O Medo Mais Profundo
Capítulo 6
MYRON MISTUROU NUMA TIGELA O cereal infantil Froot Loops com o bastante adulto All-Bran e acrescentou leite desnatado. Para quem não percebeu o forte simbolismo: essa ação denota que ainda há muito do garoto no homem. Muito pungente.
O trem deixou Myron numa plataforma da Rua 168, tão distante da superfície que os passageiros precisavam tomar um elevador impregnado de urina para chegar a céu aberto. Era grande, escuro, sacolejante e fazia lembrar um documentário sobre minas de carvão produzido por uma emissora educativa.
Localizado em Washington Heights – a um pulo do Harlem e bem em frente ao Audubon Ballroom, onde Malcolm X morrera baleado –, o prédio da famosa ala pediátrica do Centro Médico Presbiteriano de Colúmbia era conhecido como Hospital de Bebês e Crianças. Antigamente, só usavam “Bebês”, mas formou-se um comitê de médicos especialistas e, após horas de profundo estudo, decidiu-se acrescentar “Crianças”. Moral da história: os comitês são bastante importantes.
Enfim, o nome reflete a realidade: o hospital é estritamente pediátrico e obstetrício, um edifício já gasto, de doze andares, com onze deles ocupados por crianças doentes. Há algo de muito errado nisso, mas nada além do teologicamente óbvio.
Myron parou em frente à entrada e ergueu a cabeça, fitando os tijolos marrons de poluição. Muito da tristeza da cidade ia parar ali. Ele foi se registrar no balcão da segurança. Disse seu nome a um guarda, que lhe atirou um crachá, mal levantando os olhos da sua revista de notícias televisivas. Myron esperou um longo tempo pelo elevador, lendo a Declaração dos Direitos do Paciente, impressa em inglês e espanhol. A placa indicando a localização do Burger King do hospital ficava bem ao lado da que mostrava o caminho para o Centro Cardiológico Sol Goldman. Myron não sabia se era coincidência ou um aviso sobre as consequências.
O elevador parou no décimo andar. Bem em frente a ele, via-se um mural com as cores do arco-íris e os dizeres “Salvem a Floresta Tropical”. De acordo com uma placa, fora pintado pelos “pacientes pediátricos” do hospital. Como se aquelas crianças já não tivessem com o que se preocupar.
Myron perguntou a uma enfermeira onde poderia encontrar a Dra. Singh. Ela apontou para uma mulher conduzindo uns dez residentes pelo corredor. Como o sobrenome já indicava, a médica era indiana. Trinta e poucos anos, imaginou ele, o cabelo mais claro do que o indiano comum. A maioria dos jovens ao seu redor aparentava ter 14 anos e seus jalecos se assemelhavam a guarda-pós, como se fossem pintar algo com os dedos ou, talvez, dissecar uma rã numa aula de biologia do ensino fundamental. Alguns mantinham uma expressão grave, quase risível em seus rostos de querubim, mas a maior parte evidenciava aquela exaustão do residente de hospital, causada pelas muitas noites de plantão.
Apenas dois eram homens – garotos, na verdade –, ambos usando jeans, gravatas coloridas e tênis branco. As garotas preferiam o avental cirúrgico. Tão novinhos... Bebês tomando conta de bebês.
Ele seguiu o grupo a uma distância um tanto quanto discreta. Vez por outra, olhava para dentro de um quarto e se arrependia no mesmo instante. As paredes dos corredores eram festivas e pintadas com cores vivas, repletas de personagens de desenhos animados, colagens e móbiles, mas Myron via tudo preto. Um andar cheio de crianças morrendo. Garotinhos e garotinhas sem cabelo, sofrendo, as veias escurecidas por toxinas e venenos. A maioria parecia calma e destemida, corajosa de uma forma sobrenatural. Quem desejasse conhecer o pavor precisava fitar os olhos dos pais, como se eles atraíssem o horror para que os filhos não o sentissem.
– Sr. Bolitar?
A Dra. Singh olhou-o nos olhos e estendeu a mão.
– Sou Karen Singh.
Myron quase perguntou como ela conseguia fazer aquilo, ficar naquele andar dia e noite assistindo a crianças morrerem. Porém, ficou calado. Os dois trocaram as amabilidades habituais. Ele havia esperado um sotaque indiano, mas a única coisa que detectou foi um pouco de Bronx.
– Podemos conversar ali dentro – disse ela.
A Dra. Singh abriu uma porta enorme e pesada, endêmicas nos hospitais e clínicas de repouso, e eles entraram numa sala vazia com camas nuas. Aquela aridez atiçou a imaginação de Myron. Quase podia ver um ente querido correndo para o hospital, apertando várias vezes o botão do elevador, desabalando numa carreira pelo corredor até aquele quarto silencioso, os lençóis da cama sendo retirados por uma enfermeira e, depois, o súbito grito de dor...
Myron sacudiu a cabeça: andava vendo televisão demais.
Karen Singh sentou-se numa extremidade do colchão e ele estudou seu rosto por um instante. Tinha traços longos e pronunciados. Tudo nela apontava para baixo – nariz, queixo, sobrancelhas. Uma expressão dura.
– O senhor está me encarando.
– Desculpe, não era a minha intenção.
A médica apontou para a própria testa.
– Esperava que eu tivesse um ponto pintado aqui?
– Não...
– Muito bem, vamos direto ao assunto então.
– Ok.
– A Sra. Downing quer que eu lhe conte tudo o que deseja saber.
– Eu apreciaria muito a gentileza.
– O senhor é detetive particular?
– Mais um amigo da família.
– Jogava basquete com Greg Downing?
Myron sempre se surpreendia com a memória do público. Depois daqueles anos todos, as pessoas ainda se lembravam dos seus jogos importantes, dos lances, às vezes com mais clareza que ele próprio.
– A senhora gosta de basquete?
– Não. Detesto esportes, na verdade.
– Como, então...
– Mera dedução. O senhor é alto, tem mais ou menos a mesma idade e disse que é amigo da família.
Ela deu de ombros.
– Bela dedução.
– É o que fazemos aqui o tempo todo. Alguns diagnósticos são fáceis. Outros precisam ser deduzidos com base nas evidências. Já leu algum livro de Sherlock Holmes?
– Claro.
– Sherlock dizia que nunca se deve teorizar antes de se ter os fatos, senão os fatos são distorcidos para se adaptar às teorias, e não o contrário. Quando se vê um diagnóstico malfeito, nove entre dez vezes foi porque se ignorou o axioma de Sherlock.
– Isso aconteceu com Jeremy Downing?
– Para falar a verdade, sim.
Em algum lugar do corredor, uma máquina começou a emitir um bipe. O som dava nos nervos, como uma arma de eletrochoque.
– Então o primeiro médico errou?
– Não vou entrar nessa questão. Mas a anemia de Fanconi não é comum. E, como se parece com outras doenças, costuma ser mal diagnosticada.
– Me fale sobre Jeremy.
– O que dizer? Ele tem a doença. Em termos simples, sua medula óssea está comprometida.
– Comprometida?
– Para usar um termo leigo, está uma merda. Isso o torna suscetível a uma série de infecções e até ao câncer. Em geral, acaba se transformando em LMA. – Ela percebeu a expressão intrigada de Myron e acrescentou: – Leucemia mieloide aguda.
– Mas a senhora pode curá-lo?
– “Cura” é uma palavra otimista. Mas com um transplante de medula óssea e o tratamento com um composto de fludarabina, sim, creio que o prognóstico seria excelente.
– Fluda... o quê?
– Não é o mais importante. Precisamos de um doador de medula que seja compatível com Jeremy. Isso é o que conta.
– E a senhora não tem nenhum.
A Dra. Singh se remexeu.
– Correto.
Myron percebeu a resistência e decidiu recuar e experimentar outra tática:
– A senhora pode me contar como é o processo do transplante?
– Passo a passo?
– Se não for muito inconveniente.
– O primeiro passo é encontrar um doador.
– Como se faz isso?
– Entre os familiares, é claro. Os irmãos são os que têm mais chance de compatibilidade. Depois os pais. E, por fim, pessoas com antecedentes similares.
– Quando a senhora diz antecedentes similares...
– Negros com negros, judeus com judeus, latinos com latinos... É muito comum em doação de medula. Se o paciente for, por exemplo, judeu hassídico, a campanha de doação vai se concentrar nas suas sinagogas. O sangue mestiço é geralmente o mais difícil de encontrar compatibilidade.
– E o sangue de Jeremy, ou seja lá o que a senhora precise encontrar de compatível, é meio raro?
– Sim.
Emily e Greg eram descendentes de irlandeses. A família de Myron vinha da mistura habitual da Rússia e da Polônia antigas, com um pouco de Palestina no meio. Sangue mestiço. Ele pensou nas implicações da paternidade.
– Então, depois de esgotar as possibilidades dentro da família, como se procuram doadores compatíveis?
– É preciso ir até o cadastro nacional.
– Onde fica isso?
– Em Washington. O senhor está registrado?
Myron assentiu.
– Eles mantêm registros computadorizados. Procuramos doadores preliminares lá, no banco de dados.
– Certo. Agora, supondo que se encontre uma compatibilidade no computador...
– Uma compatibilidade preliminar – corrigiu ela. – O centro local liga para os doadores em potencial e lhes pede que vão até lá. Eles fazem uma bateria de exames. Mas as chances ainda são pequenas.
Myron percebeu que Karen Singh começava a relaxar, sentindo-se confortável com o assunto familiar; exatamente o que ele queria. Os interrogatórios são um território esquisito: algumas vezes parte-se para o ataque frontal; em outras, aproxima-se devagarzinho, com simpatia, obtendo-se o desejado de modo furtivo. Win explicaria de forma mais simples: às vezes, pegam-se mais formigas usando mel, mas deve-se ter sempre à mão uma lata de inseticida.
– Suponhamos que se encontre um doador totalmente compatível... – falou Myron. – O que acontece depois?
– O centro obtém a permissão do doador.
– Quando a senhora fala “centro”, está se referindo ao cadastro nacional de doadores em Washington.
– Não, me refiro ao centro local. O senhor está com o seu cartão de doador?
– Sim.
– Deixe-me vê-lo.
Myron pegou a carteira e o procurou entre mais de dez cartões de supermercados, três outros de videoclube, dois cupons de “compre cem cafés e ganhe dez centavos de desconto no centésimo”, esse tipo de coisa. Por fim, encontrou-o e lhe entregou.
– Veja aqui – disse a médica, mostrando o verso. – Seu centro local é em East Orange, Nova Jersey.
– Então esse centro me chamaria?
– Sim.
– E se eu me revelasse totalmente compatível?
– Assinaria alguns documentos e doaria sua medula.
– É como doar sangue?
Karen Singh lhe devolveu o cartão e se remexeu outra vez.
– Recolher medula óssea é um procedimento mais invasivo.
“Invasivo”: cada profissão tem suas palavras clichês.
– Como assim?
– Para começar, é necessário estar inconsciente.
– Anestesia?
– Sim.
– E o que eles fazem depois?
– O médico enfia uma agulha no osso e retira a medula com uma seringa.
– Ai.
– Como expliquei, a pessoa não fica acordada durante o procedimento.
– Mesmo assim, parece muito mais complicado que doação de sangue.
– E é – concordou a médica. – Mas é seguro e relativamente indolor.
– Mas as pessoas devem hesitar. Quero dizer, provavelmente a maioria se cadastrou como eu porque tinham um amigo doente. Por um conhecido de que se gosta todo mundo está disposto a fazer um sacrifício, claro. Mas por um estranho?
Os olhos de Karen Singh encontraram os dele e fitaram-nos com firmeza.
– Trata-se de salvar uma vida, Sr. Bolitar. Pense nisso. Quantas oportunidades existem de se fazer isso?
Ele havia atingido um ponto sensível. Ótimo.
– A senhora está dizendo que as pessoas não hesitam?
– Não é que isso nunca aconteça, mas a maioria faz a coisa certa.
– O doador se encontra com a pessoa que ele ou ela está salvando?
– Não, é totalmente anônimo. A confidencialidade é muito importante nessa questão. Tudo acontece sob sigilo total.
Eles estavam chegando ao assunto de fato e Myron podia sentir que as defesas da médica começavam outra vez a se erguer. Ele resolveu retroceder de novo, deixá-la se estabelecer em solo confortável.
– E o que acontece com o paciente durante tudo isso?
– Em que estágio?
– Enquanto a medula está sendo coletada. Como ele é preparado?
Myron dissera “preparado”, como um médico de verdade. Quem disse que assistir a seriados e filmes era perda de tempo?
– Depende do que se está tratando – respondeu a Dra. Singh. – Mas, para a maioria das doenças, o receptor passa por cerca de uma semana de quimioterapia.
Quimioterapia. Era uma dessas palavras que silenciam uma sala, feito a carranca de uma freira.
– Eles fazem químio antes do transplante?
– Sim.
– Pensei que isso os enfraqueceria – comentou Myron.
– De certa forma, sim.
– Por que vocês fazem isso então?
– É necessário. Antes de dar uma medula óssea nova ao receptor, é preciso matar a antiga. Na leucemia, por exemplo, o número de sessões de quimioterapia é alto porque toda a medula tem que morrer. No caso da anemia de Fanconi, é possível ser menos agressivo porque a medula já está muito fraca.
– E isso não é perigoso?
A Dra. Singh o encarou outra vez.
– É um procedimento perigoso, Sr. Bolitar: estamos substituindo a medula de uma pessoa.
– E depois?
– O paciente recebe a medula nova de forma intravenosa. Ele fica isolado num ambiente esterilizado durante as primeiras duas semanas.
– Em quarentena?
– Praticamente. O senhor se lembra de um filme antigo chamado O menino da bolha de plástico?
– Quem não se lembra?
A Dra. Singh sorriu.
– O paciente fica vivendo numa coisa dessas? – perguntou Myron.
– Uma espécie de quarto-bolha.
– Não fazia ideia... E isso funciona?
– Há sempre a possibilidade de rejeição, é claro. Mas a porcentagem de êxitos é bem alta. No caso de Jeremy Downing, ele pode ter uma vida normal e ativa com o transplante.
– E sem?
– Podemos continuar tratando-o com hormônios masculinos e fatores de crescimento, mas sua morte prematura seria inevitável.
Silêncio, a não ser pelo bipe constante da máquina que vinha do corredor.
Myron pigarreou.
– Quando a senhora disse que tudo envolvendo o doador é confidencial...
– Quis dizer que é totalmente confidencial.
Era hora de acabar com as evasivas:
– E como a senhora vê isso, Dra. Singh?
– Como assim?
– O cadastro nacional de doadores localizou um que é compatível com Jeremy, não?
– Parece que sim.
– E o que aconteceu?
Ela bateu no queixo com o dedo indicador.
– Posso falar francamente?
– Por favor.
– Acredito na necessidade de sigilo e confidencialidade. A maioria das pessoas não entende como é fácil, indolor e importante colocar o nome no cadastro. Tudo que precisam fazer é doar um pouco de sangue. Uma pequena quantidade, menos do que para uma doação comum. Basta realizar esse ato simples e uma vida pode ser salva. O senhor entende o significado disso?
– Acho que sim.
– Nós da comunidade médica devemos fazer tudo ao nosso alcance para encorajar as pessoas a participarem do cadastro de medula óssea. A instrução, é claro, é importante. Assim como o sigilo. Ele tem que ser preservado. Os doadores precisam confiar em nós.
Ela parou, cruzou as pernas e se apoiou nas mãos.
– Mas, neste caso, criou-se um dilema. A importância do sigilo está indo contra o bem-estar do meu paciente. Para mim, é um dilema fácil de resolver. O juramento de Hipócrates se sobrepõe a tudo. Não sou advogada nem autoridade religiosa. Minha prioridade deve ser salvar vidas, e não proteger sigilos. Acho que não sou a única médica a compartilhar essa opinião. Talvez seja por isso que não temos contato com os doadores. O centro hematológico... no seu caso, o de East Orange... faz tudo. Recolhem a medula e nos enviam.
– Então a senhora não sabe quem é o doador.
– Exatamente.
– Nem se é homem ou mulher, onde mora, nada?
Karen Singh balançou a cabeça.
– Só sei que o cadastro nacional encontrou um doador. Me ligaram para informar. Depois recebi outro telefonema falando que o doador não estava mais disponível.
– O que isso significa?
– Foi o que perguntei.
– E deram uma resposta?
– Não. Enquanto eu vejo as coisas de uma perspectiva micro, o cadastro nacional tem que permanecer no macro. Eu respeito isso.
– A senhora desistiu, então?
Ela se retesou. Os olhos ficaram pequenos e negros.
– Não, Sr. Bolitar, não desisti. Protestei contra o sistema. Mas os funcionários do cadastro nacional não são monstros. Entendem que essa é uma questão de vida e morte. Se um doador se arrepende, fazem o possível para trazê-lo de volta ao rebanho a fim de convencê-lo a continuar.
– Mas nada funcionou neste caso?
– Parece que não.
– Deviam dizer ao doador que ele está sentenciando um garoto de 13 anos à morte.
– Sim – concordou ela sem hesitar.
Myron ergueu as mãos.
– A que conclusão devemos chegar então, doutora? Que o doador é um monstro insensível?
Karen Singh refletiu sobre isso por um momento.
– Talvez. Ou talvez a resposta seja mais simples.
– Como o quê?
– Talvez o centro não consiga encontrá-lo.
Myron se endireitou.
– Como assim, “não consiga encontrá-lo”?
– Não sei o que aconteceu. O centro não me contou, e esse deve ser o costume. Defendo os interesses do paciente. Lidar com os doadores é tarefa deles. Mas acho que eles ficaram – ela se deteve, buscando a palavra certa – perplexos.
– O que a faz dizer isso?
– Nada de concreto. Só uma sensação de que este caso pode ser mais que um doador medroso.
– Como descobrir?
– Não sei.
– Como podemos descobrir o nome do doador?
– Não podemos.
– Deve haver um jeito... Digamos que seja possível. Como eu poderia fazer isso?
– Entrando no sistema deles. É a única forma que conheço.
– O sistema de Washington?
– Eles estão em rede com os centros locais. Mas o senhor teria que saber os códigos e as senhas. Talvez um bom hacker consiga, não sei.
Hackers, Myron sabia, funcionavam melhor no cinema que na vida real. Alguns anos antes, talvez fossem úteis, mas a maioria dos sistemas atuais estava protegida contra essas invasões.
– Quanto tempo temos, doutora?
– Não há como dizer. Jeremy está reagindo bem aos hormônios e fatores de crescimento. Mas não sei até quando.
– Então temos que encontrar um doador.
– Sim.
Karen encarou Myron, depois desviou o olhar.
– Tem algo mais? – perguntou ele.
– Existe outra possibilidade remota – respondeu ela, sem fitá-lo.
– Qual?
– Lembre-se do que eu disse antes. Defendo os interesses do paciente. É meu dever explorar todos os caminhos possíveis para salvá-lo – respondeu a médica com uma voz estranha.
– Estou escutando.
Karen esfregou a palma das mãos na perna da calça.
– Se os pais biológicos de Jeremy tivessem outro filho, existiria uma chance de 25 por cento de que o bebê fosse compatível.
Ela olhou para Myron.
– Não acho que essa seja uma possibilidade – disse ele.
– Mesmo que seja a única forma de salvar a vida de Jeremy?
Myron ficou sem resposta. Um servente passou, olhou para dentro da sala, murmurou um pedido de desculpas e foi embora. O agente se levantou e agradeceu.
– Vou levá-lo até o elevador – falou a Dra. Singh.
– Obrigado.
– Há um laboratório no primeiro andar, no Pavilhão Harkness. – Ela lhe entregou um pedaço de papel. Myron olhou-o: era um pedido. – Talvez o senhor queira fazer um certo exame de sangue confidencial.
Os dois caminharam em silêncio até os elevadores. Algumas crianças em cadeiras de rodas estavam sendo empurradas pelo corredor. A Dra. Singh sorriu para elas, os traços pronunciados suavizando-se de forma quase celestial. Mais uma vez, pareciam destemidas. Myron se perguntou se aquela calma advinha da ignorância ou da resignação. Será que não compreendiam a gravidade do que estava acontecendo ou tinham uma compreensão tranquila da situação que os pais jamais teriam? Essas questões filosóficas, Myron sabia, serviam mais aos eruditos. Contudo, talvez a resposta fosse mais simples do que imaginava: o sofrimento delas seria relativamente curto; o dos pais seria eterno.
Quando chegaram ao elevador, ele perguntou:
– Como a senhora consegue?
Ela logo entendeu o que ele queria dizer:
– Eu poderia dar uma resposta pomposa sobre encontrar consolo em ajudar, mas a verdade é que bloqueio e compartimentalizo. É o único jeito.
A porta do elevador se abriu, mas, antes de se mover, Myron ouviu uma voz familiar:
– Que diabo você está fazendo aqui?
Greg Downing veio em sua direção.