O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 18 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 18

O CROSS RIVER ERA UM DESSES condomínios que parecem cenográficos, como se prédios inteiros pudessem desmoronar se alguém encostasse neles. Era um projeto arquitetônico apertado, com edifícios exatamente iguais. Caminhar por ali era como entrar no País das Maravilhas: as ruas pareciam se espelhar, deixando a pessoa tonta. Se alguém bebesse demais, iria acabar enfiando a chave na fechadura errada.

Myron estacionou perto da piscina do complexo. O lugar até que era bonito, mas ficava perto demais da Rota 80, a maior artéria que ligava Nova Jersey à Califórnia, e os sons do tráfego reverberavam no muro. Ele localizou a entrada do número 24 da Acre Drive. Caso tivesse identificado direito, as luzes estavam acesas e a televisão, ligada. Ele bateu à porta e viu um rosto espreitar pela janela ao lado, em silêncio.

– Sr. Gibbs?

Pelo vidro, o rosto perguntou:

– Quem é você?

– Meu nome é Myron Bolitar.

Uma breve hesitação.

– O jogador de basquete?

– É, já fui.

O homem o encarou por mais alguns segundos antes de abrir a porta. O odor de muitos cigarros escapou pela fresta e se insinuou pelas narinas de Myron. Stan Gibbs estava com um cigarro na boca – algo nada surpreendente. Sua barba por fazer estava grande demais para um episódio de Miami Vice. Usava um conjunto de moletom, de casaco amarelo e calça verde-escura, além de meia, tênis e um boné dos Colorado Rockets: o padrão de elegância comum compartilhado por quem faz jogging e por sedentários. Myron desconfiou de que se tratava do último caso.

– Como me descobriu? – perguntou Stan Gibbs.

– Não foi difícil.

– Isso não é resposta.

Myron deu de ombros.

– Não importa – falou Stan. – Não tenho nenhum comentário a fazer.

– Não sou repórter.

– E o que é então?

– Um agente esportivo.

Stan deu uma tragada no cigarro e o manteve na boca.

– Lamento desapontá-lo, mas não jogo futebol americano desde o ensino médio.

– Posso entrar?

– Não. O que você quer?

– Preciso encontrar o sequestrador do seu artigo – respondeu Myron.

Stan sorriu, exibindo dentes muito brancos, ainda mais levando-se em conta que era fumante. Sua pele tinha calombos e uma palidez invernal. O cabelo fino e maltratado contrastava com os olhos muito brilhantes, que mais pareciam faróis sobrenaturais.

– Você não lê os jornais? Eu inventei aquilo tudo.

– Inventou ou copiou de um livro?

– Admito meu erro.

– Ou talvez estivesse dizendo a verdade. Aliás, acho que seu entrevistado me ligou ontem à noite.

Stan balançou a cabeça e a cinza do cigarro, cada vez maior, continuava se equilibrando, como uma criança num brinquedo de parque de diversões.

– Não quero voltar a falar sobre esse assunto.

– Você plagiou a história?

– Já disse que não quero comentar...

– Não vou levar nada a público. Se você plagiou, se a história é fictícia, basta me dizer e vou embora. Não tenho tempo a perder com pistas falsas.

– Nada pessoal, mas você não está fazendo muito sentido.

– O nome “Davis Taylor” significa alguma coisa para você?

– Sem comentários.

– E Dennis Lex?

Essa o atingiu em cheio. O cigarro caiu de seus lábios, mas ele o aparou com a mão direita e depois o jogou na calçada, observando-o consumir-se.

– Talvez seja melhor você entrar.

A casa era um duplex com a marca registrada das novas construções americanas: o teto que lembrava o de uma catedral. Pelas grandes janelas, entrava bastante claridade, que iluminava uma decoração típica daqueles panfletos que vêm encartados em jornais. Uma estante grande de compensado ocupava uma parede, exibindo uma TV e várias prateleiras e portas; não muito distante, via-se uma mesa de centro de mesma madeira. Havia também um sofá listrado de azul e branco – Myron apostaria o dinheiro do seu almoço de que se tratava de uma cama box – e outro menor, de dois lugares, de estampa igual. O carpete tinha o mesmo tom neutro da fachada, um marrom-claro inofensivo. O lugar era limpo, embora se pudesse notar certa desordem, comum nas casas de homens divorciados, com revistas e livros empilhados aqui e ali, nada parecendo estar no local certo.

Ele convidou Myron a sentar-se no sofá.

– Quer tomar algo?

– Claro, o que tiver.

Sobre a mesa de centro, num porta-retrato, via-se a fotografia de um homem abraçado a dois garotos. Os três tinham um sorriso forçado, como se tivessem acabado de chegar em segundo lugar numa competição e não quisessem parecer decepcionados. Estavam de pé numa espécie de jardim. Atrás deles, havia uma estátua de mármore de uma mulher com um arco e uma aljava. Myron pegou o retrato e o examinou de perto.

– É você?

Stan levantou a cabeça enquanto colocava um punhado de gelo num copo.

– Sou o da direita. Com meu irmão e meu pai.

– De quem é a estátua?

– Da deusa Diana. Conhece?

– Não foi ela que virou a Mulher-Maravilha?

Stan riu.

– Pode ser Sprite?

Myron recolocou a foto sobre a mesa.

– Claro.

Stan serviu o refrigerante e o entregou a Myron.

– O que você sabe sobre Dennis Lex?

– Só sei que ele existe.

– Por que mencionou o nome dele para mim?

Myron encolheu os ombros.

– Por que você reagiu com tanta intensidade ao ouvi-lo?

Gibbs pegou outro cigarro e o acendeu.

– Foi você quem veio até mim.

– É verdade.

– Por quê?

Nada de segredos:

– Estou procurando um homem chamado Davis Taylor. É um doador de medula óssea compatível com uma criança que está esperando um transplante. Mas o cara sumiu. Consegui descobrir um endereço em Connecticut, mas ele não está lá. Pesquisei mais e descobri que Davis Taylor é um nome falso. O verdadeiro é Dennis Lex.

– Ainda não entendo o que isso tem a ver comigo.

– Pode parecer meio louco – continuou Myron –, mas deixei uma mensagem para Davis Taylor. Quando ele retornou a ligação, não falava coisa com coisa. Só repetia o tempo todo “plante as sementes”.

Um leve tremor percorreu Stan Gibbs, mas logo passou.

– O que mais ele disse?

– Basicamente isso. Que eu deveria plantar as sementes. Dar adeus à criança. Coisas assim.

– Não deve ser nada: leu meu artigo e decidiu se divertir um pouco à sua custa.

– Talvez. Mas isso não explica sua reação ao ouvir o nome de Dennis Lex.

Stan deu de ombros.

– A família é conhecida.

– Se eu tivesse dito Ivana Trump, você reagiria da mesma forma?

Gibbs ficou de pé.

– Preciso de um tempo para pensar.

– Pense em voz alta – sugeriu Myron.

Stan apenas balançou a cabeça.

– Você inventou essa história, Stan?

– Falamos sobre isso outra hora.

– Não é o bastante. Você me deve uma explicação agora. A história foi plagiada?

– Como você quer que eu responda?

– Stan?

– O quê?

– Não me importo com a sua situação. Não estou aqui para julgar nem para entregar você. Se inventou ou não a história, não faz a menor diferença para mim. Tudo que me interessa é encontrar um doador de medula. Ponto final. The end.

Os olhos de Stan começaram a marejar. Ele deu outra tragada no cigarro.

– Não. Não foi plágio. Nunca tinha visto aquele livro na vida.

Foi como se o recinto tivesse prendido a respiração e agora a soltasse.

– Como explica, então, a semelhança entre seu artigo e o romance?

Ele abriu a boca, deteve-se e balançou a cabeça.

– Seu silêncio o faz parecer culpado – afirmou Myron.

– Não tenho que dar explicação nenhuma a você.

– Tem, sim. Estou aqui tentando salvar a vida de uma criança. Será que você está tão envolvido assim com seus problemas a ponto de ignorar isso?

Stan voltou para a cozinha. Myron pôs-se de pé e o seguiu.

– Fale comigo. Talvez eu possa ajudar.

– Não, não pode.

– Como você explica as semelhanças, Stan? Só me diga isso, ok? Você já deve ter pensado nisso.

– Não preciso pensar nisso.

– Como assim?

Ele abriu a geladeira e pegou outra lata de Sprite.

– Você acha que todos os psicopatas são originais?

– Não estou entendendo.

– Você recebeu um telefonema de um cara falando sobre plantar sementes.

– Certo.

– Há duas possibilidades. Primeira, ele é o mesmo assassino sobre quem escrevi. E a segunda?

– Ele repetiu o que leu no seu artigo.

Stan estalou os dedos e apontou para Myron.

– Você acha que o sequestrador leu o romance e ficou, digamos, influenciado? E imitou?

Stan tomou outro gole.

– É uma teoria.

E muito boa, pensou Myron.

– E por que você não disse isso à imprensa? Por que não se defendeu?

– Não é da sua conta.

– Algumas pessoas dizem que é porque você tinha medo de que dessem uma vasculhada no seu passado e encontrassem mais invenções.

– E algumas pessoas são retardadas.

– Por que você não lutou?

– Fui jornalista a vida toda – respondeu Stan. – Sabe o que significa para um jornalista ser acusado de plágio? É como um funcionário de creche ser chamado de pedófilo. Estou acabado. Nada que eu diga pode mudar isso. Perdi tudo com esse escândalo. Mulher, filhos, emprego, reputação...

– A amante também?

Ele fechou os olhos de repente, com força, como uma criança querendo espantar o bicho-papão.

– A polícia acha que você matou Melina – falou Myron.

– Sei muito bem disso.

– Me conte o que aconteceu, Stan.

Ele abriu os olhos e balançou a cabeça.

– Preciso dar uns telefonemas, checar algumas pistas.

– Você não pode me deixar na mão.

– Vou ter que deixar.

– Me deixe ajudar.

– Não preciso da sua ajuda.

– Mas eu preciso da sua.

– Não neste momento – replicou Stan. – Vai ter que confiar em mim.

– Não sou muito de confiar.

Stan sorriu.

– Nem eu. Nem eu.