O Medo Mais Profundo
Capítulo 2
OS PAIS SE MANTIVERAM AFASTADOS. Apesar das intromissões já quase lendárias, os dois possuíam a extraordinária habilidade de vagar pela Ilha dos Xeretas sem pisar nas minas do exagero. Então desapareceram dentro da casa.
Emily tentou esboçar um sorriso, mas em vão.
– Ora, ora, ora – disse ela, quando ficaram a sós –, se não é o partidão que deixei escapar.
– Você falou isso na última vez em que nos encontramos.
– Falei?
Eles haviam se conhecido na biblioteca, no primeiro ano da Duke. Na época, Emily era gordinha – não que isso fosse ruim –, porém, com o passar dos anos, ela se tornou mais esguia e atlética – mais uma vez, nenhum problema. De qualquer forma, continuava impactante. Era mais atraente que bonita. Gostosa, exalando sensualidade. Na escola, usava o cabelo comprido e encaracolado, sempre com aquela aparência de “oh, usei o xampu errado”, tinha um sorriso matreiro, capaz de obter mais uma estrela na classificação de um filme, e um corpo sinuoso que parecia ter a palavra sexo piscando, como a imagem de um projetor velho. Não importava que não fosse bonita: não conseguiria eliminar a sensualidade nem se vestisse um saco de pano e colocasse um cachorro atropelado na cabeça.
O mais estranho é que os dois eram virgens quando se conheceram, tendo de alguma forma perdido a talvez superestimada revolução sexual dos anos 1970 e 1980. Myron sempre achou que essa história era só exagero ou, no mínimo, algo que não conseguira se infiltrar pelas fachadas de tijolinhos das escolas dos subúrbios. Por outro lado, ele era especialista em colocar a culpa em si mesmo. Logo, provavelmente se tratava de um defeito seu – se é que a ausência de promiscuidade poderia ser considerada um defeito. Sempre se sentira atraído pelas meninas “de família”, mesmo no ensino médio. Relações casuais nunca o interessaram. Cada garota que conhecia era avaliada como uma potencial parceira para a vida toda, uma cara-metade, um amor eterno, como se todos os relacionamentos fossem uma canção dos Carpenters.
Com Emily, entretanto, havia sido uma exploração sexual completa. Aprenderam tudo um com o outro em passos vacilantes, mas dolorosamente abençoados. Mesmo agora, por mais que a detestasse, podia ainda sentir a contração, lembrar-se da forma como seus nervos ficavam à flor da pele na cama. Ou no banco de trás do carro. Num cinema, numa biblioteca e, uma vez, até durante uma palestra de ciências políticas sobre Leviatã, de Hobbes. Seu primeiro relacionamento longo terminou mais como uma música da banda Meat Loaf: quente, pesado, suado, rápido.
Na verdade, fora mais do que isso. Myron e Emily ficaram juntos por três anos. Ele a amara e ela fora a primeira a partir seu coração.
– Tem algum café aqui perto? – perguntou ela.
– Uma Starbucks.
– Eu dirijo.
– Não quero ir com você, Emily.
Ela lhe deu aquele sorriso.
– Perdi o encanto, não é?
– Ele perdeu o efeito sobre mim já faz muito tempo. – Era uma meia verdade.
Emily se remexeu, inquieta. Myron observou, pensando no que Esperanza dissera. Não eram só a voz e as palavras: até os movimentos tinham duplo sentido.
– É importante, Myron.
– Não para mim.
– Você nem sabe do que se trata...
– Não interessa, Emily. Você é passado. Assim como o seu marido...
– Meu ex-marido. Me divorciei, lembra? E nunca soube o que ele fez com você.
– Claro – retrucou Myron. – Você foi apenas a motivação.
Ela o encarou.
– Não é tão simples assim. Você sabe disso.
Ele concordou; Emily estava certa, claro.
– Eu sempre soube por que fiz aquilo – falou Myron. – Estava sendo um idiota competitivo, querendo sempre ficar um passo à frente de Greg. Mas e você?
Ela balançou a cabeça. O antigo cabelo teria sido jogado de um lado para outro, por fim cobrindo metade do rosto. O penteado novo era mais curto e estilizado, mas Myron ainda imaginava as melenas encaracoladas.
– Isso não importa mais – retrucou ela.
– Acho que não. Mas sempre fiquei curioso.
– Nós dois bebemos muito.
– Simples assim?
– Sim.
Myron fez uma careta.
– Desculpa esfarrapada.
– Talvez tenha sido só por sexo.
– Um mero ato físico?
– Talvez.
– Uma noite antes de você se casar com outro cara?
– Foi uma burrice, ok?
– Se você diz...
– Talvez eu estivesse com medo – comentou ela.
– De se casar?
– De me casar com o homem errado.
– Meu Deus, você não tem vergonha na cara.
Emily ia continuar, porém se conteve, como se não tivesse mais energia para discutir. Myron queria que ela fosse embora, mas com ex-amantes sempre há uma tristeza subjacente. Diante da pessoa, estende-se uma estrada que não foi percorrida, uma espécie de “e se?”, a materialização de uma vida alternativa se as coisas tivessem sido um pouco diferentes. Ele não sentia mais o mínimo interesse por ela; mesmo assim, suas palavras ainda tinham o poder de fazer reaparecer seu antigo eu, com direito a mágoas e tudo o mais.
– Faz catorze anos – disse ela, em voz baixa. – Você não acha que já está na hora de seguir em frente?
Ele pensou no que aquela noite “meramente física” lhe custara. Tudo, talvez. O sonho de uma vida toda, com certeza.
– Você está certa – respondeu Myron, virando-se para outro lado. – Por favor, vá embora.
– Preciso da sua ajuda.
– Como você mesma disse, está na hora de seguir em frente.
– Apenas tome um café comigo. Com uma velha amiga.
Ele quis recusar, mas o passado exercia uma força muito grande. Myron assentiu, com medo de falar qualquer coisa. Foram de carro, em silêncio, até a Starbucks e pediram cafés elaborados a um barista que parecia se achar um artífice da bebida. Colocaram todos os condimentos possíveis, debruçando-se sobre a pequena bancada, passando o braço um por cima do outro para pegar o leite desnatado e o adoçante, como se jogassem uma espécie de Twister. Sentaram-se em cadeiras de metal que tinham o recosto muito baixo. O sistema de som estava tocando reggae, um CD chamado Jamaican Me Crazy.
Emily cruzou as pernas e tomou um gole do café.
– Você já ouviu falar em anemia de Fanconi?
Um começo muito interessante.
– Não.
– É um tipo de anemia hereditária causada por uma deficiência na medula óssea. Ela enfraquece os cromossomos.
Myron esperou.
– Você está familiarizado com transplantes de medula óssea?
Estranha linha de interrogatório. Contudo, ele decidiu jogar limpo:
– Um pouco. Um amigo meu teve leucemia e precisou de um. Eles instalaram uma unidade de transplante na sinagoga. Fomos todos até lá para fazer o exame.
– Quando você diz “fomos todos”...
– Meus pais, a família toda. Acho que Win também.
Ela inclinou a cabeça.
– Como está Win?
– O mesmo de sempre.
– Lamento ouvir isso. Quando estávamos na Duke, ele costumava escutar a gente fazer amor, certo?
– Só quando fechávamos a cortina e ele não conseguia assistir.
Emily riu.
– Ele nunca gostou de mim.
– Você era a favorita dele.
– Sério?
– Isso não quer dizer muito.
– Ele odeia mulher, não é?
Myron pensou no assunto.
– Como objeto sexual, gosta. Mas em termos de relacionamento...
– Um tipo estranho.
Imagine se ela o conhecesse de verdade. Emily deu outro gole no café.
– Estou enrolando.
– Já reparei.
– E o que aconteceu com seu amigo que estava com leucemia?
– Morreu.
Ela empalideceu de repente.
– Sinto muito. Que idade ele tinha?
– Trinta e quatro.
Emily tomou mais um gole, segurando o copo com as duas mãos.
– Você faz parte, então, do cadastro nacional de doadores de medula?
– Acho que sim. Doei sangue e eles me entregaram um cartão de doador.
Ela fechou os olhos.
– Que foi? – perguntou Myron.
– A anemia de Fanconi é fatal. Pode ser tratada durante um tempo, com transfusões de sangue e hormônios, mas só é curada com transplante de medula.
– Não estou entendendo, Emily. Você está com essa doença?
– Ela não dá em adultos – respondeu ela, pousando o café e olhando para cima.
Ele não era muito bom em decifrar olhares, mas o sofrimento daquele era tão óbvio quanto um letreiro de neon.
– Só dá em crianças.
Como se numa deixa, a trilha sonora da Starbucks mudou, passando para uma música instrumental sombria. Myron aguardou, mas não demorou muito.
– Meu filho tem essa doença – revelou ela.
Myron se lembrou da visita à casa em Franklin Lakes, quando Greg havia desaparecido. Vira o garoto brincando no quintal com a irmã. Devia ter sido dois ou três anos antes. Um menino de mais ou menos 10 anos e uma irmã de 8, talvez. Greg e Emily estavam no meio de uma batalha sangrenta pela custódia, com os filhos no meio do fogo-cruzado, daqueles de que ninguém escapa incólume.
– Sinto muito – falou ele.
– Precisamos encontrar uma medula compatível.
– Pensei que irmãos quase sempre fossem compatíveis.
Seus olhos vagaram pela Starbucks.
– A chance é de 25 por cento – explicou ela, calando-se abruptamente.
– Ah.
– O cadastro nacional só encontrou três potenciais doadores. Isto é, os exames preliminares de HLA revelaram que eles eram uma esperança. O HLA-A e o HLA-B eram compatíveis, mas ainda seriam necessários outros exames mais complexos, de sangue e tecido... – Ela se calou outra vez. – Estou ficando muito técnica. Não é minha intenção. Mas quando um filho adoece assim, é como se você passasse a viver numa redoma de jargão médico.
– Eu entendo.
– De qualquer modo, passar por essa primeira triagem já é como ganhar na loteria. O centro de hematologia convoca os doadores em potencial e realiza uma bateria de testes, mas a possibilidade de que eles sejam compatíveis para um transplante é muito baixa, principalmente quando só existem três.
Myron assentiu, ainda sem ter ideia do motivo para ela lhe contar tudo aquilo.
– Mas tivemos sorte – continuou Emily. – Um dos três era compatível com Jeremy.
– Que ótimo.
– Mas temos um problema – disse ela, dando um sorriso torto. – O doador desapareceu.
– Como assim, desapareceu?
– Não sei os detalhes. O cadastro é confidencial. Ninguém me explica o que está acontecendo. Parecia que seguíamos no caminho certo quando, de repente, o doador sumiu. O médico não pode dar nenhuma informação... como eu disse, as informações são confidenciais.
– Talvez o doador tenha mudado de ideia.
– Então precisamos fazer com que mude outra vez ou Jeremy vai morrer – replicou Emily com firmeza.
– O que você acha que aconteceu? Por que ele teria desaparecido?
– Ele ou ela.
– O quê?
– Não sei nada sobre a pessoa: idade, sexo, endereço, nada. Mas Jeremy não está bem e a chance de encontrar outro doador a tempo é quase nula. – Ela tentava se controlar, mas Myron podia ver sua expressão prestes a desmoronar. – Precisamos encontrar esse doador.
– Foi por isso que você me procurou? Para que eu o encontre?
– Você e Win encontraram Greg quando ninguém conseguia. Assim que ele desapareceu, Clip foi logo até você. Por quê?
– Essa é uma história muito longa.
– Nem tão longa assim, Myron. Você e Win são especialistas nesse tipo de coisa. Vocês têm talento para isso.
– Mas não num caso desses – objetou ele. – Greg é um atleta famoso. Tem acesso à mídia, pode oferecer recompensas, pagar detetives particulares.
– Já estamos fazendo isso. Greg tem uma entrevista coletiva marcada para amanhã.
– Então pronto.
– Mas não vai dar certo. Eu disse ao médico de Jeremy que pagaríamos o preço que fosse ao doador, mesmo sendo uma prática ilegal. Mas tem alguma coisa errada. Tenho medo de que essa exposição toda cause o efeito contrário. Que faça com que o doador se esconda ainda mais, não sei.
– O que Greg acha disso tudo?
– Não conversamos muito, Myron. E, quando isso acontece, a discussão não costuma ser muito agradável.
– Greg sabe que você está me contando isso agora?
– Ele odeia você tanto quanto você o odeia. Talvez mais ainda.
Myron resolveu interpretar aquilo como um “não”. Emily mantinha os olhos fixos nele, examinando-lhe o rosto como se houvesse alguma resposta ali.
– Não posso ajudar você, Emily.
Ela pareceu ter levado uma bofetada.
– Me solidarizo com você, mas estou superando alguns problemas particulares.
– Está dizendo que não tem tempo?
– Não é isso. Um detetive particular teria mais chance...
– Greg já contratou quatro. Não conseguem nem descobrir o nome do doador.
– Duvido que eu possa fazer melhor.
– É a vida do meu filho, Myron.
– Eu entendo, Emily.
– Não dá para você pôr de lado a animosidade que sente por mim e pelo Greg?
Ele não tinha certeza.
– Não é esse o caso. Sou um empresário esportivo, e não detetive.
– Isso não o impediu de investigar outras vezes.
– E veja como as coisas terminaram. Sempre que me meto, é um desastre.
– Meu filho tem 13 anos, Myron.
– Lamento...
– Não quero a sua piedade, cacete! – Seus olhos se estreitaram, negros, e ela se inclinou até seus rostos ficarem a centímetros um do outro. – Quero que você faça a conta.
Ele a encarou, confuso.
– O quê?
– Você é um empresário. Sabe tudo sobre números, certo? Faça a conta então.
Myron se afastou um pouco.
– De que diabo você está falando?
– O aniversário de Jeremy é dia 18 de julho. Faça a conta.
– Que conta?
– Mais uma vez: ele tem 13 anos, nasceu no dia 18 de julho e eu me casei em 10 de outubro.
Nada. Por alguns segundos, ficou ouvindo as mães conversando entre si, um bebê chorando, um barista gritando uma ordem para outro. Então compreendeu. Myron sentiu o coração congelar, o peito comprimido de forma insuportável, tornando quase impossível respirar. Abriu a boca, mas nada saiu. Era como se alguém tivesse batido com um taco de beisebol no seu plexo solar. Emily o observava, balançando a cabeça.
– Isso mesmo – falou ela. – Ele é seu filho.