O Medo Mais Profundo
Capítulo 31
WIN, ESPERANZA, BIG CYNDI E Zorra estavam todos em sua sala.
Zorra vestia um suéter amarelo com um Z, pérolas grandes à la Wilma Flintstone, uma saia xadrez e meias soquetes brancas. Sua peruca era cacheada e cheia, lembrando Bette Midler no início da carreira ou talvez Annie, a pequena órfã, após uma dose de metadona. Sapatos brilhantes de salto alto que pareciam roubados da Dorothy, só que em tamanho 43.
Ela sorriu para Myron.
– Zorra está feliz por vê-lo.
– É, e Myron está feliz em vê-la também.
– Dessa vez estamos do mesmo lado, né?
– Estamos.
– Zorra fica contente.
Seu nome verdadeiro era Shlomo Avrahaim e ela era ex-agente do Mossad. Os dois haviam tido um desentendimento não fazia muito tempo. Myron ainda trazia uma cicatriz em forma de Z perto da costela, feita por uma lâmina que Zorra escondia no salto.
– O Edifício Lex é muito bem guardado.
– Vamos então executar o Plano B – replicou Myron.
– Já em execução – informou Win.
Myron encarou Zorra.
– Você está armada?
Ela tirou uma arma de baixo da saia.
– Uma Uzi. Zorra gosta de Uzi.
– Que patriótico.
– Uma pergunta – interveio Esperanza.
– O quê?
Ela olhou-o nos olhos.
– E se esse cara não cooperar?
– Não temos tempo de nos preocupar com isso – replicou Myron.
– Como não?
– O psicopata está com Jeremy. Entendeu? O garoto é a nossa prioridade.
Esperanza balançou a cabeça.
– Então não participe – retrucou ele.
– Você precisa de mim.
– Certo. E Jeremy precisa de mim. – Myron ficou de pé. – Ok, vamos.
Esperanza voltou a balançar a cabeça, mas foi junto. O grupo – uma espécie de Os doze condenados de orçamento modesto – separou-se ao chegar à rua. Esperanza e Zorra iriam a pé. Win, Myron e Big Cyndi dirigiram-se até uma garagem, a três quarteirões de distância. Win tinha um carro lá. Um Chevy Nova. Impossível de rastrear. Possuía vários desses. Referia-se a eles como veículos descartáveis. Ah, os ricos... Melhor não saber o que fazia com os automóveis.
Win sentou no banco do motorista, Myron ao seu lado e Big Cyndi se espremeu para caber atrás – era um pouco como assistir ao vídeo de um parto de trás para frente. Então partiram.
O escritório de advocacia Stokes, Layton & Grace era um dos mais prestigiosos de Nova York. Big Cyndi permaneceu na entrada. A recepcionista, magrela, de tailleur cinza, tentava não encará-la, então a grandalhona a fitava, desafiando-a a não olhar. Às vezes rosnava. Como uma leoa. Sem nenhuma razão. Gostava de fazer aquilo.
Myron e Win foram levados até uma sala de reunião que se assemelhava a um milhão de outras dos grandes escritórios de advocacia em Manhattan. Myron ficou rabiscando num bloquinho amarelo igual a um milhão de outros dos grandes escritórios de advocacia de Manhattan. Olhava pela janela os presunçosos estagiários de Harvard, de faces rosadas e ternos escovados, passando o tempo todo, idênticos aos estagiários de um milhão de outros grandes escritórios de advocacia em Manhattan. Para Myron, advogados homens jovens e brancos não se diferenciavam em nada. Discriminação da sua parte, talvez, mas Myron era branco e tinha se formado em Direito por Harvard.
Chase Layton entrou na sala com seu porte roliço, cara de bem-nutrido, mãos rechonchudas, cabelo grisalho penteado de forma a disfarçar a calvície. Parecia, bem, o sócio de um grande escritório de advocacia em Manhattan. Usava uma aliança de ouro numa das mãos e um anel de Harvard na outra. Cumprimentou Win efusivamente – a maioria dos ricos fazia isso –, depois deu um aperto de mão firme em Myron, do tipo “estou às suas ordens”.
– Estamos com pressa – comentou Win.
Chase Layton expulsou da sala o largo sorriso e assumiu sua expressão de “pronto” para a guerra. Os três se sentaram. Ele cruzou as mãos sobre a mesa e se inclinou para a frente, forçando os botões da roupa.
– O que posso fazer por você, Windsor?
Os ricos sempre o chamavam assim.
– Você já quer a minha empresa há muito tempo – começou Win.
– Bem, eu não diria que...
– Estou aqui para dá-la a você. Em troca de um favor.
Chase Layton era esperto demais para cair naquela. Olhou para Myron. Um subalterno. Talvez no rosto plebeu houvesse alguma pista de como agir. Myron manteve um ar de neutralidade. Estava se especializando naquilo. Quem sabe por andar tanto na companhia de Win.
– Precisamos ver Susan Lex – falou Win. – Você é advogado dela. Gostaríamos que desse um jeito de ela vir até aqui agora.
– Aqui?
– É. No seu escritório. Agora.
Chase abriu e fechou a boca, olhou de novo para o subalterno. Nenhuma pista ainda.
– Está falando sério, Windsor?
– Se fizer isso, ganha a firma Lock-Horne. Você sabe a renda que ela geraria?
– Bastante dinheiro. No entanto, não chega a um terço do que recebemos da família Lex.
Win sorriu.
– Pense que pode ter as duas coisas.
– Não estou entendendo – disse Chase.
– Estou sendo bem claro.
– Por que você quer ver a Srta. Lex?
– Não podemos revelar.
– Entendo. – Chase coçou a bochecha. – A Srta. Lex é uma pessoa muito reservada.
– Sim, já sabemos.
– Eu e ela somos amigos.
– Tenho certeza disso.
– Talvez eu possa arrumar uma forma de apresentar vocês.
– Não serve. Tem que ser agora.
– Bem, nós tratamos de negócios no escritório dela...
– Também não serve. Tem que ser aqui.
Chase girou a cabeça, alongando o pescoço, para ganhar tempo, analisar a situação, encontrar o ângulo certo para jogar.
– Ela é uma mulher muito ocupada. Nem saberia o que dizer para trazê-la até aqui.
– Você é um bom advogado, Chase – retrucou Win, unindo as pontas dos dedos das mãos. – Tenho certeza de que vai encontrar um jeito.
Chase assentiu, olhou para baixo, examinou a mão bem tratada.
– Não. – Ele ergueu os olhos devagar. – Não vendo meus clientes, Windsor.
– Mesmo que isso signifique ganhar um cliente tão grande quanto a Lock-Horne?
– Mesmo assim.
– Você não está fazendo isso só para me impressionar com sua discrição?
Chase sorriu, aliviado, como se tivesse por fim entendido a piada.
– Não. Mas isso não seria ter as duas coisas? – brincou ele, tentando diminuir a situação.
Win não riu.
– Isso não é um teste, Chase. Preciso que você a traga aqui. Garanto que ela não vai descobrir que você me ajudou.
– Você acha que isso é tudo o que me interessa? A aparência?
Win ficou calado.
– Se é esse o caso, você me entendeu mal. Receio que a resposta continue sendo “não”.
– Pense um pouco.
– Não tenho o que pensar. – Chase se recostou e cruzou as pernas, cuidando para não estragar o vinco da calça. – Você achava que eu entraria numa dessas, Windsor?
– Esperava que sim.
Chase olhou novamente para Myron, depois para Win.
– Receio não poder ajudá-los, senhores.
– Ah, você vai nos ajudar, sim – falou Win.
– Perdão?
– É só uma questão do que precisamos fazer para obter sua cooperação.
Chase franziu a testa.
– Você está tentando me subornar?
– Não. Já fiz isso ao oferecer a minha firma.
– Então não entendo...
Myron falou pela primeira vez:
– Vou obrigar você a obedecer.
Chase o encarou e sorriu.
– Perdão?
Myron se levantou. Manteve a expressão impassível, lembrando-se do que havia aprendido com Win sobre intimidação.
– Não quero machucá-lo. Você vai ligar para Susan Lex e pedir a ela que venha aqui. Agora.
Chase cruzou os braços e pousou-os na barriga.
– Se você quiser discutir isso melhor...
– Não quero – rebateu Myron, dando a volta na mesa.
O advogado não se intimidou, falando com firmeza:
– Não vou ligar para ela. Windsor, pode pedir a seu amigo que se sente?
Win deu de ombros, fingindo impotência. Myron parou na frente de Chase e olhou para o amigo.
– Me deixe resolver isso – disse Win.
Myron balançou a cabeça, agigantando-se sobre Chase e baixando o olhar.
– Última chance.
A expressão de Chase era calma, quase de divertimento. Provavelmente via aquilo como uma farsa bizarra – ou talvez tivesse certeza de que Myron recuaria. Para homens como ele, as coisas eram assim. A violência física não fazia parte da sua vida. Ah, claro, aqueles animais de rua ignorantes podiam lançar mão dela, batendo-lhe na cabeça para roubar a carteira. Outros indivíduos, inferiores, resolviam os problemas por meio de violência. Isso ocorria, entretanto, em outro planeta, povoado por uma espécie mais primitiva. No mundo de Chase Layton, de status e modos altivos, as pessoas eram intocáveis. Os homens ameaçavam, processavam, xingavam, tramavam nas costas dos outros, mas nunca empregavam a violência cara a cara.
Era por isso que Myron sabia que nenhum blefe funcionaria ali. Chase acreditava que qualquer ação remotamente física fosse um blefe. Poderia apontar-lhe uma arma e ele nem se mexeria. Bom, com relação a esse cenário, Chase estaria certo.
Mas não a respeito do que estava por vir.
Myron acertou-o nos ouvidos com as palmas da mão.
Seus olhos se arregalaram de um modo provavelmente inédito. Myron tapou a boca do advogado, abafando o grito. Segurou-o pela cabeça e puxou-o para fora da cadeira, fazendo-o cair no chão de barriga para cima.
Myron olhou-o nos olhos e viu uma lágrima escorrer. Sentiu-se mal. Pensou em Jeremy, e isso o ajudou a manter a expressão neutra.
– Ligue para ela.
A respiração de Chase era ofegante. Myron encarou Win, que balançou a cabeça.
– Você – cuspiu Layton – vai para a cadeia.
Myron fechou os olhos, cerrou o punho e lhe deu um soco embaixo das costelas, na região do fígado. A expressão do advogado desmoronou. Tapou de novo a boca de Chase, mas dessa vez não havia grito para sufocar.
Win se recostou na cadeira.
– Só para constar, sou a única testemunha desse acontecimento. Vou depor, sob juramento, que foi em legítima defesa.
Chase parecia perdido.
– Ligue para ela – repetiu Myron, tentando afastar a súplica de sua voz.
A fralda da camisa de Layton saíra da calça, a gravata estava torta, o cabelo desgrenhado. Myron percebeu que nada mais seria o mesmo para aquele cara. Chase tinha sido atacado fisicamente. A partir de agora, andaria sempre com mais cuidado. Teria um sono mais leve. Algo dentro dele estaria um pouco diferente para sempre.
Talvez em Myron também.
Socou-o outra vez. Chase emitiu um gemido de dor. Win estava na porta. Mantenha o rosto impassível, disse Myron para si mesmo. Um homem trabalhando, um homem que não se deteria por nada. Cerrou o punho outra vez.
Cinco minutos depois, Chase Layton ligava para Susan Lex.