O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 22 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 22

O TELEFONE TOCOU.

– O velho é um mentiroso de merda.

Era Greg Downing.

– O quê?

– O gagá está mentindo.

– Você está falando de Nathan Mostoni?

– Meu Deus, que outro velho eu ando vigiando?

Myron trocou o telefone de ouvido.

– O que faz você pensar que ele está mentindo, Greg?

– Um monte de coisas.

– Por exemplo?

– Por exemplo, Mostoni nunca ter ouvido falar sobre o centro de doação de medula óssea. Isso parece lógico para você?

Ele pensou em Karen Singh, sua dedicação e os riscos.

– Não, mas é como dissemos antes: ele pode ser confuso.

– Acho que não.

– Por que não?

– Nathan Mostoni sai um bocado sozinho, para começar. Tem horas em que é meio maluco, mas em outras é muito são. Faz suas compras. Conversa com as pessoas. Veste-se como uma pessoa normal.

– Isso não quer dizer nada – contrapôs Myron.

– Não? Uma hora atrás ele saiu, então me aproximei da casa e fui até a janela de trás. Disquei aquele número que você me deu, que seria o do doador.

– E...?

– E ouvi o telefone tocando dentro da casa.

Isso fez Myron se calar.

– O que você acha que devemos fazer? – perguntou Greg.

– Não tenho certeza. Você viu mais alguém na casa?

– Não. Mostoni sai e a casa fica vazia. E ainda tem uma coisa... Ele está parecendo mais jovem agora. Não sei como explicar. É estranho. Bem, algum progresso aí pelo seu lado?

– Não sei direito.

– Adorei a resposta, Myron.

– É a única que tenho.

– E então? O que você acha que devemos fazer em relação a Mostoni?

– Vou pedir a Esperanza que levante o histórico dele. Enquanto isso, não o perca de vista.

– O tempo está passando, Myron.

– Sei disso. Depois nos falamos.

Ele desligou o telefone e ligou o rádio. Chaka Khan estava cantando “Ain’t Nobody Love You Better”. Se alguém consegue ouvir essa música sem mexer os pés, é porque tem sérios problemas rítmicos. Myron pegou a Long Island Expressway, para leste; a via estava surpreendentemente vazia naquele dia. Em geral, a estrada era mais ou menos um estacionamento ambulante que se movia para a frente a cada dois minutos.

As pessoas sempre dizem que os Hamptons – o pretensioso local de veraneio em Long Island onde os habitantes de Manhattan refugiam-se junto a outros habitantes de Manhattan – melhoram na baixa temporada. É o que sempre se fala sobre locais de veraneio. As pessoas de férias reclamam durante toda a alta temporada, esperando por esse nirvana de tranquilidade. Entretanto (e essa era a parte que Myron não entendia), não se vê ninguém nos Hamptons nos meses da baixa temporada. Não há vivalma. É um deserto. Os donos de loja suspiram e não dão nenhum desconto. Os restaurantes estão vazios, mas também fechados. E, sejamos honestos, o tempo, as praias e as pessoas são a grande atração lá. Mas quem vai dar um mergulho em Long Island no inverno?

A escola ficava num bairro residencial, de casas mais antigas e modestas – o lugar onde os verdadeiros habitantes de Long Island, e não os ricos, moravam. Myron parou o carro no estacionamento de uma igreja e seguiu as placas, escada abaixo, até o porão da paróquia. Uma jovem com ar de inspetora escolar cumprimentou-o na entrada. Ele se identificou e falou que estava ali para ver a Srta. Joyce. A moça assentiu e lhe pediu que a seguisse.

O corredor estava silencioso. Estranho, levando-se em conta que se tratava de uma pré-escola. Pré-escola. Na época de Myron, chamavam tudo de maternal. Ele perguntou-se quando teriam criado a outra nomenclatura. Algum grupo teria achado que a palavra maternal era discriminatória? Mães? Amas de leite? Crianças que não foram amamentadas, talvez?

Mais silêncio. Devia ser época de férias ou hora da sesta. Myron já ia questionar a inspetora quando ela abriu uma porta. Ele olhou para dentro. Meu Deus. A sala estava entupida de crianças pequenas, mais ou menos vinte, todas trabalhando sozinhas e em silêncio total. A professora sorriu para Myron, então sussurrou para o menino a quem dava atenção naquele momento – ele estava fazendo algo com blocos e letras – e pôs-se de pé.

– Olá – cumprimentou ela, falando baixo.

– Olá.

Ela se inclinou para a inspetora jovem.

– Srta. Simmons, pode ajudar a Sra. McLaughlin?

– Claro.

Peggy Joyce vestia um casaco amarelo aberto sobre uma blusa abotoada até o pescoço. A gola era de babados e óculos de meia-lua estavam pendurados por uma corrente.

– Podemos conversar na minha sala.

– Tudo bem.

O lugar era silencioso como, digamos, um lugar sem crianças.

– A senhora dá Valium para essas crianças? – perguntou Myron.

Ela sorriu.

– Só um pouco de Montessori.

– Um pouco de quê?

– O senhor não tem filhos, não é?

A pergunta provocou-lhe uma pontada, mas ele negou.

– É uma filosofia educacional criada pela Dra. Maria Montessori, a primeira médica italiana.

– Parece funcionar.

– Acho que sim.

– As crianças também se comportam assim em casa?

– Meu Deus, não. Verdade seja dita, isso não se traduz no mundo real. Mas poucas coisas dão certo nele.

Os dois entraram na sala, cuja mobília consistia de uma mesa de madeira, três cadeiras e um arquivo.

– Há quanto tempo a senhora dá aula aqui?

– Há 43 anos.

– Uau!

– Sim.

– Imagino que tenha visto muitas mudanças.

– Nas crianças? Quase nenhuma. As crianças não mudam, Sr. Bolitar. Um menino de 5 anos continua sendo um menino de 5 anos.

– Inocente ainda.

Ela inclinou a cabeça.

– “Inocente” não é a palavra adequada. As crianças são totalmente id. Talvez sejam as criaturas mais naturalmente malvadas da face da terra.

– Que opinião mais estranha para uma professora de pré-escola.

– É só uma opinião honesta.

– Qual palavra a senhora usaria então?

Peggy refletiu.

– Sob pressão, eu diria “inacabado”. Ou, talvez, “rudimentar”. Como uma fotografia que ainda não foi revelada.

Myron assentiu, apesar de não fazer ideia do que ela queria dizer. Havia alguma coisa em Peggy Joyce que era um pouco, ahn, assustadora.

– O senhor se lembra daquele livro Tudo que eu devia saber aprendi no jardim de infância?

– Sim.

– Isso é verdade, mas não da forma que o senhor imagina. A escola tira as crianças do casulo materno afetuoso. Ensina-lhes a intimidarem ou a serem intimidadas. A serem más umas com as outras. Ensina-lhes que mamãe e papai mentiam quando diziam que elas eram especiais e únicas.

Myron ficou em silêncio.

– O senhor não concorda?

– Não sou professor de pré-escola.

– Não tire o corpo fora, Sr. Bolitar.

Myron deu de ombros.

– Elas aprendem a socializar. É uma lição difícil. E, como todas as lições difíceis, é preciso errar para acertar.

– Em outras palavras, elas aprendem a ter limites?

– Sim.

– Interessante. E talvez verdadeiro. Mas o senhor se lembra do exemplo que dei, de uma fotografia sendo revelada?

– Sim.

– A escola só revela a foto. Não a tira.

– Ok – disse Myron, sem querer seguir a linha de pensamento da Srta. Joyce.

– O que estou querendo dizer é que tudo já está praticamente determinado quando essas crianças saem daqui e entram para o jardim de infância. Posso afirmar quem vai ter sucesso e quem vai fracassar, quem vai acabar feliz e quem vai terminar na prisão, e em noventa por cento dos casos estou certa. Talvez Hollywood e os videogames tenham alguma influência, não sei. Mas, em geral, consigo dizer quais crianças vão assistir a filmes muito violentos ou brincar com jogos muito violentos.

– A senhora consegue dizer isso tudo só de vê-los aos 5 anos?

– Sim, quase sempre.

– E acha que não tem volta? Que elas não têm condição de mudar?

– Condição? Provavelmente. Mas já estão seguindo um caminho. A maioria não muda, mesmo podendo. Continuar em frente é mais fácil.

– Então me deixe fazer a eterna pergunta: é a natureza ou o meio?

Ela sorriu.

– Sempre me perguntam isso.

– E...?

– Eu respondo que é o meio. Sabe por quê?

Myron balançou a cabeça.

– Acreditar na força do meio é como acreditar em Deus. É possível que estejamos errados, mas satisfazemos todas as nossas necessidades. – Ela cruzou os braços e se inclinou para a frente. – O que posso fazer pelo senhor?

– A senhora se lembra de um aluno chamado Dennis Lex?

– Lembro-me de todos os meus alunos. Isso o surpreende?

Myron não desejava que ela fizesse outra digressão.

– A senhora deu aula para os outros irmãos Lex?

– Para todos. O pai fez uma série de mudanças depois que seu livro virou best-seller. Mas os manteve aqui.

– O que pode me contar sobre Dennis Lex?

Ela se recostou e o encarou como se o estivesse vendo pela primeira vez.

– Não quero ser grosseira, mas estou curiosa: quando vai me dizer o porquê disso tudo? Estou conversando com o senhor... e desconfio de que seja uma quebra de sigilo... porque acho que está aqui por uma razão muito específica.

– E qual razão seria, Srta. Joyce?

Seus olhos tinham um brilho metálico.

– Não faça joguinhos comigo, Sr. Bolitar.

– Estou tentando encontrar Dennis Lex.

Peggy Joyce permaneceu imóvel.

– Sei que vai parecer estranho – continuou ele –, mas, pelo que sei, ele desapareceu da face da Terra depois da pré-escola.

Ela olhava diretamente para a frente, embora Myron não fizesse ideia do que estivesse fitando: não havia fotos nas paredes, nenhum diploma nem desenho de criança. Apenas paredes frias.

– Não foi depois – replicou ela, por fim. – Foi durante.

Alguém bateu à porta. Peggy Joyce disse:

– Entre.

A jovem inspetora, Srta. Simmons, surgiu com um garoto de cabeça baixa que estivera chorando.

– James está precisando de um tempinho – falou ela.

– Deixe-o deitar no tapete.

O menino olhou para Myron e saiu com a Srta. Simmons.

– O que aconteceu com Dennis Lex? – perguntou o agente.

– Há mais de trinta anos espero que alguém me faça essa pergunta.

– E qual é a resposta?

– Primeiro me diga por que o está procurando.

– Estou tentando encontrar um doador de medula óssea que pode ser Dennis Lex.

Myron lhe deu o mínimo possível de detalhes. Ao término, Peggy pôs a mão ossuda no rosto.

– Acho que não posso ajudá-lo. Faz tanto tempo...

– Por favor, Srta. Joyce, uma criança vai morrer se eu não encontrá-lo. A senhorita é minha única pista.

– Já falou com a família dele?

– Só com a irmã, Susan.

– E o que ela disse?

– Nada.

– Não sei o que posso acrescentar.

– Pode começar me contando como era Dennis.

Ela suspirou e ajeitou cuidadosamente as mãos sobre as coxas.

– Ele era como os irmãos, muito inteligente, pensativo, contemplativo, talvez até demais para uma criança tão pequena. Em geral, tento fazer com que os alunos amadureçam. Isso nunca foi necessário no caso dos irmãos Lex.

Myron assentiu, tentando encorajá-la a prosseguir.

– Dennis era o caçula, como o senhor deve saber. Esteve aqui na mesma época em que o irmão, Bronwyn. Susan era a mais velha.

Ela se calou, parecendo perdida.

– E o que aconteceu com ele?

– Um dia, ele e Bronwyn não vieram à escola. Recebi uma ligação do pai dizendo que os estava levando para fazer uma viagem não planejada.

– Para onde?

– Ele não falou. Não foi muito específico.

– Ok, continue.

– É só isso, Sr. Bolitar. Duas semanas depois, Bronwyn voltou para a escola. E nunca mais vi Dennis.

– A senhorita ligou para o pai?

– É claro.

– E o que ele disse?

– Que Dennis não voltaria.

– E a senhorita não perguntou por quê?

– Claro. Mas... o senhor conheceu Raymond Lex?

– Não.

– Não se questiona um homem como Raymond. Ele falou algo sobre aulas particulares. Eu insisti, mas ele deixou claro que aquilo não era da minha conta. Ao longo dos anos, tentei me manter a par da família, mesmo quando se mudaram daqui. Mas, como o senhor, nunca mais soube nada sobre Dennis.

– O que acha que aconteceu?

Ela o encarou.

– Imaginei que tivesse morrido.

Embora não fossem de todo surpreendentes, suas palavras pareceram expulsar todo o ar da sala, criando um vácuo.

– Por quê? – perguntou Myron.

– Imaginei que estivesse doente e, por isso, fora retirado da escola.

– Por que o Sr. Lex tentaria esconder uma coisa dessas?

– Não sei. Depois que seu romance se tornou um best-seller, ele ficou arredio, paranoico até. Tem certeza de que esse doador que está procurando é Dennis Lex?

– Certeza, não.

Peggy Joyce estalou os dedos.

– Ah, espere, tenho algo que o senhor pode achar interessante

Ela se levantou e abriu uma gaveta do arquivo. Remexeu nele e tirou algo, que examinou por um instante. Depois fechou a gaveta com o cotovelo.

– Foi tirada dois meses antes de Dennis nos deixar.

A Srta. Joyce lhe entregou uma fotografia antiga de turma, meio esverdeada pelo tempo. Quinze crianças ladeadas por duas professoras, uma delas a então jovem Peggy Joyce. O tempo não fora cruel com ela, mas havia passado, de qualquer forma. Um retângulo preto com letras brancas dizia shady wells montessori e o ano.

– Qual é Dennis?

Ela apontou para um garoto sentado na primeira fila. Com um corte de cabelo à la Príncipe Valente, exibia um sorriso que não chegava a se irradiar para o olhar.

– Posso ficar com ela?

– Se for de alguma ajuda...

– Talvez seja.

– Melhor eu voltar para meus alunos.

– Obrigado.

– O senhor se lembra do seu pré-escolar?

– Maternal Parkview, em Livingston, Nova Jersey.

– E de suas professoras? Lembra-se de todas?

Myron pensou um pouco.

– Não.

Ela assentiu, como se ele tivesse respondido corretamente.

– Boa sorte.