O Medo Mais Profundo
Capítulo 24
A MÃE DE MYRON O ESPERAVA na porta da frente.
– Vou ao restaurante pegar uma comida para viagem.
– Você?
Ela pôs as mãos nos quadris e fuzilou-o com o olhar.
– Algum problema?
– Não, é só que... – Ele decidiu deixar pra lá. – Nada.
A mãe beijou-lhe o rosto e enfiou a mão na bolsa, procurando a chave do carro.
– Volto daqui a meia hora. Seu pai está nos fundos. – Ela lhe lançou um olhar suplicante. – Sozinho.
– Ok.
– Não tem mais ninguém na casa.
– Aham.
– Se é que deu para entender.
– Entendido.
– Vocês vão ficar sozinhos.
– Já entendi, mãe. Já entendi.
– Vai ser uma oportunidade...
– Mãe!
Ela levantou as mãos.
– Tudo bem, já estou indo.
Ele deu a volta na casa, passando pelas latas de lixo, e encontrou o pai no deque, uma área com piso de sequoia, bancos fixos de resina e uma churrasqueira de última geração, tudo adquirido na famosa Expansão da Cozinha de 1994. O pai estava inclinado sobre uma grade, com uma chave de fenda na mão. Por um instante, Myron se sentiu de volta àqueles “projetos de fim de semana”, alguns chegando a durar uma hora. Os dois saíam com a caixa de ferramentas a reboque e o pai se abaixava, como estava agora, murmurando obscenidades. A única tarefa de Myron consistia em passar as ferramentas para ele como uma enfermeira numa sala de cirurgia – uma experiência infernalmente entediante, arrastando os pés sob o sol, suspirando alto, buscando ângulos novos para se posicionar.
– Ei – chamou Myron.
O pai levantou a cabeça, sorriu e pousou a ferramenta.
– Um parafuso frouxo... Não, não estou falando da sua mãe.
Myron riu. Eles puxaram cadeiras para perto de uma mesa encimada por um guarda-sol azul. Em frente ficava o Estádio Bolitar, um pequeno gramado verde-amarronzado, palco de incontáveis, e em geral solitários, jogos de futebol americano e britânico, beisebol, rúgbi, badminton e kickball, partidas com a bola Wiffle (provavelmente o esporte mais popular do local), além do passatempo favorito do futuro sádico: queimado. Myron viu a ex-horta da mãe – a palavra horta aqui sendo usada para descrever três tomates mirrados e duas abobrinhas flácidas por ano. Agora se encontrava mais coberta de vegetação que um campo de arroz cambojano. À direita, viam-se os restos enferrujados da velha barra de tetherball. Nossa, que jogo idiota.
Myron pigarreou e pôs as mãos sobre a mesa.
– Como você tem se sentido?
O pai assentiu vigorosamente.
– Bem. E você?
– Bem.
Recaiu um silêncio confortável, relaxante. O silêncio ao lado do pai às vezes é assim. A pessoa volta no tempo, sente-se jovem, segura, com uma plenitude que só uma criança consegue desfrutar com o pai. É possível vê-lo ainda parado à porta do quarto, na penumbra, a sentinela silenciosa da nossa adolescência, e dorme-se o sono dos ingênuos, inocentes, inacabados. Quando se fica mais velho, percebe-se que essa segurança era apenas uma ilusão, outra percepção infantil, como o tamanho do quintal.
Ou talvez, quando se tem sorte, essas coisas não sejam percebidas.
O pai parecia mais velho naquele dia, a pele do rosto mais flácida, os bíceps outrora salientes agora caídos sob a camiseta, começando a definhar. Myron perguntou-se como começar. O pai fechou os olhos por um momento, abriu-os e disse:
– Não.
– O quê?
– Sua mãe consegue ser tão sutil quanto um comunicado à imprensa feito pela Casa Branca. Quando foi a última vez que ela foi ao restaurante pegar comida em vez de mim?
– Ela já foi alguma vez?
– Uma. Quando tive uma febre de 40 graus. E, mesmo assim, ainda se queixou.
– Aonde ela foi?
– Ela está me mantendo numa dieta especial agora, sabe? Por causa das dores no peito.
Dores no peito. Eufemismo para ataque cardíaco.
– É, imaginei.
– Ela andou até cozinhando um pouco. Contou para você?
Myron assentiu.
– Ontem ela fez uma coisa para mim no forno.
O pai se retesou.
– Meu Deus! Para o próprio filho?
– Sim, estava um horror.
– Essa mulher tem muitos, muitos talentos, mas, mesmo que jogassem sua comida de um avião sobre países africanos famintos, ninguém comeria.
– Afinal, onde ela foi pegar comida?
– Sua mãe cismou com um lugar maluco de comida saudável do Oriente Médio que acabou de abrir em West Orange. Imagine só! Chama-se Ayatollah Granola.
Myron lhe deu um olhar de desdém.
– Juro por Deus, o nome é esse. A comida é quase tão seca quanto aquele peru de Ação de Graças que ela fez quando você tinha 8 anos. Lembra?
– Eu lembro à noite. Ele ainda me persegue nos pesadelos.
O pai pareceu outra vez distante.
– Ela nos deixou sozinhos para conversar, certo?
– Certo.
Ele fez uma careta.
– Odeio quando ela faz essas coisas. Sei que a intenção é boa. Nós dois sabemos. Mas não vamos conversar, está bem?
Myron deu de ombros.
– Se você diz...
– Ela acha que não gosto de envelhecer. Que novidade! Quem gosta? Meu amigo Herschel Diamond... Lembra-se do Heshy?
– Claro.
– Um cara e tanto, não é? Jogava futebol americano semiprofissional na juventude. Pois o Heshy me ligou e disse que, agora que estou aposentado, posso fazer tai chi chuan com ele. Tai chi chuan? Que diabo significa isso? Tenho que dirigir até lá e ficar me movendo devagar com um monte de velhas fofoqueiras? Qual a necessidade? Disse para ele que não. O Heshy, esse grande atleta, Myron, que conseguia lançar uma bola a um quilômetro e meio de distância, esse touro maravilhoso, falou que podemos caminhar juntos, então. Caminhar. No shopping. Marcha atlética. No shopping, pelo amor de Deus! Heshy sempre odiou esses lugares e agora quer que andemos por lá feito dois imbecis, usando moletons combinando e tênis caríssimos. Malhar com aqueles halteres gays. Ah, e ele diz que os tênis são de caminhada. Que diabo é isso? Dá para caminhar com qualquer tênis, certo?
Ele ficou esperando uma resposta. Myron disse apenas:
– Certíssimo.
O pai se levantou, pegou uma chave de fenda e fingiu trabalhar.
– E agora, porque não estou a fim de me mover como um chinês velho ou caminhar em volta de um shopping horroroso, calçando tênis absurdamente caros, sua mãe acha que não estou me adaptando. Você está me ouvindo?
– Sim.
O pai permaneceu encurvado, mexendo na grade. Myron ouvia crianças brincando ao longe. Uma campainha de bicicleta soou. Alguém soltou uma gargalhada. Um cortador de grama fazia barulho. Quando o pai enfim falou de novo, sua voz tinha um tom surpreendentemente baixo:
– Você sabe o que a sua mãe quer que nós dois façamos?
– O quê?
– Que eu e você troquemos de papel. – Ele ergueu a cabeça e o encarou com seus olhos de pálpebras pesadas. – Não quero trocar de papel, Myron. Eu sou o pai. E gosto de ser o pai. Me deixe continuar sendo, ok?
Com dificuldade, Myron conseguiu responder:
– Claro, pai.
Ele abaixou novamente a cabeça, com os fios grisalhos eriçados de umidade, a respiração pesada pelo esforço. Myron sentiu outra vez um aperto no coração. Olhou para aquele homem que amava havia tanto tempo, que tinha ido diariamente, sem se queixar, para aquele armazém cheirando a mofo em Newark, durante mais de trinta anos, e percebeu que não o conhecia. Não sabia com o que o pai sonhava, o que desejava ser quando era criança, o que achava da própria vida.
O pai continuava a trabalhar com a chave de fenda. Myron o observava.
Promete que não vai morrer, ok? Só me promete isso.
Quase disse em voz alta.
O pai se endireitou e examinou o resultado do trabalho. Satisfeito, sentou-se outra vez. Os dois começaram a conversar sobre os Knicks, o último filme de Kevin Costner e o livro novo de Nelson DeMille. Guardaram a caixa de ferramentas. Tomaram chá gelado. Permaneceram um ao lado do outro nas cadeiras de resina. Uma hora se passou. Caíram num silêncio confortável. Myron passava o dedo na condensação do copo. Podia ouvir a respiração do pai, um tanto ofegante. A noite baixava, tingindo o céu de púrpura e dando às árvores um tom laranja-escuro.
Myron fechou os olhos e disse:
– Tenho uma pergunta para você.
– É?
– O que você faria se descobrisse que não é meu verdadeiro pai?
As sobrancelhas do pai se arquearam ao máximo.
– Você está tentando me dizer alguma coisa?
– É só uma hipótese. Imagine que você acaba de descobrir que não sou seu filho biológico. Como reagiria?
– Depende.
– De quê?
– De como você reagiria.
– Não faria a menor diferença para mim.
O pai riu.
– O que foi? – perguntou Myron.
– É fácil dizer que não faria diferença. Mas uma notícia dessas cai como uma bomba. Não dá para prever a reação das pessoas. Quando eu estava na Coreia... – O pai se deteve, Myron sentou-se ereto. – Ora, nunca se sabia como uma pessoa reagiria... – Sua voz sumiu, ele tossiu, então continuou: – Os caras que aparentemente se portariam como heróis ficavam perdidos. É por isso que não se pode dar nada como certo.
Myron encarou o pai, que mantinha os olhos fixos na grama, tomando outro longo gole de chá gelado.
– Você nunca falou sobre a Coreia.
– Já falei, sim – contestou o pai.
– Não comigo.
– Não, com você, não.
– Por que não?
– Porque lutei por isso. Para que não tivéssemos que falar sobre o assunto.
Não fazia sentido, mas Myron entendeu.
– Existe alguma razão para você vir com essa hipótese em particular? – perguntou o pai.
– Não.
Ele assentiu. Sabia que era mentira, mas não ia insistir. Os dois se recostaram e ficaram olhando para o entorno familiar.
– Fazer tai chi chan não é o fim do mundo – comentou Myron. – É uma arte marcial. Como o tae kwon do. Já até pensei em fazer.
O pai deu outro gole no chá. Myron lançou-lhe um olhar furtivo. Algo em seu rosto começou a estremecer. Estaria ficando menor e mais frágil – ou era como no caso do quintal e da segurança, outra vez aquela percepção cambiante de uma criança que se tornou adulto?
– Pai...?
– Vamos entrar – disse ele, levantando-se. – Já estamos aqui fora há muito tempo, um de nós vai acabar ficando sentimental e perguntar “Quer jogar bola?”.
Myron suprimiu uma risada e o acompanhou para dentro de casa. A mãe retornou logo depois, carregando duas sacolas de comida como se fossem tábuas de pedra.
– Todos estão com fome? – perguntou.
– Morrendo – respondeu o pai. – Estou com tanta fome que comeria até algo vegetariano.
– Muito engraçado, Al.
– Ou até a sua comida...
– Rá, rá.
– ... embora eu prefira algo vegetariano.
– Pare, Al, já estou quase chorando de rir – retrucou a mãe, pousando as sacolas na bancada da cozinha. – Está vendo, Myron, como é bom ter uma mãe fútil?
– Fútil?
– Se eu tivesse escolhido um homem pela inteligência e pelo senso de humor, você jamais teria nascido.
– Certo – concordou o pai com um sorriso entusiástico. – Mas tem alguém que olha para o seu velho quando está de calção de banho, e pronto... fica fascinada.
– Ai, não, por favor – disse a mãe.
– Sim – reiterou Myron. – Por favor.
Os dois olharam para ele. A mãe pigarreou.
– E então, vocês, ahn, conversaram bastante?
– Sim, conversamos – respondeu o pai. – Foi muito positivo. Vi meus erros.
– Estou falando sério.
– Eu também. Vejo tudo diferente agora.
Ela enlaçou a cintura dele, aninhando-o.
– Vai ligar para Heshy?
– Vou.
– Promete?
– Sim, Ellen, prometo.
– Você vai fazer jai alai?
– Tai chi – corrigiu o pai.
– O quê?
– O nome é tai chi, e não jai alai.
– Pensei que fosse jai alai.
– Tai chi. Jai alai é aquele jogo com raquetes curvas que se pratica na Flórida.
– Esse é shuffleboard, Al.
– Não é shuffleboard. Esse é outro, com bastões. E apostas.
– Tai chi? – repetiu a mãe, experimentando o som. – Tem certeza?
– Acho que sim.
– Mas não tem certeza?
– Não, não tenho. Talvez você esteja certa e o nome seja jai alai.
O debate sobre o nome continuou por um tempo. Myron não se deu o trabalho de corrigi-los. Melhor nunca se intrometer nessa dança estranha chamada discussão conjugal. Eles consumiram a comida natureba. Estava realmente intragável. Os três riram muito. Os pais deviam ter dito “você não sabe do que está falando” umas cinquenta vezes cada um; talvez fosse um eufemismo para “eu te amo”.
Por fim, Myron deu boa-noite. A mãe beijou-lhe o rosto e se afastou. O pai o levou até o carro. A noite estava silenciosa, exceto pelo barulho de um jogo de basquete em algum lugar da Darby Road ou, talvez, da Coddington Terrace. Um som agradável. Quando se despediu do pai com um abraço, Myron notou de novo que ele parecia menor. Segurou-o junto a si por mais tempo que o normal. Pela primeira vez, sentiu-se maior e lembrou-se de repente do que o pai dissera sobre trocar de papéis. Então prolongou o abraço em meio à escuridão. O tempo passou. O pai bateu nas costas dele. Myron mantinha os olhos fechados e continuava a apertá-lo. O pai afagou seu cabelo e murmurou para reconfortá-lo. Só por um instante. Até os papéis se inverterem outra vez, com os dois retornando a seus lugares.