O Medo Mais Profundo
Capítulo 26
ERA MEIA-NOITE QUANDO MYRON bateu à porta da casa de Stan Gibbs.
– Vamos andar um pouco.
Stan jogou o cigarro no chão e esmagou-o com o pé.
– Uma volta de carro seria melhor – sugeriu ele. – Esses federais usam amplificadores de longa distância.
Eles entraram no Ford Taurus de Myron, também conhecido como Isca de Sereias. Stan Gibbs ligou o rádio e começou a passar as estações. Um comercial da Heineken. Alguém realmente se importa que a cerveja seja importada pela Van Munching and Company?
– Você está usando algum aparelho de escuta, Myron?
– Não.
– Mas o FBI conversou com você. Depois que saiu daqui.
– Como você soube?
– Porque eles estão me vigiando – respondeu Stan, dando de ombros. – O mais lógico é que tenham interrogado você.
– Me conte sobre a sua ligação com Dennis Lex.
– Já falei que não tenho ligação nenhuma com ele.
– Um cara grandão chamado Grover me pegou esta noite. Ele e Susan Lex me fizeram uma advertência bem séria para não ver mais você. Bronwyn também estava lá.
Stan fechou os olhos e esfregou-os.
– Eles ficaram sabendo da sua visita.
– Tinham até fotografias.
– E acharam que você está trabalhando para mim.
– Bingo.
Stan balançou a cabeça.
– Saia dessa história, Myron. É melhor não mexer com essas pessoas.
– Esse é o conselho que você gostaria que alguém tivesse lhe dado antes?
O sorriso de Gibbs era vazio. A exaustão emanava dele como ondas de calor no asfalto quente.
– Você não faz ideia.
– Me conte um pouco.
– Não.
– Posso ajudar – insistiu Myron.
– Contra os Lex? Eles são poderosos demais.
– Mesmo sendo poderosos, você quis escrever uma matéria sobre eles, certo?
Ele permaneceu calado.
– E eles não gostaram. Na verdade, ficaram ressentidos.
Mais silêncio.
– Você começou a desenterrar coisas que eles não queriam ver. Descobriu que havia outro irmão, Dennis.
– Sim.
– E isso os deixou realmente irritados.
Stan começou a morder um pedaço de cutícula.
– Ora, vamos, Stan. Não me faça arrancar isso de você.
– Você já sabe praticamente de tudo.
– Então me conte.
– Eu queria escrever uma história sobre eles. Fazer uma denúncia, na verdade. Já tinha até editor disposto a publicar um livro. Mas a família Lex ficou sabendo. Me avisaram para ficar longe. Um grandalhão veio até meu apartamento. Não lembro o nome. Parecia um sargento.
– Devia ser o Grover.
– Ele me falou que, se eu não parasse, iam me arruinar.
– E isso só fez você ficar mais curioso ainda.
– Acho que sim.
– Aí você descobriu sobre Dennis Lex.
– Só que ele existia. E tinha sumido do mapa quando era criança.
Myron reduziu a velocidade e sentiu um arrepio no couro cabeludo.
– Como as vítimas do cara do “Plante as sementes”.
– Não.
– Por que não?
– É diferente.
– Como?
– Sei que vai soar meio idiota – falou Stan –, mas os Lex não têm o mesmo senso de terror que as outras famílias.
– Os ricos são especialistas em manter as aparências.
– A coisa vai muito além. Não consegui compreender direito, mas tenho certeza de que Susan e Bronwyn Lex sabem o que aconteceu com o irmão.
– Mas querem esconder isso.
– Sim.
– Você tem algum palpite sobre o motivo?
– Não.
Myron olhou para trás: os federais os seguiam a uma distância discreta.
– Você acha que Susan Lex é a responsável pelo aparecimento daquele romance?
– Já pensei nessa possibilidade.
– Mas nunca averiguou.
– Comecei a verificar. Depois que o escândalo estourou. Mas recebi uma ligação do grandalhão dizendo que aquilo era só o início. Que só estava balançando o dedo. Que da próxima vez me esmagaria batendo as mãos.
– Ele é tão poético... – observou Myron.
– Sim.
– Mas tem uma coisa que ainda não entendi.
– O quê?
– Você não se deixa assustar fácil. Quando eles lhe avisaram da primeira vez para que se afastasse, você ignorou. Depois do que fizeram, pensei que fossem revidar mais forte ainda.
– Você está esquecendo uma coisa – replicou Stan.
– O quê?
– Melina Garston.
Silêncio.
– Pense bem – continuou Stan. – Minha amante, a única pessoa que poderia confirmar meu encontro com o sequestrador, acabou morrendo.
– O pai disse que ela se retratou.
– Ah, certo, numa espécie de confissão meio bizarra antes de morrer.
– Você acha que isso também foi armação da família Lex?
– Por que não? Olhe só o que aconteceu. Quem é o principal suspeito da morte de Melina? Eu, certo? Foi o que os federais falaram para você. Eles acham que a matei. Sabemos que a família Lex tem poder suficiente para desenterrar o livro que supostamente plagiei. Quem sabe o que mais podem fazer?
– Você acha que eles podem acusá-lo de assassinato?
– No mínimo.
– Você acha que foram eles que mandaram matar Melina Garston?
– Talvez. Ou pode ter sido o sequestrador. Não sei.
– Mas você considera a morte de Melina uma advertência?
– Sem dúvida – respondeu Stan. – Só não sei da parte de quem.
No rádio, Stevie Nicks cantava uma música que falava de uma avalanche vindo. Tinha razão.
– Você deixou uma coisa de fora, Stan.
Ele mantinha o olhar fixo à frente.
– O quê?
– Há um aspecto pessoal na história – falou Myron.
– Como assim?
– Susan Lex mencionou seu pai. Disse que ele era um mentiroso.
Stan deu de ombros.
– Talvez ela tenha razão.
– O que seu pai tem a ver com tudo isso?
– Me leve para casa.
– Não me esconda as coisas agora.
– O que você realmente quer, Myron?
– Como assim?
– Qual é o seu interesse?
– Já disse.
– O garoto que precisa de um transplante de medula?
– Ele tem 13 anos, Stan. Vai morrer se não o fizer.
– E se eu não acreditar em você? Fiz também minhas pesquisas. Você já trabalhou para o governo.
– Há muito tempo.
– E talvez agora você esteja ajudando o FBI. Ou até mesmo a família Lex.
– Não.
– Não posso correr esse risco.
– Por que não? Você está me dizendo a verdade, certo? E ela não pode machucá-lo.
Stan suspirou.
– Você acredita mesmo nisso?
– Por que Susan Lex mencionou seu pai?
Silêncio.
– Onde está seu pai? – insistiu Myron.
– Esse é o problema.
– Ahn?
Stan olhou para Myron.
– Ele desapareceu. Oito anos atrás.
Desapareceu. Mais um.
– Sei o que você está pensando, mas não é nada disso. Meu pai não era um homem de bem. Passou a vida entrando e saindo da prisão. Nós sempre achamos que ele deu no pé.
– Mas você nunca soube ao certo.
– É verdade.
– Dennis Lex desaparece. Seu pai desaparece...
– Mas com vinte anos de diferença – interrompeu Stan. – Não tem nenhuma ligação.
– Continuo sem entender: o que seu pai ou o desaparecimento dele tem a ver com a família Lex?
– Eles acham que ele é a razão de eu querer escrever a história. Mas estão enganados.
– Por que achariam isso?
– Meu pai foi aluno de Raymond Lex. Antes da publicação de Confissões à meia-noite.
– E...?
– Meu pai dizia que foi ele quem escreveu o romance. Que Raymond Lex o roubou.
– Meu Deus.
– Ninguém acreditou – acrescentou Stan rapidamente. – Como eu disse, ele não batia muito bem da cabeça.
– Ainda assim, você decidiu investigar a família?
– Sim.
– E quer que eu acredite que é mera coincidência? Que sua investigação não tem nada a ver com as acusações do seu pai?
Stan encostou a cabeça na janela do carro, como um garotinho querendo ir para casa.
– Ninguém acreditava no meu pai. Inclusive eu. Ele era doente. Neurótico.
– E daí?
– Mas, no fim das contas, continua sendo meu pai – respondeu Stan. – Talvez devesse dar a ele o benefício da dúvida.
– Você acha que Raymond Lex plagiou seu pai?
– Não.
– Você acha que ele ainda está vivo?
– Não sei.
– Deve haver alguma ligação aí – falou Myron. – Sua matéria, a família Lex, as acusações do seu pai...
Stan fechou os olhos.
– Chega.
Myron mudou de assunto:
– Como o sequestrador entrou em contato com você?
– Nunca revelo minhas fontes.
– Pelo amor de Deus, Stan.
– Não – retrucou ele com firmeza. – Posso ter perdido muita coisa, mas não esse meu lado. Você sabe que não posso revelar nada sobre as minhas fontes.
– Você sabe quem é, não?
– Me leve para casa, Myron.
– É Dennis Lex ou o mesmo sequestrador levou Dennis Lex?
Stan cruzou os braços.
– Para casa.
Seu rosto se fechou. Myron percebeu. Não conseguiria saber mais nada naquela noite. Dobrou à direita e pegou o caminho de volta. Os dois permaneceram em silêncio até Myron parar o carro em frente à entrada do condomínio.
– Você está falando a verdade, Myron? Sobre o doador de medula óssea?
– Sim.
– O garoto é alguém próximo a você?
Myron manteve as mãos no volante.
– É.
– Então não existe nenhuma possibilidade de você desistir?
– Nenhuma.
Stan assentiu, mais para ele mesmo.
– Vou fazer o que posso. Mas vai ter que confiar em mim.
– Como assim?
– Me dê uns dias.
– Para fazer o quê?
– Você vai ficar sem notícias minhas por um tempo. Não deixe que isso abale a sua confiança.
– Do que você está falando?
– Faça o que precisa fazer. Eu farei o mesmo.
Stan saltou do carro e desapareceu na noite.