O Medo Mais Profundo
Capítulo 20
JÁ NO CARRO, LIGOU PARA Emily.
– Pensei que você ia me dar um bolo – disse ela.
Myron deu uma olhada pelo retrovisor e viu o que poderia ser outro detetive federal. Sem problemas.
– Desculpe, tive um imprevisto.
– Tem alguma relação com o doador?
– Acho que não.
– Você ainda está em Jersey?
– Sim.
– Venha para cá. Dou uma requentada no almoço.
Quis dizer “não”.
– Ok.
O distrito de Franklin Lakes estava crescendo. A maioria das casas era nova, enormes mansões de tijolos, em becos sem saída, com pequenos portões nos acessos para carros que se abriam com botões ou interfone, como se isso fosse de fato proteger os donos do que havia lá fora, além dos gramados verdejantes e das sebes imaculadamente podadas. Os interiores estavam também crescendo: salas de jantar grandes o bastante para helicópteros pousarem, persianas operadas por controle remoto, cozinhas de última geração com ilhas de mármore que davam para aposentos do tamanho de cinemas, sempre com elaborados home-theaters ultramodernos.
Myron tocou a campainha, a porta se abriu e, pela primeira vez na vida, viu-se cara a cara com o filho.
Jeremy sorriu.
– Oi.
Algo estranho se irradiou por Myron, seu sistema nervoso derretendo-se e em frenesi ao mesmo tempo. O diafragma se contraiu e os pulmões pararam de funcionar – da mesma forma que o coração, tinha certeza. A boca se abriu e se fechou debilmente, como a de um peixe que está morrendo no convés de um barco. Lágrimas tentavam brotar.
– Você é Myron Bolitar, né? – perguntou Jeremy.
Um barulho de concha do mar tomou seus ouvidos. Ele se esforçou para assentir.
– Você jogou basquete com meu pai – continuou o garoto, ainda com o sorriso que dava pontadas no coração de Myron. – Na faculdade, né?
Ele conseguiu recuperar a fala:
– É.
Jeremy assentiu.
– Legal.
– É.
Ouviu-se uma buzina. Jeremy se inclinou para a direita e olhou para trás dele.
– É minha carona. Atrasada.
Jeremy deu um pulo e passou por Myron, que se virou entorpecido e observou o garoto correr para fora. Talvez fosse só sua imaginação, mas aquele andar era tão familiar... Podia ser visto nos vídeos dos jogos de Myron. A coisa estranha voltou a se irradiar por seu corpo. Ai, meu Deus...
Sentiu uma mão no ombro, mas ignorou-a e ficou olhando o garoto. A porta do carro se abriu e Jeremy foi engolido pela escuridão. A janela do motorista baixou e uma mulher bonita surgiu gritando:
– Desculpe pelo atraso, Em!
Por trás dele, Emily respondeu:
– Não tem problema.
– Vou levá-los para a escola de manhã.
– Ótimo.
Um aceno e a janela voltou a subir. O carro deu partida. Myron observou-o desaparecer na rua. Sentia os olhos de Emily fixos nele. Virou-se lentamente para ela.
– Por que você fez isso?
– Pensei que ele já teria saído a esta hora.
– Eu tenho cara de idiota?
Ela entrou na casa.
– Quero mostrar uma coisa para você.
Tentando recuperar o movimento das pernas, Myron seguiu-a em silêncio pela escada. A cabeça oscilava e um juiz interior ainda contava até dez pretendendo declarar nocaute. Emily levou-o por um corredor escuro, repleto de litografias modernas nas paredes. Parou, abriu uma porta e acendeu a luz. Era o quarto típico de um adolescente, como se alguém tivesse posto todos os seus pertences no meio do cômodo e atirado uma granada. Pôsteres estavam pendurados tortos nas paredes, com os cantos rasgados, faltando tachinhas: viam-se Michael Jordan, Keith van Horn e Greg Downing, além de Austin Powers com as palavras YEAH, BABY! escritas sobre seu corpo em letras cor-de-rosa. Havia uma cesta de basquete de brinquedo na porta do armário, um computador sobre a escrivaninha e um boné de beisebol sobre um abajur. O quadro de cortiça ostentava uma mistura de fotos de família e desenhos de giz de cera em cartolinas assinados pela irmã de Jeremy, tudo preso com percevejos grandes demais. Myron avistou bolas de futebol americano e de beisebol autografadas, troféus baratos, uma ou duas faixas azuis e três bolas de basquete, uma delas vazia. Sobre a cama desfeita estavam pilhas de CD-ROM de jogos para computador e um Game Boy, além de uma quantidade surpreendente de livros, alguns abertos e virados para baixo. Roupas se espalhavam pelo chão como feridos de guerra e as gavetas se encontravam entreabertas, com camisas e cuecas penduradas, como se tivessem sido baleadas durante uma fuga. Sentia-se no quarto o cheiro estranhamente reconfortante de meias de criança.
– Ele é um bagunceiro – disse Emily, explicitando o que era óbvio – igual a você.
Myron permanecia petrificado.
– Ele guarda pomada para acne numa gaveta da escrivaninha – continuou ela. – Acha que não sei. Está naquela idade em que as paixões o mantêm acordado a noite inteira, mas nunca beijou uma garota. – Emily foi até o quadro de cortiça e tirou uma fotografia de Jeremy. – Ele é lindo, não acha?
– Isso não contribui para nada, Emily.
– Quero que você entenda.
– Entender o quê?
– Ele vai morrer sem nunca ter beijado uma garota.
Myron ergueu as mãos.
– Não sei o que você quer que eu diga.
– Tente entender, ok?
– Não precisa fazer melodrama. Eu entendo.
– Não, Myron, não entende. Você vê aquela noite como uma espécie de mancada melancólica. Fizemos algo condenável e pagamos um preço alto. Se pudéssemos voltar e apagar esse erro trágico... Parece algo saído de Hamlet e Macbeth, não é? Sua carreira arruinada de jogador de basquete, o futuro de Greg, nosso casamento, tudo jogado fora por causa de um momento de desejo.
– Não foi desejo.
– Não vamos discutir isso de novo. Não importa o que foi: desejo, burrice, medo, destino... Chame pelo maldito nome que você quiser, mas eu faria tudo de novo. Esse “erro” foi a melhor coisa que já me aconteceu. Jeremy, nosso filho, surgiu dessa confusão. Está me ouvindo? Eu destruiria um milhão de carreiras e casamentos por ele.
Ela o encarou, desafiadora. Myron não disse nada.
– Não sou religiosa e não acredito em fatalidade, destino, nada disso – continuou Emily. – Mas talvez, quem sabe, tenha havido um equilíbrio natural. Talvez a única forma de produzir algo tão maravilhoso fosse cercar o acontecimento de tanta destruição.
Myron começou a sair do quarto.
– Isso não contribui para nada – repetiu.
– Contribui, sim.
– Você quer que eu encontre o doador. Estou tentando fazer isso. Mas esse tipo de distração não ajuda. Não posso me envolver.
– Não, Myron, você precisa se envolver. Ficar mais emotivo. Tem que entender o que está em jogo: seu filho, esse garoto lindo que abriu a porta, vai morrer sem nem poder beijar uma garota.
Emily se aproximou, olhando-o nos olhos, e Myron pensou que nunca os vira tão claros.
– Assisti a todos os seus jogos na Duke. Me apaixonei por você naquela quadra, não porque era o astro do time ou atraente, atlético. E, quanto mais as emoções o dominavam, quanto mais pressão havia, melhor você jogava. Se fosse apenas um amistoso, você perdia o interesse. Precisava de competitividade. De se superar faltando só alguns segundos no relógio. Precisava perder o controle um pouco.
– Isso não é um jogo, Emily.
– Certo. Os riscos são maiores. A emoção devia estar mais forte. Quero você desesperado, Myron. É quando você dá o melhor de si.
Ele olhou para a foto de Jeremy e soube que experimentava uma sensação inédita. Piscou, contemplou sua expressão no espelho da porta do armário e, por um momento, viu o próprio pai fitando-o.
Então Emily o abraçou. Enterrou o rosto em seu ombro e começou a chorar. Myron se manteve firme. Ficaram naquela posição durante alguns minutos antes de descerem a escada. Enquanto almoçavam, ela lhe contou histórias sobre Jeremy e ele se deleitou com cada uma delas. Depois sentaram-se no sofá para ver álbuns. Emily acomodou-se de pernas cruzadas, pôs o cotovelo em cima do encosto, apoiando a cabeça com a mão, e contou-lhe mais coisas. Já eram quase duas da madrugada quando ela o levou até a porta, de mãos dadas com ele.
– Sei que você conversou com a Dra. Singh – disse ela, diante da porta aberta.
– Sim.
Emily soltou um longo suspiro.
– Preciso dizer isto, ok?
– Ok.
– Tenho feito as contas. Comprei um desses testes caseiros. O melhor dia, ahn, para a concepção vai ser quinta-feira.
Myron abriu a boca, mas ela o calou com a mão.
– Já conheço todos os argumentos contrários, mas pode ser a única chance de Jeremy. Não fale nada, apenas pense no assunto.
Ela fechou a porta e Myron contemplou-a por uns momentos. Tentou evocar o momento em que Jeremy a abrira, o sorriso maroto em seu rosto, mas a imagem já estava enevoada, desaparecendo rapidamente.