O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 30 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 30

 

ERAM SEIS AGENTES FEDERAIS AO TODO, liderados por Kimberly Green. Agiam com eficiência e tranquilidade. Myron e Greg desabaram cada um num sofá. Emily andava de um lado para outro entre os dois. Havia provavelmente algo de simbólico naquilo, mas Myron não sabia dizer o quê. Tentava sair do torpor e raciocinar para fazer algo de bom.

A ligação fora breve. Após o grito, a voz sussurrante dissera:

– Ligaremos outra vez.

E foi tudo. Nenhuma advertência para não contatar as autoridades. Nenhuma exigência de que juntassem dinheiro para o resgate. Nada de marcar hora para o telefonema seguinte. Absolutamente nada.

Ficaram todos sentados, o grito de Jeremy ainda ecoando, martelando, destroçando, evocando imagens do que teria feito um garoto de 13 anos gritar daquela forma. Myron fechou os olhos. Era isso que o degenerado queria. Não tinha sentido fazer seu jogo. Esforçou-se para tirar esses pensamentos da cabeça.

Greg entrara em contato com o banco. Não era nenhum investidor de risco, logo a maioria de seus recursos se encontrava disponível. Se fosse necessário pagar um resgate, estava pronto. Os federais puseram rastreadores em qualquer telefone para o qual o sequestrador pudesse ligar, inclusive o de Myron. Os agentes falavam em voz baixa. Ele não os pressionara ainda. Mas em breve o faria.

Kimberly o encarou e lhe fez um sinal. Myron se levantou, pedindo licença. Greg e Emily nem prestaram atenção, ainda perdidos no vórtice daquele grito.

– Precisamos conversar – disse a agente.

– Ok. Pode começar me contando o que aconteceu quando vocês investigaram Dennis Lex.

– Você não é da família. Eu poderia mandá-lo embora.

– E esta não é a sua casa. O que aconteceu com Dennis Lex?

Ela pôs as mãos na cintura.

– É só um beco sem saída.

– Como assim?

– Nós o rastreamos. Ele não está envolvido em nada disso.

– Como sabe?

– Myron, dê um tempo. Não somos burros.

– Então onde está Dennis Lex?

– Isso não é relevante – respondeu ela.

– Claro que é. Mesmo que ele não seja o sequestrador, continua sendo o doador de medula óssea.

– Não. Seu doador é Davis Taylor.

– Que é o novo nome de Dennis Lex.

– Não temos certeza disso.

Myron fez uma careta.

– Do que está falando?

– Davis Taylor era um funcionário do conglomerado Lex.

– O quê?

– Você ouviu muito bem.

– Por que ele doou sangue para uma campanha de doação de medula?

– Foi uma questão de trabalho. O gerente da empresa estava com um sobrinho doente. Todos doaram.

Myron assentiu. Finalmente algo começava a fazer sentido.

– Se ele não doasse uma amostra de sangue, ficaria sob suspeita.

– Certo.

– Você tem a descrição dele?

– Trabalhava sozinho, era reservado. Tudo que as pessoas lembram é que usava barba, óculos e cabelo comprido, louro.

– Um disfarce – concluiu Myron. – E sabemos que o nome verdadeiro de Davis Taylor era Dennis Lex. O que mais?

Kimberly ergueu a mão.

– Chega.

Ela se empertigou e alterou o rumo da conversa:

– Stan Gibbs ainda é nosso principal suspeito. Sobre o que vocês dois conversaram na noite passada?

– Sobre Dennis Lex. Você não entende?

– Não entendo o quê?

– Dennis Lex está ligado a isso. É o sequestrador ou foi sua primeira vítima.

– Nenhuma das duas coisas.

– Onde ele está, então?

Ela se fez de desentendida:

– Sobre o que mais conversaram?

– Sobre o pai de Stan.

– Edwin Gibbs? – Isso despertou seu interesse. – O que falaram dele?

– Que desapareceu oito anos atrás. Mas vocês já sabem disso, não?

Kimberly assentiu com um vigor exagerado.

– Sabemos.

– O que vocês acham que aconteceu com ele? – perguntou Myron.

Ela hesitou, então indagou:

– Você acredita que Dennis Lex possa ter sido a primeira vítima do sequestrador, correto?

– É uma possibilidade que deve ser investigada.

– Nossa teoria é que a primeira vítima pode ter sido Edwin Gibbs.

Myron fez uma careta.

– Você acha que Stan sequestrou o próprio pai?

– Que o matou. E os outros também. Não deve haver alguém vivo.

Myron não queria absorver aquilo.

– Vocês têm alguma prova ou o motivo?

– Às vezes a maçã não cai longe da árvore.

– Ah, isso vai fazer muito sucesso com o júri. Senhoras e senhores, a maçã não cai longe da árvore. E os senhores nunca devem pôr o carro na frente dos bois. Além disso, um dia é da caça e o outro, do caçador. – Ele balançou a cabeça. – Não vê como é patético?

– Assim, sem contexto, admito que não faz sentido. Mas junte tudo. Oito anos atrás, Stan começava sua carreira. Tinha 24 anos e o pai, 46. Segundo a opinião geral, os dois não se davam bem. De repente, Edwin Gibbs desapareceu. Stan nunca foi dar queixa.

– Isso é uma bobagem.

– Talvez. Mas acrescente tudo que já sabemos. O único jornalista a obter o furo. O plágio. Melina Garston. Tudo que Eric Ford discutiu com você ontem.

– Ainda não estou convencido.

– Então me diga onde está Stan Gibbs.

– Ele não está no condomínio?

– Ontem à noite, depois de vocês conversarem, Stan Gibbs escapou da vigilância. Já fez isso antes. Em geral o encontramos após algumas horas. Mas não foi o que aconteceu desta vez. Sumiu de repente e, por coincidência, Jeremy Downing é sequestrado pelo cara do “Plante as sementes”. Você pode me explicar?

Myron sentiu a boca seca.

– Vocês o estão procurando?

– Enviamos um alerta geral. Mas sabemos que ele é especialista em se esconder. Você tem alguma pista do paradeiro dele?

– Nenhuma.

– Ele não falou nada?

– Mencionou que talvez ficasse fora uns dias. Mas que deveria confiar nele.

– Péssimo conselho. Algo mais?

Myron balançou a cabeça.

– Onde está Dennis Lex? – indagou ele de novo. – Vocês o viram?

– Não há necessidade – respondeu ela, numa voz estranhamente monótona. – Ele não está envolvido.

– Você continua insistindo... mas como pode saber?

– Sei pela família.

– Você quer dizer Susan e Bronwyn Lex?

– Sim.

– O que tem eles?

– Eles nos garantiram.

Myron quase deu um passo para trás.

– E vocês acreditaram?

– Eu não disse isso. – Ela olhou em volta e suspirou. – De qualquer forma, não é tarefa minha.

– O quê?

Kimberly olhava para o nada.

– Eric Ford cuidou disso pessoalmente.

Myron não conseguia acreditar no que estava ouvindo.

– Me mandou ficar longe – continuou a agente – porque ele mesmo estava cobrindo essa parte.

– Ou encobrindo.

– Eu não posso fazer nada em relação ao assunto.

Então Green se afastou sem dizer mais nada. Myron pegou o celular.

– Articule – atendeu Win.

– Vamos precisar de ajuda. Zorra ainda está fazendo trabalhos freelance?

– Vou ligar para ela.

– Talvez para Big Cyndi também.

– Você tem um plano?

– Não há tempo para planos.

– Uuhh – fez Win. – É sinal de que vamos ficar desagradáveis.

– Sim.

– E eu achando que você não ia mais desrespeitar as regras.

– Só desta vez – garantiu Myron.

– Ah, isso é o que todos dizem.