O Corcunda de Notre Dame
Introdução
Ao visitar, ou melhor, ao vasculhar a igreja de Notre Dame há alguns
anos, o autor deste livro encontrou, num recanto obscuro de uma das torres, essa palavra gravada à mão numa parede:
‘ANÁΓKH1
Essas maiúsculas gregas, negras de tão vetustas e profundamente entranhadas na pedra com não sei quais indícios particulares da caligrafia gótica em suas formas e maneiras, deixavam claro que fora mão da Idade Média a escrevê-las, mas foi sobretudo seu sentido lúgubre e fatal que causou grande impressão no autor.
Ele tentou imaginar ou adivinhar a alma aflita que não quisera deixar o mundo sem antes imprimir esse estigma de crime ou infelicidade no corpo da velha igreja.
Depois disso a parede foi caiada ou raspada (não sei mais), e a inscrição desapareceu. Pois é o que se faz há quase duzentos anos com as maravilhosas igrejas da Idade Média. São mutilações que vêm tanto de dentro quanto de fora. O padre pinta, o arquiteto raspa e depois vem o povo
e as destrói.2
Assim sendo, além dessa frágil lembrança do autor deste livro, nada mais resta da misteriosa palavra gravada na escura torre de Notre Dame e nada se sabe do destino que ela tão melancolicamente resumia. O homem que escreveu aquelas letras na parede há vários séculos desapareceu nas sucessivas gerações, como a palavra desapareceu da parede da igreja e a própria igreja talvez também desapareça.
Foi a partir dessa palavra que se escreveu este livro.
FEVEREIRO DE 1831
1. Ou anankê, em caracteres latinos, “necessidade” ou “fatalidade”. Mais adiante, no romance, um capítulo tem esse nome, com todo o conceito de fatalidade ganhando muita importância. Já se viu na escolha dos caracteres gregos toda uma simbologia, com o H final representando a catedral e suas torres, o Γ o poste da forca e assim por diante.
2. À época da Revolução Francesa, muitas igrejas foram invadidas e saqueadas, mas sobretudo em 1830 e nos primeiros dias de 1831, enquanto Victor Hugo terminava o romance, o palácio do arcebispado, atrás de Notre Dame, na atual praça João XXIII, foi pilhado e destruído.