O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 37 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 37

PELO VIDRO ESPELHADO, MYRON E Win fitavam as costas de Clara Steinberg e os rostos de Stan e Edwin Gibbs. Kimberly e Ford estavam com eles. Emily fora para o hospital esperar enquanto Greg era operado. Ninguém sabia se ele conseguiria sobreviver.

– Por que vocês não estão escutando a conversa? – perguntou Myron.

– Não podemos – respondeu Ford. – Privilégio de advogado e cliente.

– Há quanto tempo eles estão aí?

– Desde que o colocamos sob custódia, mas com intervalos.

Myron olhou para o relógio atrás dele. Quase três da madrugada. Equipes de coleta de provas tinham vasculhado a casa, mas ainda não havia nenhuma pista do paradeiro de Jeremy. O cansaço estava estampado no rosto de todos, exceto, talvez, no de Win. Ele nunca aparentava fadiga. Quem sabe a internalizava. Ou tudo tivesse relação com sua falta de escrúpulos.

– Não temos tempo para isso – disse Myron.

– Eu sei. Está sendo uma noite longa para todos.

– Faça alguma coisa, então.

– Como o quê? – perguntou Ford com rispidez. – O que você quer que eu faça exatamente?

Win aproveitou a brecha:

– Talvez você pudesse conversar em particular com a Srta. Steinberg.

A sugestão fisgou a atenção de Ford:

– Como assim?

– Leve-a até outra sala e me deixe sozinho com o suspeito.

– Você nem deveria estar aqui. Ele – Ford gesticulou para Myron – está representando a família Downing, apesar de eu não concordar nem um pouco com isso. Mas você não tem razão nenhuma para estar aqui.

– Invente uma.

Ford fez um gesto indicando que não desejava perder tempo com aquilo.

– Você não precisa tomar parte – replicou Win, mantendo a voz baixa, suave. – Fique conversando com a advogada. Deixe Gibbs sozinho na sala. Só isso. Não há nada de antiético nisso.

Ford balançou a cabeça.

– Você está louco.

– Precisamos de respostas – rebateu Win.

– E você as quer batendo nele.

– Bater deixa marcas. Eu nunca deixo marcas.

– Não é assim que as coisas funcionam, camarada. Já ouviu falar numa coisa chamada Constituição dos Estados Unidos?

– É só um documento, e não um trunfo. É uma questão de escolha. Os direitos obscuros dessa criatura sub-humana – Win apontou para Gibbs – ou o direito de um garoto à vida.

– Se o garoto morrer enquanto estivermos aqui – continuou Win –, como é que você vai se sentir depois?

Ford fechou os olhos. No interior da sala, Clara se levantou. Virou-se e, pela primeira vez, Myron viu seu rosto. Sabia que ela já defendera gente cruel antes – muito cruel –, mas os horrores que devia estar ouvindo naquele momento a haviam empalidecido e gravado algo que provavelmente permaneceria para sempre. Ela se aproximou do vidro espelhado e bateu. Ford acionou o botão de som.

– Precisamos conversar – disse ela. – Deixe-me sair.

Eric foi encontrar Clara e Stan à porta.

– Vamos até lá embaixo – sugeriu ele.

– Não – retrucou a advogada.

– O quê?

– Vamos conversar aqui, de onde posso ver meu cliente. Não queremos nenhum acidente a esta altura, não é?

Todos ficaram de pé perto do vidro espelhado: Kimberly, Ford, Clara, Stan, Myron e Win. Stan estava cabisbaixo e puxava o lábio inferior com os dedos. Myron tentou ver seus olhos, mas ele não lhe deu oportunidade.

– Ok – começou Clara –, primeira coisa: precisamos de um promotor.

– Para quê? – questionou Eric.

– Porque queremos um acordo.

Ford esboçou um sorriso de escárnio.

– A senhorita perdeu o juízo?

– Não. Meu cliente é a única pessoa que pode dizer a vocês onde Jeremy Downing está. E só vai fazer isso sob condições específicas.

– Quais condições?

– É por isso que precisamos de um promotor.

– O promotor vai endossar qualquer coisa com a qual eu concorde – replicou Ford.

– Quero isso por escrito.

– E eu quero saber o que está procurando fazer neste momento.

– Tudo bem, o acordo é o seguinte: ajudamos vocês a encontrar Jeremy Downing. Em troca, vocês se comprometem a não pedir a pena de morte para Edwin Gibbs e a fazê-lo passar por testes psiquiátricos. E depois recomendarão que ele seja colocado numa instituição adequada, e não na prisão.

– A senhorita só pode estar brincando.

– E tem mais.

– Mais?

– O Sr. Edwin Gibbs vai também concordar em doar a medula para Jeremy Downing se for necessário. Entendo que o Sr. Bolitar esteja aqui representando a família. É preciso constar oficialmente que ele é testemunha desse acordo.

Ninguém disse nada.

– Estamos combinados? – perguntou Clara.

– Não, não estamos – respondeu Ford.

A Srta. Steinberg ajustou os óculos.

– Esse acordo é inegociável.

Ela começou a se afastar e manteve o olhar fixo em Myron, que apenas balançou a cabeça.

– Sou a advogada dele – observou Clara.

– E vai deixar um garoto morrer por causa disso? – objetou Myron.

– Não comece – rebateu Clara, mas com a voz suave.

Myron examinou seu rosto, mas não notou nenhum sinal de que ela iria ceder.

– Concorde – disse para Ford.

– Você está louco?

– A família quer punição. Mas, acima de tudo, quer encontrar o filho. Concorde com os termos dela.

– Você acha que lhe devo obediência?

– Vamos lá, Eric – falou Myron, a voz tranquila.

Ford franziu a testa, esfregou o rosto com as mãos e depois as deixou cair.

– Esse acordo prevê, naturalmente, que o garoto ainda está vivo.

– Não – respondeu Clara.

– O quê?

– O fato de ele estar vivo ou morto não modifica em nada o estado de saúde mental de Edwin Gibbs.

– Então vocês nem sabem se ele está vivo ou...

– Se soubéssemos, seria uma comunicação entre advogado e cliente, logo confidencial.

Myron a olhou, horrorizado. Clara o encarou sem piscar. Ele tentou fitar os olhos de Stan, mas ele ainda estava de cabeça baixa. Até a expressão de Win, em geral um exemplo de neutralidade, demonstrava agitação. Queria machucar alguém. Machucar muito.

– Não podemos concordar com isso – replicou Ford.

– Então não há acordo – afirmou Clara.

– Seja razoável...

– Fazemos o acordo ou não?

– Não – respondeu Ford.

– Vejo o senhor no tribunal, então.

Myron se colocou em seu caminho.

– Saia da frente, por favor – falou Clara.

Ele apenas a encarou com desprezo. Ela ergueu os olhos.

– Você acha que sua mãe não faria o mesmo? – perguntou Clara.

– Deixe minha mãe fora disso.

– Saia da frente – repetiu ela.

Clara tinha 66 anos, mas, pela primeira vez desde que a conhecia, pareceu mais velha a Myron.

Bolitar se virou para Eric.

– Concorde.

Ele balançou a cabeça.

– O garoto já deve estar morto.

– Provavelmente. Mas talvez não.

– Concorde – interveio Win.

Ford o olhou.

– Ele dificilmente vai escapar – completou Win.

Stan enfim levantou a cabeça.

– Que diabo você está querendo dizer com isso?

Win lhe lançou um olhar indiferente.

– Absolutamente nada.

– Quero esse cara longe do meu pai.

Win sorriu.

– Você não entende, não é? – continuou Stan. – Nenhum de vocês entende. Meu pai é doente. Não é responsável pelo que faz. Não estamos inventando isso. Qualquer psiquiatra competente do mundo pode atestar isso. Ele precisa de ajuda.

– Ele deveria morrer – disse Win.

– É um homem doente.

– Homens doentes morrem o tempo todo.

– Não é isso que estou dizendo. Ele é como uma pessoa que tem problemas cardíacos. Ou câncer. Precisa de ajuda.

– Ele sequestra e provavelmente mata pessoas – retrucou Win.

– E a causa não importa?

– Claro que não importa. Ele sequestra e mata. É o suficiente. Ele não deveria ser internado num hospital confortável para doentes mentais. Não deveria poder assistir a um filme maravilhoso, ler um bom livro ou rir outra vez. Não deveria ver uma mulher bonita, ouvir Beethoven, receber atenção ou amor... porque suas vítimas não podem mais fazer nada disso. Qual parte disso que o senhor não entende?

Stan tremia.

– Se você não concordar – disse ele a Ford –, não vamos ajudar.

– Se o garoto morrer por causa dessa negociação – falou Win para Stan –, é você quem vai morrer.

Clara pôs-se na frente de Win e gritou:

– Você está ameaçando meu cliente?

Win abriu um sorriso.

– Nunca ameaço ninguém.

– Há testemunhas.

– Preocupada com seus honorários, doutora?

– Chega – interrompeu o vice-diretor.

Ele olhou para Myron, que assentiu.

– Tudo bem – disse Ford. – Concordamos. Onde ele está então?

– Tenho que levar vocês – falou Stan.

– Outra vez?

– Não saberia dar as indicações de forma precisa. Nem sei se eu consigo chegar lá, depois desses anos todos.

– Mas nós vamos juntos – disse Kimberly.

– Sim.

Houve um silêncio, uma paralisia súbita que não agradou a Myron.

– Jeremy está vivo ou morto? – perguntou ele.

– Quer saber a verdade? – falou Stan. – Também não sei.