O Medo Mais Profundo
Capítulo 12
MYRON PASSOU O RESTO DO dia ao telefone, andando de um lado para outro. Conversou com treinadores de times universitários, garimpando atletas. Contatou clientes e escutou seus problemas, reais e imaginários, dando uma de psicanalista – o que era também parte de seu trabalho. Examinou seu cadastro de empresas, tentando obter alguns contratos de publicidade.
Um cliente em potencial ligou espontaneamente:
– Sr. Bolitar? Sou Ronny Angle, da Rack Enterprises. Conhece nossa empresa?
– Vocês administram uns bares de topless, certo?
– Preferimos chamá-los de casas noturnas exóticas para clientes de alto nível.
– E eu prefiro que me chamem de garanhão bem-dotado – retrucou Myron. – O que posso fazer pelo senhor?
– Ronny, por favor. Posso chamá-lo de Myron?
– Pode.
– Ótimo, Myron. A Rack Enterprises está iniciando um empreendimento.
– Certo.
– Você já deve ter lido sobre ele: uma cadeia de cafés chamada La, La, Latte.
– Sério?
– Perdão?
– Bem, acho que vi alguma coisa, mas pensei que fosse piada.
– Não é nenhuma piada, Sr. Bolitar.
– Então vocês vão mesmo abrir cafés de topless?
– Preferimos chamá-los de experiências com cafés eróticos.
– Entendo. Mas as suas, ahn, baristas vão fazer topless, correto?
– Correto.
– Você não acha que pedir leite vai ganhar um duplo sentido?
– Que engraçado, Myron.
– Obrigado, Ronny.
– Queremos começar com uma festa de arromba.
– Ahn... Acho que vocês não deveriam usar essa expressão nesse contexto.
– Você realmente é hilário, Myron.
– Obrigado mais uma vez, Ronny.
– Vou direto ao assunto, ok? Nós gostamos de Suzze T.
Suzze T era Suzze Tamirino, uma jogadora do circuito de tênis profissional.
– Vimos a foto dela de traje de banho na Sports Illustrated e, bem, ficamos bastante impressionados. Gostaríamos que ela fizesse uma aparição para nosso evento de abertura.
Myron esfregou a ponte do nariz com o polegar e o indicador:
– Quando você diz aparição...
– Uma rápida performance.
– Rápida como?
– Não mais que cinco minutos.
– Não quero saber do tempo, mas da roupa.
– Vamos pedir um nu frontal completo.
– Bem, obrigado por ter pensado em nós, Ronny, mas acho que Suzze não vai se interessar.
– Estamos oferecendo 200 mil dólares.
Myron se endireitou na cadeira. Era fácil desligar, mas, com uma grana daquelas, tinha a responsabilidade de prosseguir:
– E se ela usar um top pequeno?
– Não.
– Um biquíni.
– Não.
– Um biquinizinho mínimo quase invisível?
– Vou ser o mais claro possível: os mamilos precisam estar à mostra.
– Os mamilos?
– Esse ponto é inegociável.
Myron prometeu retornar a chamada ao longo da semana. Os dois desligaram. Mamilos à mostra... Que negócio!
Esperanza entrou sem bater, com os olhos arregalados e brilhantes.
– Lamar Richardson está na linha um.
– Em pessoa?
Ela assentiu.
– Não é nenhum parente, secretário particular ou astrólogo favorito?
– O próprio Lamar.
Uma notícia maravilhosa.
Myron tirou o fone do gancho.
– Alô.
– Vamos nos encontrar – falou Lamar.
– Claro.
– Quando?
– Você manda.
– Quando você está livre?
– Você manda – repetiu Myron.
– Estou em Detroit agora.
– Pego o próximo voo então.
– Sério?
– Sério.
– Você não devia fingir que está muito ocupado?
– Vamos ter um encontro romântico?
Lamar riu.
– Não, creio que não.
– Então vou pular a parte de me fazer de difícil. Esperanza e eu queremos que você assine contrato com a MB. Fazemos um bom trabalho. Vamos dar prioridade a você. E não tentaremos manipulá-lo.
Myron sorriu para Esperanza. Ele era bom naquilo, não era?
Lamar informou que estaria em Manhattan naquela semana e gostaria de se encontrar com ele. Marcaram a hora e Myron desligou. Ele e Esperanza ficaram sentados, sorrindo um para o outro.
– Nós temos uma chance – disse ela.
– Sim.
– Qual vai ser nossa estratégia?
– Pensei em impressioná-lo com meu raciocínio ágil.
– Hum... Talvez eu deva usar algo mais decotado.
– Eu já estava meio que contando com isso.
– Impressioná-lo com inteligência e beleza.
– Isso. Mas quem vai oferecer o quê?
Quando Myron retornou ao Dakota, Win estava saindo com a bolsa de couro que usava para ir à academia e Terese já tinha ido embora.
– Ela deixou um bilhete – avisou o amigo, entregando-o a Myron.
Tive que ir mais cedo. Te ligo.
Terese
Myron leu outra vez a mensagem, mas ela não mudou. Dobrou o papel e o deixou de lado.
– Você está indo para o mestre Kwon?
Mestre Kwon era o professor de artes marciais dos dois.
Win assentiu.
– Ele tem perguntado por você.
– E o que você responde?
– Que você surtou.
– Obrigado.
Win fez uma leve mesura e ergueu a bolsa da academia.
– Posso dar uma sugestão?
– Manda.
– Já faz muito tempo que você não vai ao dojang.
– Eu sei.
– Você está muito estressado – continuou Win. – Precisa de uma válvula de escape. Um foco. Um pouco de equilíbrio. Estrutura.
– Você vai ficar com uma pedrinha na mão me desafiando a pegá-la?
– Não, hoje não. Mas venha comigo.
Myron deu de ombros.
– Vou pegar minhas coisas.
Os dois já estavam saindo quando Esperanza ligou.
– Para onde você está indo? – perguntou ela.
– Para a academia do mestre Kwon.
– Encontro você lá.
– Por quê? O que aconteceu?
– Tenho informações sobre Davis Taylor.
– E...?
– E são mais do que estranhas. Win está indo com você?
– Sim.
– Pergunte se ele sabe alguma coisa sobre a família de Raymond Lex.
Silêncio.
– Raymond Lex já morreu, Esperanza.
– Myron, eu disse a família.
– Isso tem a ver com Davis Taylor?
– Vai ser mais fácil explicar pessoalmente. Vejo vocês daqui a uma hora.
Ela desligou.
Um dos manobristas já tinha buscado o Jaguar de Win e estava esperando por eles na Central Park West. Ah, os ricos... Myron sentou-se no couro macio. O amigo pisou no acelerador. Era muito bom em acelerar; só tinha problemas com o freio.
– Você conhece a família de Raymond Lex?
– Eram meus clientes – respondeu Win.
– Você está brincando?
– Sim, sou comediante.
– Você esteve diretamente envolvido naquela discussão sobre a herança?
– Chamar aquilo de discussão é como chamar uma catástrofe nuclear de fogueira de acampamento.
– É difícil dividir bilhões, né?
– De fato. Mas por que estamos falando sobre o clã dos Lex?
– Esperanza vai nos encontrar no dojang. Tem informações sobre Davis Taylor. A família Lex está envolvida de alguma forma.
Win arqueou as sobrancelhas.
– Agora a história está ficando interessante.
– Me fale um pouco sobre o caso.
– A maior parte saiu na mídia. Raymond Lex escreveu um best-seller controverso, chamado Confissões à meia-noite, que virou filme, fenômeno de bilheteria, ganhador de Oscar. De repente, passou de professor de faculdade a milionário. Ao contrário da maioria dos seus colegas artistas, entendia de negócios. Investiu e comprou propriedades, reunindo um patrimônio líquido substancial, embora sigiloso.
– Os jornais falam em bilhões.
– Não posso discordar.
– É muito dinheiro.
– Da maneira como você fala – disse Win –, parece um trecho de Proust.
– Ele nunca escreveu outro livro?
– Não.
– Estranho.
– Na verdade, não. Margaret Mitchell também não. E Lex ao menos se manteve ocupado. É difícil construir uma das maiores corporações particulares do mundo e organizar noites de autógrafos ao mesmo tempo.
– Agora que ele morreu, a família está, digamos, em estado de catástrofe nuclear?
– Quase isso.
Mestre Kwon tinha transferido seu quartel-general e dojang principal para o segundo andar de um prédio na Rua 23, perto da Broadway. Cinco estúdios com piso de madeira, paredes espelhadas, sistema de som de alta qualidade, aparelhos de musculação novos e reluzentes – ah, e alguns daqueles pôsteres orientais de papel de arroz, que davam ao lugar um toque de Velho Mundo asiático.
Os dois vestiram o dobok, um uniforme branco, e amarraram as faixas pretas. Myron vinha aprendendo tae kwon do e hapkido desde que Win os apresentara para ele na faculdade, mas não estivera num dojang mais que cinco vezes nos últimos três anos. O amigo, por outro lado, permanecia devotamente fiel. Não se deve puxar a capa do Super-Homem, cuspir no vento, tirar a máscara do Cavaleiro Solitário nem se meter com Win.
Mestre Kwon estava com mais de 70 anos, mas parecia ter vinte a menos. Win o conhecera durante suas viagens pela Ásia, aos 15 anos. Pelo pouco que Myron sabia, o mestre fora sumo sacerdote ou algo do gênero num pequeno monastério budista, saído diretamente de algum filme de vingança feito em Hong Kong. Quando emigrou para os Estados Unidos, falava muito pouco inglês. Agora, mais ou menos vinte anos depois, não falava quase nada. Assim que chegou àquelas bandas, abriu uma cadeia de academias excelentes de tae kwon do – com apoio financeiro de Win, óbvio. Após ver os filmes do Karatê Kid, passou a fazer o papel de velho sábio em tempo integral. Começou a se vestir como o Dalai-Lama e a iniciar cada frase com “Confúcio dizia”, ignorando o detalhe de que o filósofo era chinês, não coreano.
Win e Myron foram até a sala do mestre Kwon. À entrada, os dois fizeram uma profunda reverência.
– Entrar, por favor – disse ele.
A mesa era de um carvalho de qualidade; a cadeira, de couro fino e aparência ortopédica. O mestre estava parado num canto, segurando um taco de golfe e vestindo um terno esplêndido, feito sob medida. Seu rosto se iluminou quando ele viu Myron, e os dois se abraçaram.
Ao se separarem, Kwon perguntou:
– Você melhor?
– Melhor – respondeu Myron.
O velho sorriu e segurou a própria lapela.
– Armani.
– Já desconfiava.
– Gosta?
– É lindo.
Satisfeito, mestre Kwon falou:
– Vão.
Os dois fizeram uma mesura. Depois, no dojang, assumiram os papéis costumeiros: Win guiava e Myron seguia. Começaram a meditação. O amigo rico adorava meditar, como já pudemos confirmar. Sentou-se em posição de lótus, as palmas viradas para cima, mãos sobre o joelho, costas eretas, ponta da língua encostada nos dentes superiores frontais. Inspirava o ar pelo nariz, forçando-o para baixo, deixando o abdômen fazer o trabalho. Myron tentava imitá-lo – havia anos –, mas não levava jeito. Mesmo durante períodos menos caóticos, sua mente se perdia. O joelho ruim se contraía. Ele ficava inquieto.
O alongamento foi abreviado para apenas dez minutos. Win, mais uma vez, realizava tudo sem esforço, abrindo as pernas no solo, depois tocando os dedos do pé com facilidade, ossos e juntas flexíveis como o histórico de votos de um político. Myron nunca fora um cara naturalmente ágil. Na época em que treinava com seriedade, conseguia fazer tudo aquilo sem dificuldade, mas isso parecia ter ocorrido muito tempo antes.
– Já estou dolorido – comentou Myron com um gemido.
Win inclinou a cabeça.
– Estranho.
– O quê?
– Foi isso que a garota de ontem me disse de noite.
Praticaram um pouco de boxe e Myron logo notou como estava fora de forma. O pugilato é a atividade mais cansativa do mundo. Não acredita? Encontre um saco de pancadas e soque-o durante um round de três minutos apenas. E é um saco que não revida os golpes. Tente, só um round. Você verá.
Quando Esperanza chegou, o treinamento de boxe felizmente cessou e Myron ficou encurvado, apoiado nos joelhos, arfando. Então, fez uma reverência para Win, jogou a toalha sobre o ombro e pegou uma garrafinha d’água. A amiga cruzou os braços e esperou. Alguns alunos passaram pela porta e olharam-na duas vezes para se certificar.
Esperanza entregou uma folha de papel a Myron.
– A certidão de nascimento de Davis Taylor, batizado como Dennis Lex.
– Lex – repetiu Myron. – Como...
– Sim.
Ele examinou a fotocópia. Segundo o documento, Dennis Lex teria 37 anos. O nome do pai era Raymond Lex e o da mãe, Maureen Lehman Lex. Local de nascimento: East Hampton, Nova York.
Myron passou o papel para Win.
– Eles tiveram outro filho?
– Aparentemente sim – respondeu Esperanza.
Myron olhou para Win, que deu de ombros.
– Ele deve ter morrido jovem.
– Se é que morreu – interveio Esperanza. – Não consigo encontrar essa informação em lugar nenhum. Não existe certidão de óbito.
– Ninguém na família jamais mencionou outro filho? – perguntou Myron a Win.
– Não – respondeu ele e, voltando-se para Esperanza, indagou: – O que mais você conseguiu?
– Não muito. Dennis Lex mudou o nome para Davis Taylor oito meses atrás. Também encontrei isto – acrescentou ela, entregando-lhe uma fotocópia de um recorte de jornal.
Era um pequeno anúncio de nascimento na Hampton Gazette, datado de 37 anos antes:
Raymond e Maureen Lex, de Wister Drive, em East Hampton, têm o prazer de anunciar o nascimento do filho, Dennis, com 2 quilos e 95 gramas, no dia 18 de junho. Dennis junta-se à irmã, Susan, e ao irmão, Bronwyn.
Myron balançou a cabeça.
– Como é que ninguém sabe disso?
– Não é tão surpreendente assim – comentou Win.
– O que você acha que aconteceu?
– Nenhuma das empresas da família Lex é pública. Eles são obcecados por privacidade. Mantêm a segurança em volta o dia inteiro, e do melhor tipo que o dinheiro pode comprar. Todo mundo que trabalha para a família é obrigado a assinar um acordo de confidencialidade.
– Até você?
– Não assino acordos desse tipo. Por mais dinheiro que esteja envolvido.
– E eles nunca pediram que você assinasse nada?
– Sim, pediram. Eu me recusei e nos desligamos.
– Você desistiu deles como clientes?
– Sim.
– Seria um grande negócio. Você sempre mantém sigilo de qualquer forma.
– Exatamente. Os clientes me contratam não só por causa do meu brilhantismo no mundo financeiro, mas também porque sou um modelo de discrição.
– Nunca negligencie essa sua modéstia espantosa – comentou Myron.
– Não preciso assinar um contrato dizendo que não vou revelar nada. Isso já está implícito. É o equivalente a assinar um documento afirmando que não vou incendiar a casa deles.
Myron assentiu.
– Boa analogia.
– Sim, obrigado, mas estou tentando ilustrar a que ponto essa família chega para manter a privacidade. Até essa disputa pela herança surgir, a mídia não fazia a menor ideia da extensão das empresas de Raymond Lex.
– Mas estamos falando do filho dele. Você saberia de sua existência.
Win apontou para o recorte de jornal.
– Veja quando ele nasceu: antes de o livro do pai ser publicado, quando Lex era só um professorzinho de cidade pequena. Não era uma notícia importante.
– Você acha mesmo?
– Tem uma explicação melhor?
– Então onde está o garoto agora? Como pode o filho de uma das famílias mais ricas dos Estados Unidos não ter documentos? Nem cartão de crédito, carteira de motorista, registro no imposto de renda, nenhum rastro? Por que trocou de nome?
– A última resposta é fácil.
– É?
– Ele está se escondendo.
– De quê?
– Dos irmãos, talvez – arriscou Win. – Como disse antes, a disputa pela herança é meio suja.
– Isso faria sentido... e eu enfatizo a palavra faria, não faz... se ele estivesse por aí antes. Mas como pode não existir documentação sobre ele? Do que está se escondendo? E por que cargas-d’água pôs o nome no cadastro de doadores de medula?
– Boas perguntas.
– Muito boas – concordou Esperanza.
Myron leu outra vez o anúncio e olhou para os amigos.
– Que bom que entramos num consenso.