O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 23 de 43

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O Medo Mais Profundo

Capítulo 23

 

AGECOMP. OU PROGRAMA DE PROGRESSÃO de idade, se preferirem.

Myron havia aprendido um pouco sobre ele quando estava procurando uma mulher desaparecida, Lucy Mayor. Tudo que precisava fazer – ou, no caso do escritório deles, tudo que Esperanza precisava fazer – era pegar a fotografia e digitalizá-la. Depois, usando programas comuns como Photoshop, ampliaria o rosto do pequeno Dennis Lex. O AgeComp, constantemente aperfeiçoado por organizações que buscavam crianças desaparecidas, fazia o resto. Usando algoritmos avançados, ele alongava, fundia e misturava fotos delas para criar uma imagem colorida de como poderiam estar atualmente.

É claro que o procedimento não leva em conta o acaso. Cicatrizes, fraturas no rosto, pelos faciais, cirurgias plásticas, penteado ou, no caso dos mais velhos, a calvície masculina. Ainda assim, a foto de turma poderia ser uma boa pista.

Quando Myron já estava de volta a Manhattan, o celular tocou.

– Falei com os federais – informou Win.

– E...?

– Sua impressão estava certa.

– Que impressão?

– Eles estão de fato assustados.

– Você falou com o PT?

– Falei. Ele me pôs em contato com a pessoa certa. Os agentes solicitaram uma acareação.

– Quando?

– Agora. Na verdade, estamos aqui no seu escritório.

– Os federais estão no meu escritório agora?

– Afirmativo.

– Chego em cinco minutos.

Mais provavelmente em dez. Quando a porta do elevador se abriu, ele viu Esperanza sentada à mesa de Big Cyndi.

– Quantos são? – perguntou Myron.

– Três: uma mulher loura, um idiota de marca maior e um terno elegante.

– Win está com eles?

– Sim.

Ele lhe entregou a foto e apontou para o rosto de Dennis Lex.

– Quanto tempo leva para fazer uma progressão de idade?

– Meu Deus, quando foi tirada?

– Trinta anos atrás.

Esperanza franziu a testa.

– Você sabe alguma coisa sobre progressão de idade?

– Um pouco.

– Na maioria das vezes, é usada para procurar crianças desaparecidas, em geral para acrescentar cinco, talvez dez anos.

– Mas dá para conseguir algo, certo?

– Algo meio rústico, mas sim. – Ela ligou o scanner e colocou a foto virada para baixo. – Se eles estiverem no laboratório, vai ficar pronta no fim do dia. Vou recortar o rosto e mandar por e-mail.

– Deixe isso para mais tarde – disse ele, gesticulando em direção à porta. – Não podemos deixar os federais esperando. Com todos esses dólares que pagamos de imposto, sabe.

– Você quer que eu entre?

– Você é parte de tudo que acontece aqui, Esperanza. É claro que quero que entre.

– Entendi. Agora vem a parte em que pestanejo para não derramar lágrimas porque você está me fazendo sentir uma pessoa tão especial?

Espertinha.

Myron abriu a porta de sua sala, seguido por Esperanza. Win estava sentado à mesa do amigo, provavelmente para impedir que algum dos federais o fizesse. Ele conseguia ser muito territorial – mais uma de suas semelhanças com um dobermann. Kimberly Green e Rick Peck ficaram de pé, com as pálpebras pesadas de sono e sorrisos de quem estava pronto para a briga. O terceiro federal permaneceu sentado, imóvel, sem se virar para ver quem havia entrado. Myron divisou seu rosto e ficou chocado.

Uau!

Win observava Myron com um sorriso divertido a lhe encrespar os lábios. Eric Ford, vice-diretor do FBI, era o homem de terno. Sua presença só podia significar uma coisa: o caso era grave.

Kimberly Green apontou para Esperanza.

– O que ela está fazendo aqui?

– Ela é minha sócia – respondeu Myron. – E é falta de educação apontar.

– Sócia? Você acha que isto é uma transação comercial?

– Ela fica.

– Não.

Green ainda usava os brincos de bola e corrente, os mesmos jeans e blusa de gola rulê, mas o blazer agora era verde-hortelã.

– Não estamos exatamente animados com a ideia de conversar com você e o rapaz de maçãs salientes ali. – Ela indicou Win. – Já lhe demos um bom espaço de manobra. Não a conhecemos. Ela sai.

O sorriso de Win se abriu e as sobrancelhas subiram e desceram. Tinha gostado da forma como a mulher o chamara.

– Ela sai – repetiu Green.

Esperanza encolheu os ombros.

– Sem problemas.

Myron ia dizer alguma coisa, mas Win balançou a cabeça. Estava certo. Era melhor se poupar para as batalhas importantes.

Esperanza saiu. Win se levantou e cedeu a cadeira a Myron, ficando à sua direita, de braços cruzados, totalmente à vontade. Green e Peck se remexeram, inquietos. Ele se virou para Eric Ford.

– Acho que não nos conhecemos.

– Mas você sabe quem eu sou – replicou ele com uma voz suave de apresentador de rádio que tocava soft rock.

– Sei.

– E eu sei quem você é. Qual o problema, então?

Ceeerto. Myron olhou para Win, que deu de ombros. Ford fez um sinal para Green, que pigarreou.

– Só lembrando: não achamos necessário entrar nos pormenores.

– Que pormenores?

– Contar-lhe sobre nossa investigação. Interrogá-lo. Como bom cidadão, deve colaborar, porque é a coisa certa.

Myron encarou o amigo.

– Uau!

– Determinados aspectos de uma investigação precisam ser reservados. Você e o Sr. Lockwood devem saber muito bem disso. Deviam estar ansiosos para cooperar com qualquer investigação federal. Respeitando o que estamos tentando fazer.

– Certo, respeitamos. Podemos pular essa parte e seguir em frente? Vocês já nos investigaram. Sabem que ficaremos de boca fechada. Caso contrário, nenhum de nós estaria aqui.

Ela uniu as mãos e as pousou no colo. Peck mantinha a cabeça baixa, fazendo anotações sabe Deus sobre o quê. A decoração do escritório, talvez.

– O que dissermos aqui não pode sair dessa sala. Está classificado como grau máximo de...

– Pode pular outra vez – interrompeu Myron, impaciente, girando o dedo na horizontal. – Siga em frente.

Green olhou para Ford, que assentiu. Ela respirou fundo e começou:

– Estamos mantendo Stan Gibbs sob vigilância.

Ela parou e se recostou. Myron esperou alguns segundos e falou:

– Que surpresa.

– É uma informação sigilosa.

– Então não vou anotá-la no meu diário.

– Ele não deve ficar sabendo.

– Bem, isso fica implícito em palavras como “sigilosa” e “vigilância”.

– Mas Gibbs sabe. Some de vista sempre que quer porque, quando está em público, não podemos nos aproximar muito.

– Por que não podem se aproximar muito?

– Porque ele pode nos ver.

– Mas ele já não sabe que vocês o estão seguindo?

– Sim.

Myron olhou para Win.

– Não tem um esquete de Abbott e Costello que é assim?

– Acho que é dos Irmãos Marx.

– Se deixarmos claro que o estamos seguindo – continuou Green –, o fato de que ele é alvo de uma investigação pode vir a público.

– E vocês estão tentando ocultar isso?

– Sim.

– Há quanto tempo ele está sob vigilância?

– Bem, a resposta não é tão simples. Ele tem ficado fora de alcance um tanto...

– Quanto tempo?

Green olhou de novo para Ford, que voltou a aquiescer. Ela cerrou os punhos.

– Desde o primeiro artigo sobre os sequestros.

Myron caiu para trás, sentindo algo semelhante a uma vertigem. Não devia ficar surpreso, mas estava. O artigo voltou-lhe à mente: os súbitos desaparecimentos, os terríveis telefonemas, a angústia constante, eterna, aquelas vidas pacatas coagidas de repente por um mal inexplicável.

– Meu Deus... Stan Gibbs estava dizendo a verdade.

– Nunca dissemos isso – retrucou Kimberly.

– Entendo. Então vocês só o seguem porque não gostam do jeito como ele escreve?

Silêncio.

– Os artigos eram verdadeiros e vocês sempre souberam disso.

– O que sabemos ou não sabemos não é da sua conta.

Ele balançou a cabeça.

– Inacreditável. Então me deixem ver se entendi direito. Vocês têm um psicopata à solta, que sequestra pessoas do nada e atormenta famílias. E querem manter isso em sigilo, porque, se a informação vier a público, a população pode entrar pânico. Bom, o psicopata vai diretamente até Stan Gibbs e, de repente, a história fica famosa... – A voz de Myron sumiu, pois ele viu que havia um furo importante em seu raciocínio. Franziu a testa e continuou: – Não sei como esse romance antigo e as acusações de plágio se encaixam. Mas, de qualquer forma, vocês decidiram investir no caso. Permitiram que Gibbs fosse demitido e caísse em desgraça, em parte porque ficaram chateados com o fato de ele ter perturbado a investigação. Mas principalmente – ele viu o que pareceu ser uma clareira – para poder vigiá-lo. Se o psicopata o contatara uma vez, vocês imaginaram, talvez o fizesse de novo. Sobretudo depois que os artigos foram desacreditados.

– Errado – rebateu Green.

– Mas quase certo.

– Não.

– Os sequestros sobre os quais Gibbs escreveu aconteceram, certo?

Ela hesitou e olhou de relance para Ford.

– Não podemos checar todos os fatos.

– Meu Deus, não estou aqui tomando um depoimento – reclamou Myron. – A coluna dele tratava de algo verdadeiro? Sim ou não?

– Já dissemos o bastante. Agora é sua vez.

– Vocês não me contaram porcaria nenhuma.

– E você, menos ainda.

Negócios. A vida é como ser um agente esportivo: sempre negociando. Havia aprendido a importância da influência, da partilha, da justiça. As pessoas sempre se esquecem do último item e, no fim, têm que pagar por isso. O melhor negociador não é aquele que fica com o bolo inteiro, deixando apenas algumas migalhas escassas, mas o que consegue o que deseja, fazendo o outro lado feliz. Em circunstâncias normais, Myron compartilharia um pouco. O clássico toma lá, dá cá. Mas não dessa vez. Não era bobo. Assim que lhes contasse a razão de sua visita a Stan Gibbs, sua influência iria pelo ralo.

O melhor negociador, assim como a melhor espécie, sabe como se adaptar.

– Primeiro responda a minha pergunta: sim ou não? A história que Stan Gibbs escreveu era verdadeira?

– Não existe uma resposta afirmativa ou negativa para essa pergunta – falou Kimberly. – Há partes verdadeiras e partes falsas.

– Por exemplo...?

– O casal jovem era do Iowa, e não de Minnesota. O pai desaparecido tinha três filhos, e não dois.

Ela parou, cruzando as mãos.

– Mas os sequestros aconteceram?

– Sabemos desses dois. Não temos informações sobre a universitária desaparecida.

– Provavelmente porque o psicopata contatou os pais dela e eles nunca deram queixa.

– Essa é a nossa teoria – concordou Green. – Mas não temos certeza. Mesmo assim, ainda há grandes discrepâncias. As famílias juram que nunca falaram com ele, por exemplo. Muitos telefonemas e acontecimentos não se encaixam no que sabemos ser a verdade.

Myron viu outra clareira:

– Vocês perguntaram então a Gibbs sobre isso? Sobre suas fontes?

– Sim.

– E ele se recusou a dizer qualquer coisa.

– Exato.

– Aí vocês o destruíram.

– Não.

– A parte que não entendo é a do plágio. Vocês fizeram algum tipo de armação? Não consigo imaginar como. A menos que tenham inventado um livro e... Não, isso é extrapolar demais. Qual é a questão, então?

Kimberly se inclinou para a frente.

– Diga-nos por que foi até o apartamento dele.

– Não até...

– Durante meses, não conseguíamos encontrar Stan Gibbs – interrompeu ela. – Pensamos que tivesse saído do país. Mas, desde que se mudou para aquele condomínio, está sempre sozinho. Como disse antes, às vezes nós o perdemos de vista. Mas ele nunca recebe visitas. Algumas pessoas já o localizaram. Até velhos amigos. Eles batem à porta ou ligam. E sabe o que sempre acontece, Myron?

Ele não gostou de seu tom de voz.

– Stan Gibbs os manda embora. Toda vez. Nunca recebeu ninguém. Exceto você.

Myron encarou Win, que assentiu bem devagar. Myron deu uma olhada para Eric Ford antes de se voltar outra vez para a agente:

– Vocês acham que eu sou o sequestrador?

Green se recostou, encolhendo um pouco os ombros, parecendo saciada, como se tivesse virado o jogo.

– Você é que pode nos dizer.

Win se dirigiu para a porta. Myron se levantou e o seguiu.

– Aonde vocês dois pensam que vão? – questionou Green.

Win segurou a maçaneta. Myron contornou a mesa e respondeu:

– Sou um suspeito. Não digo mais nada sem a presença de um advogado. Com licença.

– Ei, só estamos conversando. Nunca disse que achava que você fosse o sequestrador.

– A mim pareceu. Win?

– Myron sequestra corações, e não pessoas.

– Você está escondendo alguma coisa? – perguntou Green.

– Apenas seu gosto por pornografia cibernética – respondeu Win. – Opa!

Kimberly se levantara e bloqueara o caminho de Myron.

– Acho que sabemos algo sobre a universitária desaparecida – revelou ela, os olhos fixos nele. – Quer saber como descobrimos?

Myron permaneceu imóvel.

– Pelo pai, que recebeu uma ligação do sequestrador. Não sei o que foi dito. Ele não emite uma palavra sequer desde então. Está catatônico. O que quer que esse psicopata tenha falado colocou-o numa cela acolchoada.

Myron sentiu o escritório encolher, as paredes se aproximarem.

– Não encontramos nenhum corpo ainda, mas estamos certos de que ele os mata. Sequestra, faz Deus sabe o quê e impõe à família um sofrimento interminável. E não vai parar.

Myron manteve o olhar firme.

– Aonde você quer chegar?

– Quero dizer que isso não é engraçado.

– Não, não é. Então pare com esse jogo idiota.

Ela permaneceu calada.

– Quero ouvir da sua boca... – continuou Myron. – Você acha que estou envolvido? Sim ou não?

Dessa vez, Eric Ford respondeu:

– Não.

Kimberly retornou à sua cadeira, sem tirar os olhos de Myron nem por um segundo. Ford gesticulou.

– Sente-se, por favor.

Myron e Win voltaram às posições originais.

– O romance existe, assim como as partes que Stan Gibbs plagiou – começou Ford. – O livro nos foi enviado de forma anônima, mais especificamente para a agente especial Green. Admitimos que, a princípio, achamos o assunto confuso. Por um lado, Gibbs sabe dos sequestros. Por outro, não sabe tudo e copiou claramente pedaços de um romance policial antigo, já fora de catálogo.

– Há uma explicação: o sequestrador pode ter lido o livro, se identificado com o personagem e o imitado.

– Consideramos essa possibilidade, mas não achamos que seja o caso.

– Por que não?

– É complicado explicar.

– Envolve trigonometria?

– E você ainda acha que é engraçado?

– E você ainda acha que é inteligente ficar fazendo joguinhos?

Ford fechou os olhos. Green parecia tensa. Peck continuava a fazer anotações. Quando o vice-diretor abriu os olhos, disse:

– Não achamos que Stan Gibbs tenha inventado os crimes e, sim, cometido os crimes.

Essa pegou Myron de jeito. Ele olhou para Win. Nada.

– Você tem alguma experiência com mentes criminosas, não? – perguntou Ford.

Myron talvez tenha assentido.

– Ora, nós temos aí um padrão antigo com um toque novo. Os incendiários adoram observar os bombeiros debelando o fogo. Muitas vezes são eles que notificam a ocorrência. Brincam de ser o bom samaritano. Os assassinos adoram ir ao enterro das vítimas. Nós filmamos os funerais. Com certeza você sabe disso.

Myron aquiesceu.

– Às vezes os assassinos se tornam parte da história. – Ford gesticulava muito agora, as mãos nodosas subindo e descendo, como se estivesse numa entrevista coletiva num grande salão. – Dizem ser testemunhas. Tornam-se o transeunte inocente que encontrou por acaso o corpo numa moita. Você deve estar familiarizado com esse fenômeno, da mariposa atraída pela chama, não?

– Sim.

– E existe algo mais fascinante do que ser o único jornalista a contar a história? Consegue imaginar o êxtase? Como ficar mais perto da investigação que isso? A inteligência desse embuste... para um psicopata... é delicioso. E, se ele estiver perpetrando os crimes para chamar atenção, é em dose dupla. Primeiro, os holofotes para o sequestrador. Segundo, para o jornalista brilhante que conseguiu um furo e, possivelmente, um Pulitzer. Está até recebendo um bônus como defensor da Primeira Emenda.

Myron percebeu que estava prendendo a respiração.

– Que teoria infernal.

– Quer mais?

– Sim.

– Por que ele não respondeu a nenhuma das nossas perguntas?

– Você mesmo disse: a Primeira Emenda.

– Ele não é advogado nem psiquiatra.

– Mas é jornalista – observou Myron.

– Que tipo de monstro continuaria a proteger sua fonte nessa situação?

– Conheço vários.

– Conversamos com as famílias das vítimas. Elas juraram que nunca falaram com ele.

– Podiam estar mentindo. Talvez o sequestrador os tenha mandado dizer isso.

– Ok, então por que Gibbs não fez mais para se defender contra as acusações de plágio? Podia tê-las refutado. E até fornecido algum detalhe que provasse sua inocência. Mas não, ficou em silêncio. Por quê?

– Você acha que é porque ele é o sequestrador? A mariposa chegou perto demais da chama e agora está lambendo as feridas na escuridão?

– Você tem uma explicação melhor?

Myron ficou em silêncio.

– E, por último, há o assassinato da amante, Melina Garston.

– O que tem a ver?

– Pense bem, Myron. Nós o pressionamos. Talvez ele esperasse por isso, talvez não. De qualquer forma, os tribunais não veem as coisas do mesmo jeito que ele. Você não sabe nada sobre as descobertas da justiça, sabe?

– Na verdade, não.

– Porque estão sob sigilo. O juiz exigiu que Gibbs mostrasse alguma prova de que estivera em contato com o assassino. Por fim, ele disse que Melina Garston confirmaria tudo.

– E ela confirmou, certo?

– Sim. Declarou ter conhecido o entrevistado.

– Ainda não entendo. Se ela confirmou tudo, por que Gibbs a mataria?

– Um dia antes de Melina Garston morrer, ela ligou para o pai e falou que tinha mentido.

Myron se recostou, tentando digerir aquilo tudo.

– Ele está de volta agora, Myron – continuou Ford. – Stan Gibbs veio enfim à tona. Enquanto andou desaparecido, o sequestrador do “Plante as sementes” também desapareceu. Mas esse tipo de psicopata nunca para por si só. Ele vai atacar de novo, e em breve. Portanto, antes que isso aconteça, é melhor você conversar com a gente. Por que foi visitá-lo?

Myron pensou naquilo, mas não por muito tempo.

– Estava procurando alguém.

– Quem?

– Um doador de medula óssea desaparecido, que poderia salvar a vida de uma criança.

Ford olhou firme para ele.

– Imagino que Jeremy Downing seja a criança em questão.

Myron não podia mais enrolar. Ele não ficou surpreso: registro das ligações telefônicas, provavelmente, ou talvez estivesse sendo seguido quando visitou Emily.

– Sim. Antes de continuar, quero a sua palavra de que vai me manter a par das investigações.

– Você não faz parte dessa investigação – interveio Kimberly.

– Não estou interessado no sequestrador, mas no meu doador. Me ajudem a encontrá-lo e eu conto o que sei.

– Estamos de acordo – falou Ford, fazendo um sinal para que Green se calasse. – Mas o que Stan Gibbs tem a ver com o seu doador?

Myron recapitulou tudo para eles. Começou com Davis Taylor, passando depois para Dennis Lex e o telefonema misterioso. Eles mantinham uma expressão firme enquanto escutavam, Green e Peck fazendo anotações, mas se surpreenderam com a menção à família Lex.

Fizeram algumas perguntas complementares, querendo saber como ele se envolvera naquilo, em primeiro lugar. Myron respondeu que Emily era uma velha amiga – não queria entrar na questão da paternidade. Observou que Green estava ficando inquieta, ansiosa para ir embora e começar a investigar.

Minutos depois, os federais fecharam seus bloquinhos e se levantaram.

– Ficaremos atentos – disse Ford, olhando direto para Myron. – Vamos encontrar seu doador. E você, fique de fora.

Myron assentiu e se perguntou se conseguiria. Após eles saírem, Win puxou uma cadeira para a frente da mesa do amigo.

– Por que estou me sentindo como se tivesse encontrado um cara num bar e agora, já na manhã seguinte, ele me soltasse um “a gente se fala”? – perguntou Myron.

– Porque isso é exatamente o que você é: uma rameira.

– Você acha que eles estão escondendo alguma coisa?

– Óbvio.

– Alguma coisa importante?

– Gigantesca – respondeu Win.

– Então não há muito que possamos fazer.

– Não. Nada.