O Medo Mais Profundo
Capítulo 21
A PRIMEIRA COISA QUE MYRON FEZ pela manhã foi ligar para Terese. Nenhuma resposta. Ele franziu a testa para o telefone.
– Será que levei um pé na bunda? – perguntou a Win.
– Duvido – respondeu o amigo enquanto lia o jornal de chinelos e um pijama de seda com roupão combinando.
Se ele pusesse um cachimbo na boca, poderia se transformar num personagem criado por Noël Coward num dia de ócio.
– O que faz você dizer isso?
– Nossa Srta. Collins parece ser bem direta. Se você tivesse sido jogado num monte de estrume, sentiria o cheiro.
– E ainda tem o fato de que sou irresistível.
Win virou a página.
– O que estará acontecendo com ela, então?
O amigo bateu com a ponta do indicador no queixo.
– Como é mesmo a palavra que vocês, pessoas que gostam de ter relacionamentos, usam? Ah, sim: espaço. Talvez ela esteja precisando de espaço.
– “Precisar de espaço” costuma ser um eufemismo para pé na bunda.
– Sim, bem, que seja – disse Win, cruzando as pernas. – Você quer que eu dê uma olhada nisso?
– Nisso o quê?
– No que pode estar acontecendo com a Srta. Collins.
– Não.
– Muito bem. Que tal mudar de assunto? Me conte sobre seu encontro com o FBI.
Myron relatou o interrogatório.
– Então continuamos sem saber o que eles queriam – concluiu Win.
– Correto.
– Nem uma pista?
– Nada. Exceto que pareciam assustados.
– Curioso.
Myron assentiu.
Win tomou um gole de chá, o dedo mínimo erguido. Ah, os horrores que aquele dedo já tinha presenciado, até compartilhado. Eles estavam sentados na sala de jantar formal e usavam um aparelho de chá de prata. Mesa de mogno vitoriana, com pés em forma de pata de leão, leiteira de prata, caixas de cereais Cap’n Crunch e de outra marca chamada Oreo, que era exatamente o que se imaginava.
– A esta altura, teorizar é perda de tempo. Vou dar uns telefonemas e ver o que consigo descobrir.
– Obrigado.
– Ainda não sei se existe mesmo uma ligação entre Stan Gibbs e o nosso doador de sangue.
– Probabilidade pequena – concordou Myron.
– Ou nula. Um jornalista inventa uma história sobre um sequestrador em série e agora... achamos que esse personagem fictício é o nosso doador?
– Stan Gibbs disse que a história é real.
– Agora ele resolveu dizer isso?
– Sim.
Win coçou o queixo.
– Rogo que me explique: por que ele não se defende?
– Não faço a menor ideia.
– Provavelmente porque é culpado. O homem é acima de tudo egoísta, tenta se preservar. É instintivo. O homem não se martiriza. Está interessado numa coisa apenas: salvar a própria pele.
– Supondo que eu concorde com essa sua visão ensolarada da natureza humana, você não acha que o cara mentiria para se salvar?
– Claro – respondeu Win.
– Então, apoiado nesse argumento de defesa bastante plausível, a ideia de que o sequestrador imitou o personagem, por que Stan não o usaria para se defender, mesmo sendo acusado de plágio?
– Gosto dessa linha de pensamento.
– Cinicamente, sim.
O interfone tocou. Win atendeu e o porteiro anunciou Esperanza. Um minuto depois, ela entrou na sala, puxou uma cadeira e serviu-se do cereal Oreo numa tigela.
– Por que eles sempre dizem na propaganda que “faz parte de um café da manhã completo”? Isso acontece com todos os cereais. O que significa?
Ninguém respondeu.
Esperanza pegou uma colherada, olhou para Win e indicou Myron com a cabeça.
– Odeio quando ele está certo.
– É um mau sinal – concordou Win.
– Eu estava certo? – perguntou Myron.
Esperanza pousou o olhar nele.
– Fiz aquela pesquisa sobre a escolaridade de Dennis Lex. Pesquisei todas as instituições educacionais que algum dos irmãos ou pais tivessem frequentado. Nada. Faculdade, ensino médio, fundamental. Nenhum sinal de Dennis Lex.
– Mas...?
– Pré-escola.
– Você está brincando.
– Não.
– Você achou o jardim de infância dele?
– Sou mais que um belo rabo – gabou-se Esperanza.
– Não para mim, querida – replicou Win.
– Você é um doce.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça.
– Srta. Peggy Joyce – disse Esperanza. – Ela é professora e diretora da Escola Infantil Shady Wells Montessori, em East Hampton.
– E se lembra de Dennis Lex? – perguntou Myron. – De trinta anos atrás?
– Aparentemente, sim – respondeu ela, tomando uma colherada e jogando para ele uma folha de papel. – É o endereço dela. Está esperando você agora de manhã. Dirija com cuidado, ouviu?