O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 40 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 40

MYRON LIGOU PARA O ESCRITÓRIO de Kimberly Green.

– Preciso de um favor.

– Merda, pensei que você tivesse saído da minha vida.

– Mas nunca das suas fantasias. Quer me ajudar ou não?

– Não.

– Preciso de duas coisas.

– Não. Eu disse “não”.

– Eric Ford falou que o romance supostamente plagiado foi enviado para você.

– E daí?

– Quem enviou?

– Você sabe muito bem, Myron. Foi enviado anonimamente.

– Você não tem nenhuma ideia de quem mandou?

– Nenhuma.

– Onde ele está agora?

– O livro?

– É.

– No armário onde se guardam as provas.

– Você fez algo com ele?

– Como o quê, por exemplo?

Ele ficou quieto.

– Myron?

– Sei que vocês estão escondendo alguma coisa.

– Escute só...

– O autor desse romance era Edwin Gibbs. Ele escreveu com um pseudônimo depois que a mulher morreu. Agora faz todo o sentido. Vocês o estavam procurando desde o início. Já sabiam, merda. Sabiam o tempo todo.

– Desconfiávamos – corrigiu ela. – Não tínhamos certeza.

– Todo aquele blá-blá-blá sobre acharem que ele podia ter sido a primeira vítima de Stan...

– Não era tudo blá-blá-blá. Sabíamos que um dos dois era o sequestrador. Mas não sabíamos qual. Só conseguimos encontrar Edwin Gibbs depois que você nos contou sobre o endereço de Waterbury. Quando chegamos lá, ele já tinha saído para sequestrar Jeremy Downing. Talvez se você tivesse sido mais cooperativo...

– Vocês mentiram para mim.

– Não mentimos. Só não contamos tudo.

– Meu Deus, você não percebe como é patética?

– Não devemos nada a você, Myron. Você não é agente federal. Foi uma dor de cabeça.

– Uma dor de cabeça que ajudou vocês a resolver o caso.

– E eu agradeço.

Os pensamentos de Myron entraram num labirinto, dobraram à esquerda, à direita e deram meia-volta.

– Por que a imprensa não sabe que Gibbs era o autor? – perguntou ele.

– Vão saber. Ford quer ajeitar as coisas primeiro. Depois vai dar outra grande coletiva de imprensa e apresentar o fato como uma novidade.

– Podia fazer isso hoje.

– Sim, podia.

– Mas aí a história morre. Por enquanto os rumores a mantêm viva. Ford ganha mais tempo diante dos refletores.

– Ele é um político nato. E daí?

Myron entrou por outros corredores, que terminavam em paredes, mas continuou buscando a saída.

– Esqueça.

– Ótimo. Posso desligar?

– Primeiro, preciso que você ligue para o cadastro nacional de medula óssea.

– Para quê?

– Preciso descobrir uma coisa sobre um certo doador.

– Esse caso está encerrado, Myron.

– Eu sei. Mas acho que outro está sendo aberto.

 

Stan Gibbs estava sentado na sua cadeira de apresentador quando Myron e Win chegaram. Seu novo programa na TV a cabo, Glib with Gibbs, estava sendo rodado em Fort Lee, Nova Jersey, e o estúdio, como todos os que Myron já tinha visto, parecia uma sala sem o teto. Havia fios e luzes para todos os lados. Esses ambientes eram sempre muito menores ao vivo. As mesas, as cadeiras, o mapa-múndi ao fundo... Tudo era menor. O poder da televisão. Um espaço numa tela de 19 polegadas ficava, sabe-se lá como, menor na vida real.

Stan vestia blazer azul, camisa branca, gravata vermelha, jeans e tênis. Como a calça ficava escondida atrás da mesa, a câmera não a pegava. Traje clássico de apresentador. Ele acenou para os dois quando entraram. Myron retribuiu o cumprimento. Win, não.

– Precisamos conversar – disse Myron.

Stan assentiu. Mandou os produtores saírem e fez sinal aos dois para que ocupassem as cadeiras dos entrevistados.

– Sentem-se – falou ele, permanecendo em seu lugar.

Win e Myron se acomodaram com uma sensação estranha, como se o público em casa os estivesse assistindo. Win notou seu reflexo na lente de uma câmera e sorriu. Gostou do que viu.

– Algum sinal de doador? – perguntou Stan.

– Até agora nada.

– Alguém vai aparecer.

– É – disse Myron. – Escute, Stan, preciso da sua ajuda.

Stan entrelaçou os dedos e pousou as mãos na mesa.

– O que você quiser.

– Há uma série de coisas que não se encaixam no sequestro de Jeremy.

– Por exemplo?

– Por que você acha que seu pai pegaria uma criança desta vez? Nunca tinha feito isso antes, certo? Eram sempre adultos. Por que agora uma criança?

Stan pôs-se a refletir e respondeu pausadamente, escolhendo bem as palavras:

– Não sei. Não sei se sequestrar adultos significava um padrão... Suas vítimas pareciam escolhidas tão ao acaso...

– Mas Jeremy não foi um acaso – contestou Myron. – Não foi mera coincidência.

Stan voltou a pensar por um instante.

– Concordo com você.

– Ele o sequestrou porque Jeremy estava de algum modo ligado à minha investigação.

– Parece lógico.

– Mas como seu pai ficou sabendo do Jeremy?

– Não sei – respondeu Stan. – Pode ter seguido você.

– Acho que não. Greg Downing ficou em Waterbury depois da nossa visita à casa. De olho em Nathan Mostoni. Sabemos que não saiu da cidade até o dia que antecedeu o sequestro.

Win olhou de novo para a câmera. Sorriu e acenou, para o caso de estar ligada.

– É estranho mesmo – comentou Stan.

– E tem mais – continuou Myron. – Por exemplo, a ligação em que Jeremy gritou. Nos outros casos, seu pai proibiu as famílias de chamarem a polícia. Mas, desta vez, não. Por quê? E você sabia que ele estava usando um disfarce quando sequestrou Jeremy?

– Sim, ouvi dizer.

– Por quê? Se planejava matá-lo, por que se dar o trabalho de pôr um disfarce?

– Ele sequestrou Jeremy na rua – respondeu Stan. – Alguém poderia identificá-lo.

– Sim, tudo bem, faz sentido. Mas por que vendar Jeremy quando o garoto já estava dentro da van? Ele matou todos os outros. Mataria Jeremy também. Por que se preocupar com que ele visse seu rosto?

– Não sei. Talvez fizesse assim sempre.

– Talvez. Mas tem uma coisa nessa história toda que parece errada, você não acha?

Stan refletiu novamente.

– Parece curioso, isso sim – disse ele, devagar. – E não errado.

– Por isso vim até você. Estou com todas essas perguntas dando voltas na minha cabeça. Aí me lembrei do credo de Win.

Stan se virou para o ricaço, que pestanejou e baixou os olhos com modéstia.

– Que credo?

– De que o homem só pensa em se autopreservar – respondeu Myron. – Acima de tudo, é um egoísta. – Ele fez uma pausa. – Você concorda com isso, Stan?

– Até certo ponto, claro. Somos todos egoístas.

Myron assentiu.

– Inclusive você.

– Sim, claro. E você também, tenho certeza.

– A mídia está colocando você nesse papel de homem nobre – prosseguiu Myron. – Dividido entre a família e o dever, fazendo o certo no final. Mas talvez você não seja isso.

– Não seja o quê?

– Um cara nobre.

– E não sou mesmo. Já fiz coisas erradas. Nunca disse que era santo.

Myron olhou para Win.

– Ele é bom.

– Muito bom – concordou o amigo.

Stan franziu a testa.

– Do que você está falando, Myron?

– Acompanhe meu raciocínio, Stan. E lembre-se do credo de Win. Vamos começar do início. Quando seu pai entrou em contato. Você conversou com ele e decidiu escrever a história do cara do “Plante as sementes”. Qual foi seu motivo a princípio? Estava procurando uma válvula de escape para o medo e a culpa? Ou só queria ser um bom jornalista? Ou, e aqui entra o credo de Win, escreveu a matéria porque sabia que ela o transformaria num grande astro?

Myron o encarou e aguardou.

– Eu tenho que responder?

– Por favor.

Stan olhou para o vazio e esfregou o polegar na ponta dos dedos.

– Sim, fiquei animado com a história. Achei que poderia se transformar num grande negócio. Se isso é egoísmo, ok, sou culpado.

Myron e Win se entreolharam.

– Bom.

– Muito bom.

– Vamos continuar seguindo essa linha, Stan, ok? A matéria se tornou de fato um grande negócio. Você virou uma celebridade...

– Já falamos sobre isso, Myron.

– Certo. Absolutamente certo. Vamos pular para a parte em que os federais o processaram. Eles queriam saber quem era sua fonte. Você se recusou a revelá-la. Existem várias razões para isso. A Primeira Emenda, claro. É uma possibilidade. E proteger seu pai seria outra hipótese. Ou as duas coisas juntas. Mas, e aí entra outra vez o credo de Win, qual seria a escolha mais egoísta?

– Como assim?

– Pense de forma egoísta e você só vai ter uma opção.

– Que é...?

– Se você tivesse cedido aos federais, se tivesse dito “Ok, agora que estou com problemas legais, revelo que a fonte foi meu pai”, como pareceria?

– Daria uma má impressão – completou Win.

– Daria mesmo. Acho que você não é esse herói todo, já que entregou seu pai, sem mencionar a Primeira Emenda, só para salvar a pele contra ameaças legais vagas. – Myron sorriu. – Está entendendo o que quero dizer com o credo de Win?

– Vocês acham que agi de maneira egoísta quando não contei a verdade aos federais – questionou Stan.

– É possível.

– É possível também que a escolha egoísta fosse a certa.

– Bem possível – concordou Myron.

– Nunca quis ser herói nessa história toda.

– Tampouco negou.

Dessa vez, Stan sorriu.

– Talvez não tenha negado porque estou usando o credo de Win.

– Como assim?

– Negar seria me prejudicar. Da mesma forma que me gabar.

Antes que Myron tivesse chance de pensar sobre isso, Win comentou:

– Muito bom.

– Ainda não consigo ver a relevância desta conversa – disse Stan.

– Continue me acompanhando e você vai ver.

Gibbs deu de ombros.

– Onde estávamos? – perguntou Myron.

– Os federais o levam ao tribunal – respondeu Win.

– Certo, obrigado. Os federais o levam ao tribunal. Você se defende. Aí acontece uma coisa que você não tinha previsto de maneira nenhuma. As acusações de plágio. Só para efeitos de debate, vamos supor que a família Lex tenha enviado o livro para os federais. Queriam que você largasse do pé deles. Que melhor forma de conseguir isso do que arruinando a sua reputação? E o que você fez? Como reagiu às acusações de plágio?

Stan se manteve calado.

– Desapareceu – disse Win.

– Resposta certa – falou Myron.

Win sorriu e agradeceu para a câmera.

– Você fugiu – continuou Myron. – Mais uma vez, a dúvida sobre o motivo. Várias coisas me vêm à cabeça. Talvez você estivesse tentando proteger seu pai. Ou temesse a família Lex.

– O que se encaixaria perfeitamente no credo de Win: autopreservação – comentou Stan.

– Correto. Você estava com medo de que eles lhe fizessem mal.

– Sim.

Myron seguiu pisando leve, de forma sorrateira:

– Mas você não vê, Stan? Nós temos que pensar de forma egoísta também. Você se vê às voltas com a acusação de plágio. Quais eram as suas opções? Duas, na verdade. Ou fugia ou confessava.

– Ainda não entendi aonde você quer chegar – replicou Stan.

– Siga o meu raciocínio: se contasse a verdade, você ia parecer outra vez um imbecil. Defendendo a Primeira Emenda e o pai e, de repente, se complica e deixa tudo de lado. Não ia funcionar. Ainda ia se arruinar.

– Ferrado se contasse – comentou Win. – Ferrado se não contasse.

– Certo – continuou Myron. – Então a melhor saída, a egoísta, foi desaparecer por um tempo.

– Mas perdi tudo desaparecendo.

– Não, Stan, não perdeu.

– Como é que você pode dizer isso?

Myron levantou os braços e sorriu.

– Olhe em volta.

Pela primeira vez, algo sombrio perpassou o rosto de Stan. Myron percebeu. E Win também.

– Podemos continuar?

Stan ficou calado.

– Você se esconde e começa a enumerar seus problemas. Primeiro, seu pai é um assassino. Você é egoísta, Stan, mas não é desumano. Quer ele fora de atividade, mas não consegue denunciá-lo. Talvez porque o ame. Ou talvez seja o credo de Win.

– Dessa vez, não – rebateu Stan.

– O quê?

– O credo de Win não se aplica aí. Fiquei na minha porque amava meu pai e porque acredito na proteção às fontes. Posso provar.

– Estou escutando.

– Se eu quisesse entregar meu pai, se essa fosse a melhor saída para mim, poderia ter feito tudo anonimamente – afirmou ele, recostando-se e cruzando os braços.

– Essa é a sua prova?

– Claro. Não fui egoísta.

Myron balançou a cabeça.

– Você precisa ir mais fundo.

– Mais fundo como?

– Entregar seu pai anonimamente não ajudaria você, Stan. Sim, você precisava pôr seu pai atrás das grades. Porém, além disso, precisava se redimir.

Silêncio.

– O que satisfaria essas duas necessidades? O que tiraria seu pai do caminho e lhe devolveria a fama, talvez até mais do que antes? Primeiro, você precisava ter paciência. Isso significava permanecer escondido. Segundo, você não podia entregá-lo. Tinha que armar uma cilada para ele.

– Uma cilada para meu pai?

– Sim. Você precisava deixar uma trilha para que os federais a seguissem. Algo sutil que levasse até ele e que você pudesse manipular a qualquer momento. Assumiu, então, uma identidade falsa. Da mesma forma que seu pai. Chegou até a conseguir um emprego, e lá as pessoas veriam o disfarce que seu pai usava, e talvez até envolveria os velhos inimigos dele, a família Lex, no processo.

– De que porra você está falando?

– Sabe o que me intrigou? Seu pai tinha sido tão cuidadoso no passado... Depois, de repente, começa a deixar provas que o incriminam em guarda-volumes. Aluga uma van para o sequestro pagando com cartão de crédito e deixa um tênis vermelho dentro. Não faz o menor sentido. A menos que alguém o quisesse incriminar.

A expressão de surpresa no rosto de Stan era quase genuína.

– Você acha que eu matei aquelas pessoas?

– Não – respondeu Myron. – Seu pai matou.

– Qual é o problema, então?

– Foi você que usou a identidade de Dennis Lex, e não seu pai.

Stan tentou parecer atordoado, mas sem sucesso.

– Você sequestrou Jeremy Downing. E foi você que ligou para mim fingindo ser o sequestrador.

– E por que faria isso?

– Para ter esse final heroico. Ver seu pai preso. Para se redimir.

– Por que ligar para você...

– Para me aguçar o interesse. Você provavelmente ficou sabendo do meu passado. Sabia que eu iria investigar. Você só precisava de um incauto e de uma testemunha. Alguém de fora da polícia. Eu fui esse incauto.

– O incauto du jour – acrescentou Win.

Myron o fuzilou com os olhos. O amigo encolheu os ombros.

– Ridículo – rebateu Stan.

– Não, isso explica muita coisa. Responde todas as minhas perguntas anteriores. Por que o sequestrador escolheria Jeremy? Porque você me seguiu depois que saí do seu condomínio. Viu os federais me pegarem. Foi assim que soube que eu tinha falado com eles. Me seguiu até a casa de Emily. E, como qualquer jornalista, percebeu que aquele era o garoto doente de quem eu tinha falado. A doença dele não era segredo. Então o sequestro de Jeremy não é mais uma coincidência, entende?

Stan cruzou os braços.

– Não estou entendendo.

– Outras perguntas vão ser respondidas agora. Por que o sequestrador usou um disfarce e vendou Jeremy? Porque ele não podia identificar você. Por que o sequestrador não o matou logo, como fez com os outros? Pela mesma razão. Porque não tinha a menor intenção de matá-lo. Jeremy deveria passar incólume por aquela experiência. Senão você não se tornaria herói. Por que o sequestrador não fez a exigência habitual de que a família não avisasse a polícia? Porque você queria os federais junto. Precisava que eles assistissem ao seu ato de heroísmo. Não daria certo sem o envolvimento deles. Fiquei me perguntando como é que a mídia estava sempre no lugar certo, em Bernardsville, na cabana. Mas você armou essa parte também. Por meio de informações anônimas, provavelmente. Assim as câmeras poderiam registrar e exibir seu heroísmo. Você dominando seu pai e o resgate dramático de Jeremy Downing. Televisão boazinha. Você sabia como era importante registrar aqueles momentos para o mundo inteiro ver.

Stan esperou um momento, então perguntou:

– Já terminou?

– Ainda não. Acho que você foi longe demais nos detalhes. Deixando o tênis na van, por exemplo. Foi um exagero. Óbvio demais. O fato de tudo se encaixar perfeitamente no final me deixou com a pulga atrás da orelha. Comecei a perceber que eu era o seu otário principal. Você me fez de marionete. Mas, mesmo que eu não tivesse aparecido, você teria sequestrado outra pessoa. Mas os otários principais foram os federais. Caramba, e ainda aquela fotografia do seu pai ao lado da estátua, a única na casa. Estava até em frente à janela. Você sabia que os federais o estavam vigiando. Você jogou a verdade sobre Dennis Lex na cara deles. É claro que iriam até o hospital e juntariam as peças. Caso contrário, você tiraria essa carta da manga no final, quando eles já o tivessem sob custódia. Você estava pronto para ceder e entregar seu pai quando eu apareci na história. Eu, o incauto du jour, vi a verdade no sanatório. Você deve ter ficado tão satisfeito!

– Isso é loucura.

– Não, isso responde todas as perguntas.

– Mas não significa que seja verdade.

– O endereço de Davis Taylor que você usava no trabalho era o mesmo do seu pai em Waterbury. E nos levava até ele, Nathan Mostoni. Quem mais poderia ter feito isso?

– Meu pai!

– Por quê? Por que seu pai trocaria de identidade? E se ele precisasse de uma nova, não descartaria a antiga? Ou ao menos trocaria o endereço? Só você poderia ter feito isso, Stan, instalado uma linha extra sem nenhum problema. Seu pai já estava destruído. Demente, no mínimo. Você sequestrou Jeremy. Depois deve ter dito para seu pai encontrar você na casa de Bernardsville. Ele obedeceu, por amor ou demência, não sei. Você sabia que ele estaria armado daquele jeito? Tenho minhas dúvidas. Se Greg tivesse morrido, você não ficaria tão bem na foto. Mas não tenho certeza. Talvez o fato de ele ter atirado só tornou você mais heroico ainda no final. Pense de forma egoísta. Essa é a chave.

Stan balançou a cabeça.

– “Dê um último adeus ao garoto” – disse Myron.

– O quê?

– Foi o que o sequestrador falou para mim ao telefone. O garoto. Cometi um erro quando ele me ligou. Contei a ele que havia um garoto precisando de ajuda. Depois disso, passei a usar a palavra “criança”. Quando falei com Susan Lex. Quando falei com você. Disse que uma criança de 13 anos precisava de um transplante.

– E...?

– Então, quando conversamos no carro naquela noite, você perguntou o que eu queria realmente, qual era meu verdadeiro interesse naquilo tudo. Lembra?

– Lembro.

– E eu respondi que já tinha contado.

– Certo.

– E você indagou: “O garoto que precisa de um transplante de medula?” Como você sabia que era um garoto?

Win se virou para Stan, que o encarou.

– Essa é a sua prova? – rebateu Gibbs. – Talvez você tenha soltado essa informação, Myron. Ou talvez eu tenha posto na cabeça que era um garoto. Ou ouvi mal. Isso não é prova.

– Você está certo. Não é. Mas me fez pensar, só isso.

– Pensamentos não são provas.

– Uau – disse Win. – Pensamentos não são provas. Não vou esquecer essa.

– Mas existem provas – continuou Myron. – Cabais.

– Impossível – retrucou Stan com um fio de voz. – Quais?

– Vou chegar lá. Primeiro me deixe dar vazão à minha indignação um pouco.

– Não entendo.

– No final das contas, o que você fez foi infame, não há a menor dúvida. Mas, à sua própria maneira, foi quase ético. Win e eu frequentemente discutimos se os fins justificam os meios. Foi o que aconteceu no seu caso. Você tentou entregar seu pai antes que ele atacasse de novo. Fez todo o possível para garantir que ninguém se machucasse. Jeremy nunca correu perigo, na verdade. Você não tinha como adivinhar que Greg seria baleado. No fim, você só assustou um garoto. Comparando com os assassinatos e com a destruição que seu pai teria continuado a promover, não foi nada. Logo, você fez algum bem. Os fins talvez tenham justificado os meios. Exceto por uma coisa.

Stan permaneceu calado.

– O transplante de medula de Jeremy. Ele vai morrer se não conseguir, Stan. E você sabe que é o doador, e não seu pai. Foi por isso que entregou a Edwin aquela cápsula de cianureto. Porque, assim que levássemos seu pai para o hospital e ficássemos sabendo que o doador não era ele, ora, iríamos investigar. Saberíamos que Edwin Gibbs não era Davis Taylor. Era preciso, então, que ele se matasse e você promovesse uma cremação rápida. Minha intenção não é que essa atitude pareça cruel ou fria como o resto da história. Você não matou seu pai. Ele tomou a cápsula porque quis. Era um homem doente. Queria morrer. Mais um exemplo de fins que justificam meios.

Myron parou um instante e encarou Stan, que sustentou seu olhar. De certa forma, aquele não deixava de ser um trabalho de agente. Myron estava negociando – a negociação mais importante de sua vida. Tinha encurralado o oponente. Agora precisava estender a mão, mas sem ajudá-lo ainda. Precisava mantê-lo encurralado, mas esticando a mão. Só um pouco.

– Você não é um monstro – continuou Myron. – Só não esperava as complicações de ser um doador de medula. Você quer ajudar Jeremy. Por isso está incentivando as doações com tanto fervor. Se eles encontrarem outro doador, você consegue livrar a cara. Porque você está enfiado até o pescoço nessa mentira agora. Não pode admitir que é o doador. Isso iria arruinar você. Dá para entender.

Os olhos de Stan estavam muito abertos e úmidos, mas ele continuava acompanhando.

– Eu disse a você que tinha provas – prosseguiu Myron. – Verificamos o cadastro de doadores de medula. Sabe o que descobrimos, Stan?

Ele não respondeu.

– Você não está cadastrado – falou Myron. – Está aqui pedindo a todo mundo para se cadastrar e o seu próprio nome não está na lista. Nós três sabemos por quê. Porque sua compatibilidade seria detectada. E, se você doasse, haveria mais perguntas.

Stan tirou da manga sua última carta de desafio:

– Isso não é prova.

– Como você vai explicar o fato de não estar cadastrado?

– Não tenho que explicar nada.

– Um exame de sangue vai provar tudo, sem dar margem a dúvidas. O cadastro ainda tem a amostra que Davis Taylor doou durante a campanha. Podemos fazer um teste de DNA e comprovar se o sangue é seu ou não.

– E se eu não concordar em fazer o exame?

Win aproveitou a brecha e respondeu com um minúsculo sorriso:

– Ah, você vai doar sangue, sim. De qualquer forma.

A expressão de Stan pareceu desmoronar. Ele abaixou a cabeça. O ar de desafio desaparecera. Encontrava-se encurralado agora. Não havia como escapar. Começaria a procurar um aliado. Isso sempre acontece nas negociações. Quando o cara está perdido, procura uma saída. Myron já tinha estendido a mão antes. Era hora de repetir o gesto.

– Você não entende... – falou Stan.

– Por mais estranho que pareça, entendo, sim – replicou Myron, aproximando-se um pouco mais dele. Então entrou no modo de comando total, suavizando a voz, mas sem perder a firmeza: – Você e eu faremos um acordo.

Ele levantou a cabeça, confuso mas esperançoso.

– Que acordo?

– Você vai consentir em doar a medula para salvar Jeremy. Anonimamente. Win e eu podemos providenciar isso. Ninguém jamais vai saber quem foi o doador. Você doa, salva Jeremy e eu esqueço o resto.

– Como posso confiar em você?

– Por duas razões – respondeu Myron. – Primeira, estou interessado em salvar Jeremy, e não em arruinar a sua vida. Segunda... – ele ergueu as mãos com as palmas para cima – ... não sou melhor que você. Também violei algumas regras. Deixei que os fins justificassem os meios. Bati num homem inocente. Sequestrei uma mulher.

Win balançou a cabeça.

– Tem uma diferença: enquanto as razões dele eram egoístas, você estava tentando salvar um garoto.

Myron se virou para o amigo.

– Você não disse que os motivos são irrelevantes? Que os atos é que importam?

– Sim. Mas me referindo a ele, e não a você.

Myron sorriu e encarou novamente Stan.

– Não sou superior a você em termos morais. Nós dois fizemos coisas erradas. Talvez consigamos viver com o que fizemos. Mas, se você deixar o garoto morrer, Stan, vai ter ido longe demais. Não vai conseguir dormir mais.

Stan fechou os olhos.

– Eu ia dar um jeito. Conseguir outra identidade falsa e fazer a doação com um pseudônimo. Só estava esperando que...

– Eu sei – interrompeu Myron. – Já sei de tudo.

 

Myron ligou para a Dra. Karen Singh:

– Encontrei um doador.

– O quê?

– Não posso dar mais detalhes. Ele tem que ficar no anonimato.

– Já expliquei a você que todos os doadores permanecem no anonimato.

– Não é isso. Nem o cadastro de doadores pode ficar sabendo. Precisamos encontrar um lugar que recolha a medula sem ter acesso à identidade do paciente.

– Isso não pode ser feito.

– Pode, sim.

– Nenhum médico concordaria...

– Não podemos entrar nesse jogo, Karen. Tenho um doador. Ninguém pode saber quem é. Coloque as engrenagens em funcionamento.

Myron ouvia a respiração de Karen do outro lado da linha.

– Ele tem que fazer um exame de confirmação – falou ela, por fim.

– Sem problema.

– E passar no exame físico.

– Combinado.

– Depois, tudo bem. Vamos começar logo com isso.

 

Quando Emily ficou sabendo do doador, lançou a Myron um olhar curioso e aguardou. Ele não explicou. Ela não perguntou.

Myron visitou o hospital um dia antes de o transplante ter início. Pôs a cabeça para dentro do quarto e viu o garoto dormindo. Estava careca por causa da quimioterapia. A pele tinha um brilho fantasmagórico, como se tivesse murchado por falta de sol. Myron observou o filho. Depois deu meia-volta e foi para casa. Não retornou mais.

Voltou para o trabalho na MB e foi tocar sua vida. Fez uma visita aos pais. Saía com Win e Esperanza. Conseguiu alguns clientes novos e começou a reerguer a firma. Big Cyndi pediu demissão como lutadora e voltou à recepção. O mundo de Myron estava um pouco abalado, mas de volta aos eixos.

Oitenta e quatro dias mais tarde – Myron fez a conta –, recebeu uma ligação de Karen Singh. Ela lhe pediu que fosse até seu consultório. Quando chegou, a médica não perdeu tempo:

– Funcionou. Jeremy foi para casa hoje.

Myron começou a chorar. Karen contornou a mesa, sentou no braço de sua cadeira e esfregou-lhe as costas.

 

Myron bateu à porta entreaberta.

– Entre – falou Greg.

Ele assim o fez. Downing estava sentado numa cadeira. Deixara crescer a barba durante a longa temporada no hospital.

Greg sorriu para Myron.

– Que bom ver você.

– Digo o mesmo. Gostei da barba.

– Me dá um ar másculo, não acha?

– Acho que está mais para um senhor bonachão – replicou Myron.

Greg riu.

– Volto para casa na sexta.

– Ótimo.

Silêncio.

– Você não tem aparecido muito – comentou Greg.

– Queria lhe dar tempo para se recuperar. E deixar a barba crescer.

Greg tentou rir de novo, mas meio que se engasgou.

– Minha carreira no basquete acabou, você já deve saber.

– Você vai dar a volta por cima.

– Fácil assim?

Myron sorriu.

– Quem disse que é fácil?

– É...

– Mas na vida existem coisas mais importantes que o basquete... embora às vezes eu me esqueça disso.

Greg assentiu, depois olhou para baixo.

– Fiquei sabendo que você encontrou um doador. Não sei como conseguiu, mas...

– Não importa.

Ele ergueu os olhos.

– Obrigado.

Myron não sabia o que dizer, portanto permaneceu calado. Foi então que Greg o deixou chocado:

– Você sabe, não é?

O coração de Myron parou.

– Foi por isso que ajudou – continuou Greg, a voz imperturbável. – Emily lhe contou a verdade.

Myron sentiu um aperto no coração. Ouvia um chiado dentro da cabeça, atordoado.

– Você fez o exame de sangue? – perguntou Greg.

Dessa vez Myron conseguiu aquiescer. Downing fechou os olhos. Bolitar engoliu em seco e perguntou:

– Quanto tempo faz que...?

– Nem sei mais. Acho que soube de cara.

Ele sabe. Ele sempre soube...

– Durante um tempo tentei me enganar, achando que não era verdade – continuou Greg. – É incrível o que a mente da gente consegue fazer às vezes. Mas, aos 6 anos, Jeremy teve que extrair o apêndice. Vi o tipo sanguíneo dele num laudo médico. Isso só veio confirmar o que sempre soube.

Myron não sabia o que dizer. Quando tomou consciência da situação, seus meses de bloqueio foram varridos para longe. A mente conseguia fazer coisas incríveis, realmente. Ele olhou para Greg e foi como ver algo pela primeira vez sob a luz adequada. Aquilo mudava tudo. Pensou outra vez nos pais. No verdadeiro sacrifício. Pensou nos heróis.

– Jeremy é um bom garoto – comentou Greg.

– Eu sei.

– Lembra-se do meu pai? Gritando nas laterais da quadra como um louco?

– Lembro.

– Acabei me parecendo com ele. Sou meu velho, cuspido e escarrado. Tinha meu sangue. E foi o filho da puta mais cruel que conheci. Essa história de sangue nunca significou muito para mim.

Um eco estranho tomou conta do quarto. Os ruídos de fundo desapareceram e só ficaram os dois se olhando, cada um na extremidade de um abismo bizarro.

Greg voltou para a cama.

– Estou cansado, Myron.

– Você não acha que deveríamos conversar sobre isso?

– É... Mais tarde talvez – respondeu Greg, deitando-se e fechando os olhos com uma força exagerada. – Agora estou muito cansado.

 

No fim do dia, Esperanza entrou na sala de Myron e sentou-se.

– Não entendo muito de valores familiares nem sei o que faz uma família feliz. Não sei qual é a melhor forma de se criar um filho nem o que fazer para que ele seja feliz e bem ajustado, o que quer isso signifique. Não sei se é melhor ser filho único ou ter um monte de irmãos. Ser criado pelo pai e pela mãe ou só por um deles. Ou por um casal gay ou de lésbicas. Ou por um albino obeso. Mas uma coisa eu sei.

Myron a encarou e aguardou que ela continuasse.

– Você nunca faria mal a uma criança só por fazer parte da vida dela.

Esperanza se levantou e foi para casa.

 

Stan Gibbs estava no quintal brincando com os filhos quando Myron e Win chegaram de carro. Uma mulher – Myron imaginou que fosse a esposa – estava sentada numa espreguiçadeira e os avistou. Um garoto pequeno montava em Stan como se ele fosse um cavalo. O outro se encontrava no chão, rindo.

Win fez uma careta.

– Que coisa mais singela.

Os dois saltaram do carro. Stan, o cavalo, levantou a cabeça. O sorriso permaneceu em seus lábios, mas podia-se ver que começava a perder força nos cantos da boca. Ele tirou o filho de cima e lhe disse algo que Myron não conseguiu ouvir.

– Poxa, papai... – falou o garoto.

Stan se pôs de pé e afagou o cabelo dele. Win franziu a testa. Enquanto Stan ia em direção a eles, o sorriso desaparecia.

– O que vocês estão fazendo aqui?

– Voltou com a esposa, hein? – comentou Win.

– Estamos tentando.

– Comovente.

Stan se virou para Myron.

– Do que se trata isto?

– Diga aos garotos para entrarem, Stan.

– O quê?

Outro carro parou em frente à casa. Rick Peck estava na direção e, no banco do carona, Kimberly Green. Stan empalideceu e fuzilou Myron com o olhar.

– Fizemos um acordo.

– Lembra que eu disse que você tinha duas escolhas quando o romance foi descoberto?

– Não estou no clima...

– Você poderia fugir ou contar a verdade. Lembra?

A fachada impassível de Stan começava a exibir falhas e, pela primeira vez, Myron viu a fúria.

– Deixei de fora uma terceira escolha, que você mesmo apontou na primeira vez em que nos encontramos. Você poderia ter dito que o sequestrador era um macaco de imitação. Que tinha lido o livro. Isso poderia ter ajudado você. Aliviado um pouco da pressão.

– Eu não podia fazer isso.

– Porque levaria até seu pai?

– É.

– Mas você não sabia que ele tinha escrito o livro. Não é, Stan? Você disse que nunca soube do livro. Eu me lembro da primeira conversa que tivemos. E tenho visto você repetir a mesma coisa na televisão. Você alega não saber que seu pai era o autor.

– É verdade – concordou Stan, e sua fachada voltou a se restabelecer. – Mas, não sei, talvez inconscientemente eu desconfiasse de algo. Não sei explicar.

– Bom – comentou Myron.

– Muito bom – acrescentou Win.

– O problema era que – continuou Myron – você precisava dizer que não tinha lido o livro. Porque se tivesse, ora, Stan, você seria um plagiador. Todo o seu trabalho, todos os seus grandes planos para recuperar a reputação, tudo iria por água abaixo. Você estaria arruinado.

– Já discutimos isso.

– Não, Stan, não discutimos. Não esta parte, pelo menos.

Myron ergueu um saco plástico próprio para guardar provas com uma folha de papel dentro.

Stan retesou o maxilar.

– Sabe o que é isto?

Ele não respondeu.

– Encontrei no apartamento de Melina Garston. Está escrito “Com amor, paizinho”.

Stan engoliu em seco.

– E daí?

– Algo nisto me incomodou desde o início. Em primeiro lugar, a palavra “paizinho”.

– Não estou entendendo...

– Claro que está. Quando conversei com George Garston, ele se referiu a si mesmo como “papai”. Ele também relatou um telefonema de Melina em que a filha o chamava de “papai”. Por que assinaria então um bilhete com “paizinho”?

– Isso não quer dizer nada.

– Talvez sim, talvez não. Agora a segunda coisa que me incomodou: quem manda um cartão sem nenhum desenho ou mensagem do lado de fora? Além disso, ninguém escreve na metade superior, mas na inferior, certo? Mas, veja bem, Stan, este não é um cartão. É uma folha de papel dobrada ao meio. Essa é a chave. E estes rasgos ao longo da margem esquerda... Como se alguém tivesse arrancado a folha de algum lugar.

Win entregou a Myron o romance que fora enviado a Kimberly Green. Ele o abriu e colocou a folha dentro.

– Como um livro.

Encaixava-se perfeitamente.

– Seu pai escreveu esta dedicatória – continuou Myron. – Para você. Anos atrás. Você sabia da existência do livro o tempo inteiro.

– Você não tem como provar isso.

– Espere aí, Stan. Um especialista em caligrafia não vai ter problema nenhum em identificar a letra. Não foi a família Lex que descobriu o livro. Foi Melina Garston. Você lhe pediu que mentisse no tribunal. E ela obedeceu. Mas depois começou a ficar desconfiada. Deu uma vasculhada na sua casa e encontrou o livro. Foi ela quem o mandou para Kimberly Green.

– Você não tem provas.

– Ela enviou anonimamente porque ainda gostava de você. Chegou a arrancar a dedicatória para que ninguém, sobretudo você, soubesse de onde tinha vindo. Você tinha muitos inimigos. Como Susan Lex, por exemplo. E os federais. Ela esperava que você desconfiasse de um deles. Durante algum tempo, pelo menos. Mas você descobriu de cara que foi Melina. Ela não contava com isso. Ou com a sua reação.

Stan cerrou os punhos, que começaram a tremer.

– As famílias das vítimas não falariam com você, Stan. E você precisava das falas para o seu artigo. Você acabou se guiando mais pelo livro que pela realidade. Os federais acharam que era para enganá-los. Mas não é verdade. Talvez seu pai tivesse lhe contado que era o assassino, mas só isso. Talvez a história real não fosse tão interessante e você precisasse enfeitá-la. Talvez ele não fosse um escritor tão bom e você tivesse sentido que precisava daquelas citações das famílias. Não sei. Mas você plagiou. E a única pessoa que podia ligar você a esse livro era Melina Garston. Por isso a matou.

– Você nunca vai conseguir provar.

– O FBI vai investigar pra valer agora. Os Lex vão ajudar. Win e eu também. Encontraremos o bastante. No mínimo, um júri vai ficar sabendo de todo o seu papel nisso. Acho que o mundo inteiro. Vão odiar você o suficiente para condená-lo.

– Seu filho da puta.

Stan investiu contra Myron. Com um movimento quase casual, Win passou-lhe uma rasteira. O jornalista caiu no chão. Win apontou e riu. As crianças presenciavam tudo.

Kimberly e Peck saltaram do carro. Myron fez-lhes sinal para esperarem, mas ela balançou a cabeça. Eles algemaram Stan com força e o arrastaram. Os filhos ainda observavam. Myron pensou em Melina Garston e na própria promessa silenciosa. Ele e Win voltaram ao carro.

– Você sempre quis botá-lo na cadeia – comentou Win.

– Sim. Mas primeiro eu precisava garantir que ele doasse a medula.

– E depois que viu que Jeremy estava bem...

– Contei para Green.

Win deu partida no carro.

– As provas ainda são fracas. Um bom advogado vai encontrar muitas brechas.

– Não é problema meu – retrucou Myron.

– Você acha que ele ainda merece viver?

– Sim. Mas o pai de Melina tem poder. E ele não vai viver.

– Achei que você o tivesse aconselhado a não fazer justiça com as próprias mãos.

Myron deu de ombros.

– Ninguém me escuta mesmo...

– Isso é verdade – concordou Win, e saiu com o carro.

– Fico pensando...

– Em quê?

– Quem era o serial killer nessa história? O pai mesmo? Ou Stan o tempo inteiro?

– Acho que nunca vamos saber.

– Provavelmente não.

– Não importa. Eles vão pegá-lo por causa de Melina Garston.

– Acho que sim – concordou Myron.

– E então, está tudo acabado, meu amigo?

A perna de Myron deu aqueles espasmos nervosos outra vez. Ele segurou-a e respondeu:

– Jeremy.

– Ah. Você vai contar para ele?

Myron olhou pela janela sem ver nada de fato.

– O credo egoísta de Win diria que sim.

– E o credo de Myron?

– Não acho que seja muito diferente.

 

Jeremy estava jogando basquete. Myron subiu na arquibancada, do tipo instável que balança a cada passo, e sentou-se. O garoto ainda estava pálido. Mais magro do que a última vez que o vira, mas espichara do nada nos últimos meses. Myron percebeu como as mudanças acontecem rápido nos jovens e sentiu uma pontada forte no peito.

Durante um tempo, apenas observou a partida e tentou avaliar as jogadas do filho objetivamente. Jeremy tinha as ferramentas necessárias, Myron pôde ver de cara, mas elas estavam enferrujadas. Isso, entretanto, não era problema. A ferrugem não perdura muito nos jovens.

À medida que Myron observava o treino, seus olhos iam se arregalando. Sentia as entranhas se contraírem. Refletiu de novo sobre o que ia fazer e uma onda gigante cresceu dentro dele, subjugando-o, encobrindo-o.

Jeremy sorriu quando o viu. O sorriso fez o coração de Myron estremecer. Sentiu-se perdido, à deriva. Pensou no que Win dissera, no que era ser um verdadeiro pai, e também no que Esperanza falara. Pensou em Greg e Emily. Perguntou a si mesmo se não deveria ter conversado com o próprio pai sobre aquilo, revelado que não era uma hipótese, que a bomba caíra de fato, que precisava de ajuda.

Jeremy continuava a jogar, mas Myron podia notar que se distraíra com sua presença. O garoto ficava olhando a todo momento para a arquibancada. Jogava um pouco mais firme, recuperando um pouco o ritmo. Myron sabia bem como era. A vontade de impressionar. Empurrava-o para a frente, talvez quase tanto quanto o desejo de vencer. Fútil, mas verdadeiro.

O técnico fez os jogadores correrem mais um pouco e depois os perfilou na linha de fundo. Eles terminaram o treinamento com os exercícios conhecidos como “suicídios”, que consistiam basicamente numa série de corridas de curta distância, interrompidas por curvas e toques no chão, em diferentes linhas da quadra. Myron sentia saudade de muitas coisas relacionadas ao basquete, mas não dos “suicídios”.

Dez minutos depois, enquanto a maioria dos garotos ainda tentava recuperar o fôlego, o técnico reuniu a tropa, distribuiu tabelas com os horários de treinamento para o restante da semana e os dispersou com um sonoro bater de palmas. A maior parte se dirigiu à saída, colocando as mochilas nos ombros. Alguns foram para o vestiário. Jeremy caminhou vagarosamente até Myron.

– Oi – cumprimentou ele.

– Oi.

O suor escorria de seu cabelo e empapava seu rosto, avermelhado por causa do exercício.

– Vou tomar uma chuveirada. Quer esperar?

– Claro – respondeu Myron.

– Que bom, volto num minuto.

O ginásio se esvaziou. Myron se levantou e pegou uma bola de basquete. Os dedos encontraram imediatamente as ranhuras, a posição certa. Fez alguns lançamentos, observando a rede dançar enquanto a bola caía. Sorriu e sentou-se, ainda segurando-a. Um zelador entrou e começou a limpar o chão. Seu chaveiro tilintava. Alguém desligou as luzes do teto. Jeremy reapareceu um pouco depois, o cabelo ainda molhado. Também trazia a mochila no ombro.

Como diria Win, “hora do show”.

Myron apertou a bola com um pouco mais de força.

– Sente-se, Jeremy. Precisamos conversar.

O rosto do garoto estava sereno e quase belo demais. Ele tirou a mochila do ombro e se acomodou. Myron ensaiara aquela parte. Examinara-a de todos os ângulos, todos os prós e contras. Havia formado uma opinião e depois mudado de ideia, então formado outra. Tinha se torturado o bastante, como Win bem falara.

Porém, no final, descobriu que havia uma verdade universal: as mentiras corrompem. Tentamos afastá-las. Colocá-las numa caixa e enterrá-las. Mas elas acabam saindo de seus caixões e túmulos. Podem dormir durante anos. Só que sempre acordam. E, quando o fazem, estão descansadas, mais fortes e insidiosas.

As mentiras matam.

– Vai ser um pouco difícil de entender...

Ele se deteve. De repente, seu discurso ensaiado soou tão enlatado, cheio de “não é culpa de ninguém”, “os adultos também cometem erros” e “isso não quer dizer que seus pais amem você menos”. Era condescendente, estúpido e...

– Sr. Bolitar?

Myron olhou para o garoto.

– Meus pais já me contaram – disse Jeremy. – Dois dias atrás.

Ele sentiu um aperto no peito.

– O quê?

– Já sei que você é meu pai biológico.

Myron ficou e não ficou surpreso ao mesmo tempo. Emily e Greg tinham feito uma investida antecipada, digamos, quase como um advogado que revela algo de ruim sobre o próprio cliente porque sabe que a promotoria vai fazer o mesmo. Para diminuir o impacto do golpe. Mas talvez os dois houvessem aprendido a mesma lição que ele sobre a corrupção das mentiras. E talvez estivessem, de novo, tentando fazer o que era melhor para o garoto.

– E como você se sente em relação a isso? – perguntou Myron.

– Me sinto meio estranho, acho. Meus pais pareciam achar que eu ia ter um troço, sei lá. Mas não vejo por que fazer disso um bicho de sete cabeças.

– Não?

– Tudo bem, entendo, claro, mas – ele deu de ombros – não é como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo, essas coisas. Dá para entender?

Myron assentiu.

– Talvez porque seu mundo já tenha sido virado de cabeça para baixo.

– Você está falando da doença e do resto?

– Sim.

– É, talvez – falou ele, refletindo. – Deve ser estranho para você também.

– Claro.

– Andei pensando nisso. Sabe o que percebi?

Myron engoliu em seco. Olhou nos olhos do garoto – via serenidade, sim, mas não por causa da inocência.

– Sim, quero muito saber.

– Que você não é meu pai – esclareceu ele com simplicidade. – Poderia ser, mas não é. Dá para entender?

Myron conseguiu aquiescer.

– Mas... – Jeremy fez uma pausa, olhou para cima, encolheu os ombros como um garoto de 13 anos faz. – Mas talvez você possa fazer parte.

– Parte? – repetiu Myron.

– É – falou Jeremy, sorrindo, e Myron sentiu outra pontada no peito. – Participar. Sabe?

– Sim, sei.

– Acho que eu iria gostar.

– Eu também.

Jeremy meneou a cabeça.

– Legal.

– É.

O relógio do ginásio tiquetaqueava. Jeremy olhou para ele.

– Mamãe deve estar lá fora esperando por mim. A gente costuma fazer uma parada no supermercado, no caminho para casa. Quer vir junto?

– Hoje não, obrigado.

– Sem problema. – Jeremy se levantou e encarou Myron. – Você está bem?

– Estou.

Jeremy sorriu.

– Não se preocupe. Vai dar tudo certo.

Myron tentou retribuir o sorriso.

– Como você consegue ser tão esperto?

– Tenho a quem puxar. Uma boa combinação de genes.

Myron riu.

– Talvez você possa considerar entrar para a política.

– Quem sabe. Se cuida, Myron.

– Você também, Jeremy.

Ele observou o garoto caminhar até a porta, a mesma ginga familiar. Jeremy não olhou para trás. Ouviu-se o som da porta fechando, os ecos, e Myron estava sozinho. Ele se virou para a cesta e ficou contemplando o aro até que se transformasse em um borrão. Visualizou o primeiro passo do garoto, ouviu sua primeira palavra, sentiu o cheiro gostoso de pijama infantil. Sentiu o impacto de uma bola de beisebol contra uma luva, inclinou-se para ajudá-lo com o dever de casa, ficou uma noite inteira sem dormir quando ele teve uma virose, tudo aquilo que seu pai tinha feito – um redemoinho de imagens provocativas e dolorosas, tão irrecuperáveis quanto o passado. Viu-se pairando no umbral do quarto do garoto, na penumbra, sentinela solitária de sua adolescência, e sentiu o que restara do coração explodir em chamas.

Aquelas imagens se dispersaram quando piscou os olhos. O coração voltou a bater. Contemplou de novo a cesta e aguardou. Dessa vez, nada ficou borrado. Nada aconteceu.