O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 25 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 25

O HOMEM DE GRANITO ESTAVA ESPERANDO do lado de fora do Dakota. Do carro, Myron o viu. Pegou o celular e ligou para Win:

– Tenho companhia.

– Sim, um cavalheiro muito grande. Dois comparsas estão estacionados do outro lado da rua, num veículo corporativo, de propriedade da família Lex.

– Vou deixar o celular ligado.

– Eles o confiscaram da última vez.

– Sim.

– Provavelmente vão fazer o mesmo desta vez.

– Vamos improvisar alguma coisa.

– O seu funeral – falou Win, desligando.

Myron parou no estacionamento e se aproximou do Homem de Granito.

– A Srta. Lex gostaria de vê-lo.

– Sabe o que ela quer?

O Homem de Granito ignorou a pergunta.

– Talvez ela tenha me visto fazendo flexões pelas câmeras e queira me conhecer melhor – arriscou Myron.

O Homem de Granito não riu.

– Você já pensou alguma vez em ser comediante profissional?

– Já recebi uns convites.

– Aposto que sim. Entre no carro.

– Ok, mas tenho horário para chegar em casa, sabe? E nunca dou beijo de língua no primeiro encontro. Só para já nos entendermos.

– Cara, como eu gostaria de acabar com você.

Os dois entraram no carro. Dois paletós azuis estavam sentados na frente. O percurso foi silencioso, exceto pelo Mágico Estalar de Dedos do Homem de Granito. O Edifício Lex surgiu no escuro a contragosto. Myron foi outra vez submetido aos procedimentos de segurança. Como Win havia previsto, confiscaram seu celular. O Homem de Granito e os dois paletós dessa vez viraram à esquerda. Escoltaram-no até um elevador, que os levou até o que parecia ser uma parte residencial.

O escritório de Susan Lex tinha uma decoração de palácio renascentista, mas aquele apartamento ali – bom, pelo menos tinha cara de apartamento – apresentava uma diferença enorme. O moderno e o minimalista eram os estilos principais: paredes totalmente brancas e nuas, piso cinza-claro, estantes em branco e preto, de fibra de vidro, na maior parte vazias – apenas algumas ostentavam estatuetas. O sofá lembrava uma boca vermelha. Via-se um bar transparente, com estoque bem variado, todo em acrílico. Dois bancos metálicos, giratórios, tinham bases vermelhas, parecendo tão convidativos quanto termômetros retais. Na lareira, crepitava um fogo preguiçoso em meio a toras de madeira artificial, rebrilhando no console. O ambiente era tão agradável quanto uma pústula.

Myron caminhava fingindo interesse. Parou diante de uma estátua de cristal com base de mármore. Uma coisa moderna, cubista ou sei lá que estilo artístico. Talvez obra do Movimento Intestinal Simétrico. Ele encostou a mão. Substancial. Olhou pela janela de vidro espelhado. Baixa demais para que se tivesse uma visão além da sebe que ladeava o portão da frente. Humm.

Os dois paletós azuis deram uma de guarda do Palácio de Buckingham, ficando cada um de um lado da porta. O Homem de Granito seguia-o com as mãos cruzadas nas costas. Uma porta na outra extremidade do cômodo se abriu. Myron não ficou surpreso ao ver Susan Lex entrar, sempre mantendo distância. Dessa vez, havia um homem com ela. Myron não se deu o trabalho de se aproximar.

– E você é...? – perguntou ele.

– Esse é meu irmão, Bronwyn – respondeu Susan.

– Não é o irmão que me interessa – replicou Myron.

– Sim, eu sei. Sente-se, por favor.

O Homem de Granito apontou para o sofá. Myron se acomodou no lábio inferior temendo ser engolido. O cão de guarda se instalou do seu lado. Que agradável.

– Bronwyn e eu gostaríamos que o senhor nos respondesse algumas perguntas, Sr. Bolitar – começou Susan.

– Pode chegar um pouco mais perto?

Ela sorriu.

– Acho que não.

– Eu tomei banho.

Susan ignorou o comentário:

– Pelo que sei, o senhor faz investigações ocasionalmente.

Myron não respondeu.

– Isso é correto?

– Depende do que quer dizer com investigações.

– Vou tomar isso como um “sim”.

Myron deu de ombros, indiferente.

– É por isso que está procurando nosso irmão? – perguntou ela.

– Já disse por que o estou procurando.

– Aquele papo de ele ser doador de medula óssea?

– Não é um papo qualquer.

– Por favor, Sr. Bolitar – disse ela, com aquele ar superior de gente rica –, eu sei que isso é mentira.

Myron começou a se levantar. O Homem de Granito pôs a mão em seu joelho. Parecia um bloco de cimento. Ele balançou a cabeça. Myron ficou onde estava.

– Não é mentira – insistiu.

– Estamos perdendo tempo – replicou Susan, fazendo um sinal para o Homem de Granito. – Mostre as fotos a ele, Grover.

Myron se virou para o guarda-costas.

– Grover era o nome do meu personagem favorito da Vila Sésamo. Queria que soubesse disso.

– Temos seguido você, Myron – disse o Homem de Granito, entregando-lhe uma série de fotografias.

Myron examinou-as: mostravam-no no condomínio com Stan Gibbs. Na primeira, estava batendo à porta. Na segunda, o jornalista punha a cabeça para fora. Na terceira, os dois entravam na casa.

– E...?

Myron franziu a testa.

– Sou um desastre para combinar roupas.

– Sabemos que está trabalhando para Stan Gibbs – disse Susan Lex.

– Fazendo o que exatamente? – questionou Myron.

– Investigando. Como eu falei antes. Agora que já sei seu verdadeiro motivo, me diga quanto custa para que o senhor desapareça.

– Não sei do que está falando.

– Quanto custa para que o senhor pare e desista? Ou vai nos obrigar a arruiná-lo também?

– Também?

Som de ficha caindo.

Myron voltou a atenção para o irmão silencioso.

– Me deixe perguntar uma coisa, Bronwyn. Você e Dennis frequentaram juntos o maternal. De repente, os dois desapareceram. Duas semanas depois, só você voltou. Por quê? O que aconteceu com o seu irmão?

Bronwyn abriu e fechou a boca como uma marionete. Olhou para a irmã em busca de ajuda.

– É como se ele tivesse desaparecido da face da Terra – continuou Myron. – Durante trinta anos, ficou fora do radar. Mas agora, bem, é como se tivesse voltado por alguma razão. Mudou de nome, abriu uma pequena conta bancária e doou sangue para um centro de medula óssea. O que está acontecendo, Bron? Faz alguma ideia?

– Não é possível! – exclamou Bronwyn.

A irmã silenciou-o com um olhar, mas Myron sentiu que havia algo no ar. Outro pensamento lhe veio à cabeça: talvez os irmãos Lex não tivessem as respostas. Talvez estivessem também procurando Dennis.

Enquanto ele estava imerso em devaneios, o Homem de Granito lhe deu um soco forte no estômago. Myron dobrou o corpo com a dor e caiu no chão. Tentou recuperar o fôlego, sufocado. Encostou a cabeça no joelho, pensando apenas numa coisa: ar. Precisava respirar.

A voz de Susan Lex ecoou em seus ouvidos:

– Stan Gibbs sabe da verdade. O pai dele é um mentiroso nojento. Suas acusações são totalmente infundadas. Mas vou defender minha família, Sr. Bolitar. Diga ao Sr. Gibbs que ele ainda não começou a sofrer. O que já aconteceu até agora não é nada comparado ao que ainda vou fazer com ele, e com o senhor se não parar. Está entendendo?

Ar. Golfadas de ar. Myron conseguiu não vomitar. Esperou, levantou a cabeça e encontrou os olhos dela.

– Nem um pouco.

Susan olhou para Grover.

– Dê um jeito nele.

Com essa, retirou-se. O irmão dirigiu-lhe uma última olhada e seguiu-a. Myron ia recuperando o fôlego aos poucos.

– Que belo soco, Grover.

O guarda-costas deu de ombros.

– Fui delicado com você.

– Da próxima vez, seja delicado quando eu estiver olhando, seu durão.

– O resultado vai ser o mesmo.

– Veremos – disse Myron, sentando-se. – Do que ela está falando, afinal de contas?

– Acho que a Srta. Lex foi muito clara. Mas como você parece estar com a cabeça um pouco confusa, vou expor novamente a questão. Ela não gosta de pessoas interferindo nos seus assuntos. Stan Gibbs, por exemplo, interferiu. Veja o que aconteceu com ele. Você interferiu. E está para ver o que vai acontecer.

Myron conseguiu se pôr de pé. Os paletós azuis ainda estavam na porta. O Homem de Granito começou a estalar outra vez os dedos.

– Escute bem, por favor. Vou quebrar a sua perna. Depois você vai sair daqui mancando e levar seu traseiro lamentável até Gibbs, dizendo que, se ele meter o nariz outra vez, vou exterminar os dois. Alguma pergunta?

– Só uma: você não acha que quebrar perna é meio clichê?

Grover sorriu.

– Não do jeito que eu faço.

Myron olhou em torno.

– Não tem para onde fugir, meu amigo.

– Quem falou em fugir?

Ele agarrou a pesada estátua do Movimento Intestinal. Os paletós sacaram suas armas. O Homem de Granito se esquivou. Porém, não eram eles que Myron visava. Ele ergueu a estátua, fez um giro de lançamento de disco e atirou-a contra a janela de vidro, que se estilhaçou.

Foi quando começou o tiroteio.

– Abaixem-se! – gritou Myron.

Os paletós obedeceram. Ele se jogou no chão. As balas continuaram. Fogo de franco-atirador. Uma destruiu a luz do teto. Outra acabou com o abajur.

Impossível não amar Win.

– Se querem viver, permaneçam abaixados! – gritou Myron.

As balas cessaram. Um dos paletós começou a se erguer quando outro projétil tirou-lhe um fino, quase repartindo seu cabelo.

Ele se atirou outra vez no chão, estendido como um tapete de urso.

– Estou me levantando e indo embora – avisou Myron. – Aconselho vocês a continuarem deitados. E... Grover?

– O quê?

– Dê um aviso pelo rádio, lá para baixo, mandando me deixarem passar. Não tenho certeza, mas acho que meu amigo vai lançar umas granadas se eu demorar muito a sair.

O Homem de Granito obedeceu. Ninguém se mexeu. Myron ficou de pé e saiu, quase assobiando.