O Medo Mais Profundo
Capítulo 8
JÁ QUE ESTAVA ENTEDIADO, WIN decidiu levar Myron ao aeroporto para buscar Terese. O pé parecia ofendido com o acelerador, tamanha a força com que pisava nele. O Jaguar voava. Como sempre fazia quando andava de carro com o amigo, Myron desviava o olhar.
– Parece que a melhor opção seria localizar uma clínica de transplante de medula num lugar remoto – começou Win. – No interior do estado ou no oeste de Jersey. Depois entraríamos à noite com um perito em computador.
– Não daria certo.
– Pour quoi?
– A central de Washington desconecta a rede de computadores às seis horas. Mesmo que entrássemos, não conseguiríamos acessar o mainframe.
Win fez um muxoxo.
– Não se preocupe – falou Myron. – Tenho um plano.
– Quando você fala assim, meus mamilos endurecem.
– Pensei que só o ato em si o excitasse.
– E isso não é um ato?
Eles pararam o carro no estacionamento do aeroporto JFK e chegaram à área de desembarque da Continental Airlines dez minutos antes de o avião tocar o solo. Quando os passageiros começaram a aparecer, Win avisou:
– Vou ficar ali no canto.
– Por quê?
– Não quero atrapalhar o encontro. E, ficando ali, tenho uma visão melhor do traseiro de Srta. Collins.
Win...
Dois minutos depois, Terese Collins desembarcou. Estava vestida de modo casual, com uma blusa branca e calça verde. O cabelo castanho encontrava-se preso num rabo de cavalo. As pessoas davam ligeiras cotoveladas umas nas outras, cochichando e gesticulando de forma sutil, lançando-lhe olhares disfarçados, do tipo “reconheço você, mas não quero parecer interessado”.
Terese se aproximou de Myron e lhe deu seu sorriso “pausa para os comerciais”. Era pequeno e tenso, tentando ser simpático, mas lembrando aos telespectadores que estava falando sobre guerra, pestilência, tragédia, e que talvez um sorriso grande e feliz parecesse algo mórbido. Os dois se deram um abraço um pouco apertado demais e Myron sentiu uma tristeza familiar tomar conta dele. Isso acontecia sempre que se abraçavam – a sensação de que algo em seu interior estava outra vez desmoronando. Percebia que o mesmo se dava com ela.
Win juntou-se a eles.
– Olá, Win – cumprimentou ela.
– Olá, Terese.
– Olhando de novo para o meu rabo?
– Prefiro o termo “traseiro”. E a resposta é sim.
– Ainda está bonito?
– Nota dez.
Myron pigarreou.
– Por favor, esperem a opinião do inspetor de carnes.
Win e Terese se encararam e reviraram os olhos.
Myron se enganara: Emily não era a favorita do amigo e, sim, Terese – embora isso se devesse exclusivamente ao fato de ela morar muito longe.
“Você é o tipo lastimável, carente, que se acha incompleto sem uma namorada firme”, dissera Win certa vez. “Que coisa melhor que uma mulher independente que vive a milhares de quilômetros?”
Win foi para o Jaguar enquanto eles esperavam pela bagagem. Terese observou-o se afastando.
– O rabo dele é melhor que o meu? – perguntou Myron.
– Nenhum rabo é melhor que o seu.
– Eu já sabia. Só estava testando você.
Terese continuou a olhar.
– Win é um camarada interessante.
– Sim, claro – concordou ele.
– Por fora, é frio e reservado. Mas, por baixo dessa carapaça, bem lá no fundo, ele é mesmo frio e reservado.
– Você decifra bem as pessoas, Terese.
Win deixou-os no Dakota e retornou para o escritório. Quando Myron e Terese entraram no apartamento, ela o beijou com ardor. Notava-se uma urgência permanente nela. Um desespero no sexo. Agradável, claro. Espantoso às vezes. Porém, havia sempre uma aura de tristeza, que não ia embora durante o ato, mas, por um breve momento, erguia-se, como uma névoa que pairasse.
Tinham se conhecido num evento beneficente alguns meses antes, ambos arrastados até lá por amigos bem-intencionados. Foi uma infelicidade mútua o que os atraiu. Fugiram na mesma noite para o Caribe, num ato de ousadia. Para o previsível Myron, essa atitude espontânea pareceu surpreendentemente acertada. Passaram três semanas num torpor abençoado, sozinhos numa ilha particular, tentando manter a dor longe. Quando Myron foi obrigado a voltar para casa, os dois acharam que seria o fim. Enganaram-se. Ao menos, assim parecia.
Ele sentia que sua recuperação finalmente estava em curso. Ainda não estava a pleno vapor ou de volta à normalidade, nada disso. E duvidava que um dia isso viesse a acontecer. Ou que desejasse realmente que acontecesse. Mãos gigantescas o haviam deformado. O mundo ia pouco a pouco ganhando sua forma anterior, mas ele sabia que jamais retornaria à posição original.
Outra vez um pensamento pungente.
No entanto, o que acontecera a Terese – o que provocara aquela tristeza, retorcera seu mundo, por assim dizer – permanecia firme, recusando-se a ir embora.
A cabeça de Terese estava pousada sobre o peito de Myron, os braços em torno dele. Não podia ver o seu rosto. Ela nunca o mostrava depois que acabavam de transar.
– Quer falar sobre aquilo? – perguntou ele.
Terese ainda não tinha dito nada e Myron raramente perguntava, pois sabia que desrespeitaria uma regra tácita, embora primordial.
– Não.
– Não estou forçando. Só queria que você soubesse que, quando se sentir pronta, estarei aqui.
– Eu sei – falou ela.
Myron quis dizer algo mais. Porém, ela ainda se encontrava num lugar onde as palavras eram supérfluas ou dolorosas. Permaneceu calado, acariciando-lhe o cabelo.
– Nosso relacionamento é bizarro – comentou Terese.
– Também acho.
– Alguém me disse que você namora Jessica Culver, a escritora.
– Terminamos.
– Ah. – Ela não se mexeu, ainda abraçando-o um pouco forte demais. – Posso saber quando?
– Um mês antes de nos conhecermos.
– E quanto tempo ficaram juntos?
– Treze anos, com intervalos.
– Entendo... Eu sou a cura?
– E eu sou a sua?
– Talvez – respondeu Terese.
– A mesma coisa comigo.
Ela refletiu sobre isso por um instante.
– Mas Jessica Culver não foi a razão de você ter fugido comigo.
Ele se lembrou do cemitério que dava para o pátio da escola.
– Não, não foi.
Terese finalmente se virou para ele.
– Não temos chance nenhuma. Você sabe disso, certo?
Myron ficou calado.
– Não que isso seja incomum – continuou ela. – Muitos relacionamentos não têm a menor chance. Mas as pessoas continuam juntas porque é divertido. Este, nem isso.
– Fale só por você.
– Não me entenda mal, Myron. Você é ótimo de cama.
– Você poderia colocar isso numa declaração juramentada?
Ela riu, mas sem alegria.
– E o que temos aqui?
– Sinceramente?
– De preferência.
– Sempre analiso demais – disse Myron. – É da minha natureza. Conheço uma mulher e já vou imaginando uma casa no subúrbio, com uma cerquinha branca na frente e dois filhos, um garoto e uma garota. Mas desta vez não estou fazendo isso. Estou deixando acontecer. Então, para responder à sua pergunta... não sei. E acho que não me importo.
Ela abaixou a cabeça.
– Você já percebeu que estou destroçada.
– Acho que sim.
– Tenho mais bagagem que a maioria.
– Todos nós trazemos bagagem – observou Myron. – A questão é: a sua bagagem combina com a minha?
– Quem disse isso?
– Estou parafraseando um musical da Broadway.
– Qual?
– Rent.
Ela franziu a testa.
– Não gosto de musicais.
– Lamento ouvir isso – comentou Myron.
– Sério?
– Claro.
– Você tem 30 e poucos anos, é solteiro, sensível e gosta de musicais. Caso se vestisse um pouco melhor, eu diria que era gay.
Terese lhe deu um beijo forte, rápido e os dois se abraçaram um pouco mais. Myron teve vontade de perguntar de novo o que acontecera, porém se conteve. Ela contaria um dia. Ou não. Resolveu mudar de assunto:
– Preciso da sua ajuda com uma coisa.
Ela o encarou.
– Tenho que invadir um sistema de computador de uma central de transplantes de medula óssea – explicou ele. – E acho que você pode me ajudar.
– Eu?
– Sim.
– Você foi escolher justo uma tecnófoba.
– Não é da tecnófoba que preciso, mas da apresentadora famosa.
– Entendi. E você está pedindo esse favor pós-coito?
– Faz parte do plano. Amoleci você. Agora não pode me negar nada.
– Diabólico.
– De fato.
– E se eu negar?
Myron moveu as sobrancelhas.
– Vou usar outra vez meu corpo musculoso e minha técnica patenteada de fazer amor até você sucumbir.
– “Sucumbir”... – repetiu ela, puxando-o mais para perto. – Que palavra empolada.