O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 15 de 43

Páginas do PDF

O Medo Mais Profundo

Capítulo 15

OS PORTÕES DE FERRO FORJADO do Lex Building se erguiam ao longo da fachada na Quinta Avenida, com uma vegetação tão densa que não deixaria passar luz nem se uma supernova explodisse do outro lado. O famoso edifício era uma antiga mansão de Manhattan, que tinha um pátio no padrão europeu, um exterior magnífico em art déco e seguranças o bastante para que ali fosse sediada uma luta de Mike Tyson. A construção ostentava maravilhosas linhas num estilo antigo e minuciosos toques de Veneza, porém, por uma questão de privacidade, as janelas eram escuras como as de uma limusine. O resultado acabava sendo uma combinação artificial que incomodava.

Quatro guardas de paletó azul e calça cinza estavam parados no portão – guardas mesmo, notou Myron, com olhos vigilantes de policial e tiques faciais da KGB, e não aqueles contratados que se via em lojas de departamento e aeroportos. Os quatro permaneceram em silêncio, encarando-o como se estivessem no Vaticano e ele houvesse aparecido com um top.

Um deles se adiantou.

– Posso ver algum documento de identificação, por favor?

Myron pegou a carteira e mostrou um cartão de crédito e a habilitação.

– Não tem foto na habilitação – comentou o guarda.

– Em Nova Jersey não é necessário.

– Preciso de um documento com foto.

– Tenho o cartão da academia.

Suspiro de policial paciente.

– Não serve, senhor. Está com seu passaporte?

– Em plena Manhattan?

– Sim, senhor. Por motivos de identificação.

– Não. Além disso, é um retrato horrível, não capta completamente o azul radiante dos meus olhos.

Ele tremelicou os cílios para dar mais ênfase.

– Espere aqui, senhor.

Myron aguardou. Os outros três guardas franziram a testa, cruzaram os braços, estudaram-no como se de repente ele pudesse começar a beber a água do vaso sanitário. Ouviu-se um barulho e Myron levantou a cabeça. Uma câmera de segurança o focalizava naquele momento. Ele acenou, sorriu para a lente e fez umas poses que tinha aprendido assistindo a eventos de fisiculturismo no ESPN 2. Terminou com um alongamento dramático do músculo trapézio e acenou para a multidão que assistia. Os paletós azuis mantiveram-se indiferentes.

– É tudo natural – garantiu Myron. – Nunca tomei esteroide.

Nenhuma resposta.

O guarda voltou e pediu:

– Siga-me, por favor.

Pisar no pátio era como entrar no guarda-roupa de C. S. Lewis, um outro mundo. Ali, no meio de Manhattan, o barulho da rua ficava de repente muito distante, abafado. O jardim era exuberante, os caminhos azulejados formavam padrões não muito diferentes de tapetes orientais. Havia um chafariz no meio, com a estátua de um cavalo empinado.

Uma nova série de paletós azuis recebeu-o na ornamentada porta da frente. Esse lugar deve gastar uma fortuna com lavagem a seco, pensou Myron. Fizeram-no esvaziar os bolsos, confiscaram o celular, revistaram-no, passaram um detector de metais duas vezes nele e apalparam-no outra vez com um prazer um pouco excessivo.

– Se vocês tocarem no meu piu-piu de novo – falou Myron –, vou contar para a mamãe.

Nenhuma resposta outra vez. Talvez os Lex exigissem não apenas sigilo, mas um senso de humor diferenciado.

– Siga-me, senhor – disse o paletó azul falante.

A quietude do lugar – uma mansão no meio de Manhattan, caramba! – era enervante; o único som que se ouvia era o eco das passadas no mármore frio. Parecia que caminhavam por um museu velho à noite, uma experiência saída de um livro infantojuvenil. Os guardas formavam uma comitiva presidencial pobre – o paletó azul falante, um colega três passos à frente e mais dois paletós três passos atrás. Para se divertir, Myron diminuía ou apertava o passo, só para vê-los fazer o mesmo, como numa coreografia mal executada. À certa altura, quase fez um moonwalk, à la Michael Jackson, mas aqueles caras já achavam que era um pedófilo em potencial.

A escadaria de mogno era larga e cheirava um pouco a óleo de peroba. Viam-se tapeçarias enormes na parede, retratando espadas, cavalos e banquetes hedonistas com leitões. No segundo andar, havia mais dois paletós azuis. Foi a vez de eles inspecionarem Myron, como se nunca tivessem visto um homem antes. Ele girava para ajudá-los na tarefa, mas os guardas permaneceram indiferentes.

– Vocês deviam ter me visto flexionando os músculos.

A porta dupla se abriu e Myron entrou numa sala um pouco maior que uma arena esportiva. Dois guardas o seguiram e tomaram posição nos cantos dos fundos do aposento. Um homem grande estava sentado à direita, numa poltrona. Ou talvez o móvel é que fosse pequeno. Aparentava 40 e poucos anos. A cabeça e o pescoço formavam um trapézio quase perfeito e o cabelo ostentava um corte militar. O nariz era achatado, as mãos mais pareciam pernis e os dedos lembravam salsichões. Devia ser ex-boxeador, ex-fuzileiro naval ou as duas coisas. Um homem de ângulos retos e blocos de granito.

O Homem de Granito também lhe lançou olhares duros, porém de um jeito mais relaxado, como se Myron o divertisse tanto quanto um gatinho puxando a perna da sua calça. Não se levantou, preferindo encará-lo e estalar os dedos, um de cada vez.

Myron olhou para o Homem de Granito, que estalou outro dedo.

– Que arrepio – disse o agente.

Ninguém lhe falou para se sentar. Aliás, ninguém falava nada. Myron ficou parado, esperando, com os três pares de olhos pousados nele.

– Ok, já estou intimidado. Podemos ir para a próxima etapa, por favor?

O Homem de Granito fez um sinal para os dois paletós, que foram embora. Quase na mesma hora, uma porta do outro lado da sala se abriu e duas mulheres entraram. Estavam bem longe, mas Myron supôs que a primeira era Susan Lex. O cabelo se achava preso num coque impossivelmente perfeito, cheio de laquê; ela apertava os lábios como se tivesse acabado de engolir um besouro vivo. A outra mulher, que parecia não ter nem 20 anos, só podia ser a filha, pois era sua cópia, com os mesmos lábios comprimidos, mas com 25 anos a menos de uso, além de um cabelo mais bem tratado.

Myron começou a atravessar a sala com a mão estendida, mas Susan Lex levantou a sua, indicando-lhe que devia parar. O Homem de Granito se inclinou para a frente em sua poltrona, quase se colocando em seu caminho. Ele balançou ligeiramente a cabeça, uma tarefa nada fácil para alguém que não tem pescoço. Myron se deteve.

– Não gosto de ser ameaçada – falou Susan Lex do outro lado da sala.

– Peço desculpas, mas precisava vê-la.

– E isso justifica me ameaçar e chantagear?

Myron não tinha uma resposta rápida para aquilo, por isso apenas disse:

– Preciso falar com a senhora sobre seu irmão Dennis.

– O senhor já comentou isso ao telefone.

– Onde ele está?

Susan olhou para o Homem de Granito, que franziu a testa e estalou de novo os dedos.

– Simples assim, Sr. Bolitar? – questionou a mulher. – O senhor liga para o meu escritório, me ameaça, insiste em que eu altere a minha agenda para recebê-lo, depois entra aqui e faz exigências?

– Não tenho a intenção de ser rude. Mas é uma questão de vida ou morte.

Toda vez que dizia “uma questão de vida ou morte” esperava ouvir uma música melodramática de fundo.

– Isso não explica nada – replicou Susan Lex.

– Seu irmão se cadastrou na central de doadores e a medula dele revelou ser compatível com a de uma criança doente.

Depois daquela conversa sinistra da noite anterior sobre dizer adeus ao garoto, ele tinha decidido não especificar mais o gênero do paciente.

– Sem esse transplante, a criança vai morrer – concluiu.

Susan Lex arqueou as sobrancelhas. Os ricos são muito bons nisso: conseguem erguê-las sem alterar mais nada do rosto. Myron perguntou-se se aprendiam aquilo nos acampamentos de verão para abonados. Ela olhou novamente para o Homem de Granito, que estava tentando sorrir.

– O senhor está enganado – afirmou ela.

Myron esperou que continuasse, mas, como não foi o que aconteceu, ele perguntou:

– Enganado como?

– Se está falando a verdade, cometeu um engano. Não vou dizer mais nada.

– Com o devido respeito, isso não é o bastante.

– Vai ter que ser.

– Onde está seu irmão, Srta. Lex?

– Por favor, retire-se, Sr. Bolitar.

– Ainda posso ir até os jornais.

O Homem de Granito cruzou as pernas e começou a estalar outra vez os dedos. Myron se virou para ele.

– Muito bem. Você consegue fazer isso? – indagou, batendo na cabeça com uma das mãos e coçando a barriga com a outra.

O Homem de Granito não gostou nada disso.

– Veja bem – prosseguiu Myron –, não quero causar nenhum problema. Vocês são pessoas discretas. Entendo isso. Mas preciso encontrar esse doador.

– Ele não é meu irmão – contestou Susan.

– Então onde ele está?

– Ele não é o doador que está procurando. Mais que isso não é da sua conta.

– O nome “Davis Taylor” significa alguma coisa para a senhora?

Susan comprimiu novamente os lábios, como se outro besouro tivesse conseguido entrar. Virando-se, foi embora. A filha fez o mesmo. Outra vez, de forma sincronizada, a porta atrás de Myron se abriu e os dois paletós azuis reapareceram. Mais olhares carrancudos. O Homem de Granito ficou de pé, algo que tomou certo tempo. Ele era realmente grande. Muito grande.

Os guardas se aproximaram de Myron.

– Vamos agora para os jurados – disse o agente. – Charles Nelson Reilly, qual é a sua nota?

O Homem de Granito parou na frente dele, os ombros retos, os olhos calmos.

– O fato de não ter se apresentado – continuou Myron, fazendo sua imitação do ator Charles Nelson Reilly, que não era muito boa – me pareceu algo muito machão. E o silêncio do personagem combinado com o olhar de divertimento... Muito bem-feito mesmo. Profissional. Mas o estalar de dedos... Foi disso que não gostei. Ora, Gene, ficou excessivo, você não acha? Minha nota é oito. Um conselho: seja mais sutil.

– Já terminou? – perguntou o Homem de Granito.

– Sim.

– Myron Bolitar. Nascido em Livingston, Nova Jersey. Filho de Ellen e Al…

– Eles gostam de ser chamados de El-Al. Como a companhia de aviação israelense.

– Quando estava na Duke, foi considerado um dos melhores jogadores universitários. Classificou-se em oitavo para disputar a NBA pelo Boston Celtics. Ferrou o joelho no primeiro jogo da pré-temporada, encerrando a carreira. Atualmente é dono da MB Representações Esportivas, uma firma que representa atletas. Namorava a escritora Jessica Culver desde que terminou a faculdade, mas separaram-se recentemente. Quer que eu continue?

– Você deixou de fora um detalhe: sei dançar com muito estilo. Posso fazer uma demonstração se quiser.

O Homem de Granito deu um sorriso torto.

– Você quer que eu dê uma nota para você agora?

– Sinta-se à vontade.

– Você é um piadista exagerado. Sei que faz isso para aparentar confiança, mas está se esforçando além da conta. Já que falou em sutileza, essa sua história sobre uma criança doente precisando de um transplante foi comovente. Só faltou um quarteto de cordas.

– Você não acredita em mim?

– Não, não acredito.

– E por que eu estaria aqui, então?

O Homem de Granito espalmou as mãos de antena parabólica.

– É o que eu gostaria de saber.

Os três homens formaram um triângulo, Granito em frente e os dois paletós atrás. Ele fez um ligeiro meneio de cabeça. Um dos guardas sacou uma arma e mirou a cabeça de Myron.

Isso não era nada bom.

Existem formas de se desarmar um homem com um revólver, mas há um problema inerente: pode ser que não dê certo. Se o cálculo for malfeito ou se o inimigo for melhor do que se pensa – algo bem provável quando se trata de um adversário que sabe manejar uma arma –, pode-se acabar levando um tiro. Esse é um inconveniente sério. E, naquela situação em particular, havia dois oponentes a mais, que pareciam bons e deviam estar armados também. Existe uma palavra que os peritos usam para um movimento súbito nessas condições: suicídio.

– Quem fez a pesquisa sobre mim deixou de fora uma coisa – falou Myron.

– O que seria?

– Meu relacionamento com Win.

O Homem de Granito permaneceu impassível.

– Você está falando de Windsor Horne Lockwood III? A família é dona da Lock-Horne Seguros e Investimentos, situada à Park Avenue. Foi seu colega de quarto na Duke. Desde que saiu do loft na Spring Street que dividia com Jessica Culver, você está morando no apartamento dele, no Dakota. Vocês têm negócios em comum e ligações pessoais, podem até ser chamados de melhores amigos. É desse relacionamento que você está falando?

– Exatamente – respondeu Myron.

– Estou sabendo. Também sei dos... – ele fez uma pausa, procurando a palavra certa – talentos do Sr. Lockwood.

– Então sabe que, se esse idiota aí se tornar desagradável – Myron fez um gesto com a cabeça em direção ao paletó com a arma –, você morre.

O Homem de Granito lutou contra os músculos faciais e, dessa vez, conseguiu sorrir, mas com muito esforço. A canção “Barracuda”, do Heart, tocava na cabeça de Myron: ele sorria mesmo como o sol.

– Também tenho os meus, ahn, talentos, Sr. Bolitar.

– Se acredita nisso, então é porque não conhece o suficiente os, ahn, talentos de Win.

– Não vou discutir isso. Mas gostaria de observar que ele não tem um exército como este à sua disposição. Vai me dizer agora porque está perguntando sobre Dennis Lex?

– Já disse.

– Vai continuar com essa história da criança à beira da morte?

– É a verdade.

– E como descobriu o nome de Dennis Lex?

– No centro de doação de medula.

– Eles deram essa informação para você?

Era a vez de Myron:

– Eu também tenho os meus, ahn, talentos.

De alguma forma, a frase não soava bem quando dizia respeito a ele.

– O centro de doação de medula lhe informou que Dennis Lex era o doador? É isso?

– Não foi o que eu disse – respondeu Myron. – Ouça, estamos numa espécie de via de mão dupla aqui. Quero algumas informações também.

– Errado: é uma via de mão única. Sou um caminhão Mack e você é um ovo no meio da rua.

Myron assentiu.

– Que mordaz. Mas, se não me disser nada, também não vou dizer.

O cara com a arma chegou mais perto. Myron sentiu um tremor nas pernas, mas não piscou. Talvez tivesse exagerado nas piadas, mas não podia demonstrar medo.

– Vamos parar de fingir que vocês vão me dar um tiro por causa disso. Sabemos que não. Não são tão burros assim.

O Homem de Granito sorriu.

– Eu podia bater um pouquinho em você.

– Você não quer problemas, eu não quero problemas. Não me importo nem um pouco com essa família e o dinheiro deles nem nada disso. Só estou tentando salvar a vida de uma criança.

O Homem de Granito fingiu tocar um violino.

– Dennis Lex não vai ser a sua salvação.

– E acha que acredito em você?

– Ele não é o seu doador. Isso eu posso garantir.

– Ele morreu?

O Homem de Granito cruzou os braços.

– Se está dizendo a verdade, o pessoal do centro de doação ou mentiu para você ou cometeu um engano.

– Ou você está mentindo para mim. Ou cometendo um engano.

– Os guardas vão levar você até a saída.

– Ainda posso ir até os jornais.

O Homem de Granito afastou-se dizendo:

– Sei muito bem que você não vai. Também não é tão burro assim.