvez a alma, sentou-se à mesa misteriosa dos alquimistas, dos astrólogos, dos herméticos, a cuja cabeceira, na Idade Média, estavam Averróis, Guillaume de Paris e Nicolas Flamel, com extensões no Oriente, à luz do candelabro de sete braços, indo até Salomão, Pitágoras e Zoroastro.

Pelo menos era o que, com ou sem razão, se imaginava.

Certo é que o arquidiácono visitava com frequência o cemitério dos Saints-Innocents, onde, é verdade, os pais estavam enterrados, junto de outras vítimas da peste de 1466. Entretanto, parecia sempre bem menos devotado à cruz do fosso familiar do que às figuras estranhas que

sobrecarregavam o túmulo vizinho de Nicolas Flamel e Claude Pernelle.243

Certo é que foi frequentemente visto a percorrer a rua des Lombards, entrando furtivamente numa pequena casa no cruzamento da rua des Écrivains com a rua Marivaux: a casa que Nicolas Flamel havia construído e onde morreu, por volta de 1417, e que, deserta desde então, já começava a cair em ruínas, de tanto que herméticos e “sopradores” de todos os países

haviam gastado as paredes244 só de gravar nelas os seus nomes. Alguns vizinhos inclusive afirmavam ter visto uma vez, por um respiradouro, o arquidiácono Claude escavando, revirando e revolvendo a terra nos dois subsolos, cujos pilares de sustentação foram cobertos de versos e hieróglifos inumeráveis pelo próprio Nicolas Flamel. Achava-se que ele podia ter enterrado a pedra filosofal naqueles subsolos, e os alquimistas, por

dois séculos, desde Magistri até o padre Pacifique,245 só deram descanso àquele chão quando a casa, tão cruelmente esquadrinhada e revirada, acabou se desmanchando em pó.

Sabe-se também que o arquidiácono sofria de singular paixão pelo portal simbólico de Notre Dame, essa página de magia, escrita na pedra pelo bispo Guillaume de Paris, que provavelmente caiu em danação por ter permitido tão infernal frontispício no santo poema que o restante do edifício declama à eternidade. O arquidiácono Claude igualmente estava sempre a sondar o colosso de são Cristóvão e a comprida estátua enigmática que se erguia à

entrada do adro e que o povo, em sua irreverência, chamava sr. Legris.246 Mas o que todo mundo podia notar eram as intermináveis horas por ele frequentemente gastas, sentado na mureta da praça, contemplando as esculturas do pórtico, examinando ora as virgens loucas, com suas lamparinas reviradas, ora as virgens sábias, com as lamparinas de pé. Outras vezes, era visto calculando o ângulo de visão do corvo do pórtico da esquerda, a fitar na igreja um ponto misterioso onde provavelmente se escondia a pedra filosofal, caso não estivesse no subsolo de Nicolas Flamel. Diga-se de passagem, era um singular destino para a igreja de Notre Dame, àquela época, este de ser apreciada em dois planos diferentes e tão apaixonadamente por dois seres tão pouco semelhantes quanto Claude e Quasímodo. Um deles, uma espécie de semi-homem, instintivo e selvagem, a apreciava pela beleza, estatura e magnífico conjunto; o outro, de imaginação erudita e ardente, por sua significação e mito, pelo sentido nela embutido e pela simbologia espalhada nas esculturas da fachada, como um primeiro texto sob o segundo, num palimpsesto, ou seja, pelo enigma que a catedral eternamente apresenta à inteligência.

Certo é, enfim, que o arquidiácono tinha preparado para seu próprio uso, na torre dando de frente para a Grève, bem ao lado da gaiola dos sinos, um pequeno e secreto cômodo no qual, diziam, ninguém entrava sem sua permissão, nem mesmo o bispo. Essa cela fora outrora aberta quase no topo

da torre, entre ninhos de corvos, pelo bispo Hugo de Besançon,247 para seus sortilégios pessoais. O que a cela ocultava ninguém sabia, mas frequentemente se via, do chão arenoso do Terreno, à noite, por uma abertura na parte de trás da torre, aparecer, desaparecer e reaparecer, a curtos e regulares intervalos, uma claridade vermelha, intermitente, estranha, parecendo acompanhar as aspirações ofegantes de um fole e sugerindo mais vir de uma chama que de uma luz. No escuro, àquela altura, a visão causava um efeito singular e as comadres comentavam: “É o arquidiácono que bufa, o inferno arde lá em cima.”

Na verdade, não havia nisso tudo provas concretas de feitiçaria, mas não deixava de ser uma fumaça mínima e necessária para que daí se imaginasse o fogo, e o arquidiácono gozava de formidável notoriedade. Devemos dizer todavia que as ciências do Egito, a necromancia, a magia — inclusive a mais branca e mais inocente —, não tinham inimigo mais encarniçado nem denunciador mais impiedoso, perante os srs. inquisidores de Notre Dame. Fosse por horror sincero ou dissimulação típica do gatuno que grita “ladrão!” para afastar suspeitas, de qualquer forma o arquidiácono era considerado pelas doutas inteligências do capítulo como alma que se aventurava pelos vestíbulos do inferno, perdida entre os meandros da cabala, a tatear nas trevas das ciências ocultas. O povo também não se deixava enganar, e para qualquer um com um mínimo de sagacidade, Quasímodo passava por demônio e Claude Frollo por feiticeiro. Era evidente que o sineiro devia servir ao arquidiácono durante certo tempo, no final do qual levaria a alma dele como pagamento. De forma que o arquidiácono, apesar da austeridade excessiva em que vivia, cheirava mal para as almas boas — e não havia nariz de carola, por mais inexperiente, que não farejasse nele um bruxo.

Se, na medida em que ele envelhecia, abismos se abriam na ciência, outros igualmente se escavavam em seu coração. Era pelo menos a crença que se estabelecera, ao contato com aquela figura da qual só se via reluzir a alma dentro de uma sombria nuvem. De onde vinham a precoce calvície, a cabeça sempre derreada, o peito sempre abalado por suspiros? Qual secreto pensamento o fazia sorrir com tanta amargura no instante em que suas sobrancelhas franzidas se aproximavam como dois touros que se preparam para a luta? Por que os fios de cabelo restantes já ficavam grisalhos? Que fogo interior era aquele que explodia às vezes nas faces, a ponto de fazer o olho parecer um buraco aberto na parede de um forno?

Todos esses sintomas de violenta preocupação moral tinham alcançado alto grau de intensidade na época em que se passa nossa história. Os coroinhas frequentemente fugiam assustados se o encontrassem sozinho na igreja, de tanto que o seu olhar era estranho e carregado. No coro, no momento da missa, seu vizinho de estala contou tê-lo várias vezes ouvido

misturar no cantochão ad omnem tonun248 parênteses ininteligíveis. Igualmente a lavadeira do Terreno, encarregada de “lavar o capítulo”, disse ter observado, horrorizada, marcas de unhas e de dedos crispados na batina do sr. arquidiácono de Josas.

Ele, por outro lado, mantinha severidade redobrada e comportamento exemplar. Pelo ofício e pela própria personalidade, Claude sempre se afastara das mulheres, mas parecia agora odiá-las como nunca. Bastava o farfalhar de uma vasquinha de seda para que o capuz lhe cobrisse os olhos. Com relação a isso, era tão zeloso em austeridade e reserva que quando a senhora de Beaujeu, filha do rei, visitou o claustro da Notre Dame, em dezembro de 1481, ele gravemente se opôs, relembrando ao bispo o estatuto do Livro Negro, datado da vigília são Bartolomeu de 1334, que proibia o acesso ao claustro a qualquer mulher “velha ou jovem, ama ou criada”. Contra o que o bispo foi obrigado a citar as ordenações do legado Odo, abrindo exceção a certas grandes damas, aliquae magnates mulieres, quae

sine scandalo evitari non possunt.249 O arquidiácono nem por isso deixou de protestar objetando que as ordenações do legado, de 1207, eram cento e vinte e sete anos anteriores ao Livro Negro, tendo sido, por conseguinte, revogadas. E recusou-se a aparecer pessoalmente diante da princesa.

Podia-se também notar que seu horror pelas egípcias e zingari250 parecia redobrar nos últimos tempos. Inclusive dom Claude solicitara ao bispo um édito que expressamente proibisse às ciganas vir dançar e tocar pandeiro na

praça du Parvis,251 e já há algum tempo consultava arquivos cobertos de mofo, procurando reunir casos de feiticeiros e feiticeiras condenados ao fogo ou à corda por cumplicidade de malefícios com bodes, porcas e cabras.

 

238. Historiador do séc.VIII, da corte de Carlos Magno.

239. “Rixa; causa primeira: consumo de um excelente vinho”, em latim no original.

240. “Onde falha o círculo”, inspirado em Ovídio, Metamorfoses (V, 463), em latim no original.

241. O fas seria o que é permitido pelas leis divinas, humanas e naturais; o nefas, o que não é.

242. Segundo as fontes de Victor Hugo, pontos reais de reunião dessas diferentes especialidades.

243. Para Flamel, cf. nota 119. Claude Pernelle era a sua esposa, mais conhecida como Dama Pernelle.

244. Ambos em busca da pedra filosofal, os primeiros pela sabedoria e os “sopradores” (de chama, para aquecer o cadinho) pela possibilidade de riqueza material.

245. Martinus Magistri, morto em 1482, foi capelão de Luís XI. O padre Pacifique, capuchinho e químico, teria vasculhado a casa em 1624.

246. A estátua “comprida e malfeita, com serpentes aos pés”, segundo Henri Sauval, representava o deus Mercúrio ou o próprio Guillaume de Paris, inquisidor da França no início do século, que a teria encomendado; Sr. Legris, ou Le Gris, seria o “sr. Cinzento”.

247. Hugo II de Bisuncio (1326-32). (Nota do autor)

248. “Em todos os tons”, em latim no original.

249. “Algumas grandes damas que não poderiam ser afastadas sem criar escândalo”, em latim no original.

250. “Ciganas”, em italiano no original.

251. Praça à frente da catedral, que ainda hoje tem esse nome. Parvis significa “adro”.