O Medo Mais Profundo
Capítulo 28
OS DOIS SE ENCONTRARAM NA QUADRA. Greg desviou o olhar quando Myron colocou a joelheira articulada. Jogaram durante meia hora, quase sem se falarem, imersos nos lances livres. Pessoas entravam e apontavam para Greg. Alguns garotos pediram autógrafos. Ele concordou, olhando para Myron enquanto pegava a caneta, claramente desconfortável por receber toda aquela atenção na frente do homem cuja carreira arruinara.
Myron sustentou o olhar, sem oferecer consolo. Após um tempo, perguntou:
– Existe alguma razão para você querer que eu viesse até aqui?
Greg continuou lançando a bola.
– Porque tenho que voltar para o escritório – continuou Myron.
Greg pegou a bola, deu dois dribles de costas para a cesta, virou-se e saltou para encestar.
– Vi você e Emily naquela noite. Sabia disso?
– Sim – respondeu Myron.
Greg agarrou o rebote, fez um lento arco com o braço, deixando a bola cair no chão, depois se aproximou devagar do rival.
– Nós íamos nos casar no dia seguinte. Sabia disso também?
– Sabia.
– E lá estava você, o antigo namorado, trepando com ela.
Myron pegou a bola.
– Estou tentando explicar – falou Greg.
– Eu dormi com Emily. Você nos viu. Quis se vingar. Falou para Big Burt Wesson me machucar durante um jogo da pré-temporada. Ele me machucou. Fim da história.
– Queria que ele machucasse você, não que acabasse com a sua carreira.
– Cada um tem a sua versão.
– Não foi intencional.
– Não me interprete mal – replicou Myron, numa voz que soou terrivelmente calma aos próprios ouvidos –, mas não estou nem aí para as suas intenções. Você disparou uma arma contra mim. Talvez tivesse como objetivo provocar um ferimento superficial, mas não foi isso que aconteceu. Você acha que isso o torna inocente?
– Você trepou com a minha noiva.
– E ela trepou comigo. Eu não devia nada a você. Ela, sim.
– Você está me dizendo que não entende?
– Entendo, sim. Mas isso não o absolve.
– Não estou buscando absolvição.
– O que você quer então, Greg? Quer que nos demos as mãos e cantemos alguma música fofinha? Você sabe o que fez comigo? Quanto me custou aquele único momento?
– Acho que sim – respondeu Greg, engolindo em seco, estendendo uma mão súplice, como se quisesse dar mais explicações, depois baixando-a. – Lamento muito.
Myron começou a fazer lances livres, mas sentia a garganta apertada.
– Você não sabe como lamento.
Greg esperou que Myron falasse, em vão.
– O que mais você quer que eu diga?
Myron continuava a jogar.
– Como posso demonstrar que lamento?
– Você já disse – respondeu Myron.
– Mas você não aceita.
– Não, Greg. Nem vou aceitar. Vou viver sem jogar basquete profissional. Você vai viver sem minha aceitação. Um bom negócio para você.
O celular de Myron tocou. Ele largou a bola e foi atender:
– Alô.
Uma voz sussurrante perguntou:
– Você seguiu minhas instruções?
Myron sentiu os ossos se transformarem em gelo. Engoliu em seco; parecia que havia algo entalado na garganta.
– Suas instruções?
– O garoto – sussurrou a voz.
O ar estagnado o pressionava, pesava em seus pulmões.
– O que tem ele?
– Você lhe deu um último adeus?
Algo dentro de Myron murchou e foi levado embora. Quando a compreensão atingiu seu cérebro, seus joelhos dobraram. A voz repetiu:
– Você deu um último adeus ao garoto?