O Medo Mais Profundo
Capítulo 27
NA MANHÃ SEGUINTE, GREG DOWNING acordou Myron cedo com um telefonema:
– Nathan Mostoni saiu da cidade. Então voltei para Nova York. Tenho que pegar meu filho hoje à tarde.
Que bonzinho, pensou Myron, mas ficou de boca fechada.
– Estou indo fazer lances livres na Rua 92 – continuou ele. – Quer vir?
– Não.
– Venha assim mesmo. Às dez.
– Vou me atrasar – falou Myron, desligando e se levantando da cama.
Verificou os e-mails e viu que o contato de Esperanza enviara um arquivo. Clicou e uma imagem foi aparecendo aos poucos na tela. O possível rosto de Dennis Lex com mais de 30 anos. Estranho. Myron examinou-o. Não era nem um pouco familiar. Trabalho excelente. Natural. Exceto os olhos, que sempre ficavam parecidos com os de um morto.
Clicou para imprimir. Olhou as horas no canto inferior direito da tela. Ainda era cedo, mas não queria esperar. Ligou para o pai de Melina Garston.
George Garston concordou em receber Myron na sua cobertura, na esquina da Quinta Avenida com a Rua 78, dando vista para o Central Park. Uma mulher de cabelo escuro abriu a porta. Apresentou-se como Sandra e o conduziu em silêncio por um corredor. Myron olhou por uma janela e avistou a silhueta gótica do Dakota do outro lado do parque. Lembrou-se de ter lido em algum lugar que Woody Allen e Mia Farrow se comunicavam sacudindo toalhas da janela dos apartamentos de cada um, em lados opostos do Central Park. Em dias mais felizes, sem dúvida.
– Não entendo o que o senhor tem a ver com minha filha – disse George Garston.
Ele usava uma camisa azul de colarinho que contrastava com pelos peitorais brancos semelhantes a cabelos de bonecos trolls. A cabeça calva era uma esfera quase perfeita, encaixada entre dois ombros que pareciam rochas. Tinha uma compleição imponente, robusta, de imigrante bem-sucedido que cortara um bom dobrado. Estava meio encurvado, e provavelmente vivia assim devido ao sofrimento constante. Myron já observara aquilo antes. Uma espécie de pesar que coloca você para baixo. Vai-se em frente, mas o sorriso nunca alcança o olhar.
– Provavelmente nada – comentou Myron. – Estou tentando encontrar uma pessoa que pode estar ligada ao assassinato da sua filha. Não sei mesmo.
Os móveis do estúdio eram de cerejeira bem escura; as cortinas estavam fechadas e um abajur lançava uma débil luz amarelada. George Garston se virou para o lado, contemplando o belo papel de parede e revelando a Myron seu perfil.
– Já trabalhamos juntos uma vez – disse ele. – Não pessoalmente, mas as nossas empresas. Sabia?
– Sim.
George Garston fizera fortuna com uma cadeia de pretensos restaurantes de comida grega, do tipo que se vê nas praças de alimentação dos shoppings. Chamava-se Achilles Meals. Sério, “Refeições de Aquiles”. Myron agenciava um jogador de hóquei grego que fora garoto-propaganda deles no Meio-Oeste.
– Então um empresário esportivo está interessado no assassinato da minha filha.
– É uma longa história.
– A polícia não me fala mais nada. Mas acham que foi o namorado. Esse jornalista. O senhor concorda?
– Não sei. O que o senhor acha?
Ele fez um som de escárnio. Myron mal podia ver seu rosto.
– O que eu acho? O senhor parece um terapeuta.
– Não foi a minha intenção.
– Vomitando toda essa sensibilidade falsa. Apenas tentam desviar a atenção dos outros em relação à realidade. Dizem que se deve encará-la. Mas na verdade é o contrário. Querem que as pessoas mergulhem tanto nelas mesmas para que não vejam como suas vidas são terríveis. – Ele grunhiu, remexendo-se na cadeira. – Não tenho opinião formada sobre Stan Gibbs. Nunca o encontrei.
– Sabia que ele e sua filha estavam tendo um relacionamento?
No escuro, Myron viu a grande cabeça balançando para a frente e para trás.
– Ela me contou que tinha um namorado. Não falou o nome. Nem que era casado.
– Porque não teria sua aprovação?
– Claro que eu não aprovaria – respondeu ele, tentando soar curto e grosso, mas seu protesto ia além da simples indignação. – O senhor aprovaria se fosse sua filha?
– Acho que não. Então não sabia nada sobre o relacionamento dela com Stan Gibbs?
– Nada.
– Soube que o senhor falou com ela um pouco antes do assassinato.
– Quatro dias antes.
– Pode me dizer como foi a conversa?
– Melina andava bebendo – falou ele, naquele tom monótono de quem já fez o mesmo discurso mentalmente várias vezes. – Muito. Bebia demais, minha filha. Herdou esse gosto do papai aqui, e eu herdei do meu pai. Uma herança da família Garston.
Ele deu uma risada que mais parecia um soluço.
– Melina falou sobre o depoimento que deu?
– Sim.
– Pode me contar o que ela disse exatamente?
– “Cometi um erro, papai.” Me contou que mentiu.
– E o que o senhor disse a ela?
– Eu nem sabia do que ela estava falando! É como eu disse, não sabia desse namorado.
– Pediu a ela que se explicasse?
– Sim.
– E...?
– Ela não explicou nada. Falou para eu não me preocupar. Que cuidaria de tudo. Depois disse que me amava e desligou.
Silêncio.
– Tive dois filhos, Sr. Bolitar. Sabia disso?
Myron balançou a cabeça.
– Um acidente de avião matou o meu Michael, três anos atrás. Agora um animal torturou e matou minha menina. Minha esposa... O nome dela era Melina também... morreu faz quinze anos. Não tenho mais ninguém. Há 48 anos, achei que tinha vindo para este país sem nada. Ganhei um bocado de dinheiro. E agora não tenho nada de verdade. Está entendendo?
– Sim.
– Isso é tudo, então?
– Sua filha tinha um apartamento na Broadway.
– Isso mesmo.
– Os pertences dela ainda estão lá?
– Sandra, minha nora, está encaixotando as coisas. Mas ainda está tudo lá. Por quê?
– Gostaria de dar uma olhada se não for problema.
– A polícia já fez isso.
– Eu sei.
– O senhor acha que pode encontrar algo que tenha passado despercebido para eles?
– Tenho quase certeza de que não.
– Mas...?
– É que estou abordando o caso de uma perspectiva diferente, logo meu olhar está mais aguçado.
Garston acendeu o abajur da mesinha. O tom amarelado da luz fazia com que parecesse sofrer de icterícia. Myron viu que seus olhos estavam muito secos, sensíveis.
– Se o senhor descobrir quem matou minha Melina, me avise em primeiro lugar.
– Não – retrucou Myron.
– O senhor sabe o que ele fez com ela?
– Sim. E sei o que o senhor planeja. Mas isso não vai fazê-lo se sentir melhor.
– Diz isso como se soubesse de fato.
Myron ficou em silêncio.
Garston desligou o abajur e olhou para outro lado.
– Sandra vai levá-lo lá agora.
– Ele fica sentado naquele estúdio o dia inteiro – contou Sandra Garston, apertando o botão do elevador. – Não sai mais de casa.
– Ainda está muito recente – replicou Myron.
Ela balançou a cabeça. O cabelo preto-azulado caía-lhe nos ombros em cachos grandes e soltos. Apesar da cor do cabelo, sua aparência era no geral quase islandesa: rosto e compleição de uma patinadora de nível internacional, traços bem marcados. A pele tinha a vermelhidão do frio inclemente.
– Ele acha que não tem mais ninguém.
– Tem você.
– Sou a nora. Quando me vê, pensa logo em Michael. Não tenho coragem de contar que enfim comecei outro relacionamento.
Quando chegaram à rua, Myron perguntou:
– Você e Melina eram íntimas?
– Acho que sim.
– Sabia do namoro dela com Stan Gibbs?
– Sim.
– Mas ela nunca contou ao pai.
– Ah, jamais faria isso. Ele não aprovava praticamente homem nenhum. Um casado, então, o faria subir pelas paredes.
Eles atravessaram a rua e chegaram àquela maravilha no centro da cidade chamada Central Park, que estava lotado. Desenhistas asiáticos tentavam vender seus trabalhos. Homens faziam jogging, usando shorts que pareciam fraldas. Pessoas tomavam sol na grama, amontoadas umas ao lado das outras, mas na verdade totalmente solitárias. Nova York é assim. O escritor E. B. White disse certa vez que a cidade confere a seus moradores o dom da solidão e da privacidade. Direto ao ponto. Era como se todo mundo estivesse escutando o próprio MP3, cada um ouvindo uma música diferente, balançando-se num ritmo próprio.
Um mauricinho de bandana jogava frisbee e gritava “Pega!”, mas não havia nenhum cachorro. Mulheres saradas patinavam vestindo tops de ginástica. Muitos homens, de diferentes portes, estavam sem camisa. Um cara gordo e barrigudo, que parecia um boneco de massinha molhado, passou por Myron. Atrás dele, um rapaz musculoso deu uma parada e flexionou o bíceps com arrogância. Em público. Myron fez uma careta. Não sabia o que era pior: quando os caras faziam aquilo com ou sem camisa.
Quando chegaram à Central Park West, Myron perguntou:
– Você tinha alguma objeção ao fato de ela namorar um homem casado?
Sandra encolheu os ombros.
– Era uma preocupação minha, é claro. Mas ele disse a Melina que ia deixar a mulher.
– Todos dizem, não?
– De qualquer forma, Melina acreditou. Parecia feliz.
– Você chegou a conhecer Stan Gibbs?
– Não. O relacionamento era supostamente secreto.
– Alguma vez ela comentou com você que havia mentido no tribunal?
– Não – respondeu ela. – Nunca.
Sandra abriu a porta e Myron entrou. Cores. Muitas. Felizes. O apartamento parecia um encontro do Magical Mystery Tour com os Teletubbies: tons berrantes, em especial verdes, com toques nebulosos, psicodélicos. As paredes estavam cobertas de aquarelas em cores fortes, de terras distantes e viagens oceânicas. Havia um pouco de surrealismo também. O efeito era como o de um clipe da Enya.
– Comecei a pôr as coisas dela em caixas, mas é difícil encaixotar uma vida – comentou Sandra.
Myron assentiu e começou a andar pelo pequeno apartamento, esperando uma epifania ou algo do gênero. Não aconteceu nada. Passou os olhos pelas obras artísticas.
– Ela ia fazer sua primeira exposição no Village mês que vem – observou Sandra.
Myron examinou uma pintura com cúpulas brancas e água azul, cristalina. Reconheceu o local: era na ilha de Míconos. Um trabalho excelente. Quase sentia a maresia do Mediterrâneo, saboreava o peixe grelhado na praia, experimentava a areia noturna grudada ao corpo de alguma amante. Nenhuma pista ali, porém ficou olhando alguns minutos antes de se virar.
Começou a mexer nas caixas. Encontrou um anuário escolar, da turma de 1986, e o folheou até encontrar uma foto de Melina. Dizia que ela gostava de pintar. Olhou de novo para as paredes. Tão colorido e otimista seu trabalho... A morte, Myron sabia, era sempre irônica. A morte de pessoas jovens, mais ainda.
Concentrou outra vez a atenção na foto. Melina olhava para o lado, com aquele sorriso hesitante, inseguro, de aluna de ensino médio. Myron conhecia isso muito bem. Todos conhecem. Fechou o anuário e foi até os armários. As roupas estavam todas em ordem, muitos suéteres dobrados na prateleira de cima, sapatos enfileirados como soldadinhos de chumbo. Ele voltou para o material de antes e descobriu fotos dela numa caixa de sapato. Começou a examiná-las. Sandra sentou-se no chão ao seu lado.
– Essa era a mãe.
Ele viu a foto de duas mulheres, claramente mãe e filha, abraçadas. Dessa vez, não havia sinal do sorriso inseguro. Era um sorriso que se elevava aos céus como a canção de um anjo. Myron o estudou e imaginou aquela boca celestial gritando em agonia, sem esperança. Pensou em George Garston sozinho naquele estúdio com luzes cor de icterícia. E compreendeu.
Olhou para o relógio. Hora de seguir em frente. Viu fotos do pai, do irmão e de Sandra, de passeios com a família, tudo normal. Nenhuma de Stan Gibbs. Nada que ajudasse.
Achou maquiagem e perfumes em mais uma caixa. Em outra, deu com um diário, mas Melina não escrevia nada nele fazia dois anos. Folheou-o, mas pareceu-lhe uma violação desnecessária. Encontrou uma carta de amor, de um namorado antigo. Havia alguns recibos também.
Encontrou cópias das colunas de Stan.
Humm.
No caderno de telefones. Todas as colunas. Não havia nenhuma marcação nelas. Só os recortes, presos por um clipe. O que isso queria dizer? Examinou-as outra vez. Apenas recortes. Deixou-os de lado e fuçou um pouco mais. Alguma coisa caiu, da parte de trás. Myron pegou um pedaço de papel creme, ou branco envelhecido, meio rasgado na margem esquerda, que parecia um cartão. Na parte de fora, não havia nada. Ele o abriu. Na metade superior, as palavras Com amor, paizinho tinham sido escritas à mão. Myron pensou de novo em George Garston, sentado sozinho naquela sala, e sentiu algo lhe queimando a pele.
Sentou-se no sofá e tentou novamente invocar alguma imagem. Podia parecer estranho – sentado naquela sala tão vazia, o cheiro adocicado da mulher morta ainda pairando no ar, sentindo-se um pouco como aquela senhorinha de Poltergeist –, mas nunca se sabe. Os mortos não falavam com ele nem se comunicavam de nenhuma outra forma. Às vezes, no entanto, podia imaginar o que tinham pensado e sentido, e uma centelha provocava uma labareda. Tentou outra vez.
Nada.
Deixou os olhos passearem pelas telas e a ardência sob a pele começou outra vez. Examinou as cores vivas, permitiu que o invadissem. Aquele brilho deveria tê-la protegido. Besteira. Mas não evitou pensar nisso. Ela tivera uma vida. Melina trabalhava, pintava, adorava cores brilhantes, tinha vários suéteres, guardava as recordações preciosas numa caixa de sapato e alguém apagara aquela vida, porque nada daquilo importava para o assassino. Isso deixava Myron louco.
Ele fechou os olhos e tentou amainar a raiva. A raiva não era uma coisa boa. Obscurecia a razão. Já deixara extravasar esse lado antes – seu complexo de Batman, como chamava Esperanza –, mas ser um herói em busca de justiça ou vingança (se é que elas não se equivaliam) era uma atitude insensata, nada saudável. No final, você acabava presenciando coisas indesejadas. Aprendia verdades que não deveriam ser aprendidas. Doía e depois anestesiava. Melhor ficar longe.
Contudo, aquele fervilhar no sangue não o largava. Resolveu se entregar, deixar que a ardência o acalmasse, relaxasse seus músculos, invadisse-o tranquilamente. Talvez não fosse algo ruim. Talvez os horrores que já tinha testemunhado e as verdades que aprendera não o tivessem modificado nem o anestesiado.
Myron fechou as caixas, deu um último e longo olhar para a ensolarada ilha de Míconos e fez uma promessa silenciosa.