O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 14 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 14

– PLANTAR AS SEMENTES? – falou Esperanza.

Estavam na sala de Myron. O sol da manhã que passava pela veneziana formava tiras de luz no chão, duas cortando o rosto da sócia, que parecia não se importar.

– Sim – disse Myron. – E alguma coisa nessa frase está me atormentando.

– Era o nome de uma música do Tears for Fears, “Sow the Seeds” – observou Esperanza.

– Plantando as sementes do amor... Eu lembro.

– Não foi o nome da turnê também? Nós os vimos no Meadowlands em... 1988?

– Foi em 1989.

– Que fim levaram esses caras?

– Eles se separaram – respondeu Myron.

– Por que todos fazem isso?

– Também não entendo.

– Supertramp, Steely Dan, Doobie Brothers…

– Sem falar no Wham!.

– Eles se separam e depois nunca mais fazem nada decente sozinhos. Seguem aos tropeços por aí e terminam numa reportagem do tipo “Por onde anda?”.

– Estamos fugindo do assunto.

Esperanza lhe entregou um pedaço de papel.

– Esse é o telefone do escritório de Susan Lex, a irmã mais velha.

Myron leu o número como se fosse um código que quisesse dizer algo.

– Tive uma ideia.

– O quê?

– Se Dennis Lex existe, deve ter frequentado uma escola, certo?

– Talvez.

– Vamos ver se conseguimos descobrir onde os filhos da família Lex estudaram... Ensino público, privado, o que for.

Esperanza franziu a testa.

– Você quer dizer a faculdade?

– É, comece por aí. Não que irmãos necessariamente estudem no mesmo lugar, mas quem sabe. Ou talvez frequentassem a Ivy League. Algo do gênero. Talvez você queira começar com o ensino médio. É mais provável que tenham estudado na mesma escola.

– E se eu não encontrar nenhum registro dele no ensino médio?

– Retroceda mais ainda.

Ela cruzou as pernas e os braços.

– Retroceder até quando?

– O máximo que você puder.

– E em que esse exercício de futilidade nos beneficia?

– Quero saber quando Dennis Lex saiu do radar. As pessoas o conheciam no ensino médio? Na faculdade? Na escola técnica?

Esperanza não pareceu impressionada.

– E supondo que eu consiga descobrir algo, digamos, em qual escola ele cursou o ensino fundamental, em que exatamente isso vai nos ajudar?

– Sei lá. Estou me agarrando a qualquer coisa.

– Não, você está pedindo que eu me agarre a qualquer coisa.

– Então não precisa fazer nada, Esperanza, ok? Foi só uma ideia.

– Não – contestou ela, abanando a mão para descartar o que ele falara. – Talvez você esteja certo.

Myron apoiou as mãos na mesa, encurvado, olhou para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo.

– O que foi? – perguntou ela.

– Você disse que talvez eu esteja certo. Estou esperando que o mundo acabe.

– Muito engraçado – replicou Esperanza, erguendo-se. – Vou ver o que consigo descobrir.

Ela saiu da sala. Myron digitou o número de Susan Lex. A recepcionista transferiu a ligação e uma mulher que se identificou como secretária da Srta. Lex atendeu. Sua voz lembrava um pneu de palha de aço rodando sobre um chão de cascalho.

– A Srta. Lex não recebe pessoas que não conhece.

– É um assunto muito grave – alegou Myron.

– Talvez o senhor não tenha me ouvido direito. – Uma verdadeira machadinha de guerra. – A Srta. Lex não recebe pessoas que não conhece.

– Diga a ela que é sobre Dennis.

– Perdão?

– Apenas diga isso a ela.

Sem mais palavras, Machadinha deixou Myron em espera. Ele ficou escutando uma versão de música de elevador de “Time Passages”, de Al Stewart. Ele já achava a original meio brega, aquela então...

Machadinha retornou:

– A Srta. Lex não recebe pessoas que não conhece.

– Fiquei pensando nisso, mas realmente não faz sentido.

– Perdão?

– Em algum momento ela deve receber pessoas que não conhece, senão jamais vai conhecer alguém novo. Se seguirmos a lógica dela, como a senhora a viu pela primeira vez? Ela quis recebê-la antes de a conhecer, certo?

– Vou desligar agora, Sr. Bolitar.

– Diga a ela que sei sobre Dennis.

– Eu...

– Diga que, se não concordar em me receber, vou aos jornais.

Silêncio.

– Um momento.

Ele ouviu um clique e a música de elevador voltou. O tempo foi passando. Felizmente, “Time Passages” deu lugar a “Time”, do Alan Parsons Project. Sentia-se quase em coma.

Machadinha voltou:

– Sr. Bolitar?

– Sim?

– A Srta. Lex vai lhe conceder cinco minutos do seu tempo. Posso encaixá-lo no dia 15 do mês que vem.

– Não serve – replicou Myron. – Tem que ser hoje.

– A Srta. Lex é uma mulher muito ocupada.

– Hoje.

– Não vai ser possível.

– Às onze. Se não me deixarem entrar, vou aos jornais.

– O senhor está sendo extremamente grosseiro.

– Aos jornais – repetiu Myron. – Está entendendo?

– Sim.

– A senhora vai estar aí?

– Que diferença isso faz?

– Toda essa tensão sexual está me deixando louco. Talvez mais tarde possamos nos encontrar para tomarmos um latte.

Ele ouviu o telefone ser desligado e sorriu. O charme, pensou, está de volta.

Esperanza ligou da outra sala:

– Tênis de topless, alguém quer?

– O quê?

– Suzze T está na linha um.

Ele apertou um botão e atendeu:

– Ei, Suzze.

– Oi, Myron, qual é a novidade?

– Tenho uma proposta que você vai recusar.

– Você vai me passar uma cantada?

O charme sofreu um abalo.

– Onde você vai estar hoje à tarde?

– No mesmo lugar em que estou agora. No Morning Mosh. Conhece?

– Não.

Ela deu o endereço e Myron combinou de encontrá-la lá dali a algumas horas.

Ele desligou e se recostou na cadeira.

– “Plantar as sementes”... – falou em voz alta.

Fitou a parede. Faltava uma hora para ir até o Lex Building, na Quinta Avenida. Poderia ficar sentado pensando na vida e, talvez, olhar para o próprio umbigo. Não, já bastava daquilo. Girou a cadeira na direção do computador e entrou na internet. Tentou o primeiro buscador, digitando plantar as sementes. Um resultado apenas: o site da Liga de Jardineiros Urbanos de São Francisco. Usavam a sigla SLUG. Lesmas... Deviam ser caras durões. Uma gangue. Deviam usar bandanas verdes e regar as plantas passando de carro.

Tentou um segundo buscador e apareceram 2.501 páginas. Era como a história de Cachinhos Dourados: a quantidade de resultados de um era muuuuito pequena, a do outro era muuuuito grande. Myron tentou um buscador menos poderoso. Digitou as mesmas três palavras.

www.nyherald.com/archives/9800322

Ele clicou no link e um artigo surgiu:

The New York Herald

A MENTE TERRORISTA – SEU MEDO MAIS PROFUNDO Stan Gibbs

Myron conhecia aquele nome. Stan Gibbs fora um colunista de grande sucesso, o tipo de cara que pontificava (leia-se: fazia perguntas demais) regularmente nos talk shows, embora fosse menos irritante que a maioria – o que equivale a dizer que sífilis incomoda menos que gonorreia. Até que um escândalo o atingiu.

Myron continuou a ler:

A ligação telefônica veio do nada.

– Qual é seu medo mais profundo? – sussurra a voz. – Feche os

olhos e imagine. Você consegue visualizar? A agonia mais terrível?

Após uma longa pausa, digo:

– Sim.

– Ótimo. Agora imagine algo muito mais terrível...

Myron respirou fundo. Lembrou-se da série de artigos. Stan Gibbs havia divulgado a história de um sequestrador bizarro. Contara a saga comovente de três raptos que a polícia supostamente queria manter em segredo, segundo Gibbs, por vergonha. Nenhum nome era mencionado. Ele tinha conversado com as famílias sob a condição de manter tudo no anonimato. E, o golpe de misericórdia, o sequestrador lhe dera uma entrevista:

Pergunto a ele por que faz isso. É pelo resgate? – Nunca pego o dinheiro do resgate. Em geral, deixo

explosivos no lugar e o queimo. Mas às vezes ele me ajuda a plantar as sementes. É o que estou tentando fazer. Plantar as sementes...

Myron sentiu o sangue gelar nas veias.

– ... Vocês todos pensam que estão a salvo no seu casulo

tecnológico. Mas não. A tecnologia nos fez esperar respostas fáceis e finais felizes. Mas comigo não existe resposta nem fim.

Ele já sequestrou no mínimo quatro pessoas: o pai de duas

crianças pequenas, de 41 anos; uma estudante universitária, de 20; um casal jovem, recém-casado, de 27 e 28. Todos raptados na área da cidade de Nova York.

– A ideia – diz ele – é manter o terror vivo. Fazê-lo crescer,

não com violência ou derramamentos de sangue óbvios, mas com a imaginação. A tecnologia está tentando destruir nossa capacidade de imaginar. Mas, quando alguém que se ama é levado, a mente pode evocar horrores mais terríveis do que qualquer máquina, do que qualquer coisa que eu mesmo possa fazer. Algumas mentes não conseguem ir tão longe. Algumas travam e impõem uma barreira. Minha tarefa é fazê-las passar por essa barreira.

Pergunto-lhe como faz isso.

– Planto as sementes. Elas são plantadas ao longo do tempo. Ele explica que plantar as sementes significa dar esperança e

retirá-la durante um determinado período de tempo. A primeira ligação para a família da vítima é devastadora, mas apenas o começo de um longo e torturante processo.

Ele dá início ao telefonema com um alô normal e pede ao

parente que espere. Após uma pausa, o familiar ouve o ente querido dar um grito aterrorizante.

– Só um – conta ele – e muito rápido. Corto-o pela metade. É

a última coisa que ouvirão do ente querido. Imagine como esse grito ecoa.

Para a família da vítima, contudo, a situação não acaba aí. O

sequestrador exige um resgate que não tem a intenção de pegar. Liga após a meia-noite e pede que imaginem seu medo mais profundo. Convence os parentes de que dessa vez vai realmente soltar o ente querido, mas só está oferecendo esperança a quem já não a tem mais, revivendo a agonia.

– Tempo e esperança plantam as sementes do desespero. O pai das duas crianças está desaparecido há três anos. A

jovem universitária, há 27 meses. Os recém-casados, há quase dois anos. Até hoje, nenhum vestígio deles foi encontrado. Raramente se passa uma semana sem que as famílias não recebam uma ligação do torturador.

Quando pergunto se as vítimas estão vivas ou mortas, ele se

torna reticente:

– A morte é um término e os términos impedem o plantar. O sequestrador quer falar sobre como a sociedade, os

computadores e a tecnologia estão pensando por nós, sobre como o que ele faz nos deixa ver o poder da inteligência humana.

– É aí que Deus existe. Onde todas as coisas de valor existem.

A verdadeira felicidade só pode ser encontrada dentro de nós mesmos. O significado da vida não está no home theater novo nem no carro esportivo. As pessoas precisam compreender seu potencial ilimitado. Como fazê-las ver? Imaginem pelo que essas famílias estão passando neste momento.

Sua voz é suave, ele me convida a tentar.

– A tecnologia nunca poderia evocar os horrores que você

está imaginando agora. Plante as sementes. Plantá-las nos mostra esse potencial.

O coração de Myron martelava. Ele se recostou, balançou a cabeça e voltou a ler. O sequestrador louco continuava a elucubrar suas teorias dementes, uma espécie de Exército Simbionês de Libertação sob a ótica do Unabomber. A matéria de Stan Gibbs continuava no jornal do dia seguinte. Myron clicou no link e seguiu lendo. O repórter abria a segunda parte com algumas citações dolorosas das famílias das vítimas. Depois fazia mais questionamentos ao sequestrador:

Pergunto como conseguiu manter esses sequestros longe da

mídia.

– Plantando as sementes.

Quero um exemplo e ele responde:

– Peço à esposa que vá até a garagem e abra a mala de

ferramentas vermelha que está na terceira prateleira. Ordeno que pegue o alicate preto com cabo emborrachado. Depois a mando até o porão, para que fique em frente à poltrona de madeira que compraram no último verão, numa oferta de móveis usados. Imagine, digo, seu marido amarrado nessa cadeira, nu. Imagine o alicate na minha mão. E, finalmente, imagine o que eu faria se visse algo sobre ele nos jornais.

No entanto, não para por aí:

– Pergunto sobre as crianças. Menciono os nomes, as escolas,

os professores e o cereal favorito no café da manhã.

Questiono como ele sabe dessas coisas.

A resposta é simples:

– O pai me conta.

Myron caiu para trás.

– Meu Deus – murmurou.

Respire profundamente, disse a si mesmo. Inspire e expire. Isso. Pense. Devagar. Com cuidado. Ok, primeira questão: por mais terrível que seja, o que isso tem a ver com Davis Taylor? Provavelmente nada. O pior tipo de palpite. E, mais uma vez, por mais terrível que fosse, Myron sabia que tinha algo a mais naquela história. Aliás, a menos.

Os artigos de Gibbs receberam grande atenção e críticas também durante semanas – até, Myron lembrava, tudo vir abaixo em público. O que acontecera exatamente? Deu início a uma busca por matérias que tivessem como assunto Stan Gibbs. Elas começaram a aparecer por ordem cronológica:

FEDERAIS EXIGEM QUE GIBBS REVELE SUA FONTE

O FBI, que nas últimas semanas vem negando as alegações das matérias de Stan Gibbs, mudou de tática hoje e exigiu que o jornalista mostrasse suas anotações e informações.

“Não sabemos nada sobre esses crimes”, afirmou Dan

Conway, porta-voz do órgão, “mas, se Sr. Gibbs está falando a verdade, tem informações importantes sobre um provável sequestrador e serial killer, e talvez o esteja acobertando ou ajudando. Temos direito a elas.”

Stan Gibbs, conhecido colunista e jornalista de TV,

manifestou-se: “Não estou protegendo assassino nenhum. As famílias das vítimas, assim como o autor dos crimes, conversaram comigo sob a condição de eu manter o mais estrito sigilo. É um direito tão antigo quanto o nosso país: não vou revelar minhas fontes.”

O The New York Herald e a União Americana pelas Liberdades

Civis já denunciaram o FBI e planejam defender o Sr. Gibbs. O juiz ordenou que o processo corra sob sigilo de justiça.

Myron continuou lendo. Os argumentos de ambos os lados estavam dentro dos padrões. Os advogados de Gibbs se calcaram na Primeira Emenda, ao passo que os federais contestaram dizendo que ela não é incondicional, que não se pode gritar “fogo!” num teatro lotado e que a liberdade de expressão não inclui proteger prováveis criminosos. O país também debateu a questão, que foi assunto na CNBC, MSNBC, CNN e em vários outros canais da TV a cabo, congestionando as linhas telefônicas, assim como nos programas radiofônicos de prêmios. O juiz já ia dar o veredito quando a história toda veio à tona de uma forma que ninguém esperava.

Myron clicou no link:

GIBBS ESTÁ MENTINDO?

Repórter é acusado de plágio

Myron leu o final daquela novela. Alguém havia descoberto um romance policial publicado por uma pequena editora, com uma tiragem ínfima, em 1978. O livro, Do sussurro ao grito, de F. K. Armstrong, espelhava a história de Gibbs. Com muita fidelidade. Certos trechos de diálogos eram copiados quase ipsis litteris. Os crimes da obra – sequestros sem solução – eram muito semelhantes aos que Gibbs escrevera para serem considerados apenas coincidência.

Os fantasmas dos plágios famosos de jornalistas como Mike Barnicle e Patricia Smith se ergueram de suas tumbas e decidiram não se dispersar. Cabeças rolaram. Houve pedidos de demissão, choro e ranger de dentes. Stan Gibbs se recusou a comentar, o que não pegou bem. Ele acabou “tirando uma licença”, eufemismo dos dias de hoje para ser demitido. A União Americana para as Liberdades Civis publicou uma declaração ambígua e bateu em retirada. O The New York Herald parou de publicar a história com discrição, afirmando que a questão “estava sendo analisada internamente”.

Depois de um tempo, Myron deu um telefonema.

– Redação. Bruce Taylor falando.

– Que tal me encontrar para um drinque?

– Eu sei que isso está fora de moda atualmente, Myron, mas sou heterossexual convicto.

– Sei como fazer você mudar.

– Não creio, amigo.

– Várias mulheres que namorei eram hétero, mas, depois de uma noite comigo, mudaram de time.

– Adoro quando você é autodepreciativo. Soa muito real.

– Então, o que me diz? – insistiu Myron.

– Estou atolado.

– Você sempre está atolado.

– Você vai pagar?

– Citando meus irmãos judeus durante o Seder, por que essa noite tem que ser diferente das outras?

– Às vezes eu pago.

– Você ao menos tem carteira?

– Ei, não sou eu quem está pedindo um favor – retrucou Bruce. – Às quatro. No Rusty Umbrella.