O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 19 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 19

MYRON DEU A PARTIDA E saiu dirigindo. Dois homens num Oldsmobile Ciera preto fizeram o mesmo. Hummm.

O celular tocou.

– Descobriu alguma coisa?

Era Emily.

– Para falar a verdade, não.

– Onde você está?

– Englewood.

– Tem algum plano para o almoço? – perguntou ela.

Myron hesitou, mas respondeu:

– Não.

– Sou boa cozinheira, sabe? Fomos namorados na faculdade, mas não tive muitas chances de demonstrar minhas habilidades culinárias.

– Eu me lembro de você cozinhando para mim uma vez.

– É?

– Na minha wok.

Emily deu uma risadinha.

– É mesmo. Você tinha uma wok elétrica no seu dormitório, não é?

– É.

– Quase me esqueci disso. Por que você tinha aquilo, aliás?

– Para impressionar as garotas.

– Sério?

– Claro. A ideia era convidar uma para vir até o quarto, cortar uns legumes, botar um pouco de shoyu...

– Nos legumes? – perguntou ela.

– Era o método para iniciantes.

– Como é que você nunca tentou esse golpe comigo?

– Não precisava.

– Você está me chamando de fácil, Myron?

– Como responder uma pergunta dessas sem perder os testículos?

– Venha até aqui. Vou preparar um almoço para nós dois. Sem shoyu.

Outra hesitação.

– Por favor, não me obrigue a repetir o convite – pediu Emily.

Ele queria muito dizer “não”.

– Ok.

– Pegue a Rota 4...

– Conheço o caminho, Emily.

Ele desligou e olhou pelo retrovisor. O Oldsmobile Ciera preto ainda o seguia. Melhor prevenir que remediar, não? Myron apertou a tecla de discagem rápida no celular. Ao primeiro toque, Win atendeu:

– Articule.

– Tem alguém me seguindo, acho.

– Placa?

Myron lhe passou.

– Onde nos coordenamos?

– No shopping Garden State Plaza.

– Estou a caminho, linda donzela.

Myron permaneceu na Rota 4 até ver uma placa que apontava a direção do shopping. Pegou um trevo meio complicado e entrou no estacionamento. O Oldsmobile ainda o seguia, um pouco mais de longe. Hora de diminuir a velocidade. Myron rodou um pouco até encontrar uma vaga. O carro se mantinha a distância. Ele desligou o motor e se dirigiu para a entrada nordeste.

O Garden State Plaza possuía todos os elementos artificiais que contaminavam os shoppings: o ar parado, o estalo no ouvido ao entrar, a acústica pobre, como se todos os sons tivessem passado por um processo de distorção e as vozes fossem ao mesmo tempo altas e incompreensíveis. Havia um excesso de pé-direito alto e mármores falsos, e nada de macio para suavizar os ruídos.

Ele foi vagando pela seção para novos-ricos e passou por algumas sapatarias sem graça, do tipo que exibe no máximo três pares presos ao que pareciam ser chifres de veados. Chegou a uma loja chamada Aveda, que vendia cosméticos e cremes absurdamente caros. A vendedora, uma jovem anoréxica vestindo roupas pretas apertadas como um torniquete, informou a Myron que havia uma liquidação de hidratantes faciais. Ele controlou-se para não gritar “oba!” e seguiu seu caminho. Ao lado, ficava uma Victoria’s Secret e Myron deu um olhar furtivo para a vitrine. A maioria dos homens heterossexuais sofisticados é bem versada nessa arte, dando às supermodelos de roupas sexy uma olhada muito rápida, fingindo falta de interesse por suas imagens ampliadas ostentando sutiãs milagrosos. Myron, naturalmente, fez a mesma coisa, mas depois pensou: Para que fingir? Parou, endireitou os ombros e comeu com os olhos a foto. Uma mulher não deveria respeitar isso num homem também?

Consultou o relógio. Ainda faltava tempo. Mais espera. O plano, por assim dizer, era bem simples. Win ia até o Garden State Plaza. Quando chegasse, ligaria para o celular de Myron, que voltaria para o carro. Win procuraria o Oldsmobile preto e passaria a segui-lo. Muito inteligente, não?

Myron entrou na Sharper Image, um dos poucos lugares do mundo onde as pessoas usavam as palavras shiatsu e iônico sem que ninguém risse. Experimentou uma cadeira de massagem e pensou em comprar um stormtrooper de 5.500 dólares em tamanho natural que estava em oferta por 3.499. Isso que é redefinir o conceito de novo-rico. Uma dica: se alguém sonha com um stormtrooper, é melhor tirar da carteira o cartão mais top de todos, entregá-lo ao caixa e comprar uma vida nova.

O celular tocou. Myron atendeu.

– São federais – avisou Win.

– Não acredito.

– Pois é.

– Então não precisa segui-los.

– Não.

Myron viu dois homens de terno e óculos escuros atrás dele. Estavam examinando os xampus com aroma de fruta na vitrine da Garden Botanica, um pouco perto demais. Dois homens de terno e óculos escuros. Inacreditável.

– Acho que estão me seguindo aqui dentro também.

– Se prenderem você com lingerie – disse Win –, alegue que é para sua mulher.

– É assim que você faz?

– Deixe o telefone ligado, conectado a mim.

Myron obedeceu. Um velho truque dos dois, para que Win escutasse tudo. Ok, muito bem, e agora? Continuou caminhando. Outros dois homens de terno olhavam vitrines um pouco mais à frente. Eles se voltaram quando Myron se aproximou e o olharam de alto a baixo. Ele se virou para trás. Os federais estavam lá também.

Os dois à sua frente se puseram no seu caminho. Os outros o cercaram. Myron parou e encarou os quatro.

– Vocês experimentaram o hidratante facial em liquidação na Aveda?

– Sr. Bolitar?

– Sim.

Um deles, um cara baixo com um corte de cabelo austero, mostrou o distintivo.

– Sou o agente especial Fleischer, do FBI. Gostaríamos de ter uma conversa com o senhor.

– Sobre...?

– Importa-se de nos acompanhar?

Exibiam as expressões impassíveis de praxe; Myron não conseguiria decifrar suas intenções. Era bem provável que nem sequer soubessem do que se tratava. Deviam ser apenas mensageiros. Ele deu de ombros e seguiu-os. Dois entraram num Oldsmobile Ciera branco. Os outros ficaram com Myron. Um abriu a porta de trás do Ciera preto e fez um meneio de cabeça para que ele entrasse. O interior era muito limpo. Bancos sofisticados, macios.

Ninguém falava nada. O rádio estava desligado. Myron se recostou. Não sabia se ligava para Emily, adiando o almoço sem shoyu, mas não queria que os federais o ouvissem. Permaneceu imóvel, de boca fechada. Não era sempre que fazia isso. Parecia estranho, mas de certa forma correto.

Trinta minutos depois, estava no porão de um edifício alto e modesto, em Newark, sentado com as mãos sobre uma mesa meio pegajosa. O lugar tinha uma janela com grade e paredes de cimento, cuja cor e textura lembravam um mingau de aveia seco. Os federais pediram licença e abandonaram Myron, que suspirou e se recostou na cadeira. Reconheceu o famoso método “vamos deixá-lo sozinho para ele amaciar um pouco”. Então a porta se abriu de repente.

A mulher entrou primeiro. Usava um blazer abóbora, jeans, tênis e brincos vistosos. A palavra que vinha à cabeça era robusta. Não chegava a ser gorda. Robusta. Tudo era robusto, até o cabelo, de um louro cor de milho enlatado. O cara atrás dela era incrivelmente magro, com a cabeça pontuda e uma pequena cabeleira negra, oleosa. Parecia um lápis. Ele falou primeiro:

– Boa tarde, Sr. Bolitar.

– Boa tarde.

– Sou o agente especial Rick Peck. Essa é a agente especial Kimberly Green.

Green, com seu blazer abóbora, começou a andar de um lado para outro como uma leoa enjaulada. Myron cumprimentou-a com a cabeça. Ela retribuiu de má vontade, como se a professora a mandasse se desculpar por algo que não fizera.

– Sr. Bolitar, gostaríamos de fazer umas perguntas – continuou Lápis Peck.

– Sobre...?

Peck mantinha os olhos em suas anotações e falava enquanto lia:

– Hoje o senhor visitou um certo Stan Gibbs no número 24 da Acre Drive. Correto?

– Como você sabe que eu não visitei um Stan Gibbs errado?

Peck e Green se entreolharam, então Lápis prosseguiu:

– Por favor, Sr. Bolitar, apreciaríamos se colaborasse. O senhor visitou o Sr. Gibbs?

– Vocês sabem que sim.

– Muito bem, obrigado. – Peck escreveu alguma coisa devagar, depois ergueu a cabeça. – Gostaríamos muito de saber a natureza da sua visita.

– Por quê?

– O senhor foi o primeiro visitante que o Sr. Gibbs recebeu desde que se mudou para a atual residência.

– Por que vocês querem saber?

Green cruzou os braços. Ela e Peck se entreolharam outra vez.

– O Sr. Gibbs é objeto de uma investigação em curso – explicou Lápis.

Myron esperou. Ninguém disse nada.

– Bem, isso esclarece tudo.

– É tudo que posso dizer no momento.

– A mesma coisa da minha parte.

– Perdão?

– Se você não pode dizer mais nada, eu também não posso.

Green pôs as mãos sobre a mesa, arreganhou os dentes – dentes robustos? – e se inclinou como se fosse arrancar um pedaço de Myron. O cabelo cheirava a xampu. Ela o avaliou – devia ter lido algum manual sobre olhares intimidantes – e falou pela primeira vez:

– A coisa toda vai acontecer da seguinte forma, seu idiota. Vamos fazer perguntas. Você vai escutar e depois responder. Entendeu?

Myron assentiu.

– Quero ter certeza de que entendi direito: você desempenha o papel da policial má, correto?

Peck assumiu o controle:

– Sr. Bolitar, ninguém aqui está interessado em criar problema. Mas gostaríamos muito que o senhor cooperasse nessa questão.

– Estou preso?

– Não.

– Adeus, então.

Ele começou a se levantar. Green lhe deu um empurrão no meio do caminho, que o fez cair de volta na cadeira.

– Sente-se, imbecil – ordenou ela, olhando para Peck. – Talvez ele esteja envolvido nisso.

– Você acha?

– Por que relutaria tanto em responder às perguntas?

– Faz sentido. Um cúmplice.

– Provavelmente podemos prendê-lo agora. Deixe-o trancafiado por esta noite e, quem sabe, a informação vaze para a imprensa.

Myron a encarou.

– Oh! Agora. Estou. Realmente. Assustado. Segundo “oh”!

Ela estreitou os olhos.

– O que disse?

– Deixe-me adivinhar: talvez eu seja culpado de cumplicidade. É minha acusação favorita. Alguém é processado por isso?

– O senhor acha que estamos brincando?

– Acho. Por falar nisso, como é que todos vocês são chamados de agentes “especiais”? Parece algo que alguém inventou de uma hora para outra. Como um jogo de criança para levantar a autoestima. “Estamos promovendo você de agente para agente especial, Barney.” Depois vem o quê, agente superespecial?

Green segurou-o pela lapela e o inclinou para trás na cadeira.

– Não estou achando graça.

Myron olhou para as mãos que o agarravam.

– Você está falando sério?

– Quer experimentar?

– Kim – disse Peck.

Ela o ignorou e manteve os olhos em Myron.

– Isso é sério.

O tom era para ser raivoso, mas acabou soando mais como um apelo assustado. Dois outros agentes entraram. Somando os quatro mensageiros, já eram oito pessoas. Um número significativo... mas o que significava, Myron não fazia ideia. O assassinato de Melina Garston, talvez. Porém, Myron duvidava: os agentes locais é que costumavam lidar com os homicídios; não se chamavam os federais.

Eles o abordaram de formas diferentes, mas não havia assim tantos caminhos a percorrer e Myron conhecia todos. Ameaças, simpatia, adulação, insultos, elogios, deboche violento, suave, tudo servia. Não o deixaram ir ao banheiro, inventaram pretextos para detê-lo por mais tempo, sempre provocando-o, e ele provocando-os também, mas ninguém cedia. Todos começaram a suar, principalmente os agentes, manchando as roupas, impregnando o ar, intensificando-se até um ponto que Myron poderia jurar tratar-se de puro medo.

Green entrava e saía, sempre balançando a cabeça para ele. Myron queria cooperar, mas é aquilo: quando o gênio sai da garrafa, não tem como colocá-lo de volta. Ele não sabia o que estavam investigando. Não sabia se falar beneficiaria ou prejudicaria Jeremy. Porém, assim que abrisse a boca, que suas palavras chegassem aos ouvidos do público, não teria como retirá-las. Qualquer vantagem de que pudesse lançar mão mais tarde desapareceria. Assim, por ora, mesmo que quisesse ajudar, não conseguiria. Não até saber mais. Tinha contatos. Poderia descobrir coisas com rapidez, tomar uma decisão abalizada.

Às vezes, negociar significava ficar de boca fechada.

Quando a situação se amainou, Myron se levantou para ir embora. Green bloqueou-lhe o caminho:

– Vou fazer da sua vida um inferno.

– Essa é a sua forma de pedir que eu vá embora?

Ela recuou como se ele a tivesse esbofeteado. Quando se recuperou, balançou a cabeça devagar.

– Você não tem ideia, tem?

Boca fechada, lembrou-se ele. Myron passou por ela e saiu.