O Medo Mais Profundo
Capítulo 38
FORD DIRIGIA, KIMBERLY ESTAVA AO seu lado e Myron e Stan iam atrás. Vários carros cheios de agentes os seguiam. Assim como a imprensa – não havia o que fazer quanto a isso.
– Minha mãe morreu em 1977 – contou Stan. – Câncer. Meu pai já não estava bem. A única coisa na vida que importava para ele, a única coisa boa, era minha mãe. Ele a amava muito.
O relógio do carro marcava 4h03. Stan explicou onde sair da Rota 15. Uma placa dizia dingsman bridge. Estavam entrando na Pensilvânia.
– O pouco de sanidade que ainda havia nele desapareceu com a morte da minha mãe. Ele a viu sofrer. Os médicos tentaram de tudo, usaram tudo que havia de mais avançado, mas ela só sofreu mais. Foi quando meu pai começou com a história da força mental. Se minha mãe não tivesse confiado tanto na tecnologia, se tivesse usado a mente, se tivesse percebido seu potencial ilimitado... A tecnologia a matou, afirmava ele. Deu-lhe falsas esperanças, impediu-a de usar a única coisa que a poderia ter salvo: o ilimitável poder da mente humana.
Ninguém fez nenhum comentário.
– Tínhamos uma casa de veraneio aqui. Era linda. Seis hectares de terra. Podia-se caminhar até um lago. Meu pai costumava me levar para caçar e pescar. Mas faz anos que não venho. Nem pensava mais neste lugar. Foi para cá que ele trouxe minha mãe para morrer. Depois a enterrou na floresta. Foi quando seu sofrimento enfim terminou.
Uma pergunta óbvia ficou pairando no ar: E o de quantos mais?
Tempos depois, Myron não lembraria nada daquela viagem. Nenhuma casa, nenhum ponto de referência, nenhuma árvore. Lá fora, era noite profunda, o negror do negror, olhos fechados na mais cerrada escuridão. Ele se recostou e esperou.
Stan os orientou a se deter no sopé de uma área florestal. Mais grilos cantando. Os outros carros pararam também. Os federais saltaram e começaram a vasculhar a área. Fachos de lanternas poderosas revelavam um terreno irregular. Myron os ignorou. Engoliu em seco e correu. Stan foi com ele.
Antes do amanhecer, os agentes encontrariam covas. Descobririam o pai das três crianças, a universitária e os recém-casados.
Mas, por ora, Myron e Stan continuavam correndo. Galhos batiam em seus rostos. Tropeçavam em raízes, rolavam, ficavam outra vez de pé e continuavam a correr. Viram a casa pequena, quase invisível sob o débil luar. Não havia luz no interior, nenhum sinal de vida. Myron nem se preocupou com a maçaneta dessa vez: chegou já derrubando a porta. Mais escuridão. Ouviu um grito, virou-se, procurou o interruptor e acendeu a luz.
Jeremy estava lá.
Acorrentado a uma parede – sujo, aterrorizado e muito vivo.
Os joelhos de Myron se dobraram, mas ele os retesou e permaneceu de pé. Correu até Jeremy, que abriu os braços. Myron o abraçou, sentindo o coração parar e se partir. Jeremy chorava. Ele acariciou o cabelo do garoto e tentou consolá-lo. Como o próprio pai fizera incontáveis vezes. Um calor súbito, gostoso, correu por suas veias, fazendo formigar os dedos da mão e do pé. Por um momento, achou que entendia o que o pai sentia. Sempre gostara de estar no papel do filho no abraço, mas agora, por um instante fugidio, experimentou algo muito mais forte – a intensidade e a profundidade avassaladora de estar do outro lado – que o abalou por completo.
– Você está bem – disse, pondo as mãos nas faces de Jeremy. – Acabou, acabou...
Mas não.
Uma ambulância chegou. Jeremy foi levado a bordo. Myron ligou para a Dra. Karen Singh, que não se importou de ser acordada às cinco da madrugada. Ele lhe contou tudo.
– Uau – disse ela quando Myron terminou.
– Pois é.
– Vamos conseguir alguém para coletar a medula imediatamente. À tarde, começo a preparar Jeremy.
– Com quimioterapia?
– Sim. Você agiu muito bem, Myron. Deve se sentir duplamente orgulhoso.
– Duplamente?
– Venha ao meu consultório amanhã à tarde.
Ele sentiu uma pontada no peito.
– O que está acontecendo?
– O exame de paternidade. Os resultados devem estar prontos.
Jeremy já estava a caminho do hospital. Myron voltou para o lado de fora da casa. Os federais cavavam, os furgões de reportagem se encontravam estacionados. Stan Gibbs assistia aos montes de terra crescendo, o rosto inexpressivo. Nenhum som, apenas o ruído das pás na terra. O joelho de Myron doía. Sentia-se cansado até os ossos. Queria encontrar Emily. Ir para o hospital. Saber o resultado do exame e o que fazer com ele.
Ele subiu a ladeira em direção ao carro. Mais imprensa. Alguém o chamou. Ele ignorou. Havia mais agentes federais trabalhando em silêncio. Passou por eles. Não teve coragem de perguntar o que tinham encontrado. Ainda não.
Quando chegou ao alto da elevação – quando viu Kimberly Green e sua expressão sem vida –, sentiu outro aperto no coração.
Deu mais um passo.
– Greg?
Ela balançou a cabeça, os olhos enevoados, sem foco.
– Não deviam tê-lo deixado sozinho. Deveriam tê-lo vigiado. Mesmo depois de o revistarem. Nunca é demais.
– Revistarem quem?
– Edwin Gibbs.
Myron tinha certeza de que ouvira mal.
– O que tem ele?
– Acabaram de encontrá-lo – respondeu ela, tropeçando nas palavras. – Cometeu suicídio na cela.