O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 3 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 3

 

– NÃO HÁ COMO TER CERTEZA – disse Myron.

Emily parecia extremamente exausta.

– Eu tenho.

– Você também estava dormindo com Greg, lembra?

– Sim.

– E só ficamos juntos naquela noite nessa época. Com Greg, foram várias.

– É verdade.

– Como pode saber...?

– Negação! – exclamou Emily, com um suspiro. – É o primeiro passo.

Ele apontou o dedo para ela.

– Não me venha com essa psicologia idiota, Emily.

– Depois logo vem a raiva – continuou ela.

– Você não tem como saber...

– Eu sempre soube.

Myron se recostou na cadeira. Parecia no controle da situação, mas por dentro podia quase sentir a fissura se abrindo, os alicerces começando a estremecer.

– Quando fiquei grávida, pensei como você: tinha dormido mais vezes com Greg, então provavelmente o filho era dele. Ao menos, foi o que eu disse a mim mesma. – Ela fechou os olhos. Myron permaneceu imóvel, com um frio na barriga. – Quando Jeremy nasceu, ele se parecia comigo, portanto ninguém poderia dizer nada. Sei que isso vai soar um tremendo clichê, mas uma mãe sabe. Não sei dizer como. Tentei negar. Falei para mim mesma que só estava me sentindo culpada pelo que tínhamos feito e que aquela era a forma de Deus me castigar.

– Isso soa como no Velho Testamento.

– O sarcasmo... – falou ela, quase sorrindo. – Sua defesa preferida.

– Sua intuição materna não prova nada, Emily.

– Você perguntou antes sobre Sara.

– Sara?

– A irmã de Jeremy. Perguntou se ela não seria uma doadora compatível. Não, não é.

– Ok, mas você disse que a chance era de 25 por cento entre irmãos.

– Entre irmãos de pai e mãe, sim. Mas a compatibilidade entre os dois não era nem próxima. Porque ela é só meia-irmã de Jeremy.

– O médico lhe disse isso?

– Sim.

Myron sentiu o chão se abrir sob ele.

– Então... Greg sabe?

Emily balançou a cabeça.

– O médico me falou à parte. Por causa do divórcio, tenho a guarda de Jeremy. Ele tem o direito de ver as crianças, mas elas moram comigo. Sou responsável pelas decisões médicas.

– Greg ainda acha que...

– Que Jeremy é filho dele.

Myron estava afundando em águas profundas, sem sinal de terra à vista.

– Mas você disse que sempre soube.

– Sim.

– Por que nunca me contou?

– Você está brincando, não é? Eu estava casada com Greg. Eu o amava. Estávamos começando uma vida juntos.

– Mesmo assim, você devia ter me contado.

– Quando, Myron? Quando eu devia ter contado?

– Assim que o bebê nasceu.

– Você não está escutando? Acabei de dizer que não tinha certeza.

– E também disse que “uma mãe sabe”.

– Espere aí, Myron. Eu estava apaixonada por Greg. Você, com esse seu senso antiquado de moralidade, ia insistir para que eu me divorciasse, casasse com você e vivesse um conto de fadas suburbano.

– Em vez disso, você preferiu viver uma mentira?

– Foi a decisão certa, baseada no que eu sabia na época. Olhando em retrospectiva – ela fez uma pausa, dando um longo gole –, eu faria muitas coisas de forma diferente.

Myron tentou absorver a notícia, sem sucesso. Outro grupo de mães com carrinhos de bebê entrou no café. Pegaram uma mesa num canto e começaram a conversar sobre os pequenos Brittany, Kyle e Morgan.

– Há quanto tempo você e Greg estão separados? – perguntou ele, com um tom de voz mais ríspido do que pretendia. Ou talvez não.

– Faz quatro anos agora.

– E já não estava mais apaixonada por ele, certo? Quatro anos.

– Certo.

– Mais até, na verdade. Ou seja, você deixou de amá-lo há muito tempo, certo?

– Certo – respondeu ela, confusa.

– Então podia ter me contado antes. Há pelo menos quatro anos. Por que não fez isso?

– Pare de me interrogar.

– Foi você quem detonou essa bomba – rebateu ele. – Como espera que eu reaja?

– Como homem.

– E que diabo isso quer dizer?

– Que preciso da sua ajuda. Jeremy precisa. É nisso que devemos nos concentrar.

– Quero algumas respostas antes. Tenho direito.

Emily hesitou, dando a impressão de que iria discutir, mas depois assentiu, exaurida.

– Se isso ajudar você a passar por isso...

– Passar por isso? Não é uma pedra no rim nem nada do tipo!

– Estou cansada demais para brigar com você. Vá em frente. Faça suas perguntas.

– Por que você não me contou antes?

O olhar de Emily se fixou num ponto além de Myron.

– Quase contei – respondeu ela. – Uma vez.

– Quando?

– Lembra quando você foi lá em casa? Assim que Greg desapareceu?

Myron assentiu; tinha acabado de pensar naquele dia.

– Você estava olhando pela janela para Jeremy, que brincava no quintal com a irmã.

– Lembro – disse Myron.

– Greg e eu estávamos em meio àquela disputa desagradável pela guarda.

– Você o acusou de maltratar as crianças.

– Não era verdade. Você percebeu de cara. Era só uma manobra legal.

– E que manobra... – redarguiu Myron. – Da próxima vez, acuse-o de atrocidades de guerra.

– Quem é você para me julgar?

– Para falar a verdade, acho que sou a pessoa certa.

Emily fuzilou-o com o olhar.

– Essas batalhas pela custódia são uma guerra sem Convenção de Genebra. Greg se tornou cruel, e eu também. A gente faz qualquer coisa para ganhar.

– E isso incluiu revelar que Greg não era o pai de Jeremy?

– Não.

– Por que não?

– Porque ganhei a guarda.

– Isso não é resposta. Você odiava Greg.

– Sim.

– Ainda odeia?

– Sim – respondeu ela, sem nenhuma hesitação.

– Então por que não contou a ele?

– Porque, por mais que eu odeie Greg, meu amor por Jeremy é maior. Eu poderia ter magoado Greg e sentiria um imenso prazer. Mas não podia fazer isso com meu filho... tirar-lhe o pai assim.

– Achei que você faria qualquer coisa para ganhar.

– Faria qualquer coisa contra Greg, mas não contra Jeremy.

O argumento fazia sentido, mas Myron desconfiava que Emily ainda estava escondendo algo.

– Você guardou esse segredo durante treze anos.

– Sim.

– Seus pais sabem?

– Não.

– Você nunca contou a ninguém?

– Nunca.

– Então por que está me contando agora?

– Você está se fingindo de burro, Myron?

Ele pôs as mãos sobre a mesa; não estavam tremendo. Compreendia que aquelas perguntas não eram só curiosidade, mas faziam parte do mecanismo de defesa, do fosso com cerca de arame farpado que havia construído dentro de si para impedir que a revelação de Emily pudesse atingi-lo. Sabia que aquilo que ela estava contando transformava sua vida como nada antes. As palavras meu filho flutuavam no seu subconsciente. Eram, porém, nada mais que palavras naquele momento. Iriam acabar penetrando mais fundo, mas por ora o arame farpado e o fosso conseguiam bloqueá-las.

– Você acha que eu queria contar? Praticamente implorei para que me ajudasse, mas você não me deu ouvidos. Estou desesperada.

– Desesperada o suficiente para mentir?

– Sim – respondeu ela, outra vez sem hesitar. – Mas não estou, Myron. Você precisa acreditar em mim.

Ele deu de ombros.

– Talvez o pai de Jeremy seja outra pessoa.

– Como assim?

– Uma terceira pessoa. Você dormiu comigo na noite anterior ao seu casamento. Duvido que eu tenha sido o único. Podia ser um entre dez.

Ela o olhou nos olhos.

– Você quer me humilhar, Myron? Vá em frente, eu encaro. Mas esse não é o seu perfil.

– Ah, você me conhece tanto assim?

– Mesmo quando sentia raiva, quando tinha todo o direito de me odiar, você nunca foi cruel. Não é o seu jeito.

– Estamos navegando em águas desconhecidas, Emily.

– Não importa.

As emoções invadiram Myron, sua respiração ficou difícil. Segurou a xícara, olhou dentro dela como se pudesse haver uma resposta no fundo, pousou-a outra vez. Não conseguia fitar Emily.

– Como você pôde fazer isso comigo?

Ela colocou a mão em seu braço.

– Sinto muito.

Myron se desvencilhou.

– Não sei mais o que dizer. Você perguntou por que nunca contei antes. Minha grande preocupação sempre foi o bem-estar de Jeremy, mas levei você em conta também.

– Conversa fiada.

– Sei como você é, Myron. Sei que não vai fazer vista grossa. Vai acabar ajudando. Precisa encontrar o doador e salvar a vida de Jeremy. Podemos nos preocupar com o resto depois.

– Há quanto tempo Jeremy – ele quase disse meu filho – está doente?

– Ficamos sabendo há seis meses. Quando ele estava no basquete. Começou a se machucar com muita frequência. Depois sentia falta de ar sem nenhum motivo. Começou a cair... – Sua voz sumiu.

– Ele está no hospital?

– Não, em casa. Vai à escola e está com uma boa aparência, só um pouco pálido. Não pode praticar esportes nem nada no gênero. Parece bem, mas... é apenas uma questão de tempo. Ele é muito anêmico e as células da medula são tão fracas que algo pode afetá-lo. Pode contrair uma infecção perigosa ou desenvolver uma doença. Está sendo tratado com hormônios, que ajudam, mas são só uma solução temporária, não uma cura.

– E o transplante de medula seria a cura?

– Sim. – Seu rosto se iluminou com um fervor quase religioso. – Se der certo, ele pode ficar completamente curado. Vi isso acontecer com outras crianças.

Myron assentiu, recostou-se na cadeira, cruzou as pernas, descruzou-as.

– Posso conhecê-lo?

Ela olhou para baixo. Ouviu-se o som de um liquidificador, provavelmente fazendo um frappuccino, ao mesmo tempo que a máquina de espresso emitia seu grito de acasalamento habitual para os vários lattes. Emily esperou que os ruídos cessassem para responder:

– Não posso impedi-lo. Mas espero que faça a coisa certa.

– Que seria...?

– Já é muito duro estar com 13 anos e ter uma doença terminal. Você quer realmente lhe tirar o pai também?

Myron não disse nada.

– Sei que você está em choque neste momento. E sei também que tem um milhão de outros problemas. Mas vai ter que esquecê-los por ora. Precisa processar sua confusão, sua raiva, tudo. A vida de um garoto de 13 anos, do nosso filho, está em jogo. Concentre-se nisso, Myron. Encontre o doador, ok?

Ele olhou para trás, na direção das mães com os carrinhos de bebê, ainda tagarelando sobre os filhos. Escutando-as, sentiu uma dor avassaladora.

– Onde posso encontrar o médico de Jeremy?