O Corcunda de Notre Dame
6. Continuação de “A chave da porta Vermelha”
Naquela noite, Esmeralda havia adormecido em seu cubículo inundada de
esquecimento, esperança e doces pensamentos. Dormia há algum tempo, sonhando com Phoebus, como sempre, quando teve a impressão de ouvir um ruído próximo. Seu sono era leve e inquieto como o de um passarinho. Qualquer coisa a despertava. Abriu os olhos: noite escura. Mesmo assim, viu pela lucarna uma figura que a olhava. Uma lamparina a iluminava. No momento em que a aparição percebeu ter sido vista, a lamparina foi apagada. Mas a jovem teve tempo de reconhecer. Suas pálpebras voltaram a se fechar, com terror.
— Ah, o padre! — ela exclamou, quase sem voz.
Todas as suas misérias passadas voltaram num relâmpago. Desabou na cama, gelada.
Logo em seguida, sentiu ao longo do corpo um contato que a fez estremecer de tal forma que ela se endireitou bem desperta, cobrindo-se.
O padre acabava de se deitar a seu lado e a abraçava.
Quis gritar, não conseguiu.
— Saia daqui, monstro! Saia, assassino! — disse com voz trêmula e baixa, de tanta raiva e horror.
— Por favor, por favor! — murmurou o padre, encostando os lábios nos seus ombros.
Ela segurou a cabeça calva, agarrando o que restava de cabelo com as duas mãos, tentando afastar aqueles beijos como se fossem picadas venenosas.
— Por favor! — repetia o infortunado. — Se soubesse o quanto a amo! É um fogo imenso, como chumbo derretido no coração!
Ele imobilizou os dois braços da cigana, com força sobre-humana.
Enlouquecida, ela ameaçou:
— Solte-me, ou cuspo no seu rosto!
Ele soltou-a.
— Pode me insultar, agredir, ser cruel! Faça o que quiser, mas, por favor, me ame!
Ela bateu nele, com o furor de uma criança. Estendeu as belas mãos para atingir o rosto do padre.
— Saia daqui, demônio!
— Me ame! Me ame! Tenha pena! — gritava o pobre louco, se jogando em cima dela e respondendo com beijos aos tapas.
Ele era o mais forte.
— Vai ser preciso! — disse o arquidiácono, rangendo os dentes.
Subjugada, palpitante, prostrada, estava nos braços dele, à sua mercê. Sentia a mão lasciva passar por seu corpo. Num último esforço, conseguiu gritar:
— Socorro! Ajudem! Um vampiro! Um vampiro!
Nada acontecia. Apenas Djali tinha acordado e balia aflita.
— Cale a boca! — dizia o padre resfolegante.
Debatendo-se, arrastando-se no chão, a mão da egípcia de repente encontrou algo frio e metálico: o apito de Quasímodo. Pegou-o numa convulsão de esperança, levou-o à boca e soprou com toda a força que lhe restava. O apito emitiu um som claro, agudo, penetrante.
— O que é isso? — perguntou o padre.
Quase no mesmo instante, ele sentiu estar sendo erguido por um braço vigoroso. A cela era escura, não era possível distinguir claramente quem o segurava daquela maneira, mas ouviu dentes que batiam de raiva e a claridade difusa naquela escuridão bastou para que visse brilhar, acima da sua cabeça, uma larga lâmina de facão.
O padre acreditou reconhecer a forma de Quasímodo. Julgou que só poderia ser ele. Lembrou-se de ter tropeçado, ao entrar, num pacote deixado diante da porta, do lado de fora. Mesmo assim, como o estranho nada dizia, não se sentia tão seguro. Investiu contra o braço que segurava o facão e gritou:
— Quasímodo!
Esquecia-se, naquele momento, da surdez de Quasímodo.
Num piscar de olhos, o padre foi derrubado e sentiu uma perna de chumbo pesar em seu peito. Pela forma angulosa do joelho, viu ser, de fato, Quasímodo. Mas fazer o quê? Como ser também reconhecido? A escuridão tornava o surdo também cego.
Era o fim. A cigana, sem piedade como uma tigresa irritada, nada fazia para ajudar. Era um momento crítico. De repente, o adversário pareceu hesitar.
— Não quero sangue nela! — disse, com uma voz gutural.
Era mesmo a voz de Quasímodo.
O padre sentiu a pesada mão arrastá-lo por um pé para fora da cela. Para o lugar onde morreria. Sua sorte foi que a lua acabava de despontar no céu.
Ao ultrapassarem a porta do cubículo, seu pálido raio clareou o vulto do padre. Quasímodo olhou-o de frente, foi tomado por um tremor, soltou-o e recuou.
Quase no mesmo instante, ele sentiu estar sendo erguido por um braço vigoroso.
A egípcia, que também se adiantara até a porta, com surpresa viu os papéis bruscamente se inverterem. Era agora o padre que ameaçava e Quasímodo suplicava.
Dom Claude, torturando o surdo com gestos de raiva e censura, fez violentos sinais para que se retirasse.
O surdo baixou a cabeça e se pôs de joelhos diante da porta da egípcia.
— Meu amo — disse com voz grave e resignada. — Faça em seguida o que bem entender; antes, porém, me mate.
Dizendo isso, estendeu o facão ao padre. Fora de si, este último se precipitou para pegá-lo, mas a jovem foi mais rápida. Arrancou a arma das mãos de Quasímodo e desafiou com fúria:
— Atreva-se! — disse ao padre.
Mantinha a lâmina alta. O homem ficou indeciso. Ela com certeza se defenderia.
— Perdeu a coragem, covarde!
Em seguida, com expressão raivosa e sabendo perfeitamente que aplicava mil ferros em brasa no coração do padre, acrescentou:
— E sei que Phoebus não morreu!
O arquidiácono derrubou Quasímodo com um chute e se lançou, espumando de raiva, escada abaixo.
O corcunda pegou o apito que acabava de salvar a egípcia.
— Ele está enferrujado — disse, devolvendo-o.
E deixou-a.
Transtornada com toda aquela violência, a jovem se jogou exausta na cama e começou a chorar, soluçando. Suas perspectivas voltavam a ser sinistras.
O religioso, por sua vez, foi se refugiar no escuro da sua cela.
Não havia dúvida, dom Claude tinha ciúme de Quasímodo! E repetiu, pesando bem, as palavras fatais:
— Ninguém a terá!