O Medo Mais Profundo
Capítulo 35
STAN IA AO VOLANTE E Greg sentara-se no banco do carona.
– Aonde estamos indo? – perguntou Myron, que ia atrás.
– Bernardsville – respondeu Stan. – Fica em Morris.
Myron conhecia a cidade.
– Minha avó morreu faz três anos – continuou Stan. – Ainda não vendemos a casa. Meu pai às vezes fica lá.
– Onde mais?
– Em Waterbury, Connecticut.
Greg e Myron se entreolharam. O velho de peruca loura. A ficha caiu ao mesmo tempo para os dois.
– Ele é Nathan Mostoni?
– É o pseudônimo principal dele. O verdadeiro Nathan Mostoni é outro paciente de Pine Hills, aquela lixeira luxuosa para malucos. Mostoni foi quem deu a ideia de usar a identidade dos internos para dar golpes. Ele e meu pai se tornaram grandes amigos. Quando Nathan ficou completamente delirante, meu pai tomou a identidade dele.
Greg balançou a cabeça e cerrou os punhos.
– Você devia ter entregado esse canalha.
– O senhor ama seu filho, não é, Sr. Downing?
Greg fuzilou Stan com um olhar que poderia ter atravessado barras de titânio.
– Que diabo isso tem a ver com o que estamos falando?
– Gostaria que seu filho o delatasse um dia?
– Não me venha com essa. Se eu fosse um maníaco psicopata delirante, meu filho poderia me entregar. Ou melhor, poderia enfiar uma bala na minha cabeça. Você sabia que seu velho era doente, certo? O mínimo que podia ter feito era obter ajuda.
– Nós tentamos – replicou Stan. – Ele passou a maior parte da vida adulta em instituições para doentes mentais. Não adiantou nada. Depois fugiu. Quando enfim me ligou, fazia oito anos que não o via. Imaginem, oito anos. Disse que queria conversar comigo como repórter. Deixou isso bem claro. Como jornalista. O que quer que contasse, eu não poderia revelar minha fonte. Me fez prometer. Fiquei num dilema infernal. Mas concordei. Aí ele contou sua história. O que andava fazendo. Eu mal podia respirar. Queria morrer. Cair fulminado no chão.
Stan se concentrava na estrada. Myron olhava pela janela. Pensava nas antigas vítimas: o pai dos três filhos pequenos, a universitária, o jovem casal. Pensou no grito de Jeremy ao telefone, em Emily esperando em casa, sua mente plantando sementes doentes e negras.
Eles saíram da Rota 78 e pegaram a I-287 rumo ao norte. Depois tomaram umas ruas tortuosas, sem grandes retas. Bernardsville era uma cidade de linhagens abastadas e riqueza rústica, de moinhos convertidos em habitações, casas de pedra e rodas hidráulicas. Havia campos com grama marrom alta balançando ao vento, morta. Tudo muito velho e tomado pelo mato.
– É nesta rua – avisou Stan.
Myron olhou pela janela. Sua boca estava seca. Sentia um formigamento na barriga. O carro percorria mais uma via tortuosa; os pneus esmagavam cascalho. Viam-se terrenos muito arborizados em meio a outros típicos de subúrbio, com gramados na frente. Muitas casas em estilo colonial e aqueles ranchos de meados dos anos 1970, que se estragavam como leite fora da geladeira. Uma placa amarela alertava sobre crianças brincando, mas Myron não viu nenhuma.
Eles pararam num acesso esburacado, onde o mato crescia entre as rachaduras. Myron baixou o vidro da janela. Havia muito capim queimado, mas o doce aroma veranil dos lírios ainda pairava no ar, saturando-o. Grilos cantavam. Flores silvestres brotavam. Não se via qualquer sinal de ameaça.
À frente, Myron avistou o que parecia ser uma casa de fazenda. Venezianas negras contrastavam com a fachada de madeira branca. Luzes vinham do interior, dando à casa um brilho forte, suave e estranhamente aconchegante. A varanda da frente era do tipo que pedia banco de balanço com uma jarra de limonada ao lado.
Quando o carro chegou à porta, Stan parou e desligou o motor. Os grilos reduziram a intensidade do cricrilar. Myron quase esperou que alguém fosse comentar que estava tudo calmo e outro acrescentar: “É, calmo demais.”
Stan se virou para eles.
– É melhor eu entrar primeiro.
Nenhum dos dois se opôs. Greg olhava pela janela para a casa, provavelmente prevendo horrores inenarráveis. A perna esquerda de Myron começou a ter espasmos – isso acontecia sempre que estava tenso. Stan segurou o puxador da porta do carro.
Foi quando a primeira bala acertou a janela do carona.
O vidro explodiu e Myron viu a cabeça de Greg dar um tranco numa velocidade inimaginável. Uma gosma vermelha, espessa, atingiu o rosto de Myron.
– Greg!
Não deu tempo de raciocinar. O instinto falou mais alto. Myron o agarrou, puxou-o para baixo, tentando ao mesmo tempo manter a própria cabeça protegida. Sangue. Muito sangue de Greg. Ele sangrava muito, mas Myron não sabia dizer por onde. Outro tiro foi disparado. Outra janela se estilhaçou, os cacos caindo sobre sua cabeça. Ele mantinha a mão sobre Greg, tentando protegê-lo. O próprio Greg passava inconscientemente a mão no peito e no rosto, procurando com tranquilidade o buraco da bala. O sangue continuava a escorrer. Do pescoço. Ou da clavícula. Impossível dizer. Não dava para ver. Myron tentava conter o fluxo apenas com a mão, empurrando o líquido espesso para longe, encontrando o ferimento com o dedo e fazendo pressão com a palma. O sangue, no entanto, escorria por entre seus dedos. Greg o encarou com olhos muito abertos.
Stan pôs as mãos na cabeça e se abaixou.
– Pare! – berrou ele, de maneira quase infantil. – Pai!
Outra bala. Mais estilhaços. Myron enfiou a mão no bolso e sacou a arma. Greg segurou-a, puxando-a para baixo.
– Não pode matá-lo. Se ele morrer... É a última esperança de Jeremy.
Havia sangue em sua boca agora. Myron assentiu, mas não guardou a arma. Olhou para Stan. Ao longe, ouviram um ruído de helicóptero. Depois sirenes. Os federais estavam a caminho. Nenhuma surpresa.
A respiração de Greg ficou entrecortada. Os olhos se tornaram de um cinza baço.
– Temos que fazer algo, Stan.
– Continue abaixado.
Ele abriu a porta e berrou:
– Pai!
Nenhuma resposta.
Stan saiu do carro e ficou parado com as mãos levantadas.
– Por favor! Logo, logo eles vão chegar aqui. Vão matar você.
Nada. O ar estava tão parado que Myron pensou ainda estar ouvindo o eco dos disparos.
– Pai?
Myron ergueu a cabeça um pouco e arriscou dar uma olhada. Um homem surgiu da lateral da casa. Edwin Gibbs usava uniforme militar completo, com botas de combate. Trazia um cinturão de balas pendurado no ombro. O rifle estava apontado para o chão. Reconheceu Nathan Mostoni, embora parecesse vinte anos mais jovem. Andava com o queixo empinado, as costas eretas.
Greg gorgolejou. Myron rasgou-lhe a camisa e comprimiu-a sobre o ferimento. Mas os olhos estavam se fechando.
– Fique comigo – implorou Myron. – Vamos, Greg. Fique aqui.
Ele não respondeu. Os olhos vagaram e se fecharam. Myron sentiu o coração subir à boca.
– Greg?
Tomou-lhe o pulso. Ainda presente. Não era médico, mas lhe pareceu fraco. Ah, merda. Isso, não.
Fora do carro, Stan se aproximou de Edwin.
– Por favor, largue o rifle, pai.
Os carros dos federais invadiram o acesso à casa. Freadas ruidosas. Agentes saindo dos veículos, tomando posição, usando as portas abertas como escudos e apontando as armas. Edwin Gibbs parecia confuso, em pânico, como Frankenstein cercado de repente pelos aldeões enfurecidos. Stan se apressou até ele.
O ar pareceu se adensar feito melaço. Era difícil se mover, respirar. Myron podia quase sentir a tensão dos agentes, os dedos coçando, tocando o metal frio do gatilho. Soltou Greg um instante e gritou:
– Vocês não podem atirar nele!
Um dos federais tinha um megafone.
– Largue o rifle! Agora!
– Não atirem! – berrou Myron.
Por um momento, nada aconteceu. O tempo pareceu se acelerar e congelar ao mesmo tempo. Outro carro do FBI entrou no acesso cantando pneu. Um furgão de reportagem vinha atrás e freou brusco. Stan continuava andando em direção ao pai.
– Você está cercado – disse o agente ao megafone. – Largue o rifle e ponha as mãos atrás da cabeça. Fique de joelhos.
Edwin olhou para a esquerda e para a direita. Depois sorriu. Myron sentiu o medo invadir-lhe o peito. O sequestrador ergueu o rifle.
Myron saiu do carro.
– Não!
Stan começou a correr. O pai o olhou com o rosto calmo. Apontou o rifle para o filho que se aproximava. Stan continuou correndo. Dessa vez o tempo parou, esperando o estampido do disparo. Porém, ele não veio. Stan chegara ao pai muito rápido. Edwin fechou os olhos e deixou o filho agarrá-lo. Os dois caíram no chão. Stan ficou por cima, cobrindo-o, sem deixar nada visível.
– Não atirem nele! – berrou, com uma voz magoada, outra vez infantil. – Por favor, não atirem nele.
Edwin estava estendido de costas. Soltou o rifle, que caiu na grama. Stan empurrou a arma para longe, ainda em cima do pai, para que não lhe fizessem mal. Ficaram assim até os agentes chegarem. Eles o afastaram com delicadeza e colocaram Edwin de bruços, algemando seus pulsos atrás das costas. A câmera de TV filmava tudo.
Myron voltou ao carro. Os olhos de Greg ainda estavam fechados. Ele não se mexia. Dois agentes correram para lá, pedindo uma ambulância pelo rádio. Myron não podia fazer nada por Greg. Olhou para a casa, atrás, o coração ainda na boca. Correu até lá e segurou a maçaneta da porta. Estava trancada. Investiu contra ela com o ombro, fazendo-a ceder, e entrou no vestíbulo.
– Jeremy? – chamou.
Mas não ouviu nenhuma resposta.