O Medo Mais Profundo
Capítulo 7
NA ÚLTIMA VEZ EM QUE os dois haviam se encontrado, Myron estava montado sobre o peito de Greg, tentando matá-lo, socando repetidas vezes seu rosto, até Win – logo ele – vir apartá-los. Três anos antes. Não o tinha visto desde então, exceto no noticiário noturno.
Greg Downing encarou Myron, depois Karen Singh, voltando o olhar então ao rival, como se esperasse que ele já tivesse evaporado.
– Que diabo você está fazendo aqui? – perguntou outra vez.
Greg vestia uma camisa de flanela sobre uma camiseta de malha tricotada, dessas que se vê na Baby Gap, jeans desbotados e botas de trabalho absurdamente gastas. Um lenhador suburbano.
Uma espécie de fagulha se acendeu no peito de Myron, incendiando-o.
Desde o dia em que brigaram por um rebote, no sexto ano, ele e Greg se tornaram a definição perfeita do que era uma rivalidade. No ensino médio, os dois tiveram oito confrontos, quatro vitórias para cada um. Já circulavam rumores de que havia inimizade entre os superastros nascentes, mas não passava de hipérbole esportiva corriqueira. A verdade era que Myron mal conhecia Greg fora das quadras. Faziam qualquer coisa para vencer, claro, mas, assim que soava o apito final, os garotos apertavam-se as mãos e a rivalidade hibernava até o próximo jogo.
Ou assim sempre pensara Myron.
Quando aceitou a bolsa de estudos na Duke e Greg preferiu a Universidade da Carolina do Norte, os fãs de basquete comemoraram. A aparentemente modesta rivalidade entre eles estava pronta para estrear nos jogos da liga universitária americana, no horário nobre. Myron e Greg não decepcionaram. As partidas entre os times tiveram audiências fantásticas, nenhum jogo foi decidido por mais de três pontos de diferença. Os dois fizeram carreiras espetaculares nas equipes. Os dois foram escolhidos para a hipotética seleção universitária, entre os melhores de cada ano. Os dois estrelaram capas da Sports Illustrated, chegando mesmo a dividi-la certa vez. A rivalidade, no entanto, permanecia na quadra. Lutavam até o fim, mas a competição nunca passava para o campo pessoal.
Até Emily surgir.
Antes do começo do último ano da faculdade, Myron levantou o assunto do casamento. No dia seguinte, ela segurou as mãos dele, olhou nos seus olhos e disse:
– Não tenho certeza se amo você.
Na lata. Ele ainda se perguntava o que teria acontecido. Algo tão grandioso tão cedo, pensou. Talvez houvesse um pouco a necessidade de fazer coisas novas, namorar outras pessoas, sabe-se lá o que mais. O tempo passou. Três meses, pela conta de Myron. Emily começou um relacionamento com Greg. Ele o ignorou publicamente – mesmo quando o rival e a ex ficaram noivos, um pouco antes da formatura. A convocação para a NBA também aconteceu na mesma época. Os dois foram para o primeiro round, embora, de maneira surpreendente, Greg tenha sido escolhido antes de Myron.
Foi quando tudo começou.
O resultado final?
Quase quinze anos depois, Greg Downing estava terminando sua carreira no basquete. As pessoas o aplaudiam. Ganhava milhões e era famoso. Praticava o esporte que adorava. Para Myron, o sonho de sua vida havia acabado antes mesmo de começar. Durante o primeiro jogo da pré-temporada, no Celtics, num choque com Big Burt Wesson, seu joelho ficara espremido entre o adversário e outro jogador. Houve um estalo, uma crepitação, um estouro – e depois uma dor lancinante, excruciante, como se garras de metal rasgassem sua rótula.
O joelho nunca se recuperou.
Todos acharam que tinha sido um acidente bizarro, inclusive Myron. Por mais de dez anos, ele acreditara que a contusão fora mero acaso, resultado de um capricho do destino. Agora, não mais. Sabia que o homem de pé na sua frente causara tudo aquilo, que a rivalidade aparentemente ingênua da adolescência se tornara algo monstruoso, se banqueteara de seus sonhos, destruíra o casamento de Greg e Emily e, era quase certo, levara ao nascimento de Jeremy Downing.
Myron cerrou os punhos.
– Já estava de saída.
Greg pôs a mão no peito dele.
– Fiz uma pergunta a você.
Ele olhou para aquela mão.
– Isso é bom.
– O quê?
– Não haverá perda de tempo com transporte. Já estamos num hospital.
Greg sorriu com escárnio.
– Você me socou da última vez.
– Quer mais?
– Me desculpem – interveio Karen Singh –, mas vocês estão falando sério?
Greg continuava fuzilando o rival com o olhar.
– Pare com isso ou vou ficar todo melado – falou Myron.
– Você é um filho da puta.
– E você não está na minha lista de pessoas para mandar cartão de Natal também, Greggy Cocô.
Quanta maturidade...
Greg chegou mais perto.
– Sabe o que eu gostaria de fazer com você, Bolitar?
– Me beijar na boca? Me comprar flores?
– Flores para a sua sepultura, talvez.
Myron balançou a cabeça.
– Essa é boa, Greg. Agora fiquei magoado, poxa!
Karen Singh interrompeu outra vez:
– Só porque aqui é a ala infantil não significa que vocês dois tenham que agir como crianças.
Greg deu um passo para trás, sem tirar os olhos do rival.
– Emily – vociferou ele de repente. – Ela chamou você, não foi?
– Não tenho que dizer nada para você, Greg.
– Pediu que você encontrasse o doador.
– Você sempre foi um garoto inteligente.
– Convoquei uma entrevista coletiva para hoje. Vou fazer um apelo direto ao doador. Oferecer uma recompensa.
– Ótimo.
– Então não precisamos de você, Bolitar.
Myron o encarou e, por um momento, era como se estivessem de volta à quadra, os rostos empapados de suor, a multidão torcendo, o tempo acabando, a bola quicando. Nirvana. Acabado para sempre. A vida roubada por Greg. Por Emily. E, talvez mais que tudo, quando pensava naquilo com honestidade, por sua própria burrice.
– Tenho que ir.
Greg deu um passo atrás. Myron passou por ele e apertou o botão do elevador.
– Ei, Bolitar.
Ele se virou.
– Vim aqui para falar com a doutora sobre o meu filho, e não para discutir o passado.
Myron não disse nada. Voltou-se para o elevador.
– Você acha que pode ajudar a salvar meu garoto?
A boca de Myron ficou seca.
– Não sei.
O elevador chegou e a porta se abriu. Não houve nenhum adeus, aceno de cabeça ou qualquer outro tipo de comunicação. Myron entrou e deixou que a porta se fechasse. Quando chegou ao térreo, dirigiu-se ao laboratório e arregaçou a manga da camisa. Uma mulher coletou o sangue, soltou o torniquete e informou:
– Sua médica vai entrar em contato com o senhor sobre o resultado.