O Medo Mais Profundo
Capítulo 17
MORNING MOSH NÃO ERA DE FATO o nome do estabelecimento. Localizado num antigo armazém do centro do West Side, tinha um letreiro de neon que ia mudando à medida que o dia passava. A palavra Mosh ficava iluminada o tempo todo, mas de manhã dizia Morning Mosh, depois Mid-Day Mosh (como naquele momento) e, mais tarde, Midnight Mosh.
Uma placa na porta da frente exibia mínimo de quatro piercings para entrar (orelhas não contam) .
Myron parou na calçada e ligou para o número do Mosh. Uma voz atendeu:
– Fala, camarada.
– Suzze T, por favor.
– Demorou.
“Demorou”?
Suzze atendeu dois minutos depois:
– Alô?
– É o Myron. Estou aqui fora, na calçada.
– Entre. Ninguém aqui morde. Exceto o cara que arrancou com os dentes as pernas de uma rã viva ontem à noite. Cara, foi incrível.
– Suzze, me encontre aqui fora, ok?
– Tudo bem.
Myron desligou, sentindo-se um velho. Suzze saiu alguns segundos depois. Vestia jeans boca de sino com uma cintura tão baixa que desafiava a gravidade. Um top rosa mínimo revelava não só uma barriga chapada, como uma sugestão daquilo que interessava ao pessoal impecável da Rack Enterprises. Exibia uma tatuagem apenas – uma raquete cujo cabo era uma cobra – e nenhum piercing, nem nas orelhas.
Myron apontou para a placa.
– Você não satisfaz o requisito mínimo de piercings.
– Satisfaço, sim, Myron.
Silêncio.
– Ah – fez Myron.
Os dois se puseram a caminhar pela rua. Outra parte estranha de Manhattan. Crianças e sem-teto convivendo. Bares e casas noturnas ao lado de creches. A cidade moderna. Myron passou pela frente de uma loja com a placa espere enquanto te tatuam. Parou para ler outra vez e franziu a testa: não é sempre assim?
– Recebemos uma proposta estranha de patrocínio. Você conhece os Rack Bars?
– Tipo, topless de alto nível?
– Bom, é topless.
– O que tem eles?
– Eles estão abrindo agora uma cadeia de cafés de topless.
– Maneiro: tira a popularidade da Starbucks e mistura com Scores e Goldfingers. Muito inteligente.
– Ahn... certo. Eles vão fazer uma grande inauguração. Querem causar sensação, atrair a atenção da mídia, essas coisas todas. Então gostariam que você fizesse uma, ahn, participação especial.
– Fazendo topless.
– Como eu disse ao telefone, é uma oferta que eu achei que você recusaria.
– Topless total?
– Eles insistem que os mamilos estejam à mostra.
– Quanto estão dispostos a pagar?
– Duzentos mil dólares.
Ela estacou.
– Você está de sacanagem?
– Nunca sacaneio você.
Suzze assobiou.
– É muita grana.
– Sim, mas ainda acho que...
– Essa foi, tipo, a primeira oferta?
– Sim.
– Você acha que consegue que eles paguem mais?
– Não, acho que isso seria com você.
Suzze parou e olhou para ele. Myron deu de ombros, desculpando-se.
– Diga para eles que aceito.
– Suzze...
– Duzentos mil dólares para mostrar um pouco de peito? Meu Deus, ontem à noite pensei em fazer isso ali dentro de graça.
– Não é a mesma coisa.
– Você viu o que usei na Sports Illustrated? Estava quase nua.
– Também não é a mesma coisa.
– É a Rack, Myron, e não um lugar sórdido. É topless de alto nível.
– Falar em “topless de alto nível” é como dizer “peruca de qualidade”.
– Quê?
– Pode ser de qualidade, mas continua sendo uma peruca.
Ela inclinou a cabeça.
– Tenho 24 anos, Myron.
– Eu sei.
– Na contagem das tenistas, isso equivale a ter 107. Estou em trigésimo primeiro lugar no ranking mundial. Não ganhei nem 200 mil nos últimos dois anos de campeonato. Essa é uma superproposta, Myron. E, cara, vai mudar minha imagem.
– Foi exatamente o que pensei.
– Não, escute aqui, o tênis está procurando atrações. Vou causar controvérsia. Receber uma cobertura gigantesca da mídia. Vou virar um grande nome de repente. Você tem que admitir: meu cachê vai quadruplicar.
Ela iria receber só para fazer aparições, não importando se ganharia ou perderia. A maioria dos jogadores de nome recebe muito mais com esses cachês que com os prêmios. É onde reside a grana preta, sobretudo para uma tenista em trigésimo primeiro lugar no ranking.
– Provavelmente – disse Myron.
Ela parou e segurou seu braço.
– Adoro jogar tênis.
– Eu sei – respondeu ele em voz baixa.
– Isso vai estender minha carreira. Significa muito para mim, ok?
Meu Deus, ela parecia tão jovem.
– Pode ser que você tenha razão, mas, no fim das contas, você ainda vai se exibir num bar de topless. E, uma vez feito, não tem volta. Vai ser sempre lembrada como a tenista que fez topless.
– Existem coisas piores.
– Sim. Mas não me tornei empresário a fim de entrar para o negócio de strippers. Vou satisfazer seu desejo. Você é minha cliente. Quero o melhor para você.
– Mas não acha que isso seja o melhor para mim?
– Acho difícil aconselhar uma jovem a fazer topless.
– Mesmo que faça sentido?
– Mesmo que faça sentido.
Suzze sorriu.
– Sabe de uma coisa, Myron? Você fica uma gracinha quando banca o puritano.
– Aham, adorável.
– Diga a eles que aceito.
– Pense nisso por uns dias, ok?
– Não tem o que pensar, Myron. Basta fazer o que você sabe fazer tão bem.
– O quê?
– Elevar o preço. E dizer a eles que sim.