O Medo Mais Profundo
Capítulo 34
O HELICÓPTERO DE SUSAN LEX COMEÇAVA a descer em direção ao heliporto do sanatório quando Kimberly Green ligou para o celular de Myron.
– Pegamos Stan Gibbs – informou ela. – Mas o garoto não estava com ele.
– Porque o sequestrador não é ele.
– Você sabe de algo que não sei?
Myron ignorou a pergunta:
– Stan falou alguma coisa?
– Não. Já está com advogado. Diz que só vai falar com você, Myron. Por que será que não acho isso nada surpreendente?
Se ele tivesse respondido, a hélice do helicóptero teria abafado sua voz. Afastou-se alguns passos. A aeronave aterrissou. O piloto pôs a cabeça para fora e acenou para ele.
– Estou indo! – gritou Myron ao telefone, desligando-o e virando-se para Susan Lex. – Obrigado.
Ela meneou a cabeça. Ele se abaixou e correu na direção do helicóptero. Quando subiram, Myron olhou para baixo. O queixo de Susan estava apontado para cima, seus olhos ainda fixos nele. O agente acenou e ela retribuiu.
Stan não estava numa cela porque não havia uma. Encontrava-se sentado numa sala de espera, fitando a mesa. A advogada, Clara Steinberg, falava por ele. Desde que se entendia por gente, Myron a conhecia – chamava-a de tia Clara, embora não houvesse qualquer parentesco. Ela e tio Sidney eram os melhores amigos de seus pais. O pai de Myron tinha sido colega dela no primário. A mãe fora sua companheira de quarto na faculdade de Direito. Tia Clara até fizera papel de cupido no primeiro encontro dos dois. Ela gostava de lembrá-lo disso com uma piscadela, como se dissesse: “Você não estaria aí se não fosse pela tia Clara.” Depois piscava de novo. Sutil. Nos feriados, sempre beliscava as bochechas de Myron.
– Deixe-me estabelecer as regras da casa, bubbe – falou ela.
Clara tinha cabelo grisalho e usava óculos grandes demais, que aumentavam os seus olhos, fazendo-a parecer o Homem-Formiga. Ela o encarou, como se o gravasse em sua mente. Vestia blusa branca e colete cinza, saia combinando, lenço no pescoço e brincos de pérola pendente. Imaginem uma Barbara Bush judia.
– Regra número um – começou ela. – Sou a advogada do Sr. Gibbs. Fiz uma solicitação para que esta conversa não fosse ouvida. Já troquei de sala quatro vezes, a fim de garantir que as autoridades não escutem. Mas não confio nelas. Acham que sua tia Clara é uma velha idiota. Que vamos conversar aqui.
– E não vamos? – indagou Myron.
– Não.
Não se percebia nenhum sinal da bondosa senhora que beliscava as bochechas de Myron; sua expressão era de quem estava determinada, pronta para o jogo.
– A primeira coisa que vamos fazer é ficar de pé. Entenderam?
– Ficar de pé – repetiu Myron.
– Certo. Depois vou levar você e Stan para fora, para o outro lado da rua. Vou ficar deste lado, com todos esses agentes simpáticos. Vamos fazer isso agora, rápido, de forma que eles não tenham chance de armar nenhum esquema de vigilância. Entendido?
Myron assentiu. Stan continuava fitando a mesa de fórmica.
– Ótimo. Até aí estamos perfeitamente entendidos.
Ela bateu à porta. Kimberly Green abriu. Clara foi passando sem falar nada. Myron e Stan a seguiram. A agente saiu correndo atrás deles.
– Aonde vocês pensam que vão?
– Mudança de planos, boneca.
– A senhora não pode fazer isso.
– Claro que posso. Sou uma velhinha encantadora.
– Nem se a senhora fosse a rainha da Inglaterra – retrucou Kimberly. – Vocês não vão a lugar nenhum.
– Você é casada, querida?
– O quê?
– Deixa pra lá – respondeu Clara. – Tente experimentar um dia para ver como é. Meu cliente exige privacidade.
– Mas já prometemos...
– Shh, você está falando quando deveria estar escutando. Meu cliente exige privacidade. Portanto, ele e o Sr. Bolitar vão dar uma volta. Você e eu vamos ficar observando a distância. Não vamos ouvir nada.
– Já disse à senhora que...
– Shh, você está me dando dor de cabeça.
Clara revirou os olhos e continuou a andar. Myron e Stan foram atrás. Chegaram à entrada. A advogada apontou para uma garagem de ônibus do outro lado da rua.
– Sentem-se naquele banco ali.
Myron concordou. Clara pousou a mão no seu braço.
– Atravesse na esquina, espere o sinal fechar.
Os dois obedeceram. Kimberly e os colegas espumavam de raiva. Clara tomou-os pela mão e conduziu-os de volta para a entrada do prédio. Stan e Myron sentaram-se no banco. O jornalista ficou olhando um ônibus da linha de Nova Jersey como se nele estivesse o segredo da vida.
– Não temos tempo para admirar a paisagem, Stan.
O jornalista se inclinou para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos.
– Isso é difícil para mim.
– Talvez fique mais fácil se eu disser que já sei que o sequestrador é o seu pai.
O homem segurou a cabeça com as mãos.
– Stan?
– Como você descobriu?
– Por meio de Dennis Lex. Encontrei-o num sanatório particular em Connecticut. Está lá há trinta anos. Mas você já sabia disso, não?
Gibbs não disse nada.
– Há um jardim atrás desse lugar. Com uma estátua de Diana. Na sua casa, há uma foto de você com o pai em frente à mesma estátua. Ele foi paciente de lá. Você não precisa confirmar nem negar. Susan Lex tem influência. Um funcionário da administração nos contou que, faz quinze anos, Edwin Gibbs entra e sai daquele sanatório. O resto é óbvio. Seu pai ficou lá muito tempo. Seria fácil descobrir quem mais estava no local, apesar de todas as normas estritas de segurança. Assim ele ficou sabendo sobre Dennis Lex. E roubou sua identidade. Foi uma jogada e tanto, temos que admitir. Antigamente era muito fácil obter identidades falsas. Bastava visitar um cemitério, procurar a sepultura de uma criança morta, pegar o número da previdência social e pronto. Mas isso não funciona mais. Os computadores acabaram com essa brecha. Hoje, quando alguém morre, o número morre junto. Seu pai pegou então a identidade de uma pessoa ainda viva, mas que não precisava dela, porque vivia internada. Ou seja, de alguém que não tinha vida. E, para acobertar ainda mais, mudou o nome da pessoa. Dennis Lex virou Davis Taylor. Impossível rastrear.
– Só que você conseguiu rastrear.
– Tive sorte.
– Continue – pediu Stan. – Me diga o que mais você sabe.
– Não temos tempo para isso.
– Você não está entendendo.
– Não estou entendendo o quê?
– Se foi você quem descobriu tudo, não é uma traição tão grande assim da minha parte. Dá para entender?
Não havia tempo para argumentar. E talvez Myron entendesse.
– Vamos começar com a pergunta que todos os repórteres queriam fazer: por que você? Por que o sequestrador escolheu você? Resposta: porque era seu pai. Sabia que você não iria entregá-lo. Talvez uma parte de você esperasse que alguém descobrisse a verdade. Não sei. Também não sei se você o procurou ou se ele procurou você.
– Ele me procurou – esclareceu Stan. – Veio até mim porque eu era repórter e não porque era filho dele. Deixou isso bem claro.
– Óbvio. Dupla proteção. Escorou-se no fato de que você não delataria o próprio pai. Além do mais, deu-lhe uma razão ética para ficar calado. A querida Primeira Emenda. Ninguém pode revelar suas fontes. Ela deixou você numa situação muito cômoda. Podia transitar entre os dois papéis, de moralista e bom filho.
Stan ergueu os olhos.
– Você está vendo agora que não tive escolha.
– Ah, eu não seria tão leniente – retrucou Myron. – Você não estava sendo totalmente altruísta. Todo mundo diz que você é ambicioso. Isso fez muita diferença. Você conseguiu ficar famoso com essa história. Foi um tremendo furo, do tipo que impulsiona uma carreira até a estratosfera. Acabou indo parar na televisão, ganhou um programa. Recebeu um aumento. Era convidado para festas de luxo. Vai dizer que não pensou nisso tudo?
– Foi só uma consequência. Não um fator.
– Se você diz...
– Foi como você mesmo disse: eu não podia entregá-lo, mesmo que quisesse. Havia um princípio constitucional em jogo. Mesmo que ele não fosse meu pai, eu tinha a obrigação de...
– Guarde isso para o seu pastor – interrompeu Myron. – Onde ele está?
Stan não respondeu. Myron olhou para o outro lado da rua. Os carros engarrafados atrapalhavam a visão, mas através deles, parado na calçada do outro lado, ele conseguiu avistar Greg ao lado de Kimberly.
– Está vendo aquele cara ali? – perguntou Myron, apontando com o queixo. – É o pai do garoto.
Stan olhou, mas seu rosto permaneceu impassível.
– Há um garoto em perigo – continuou Myron. – Isso anula a sua cobertura constitucional.
– Ele ainda é meu pai.
– Que sequestrou um garoto de 13 anos.
Stan levantou outra vez a cabeça.
– O que você faria?
– Como assim?
– Entregaria seu pai? Assim, sem mais nem menos?
– Se estivesse sequestrando crianças? Sim, claro.
– Você acha que é fácil?
– Quem disse que é fácil? – objetou Myron.
Stan segurou de novo a cabeça entre as mãos.
– Ele é doente e precisa de ajuda.
– E há um garoto inocente com ele.
– E...? Não quero parecer insensível, mas não conheço esse garoto. Não tenho nenhuma ligação com ele, mas tenho com meu pai. É isso que interessa aqui. É como um desastre de avião, certo? Você fica sabendo que morreram duzentas pessoas, dá um suspiro e segue levando a vida, agradecendo a Deus por nenhum ente querido seu estar no avião. Não é assim que funciona?
– O que você quer dizer com isso?
– Você segue em frente porque as pessoas no avião lhe são estranhas. Como esse garoto é para mim. A gente não se importa com estranhos. Eles não contam.
– Fale por você – rebateu Myron.
– Você é próximo do seu pai?
– Sou.
– Do fundo do coração: você sacrificaria a vida dele para salvar a das duzentas pessoas no avião? Pense. Se Deus aparecesse para você e dissesse: “Olha, esse avião não vai cair, todo mundo vai chegar em segurança. Em troca, seu pai vai morrer.” Você faria essa troca?
– Não estou interessado em brincar de Deus.
– Mas está pedindo que eu brinque – retrucou Stan. – Se eu entregar meu pai, vão matá-lo. Dar aquela injeção letal. Se isso não é brincar de Deus, o que é então? Por isso pergunto: você trocaria a vida do seu pai pela de duzentas pessoas?
– Não temos tempo para...
– Trocaria?
– Se meu pai estivesse metralhando o avião, sim, Stan, eu trocaria.
– E suponha que seu pai não fosse culpável? Fosse doente, louco?
– Stan, não temos tempo para isso.
O jornalista ficou abatido e fechou os olhos.
– Tem um garoto com ele – insistiu Myron. – Não podemos deixar que ele morra.
– E se já estiver morto?
– Não sei.
– Vocês vão querer a morte do meu pai.
– Não pelas minhas mãos.
Stan respirou fundo e fitou Greg, que o fuzilou com os olhos.
– Ok. Mas vamos sozinhos.
– Sozinhos?
– Só você e eu.
Kimberly Green teve um acesso de raiva:
– Vocês são loucos?
Eles se achavam de volta, sentados em torno da mesa de fórmica. Green, Rick Peck e dois outros federais estavam amontoados um ao lado do outro. Clara Steinberg conversava com seu cliente. Greg se encontrava ao lado de Myron. O sequestro de Jeremy sugara todo o seu sangue. As mãos pareciam secas, a pele quase esturricada, os olhos muito duros e sem movimento. Myron pôs a mão em seu ombro. Greg nem pareceu notar.
– Vocês querem que meu cliente coopere ou não? – perguntou Clara.
– A senhora quer que eu deixe meu suspeito número um escapar?
– Não vou fugir – assegurou Stan.
– Como posso ter certeza? – contrapôs Kimberly.
– É a única forma – suplicou ele. – Vocês entrariam de arma na mão. Alguém iria se ferir.
– Somos profissionais. Não entramos com a arma na mão.
– Meu pai é instável. Se vir um monte de policiais, garanto que vai haver derramamento de sangue.
– Não precisa ser assim – falou a agente. – Vai depender dele.
– Exatamente. Não vou arriscar a vida do meu pai. Deixe-nos ir. Não nos siga. Vou fazer com que ele se entregue. Myron vai estar comigo o tempo todo. Está armado e vai levar o celular.
– Deixem disso – interveio Myron. – Estamos perdendo tempo.
Kimberly mordia o lábio inferior.
– Não tenho autorização para…
– Esqueça – interrompeu Clara.
– Perdão?
A advogada pôs o dedo gordo na cara da agente.
– Escute aqui: a senhorita ainda não prendeu o Sr. Gibbs, correto?
Green hesitou.
– Correto.
Clara se virou para Stan e Myron e fez um gesto para enxotá-los.
– Então, xô, xô, vão, tchau. Estamos perdendo tempo. Apressem-se. Xô!
Stan e Myron se levantaram devagar.
– Xô!
Stan olhou para Kimberly.
– Se eu vir que alguém está nos seguindo, cancelo tudo. Entendeu?
Ela estava furiosa, mas ficou em silêncio.
– Vocês estão me seguindo há três semanas. Já conheço a cara de cada um.
– Ela não vai seguir você.
Era Greg Downing.
Ele e Stan se encararam outra vez.
– Quero ir com vocês também – disse Greg se levantando. – E sou quem tem o maior interesse em manter seu pai vivo.
– Como assim?
– A medula dele pode salvar a vida do meu filho. Se ele morrer, meu filho também morre. E se Jeremy estiver ferido... Bem, gostaria de estar lá para ajudá-lo.
Stan não perdeu muito tempo refletindo.
– Vamos logo.