O Medo Mais Profundo
Capítulo 5
MYRON OUVIU OS GRITOS DE êxtase do lado de fora do quarto.
Win – nome verdadeiro: Windsor Horne Lockwood III – deixara Myron ficar temporariamente em seu apartamento, no Edifício Dakota, esquina da Rua 72 com a Central Park West. Tratava-se de um antigo marco de Nova York, cuja história de riqueza e exuberância fora eclipsada pelo assassinato de John Lennon. Entrar no prédio significava pisar no lugar onde o ex-beatle havia sangrado antes de morrer no hospital, uma sensação não muito diferente de pisar em uma sepultura. Myron já estava se acostumando.
Visto pelo lado de fora, o Dakota era lindo e sombrio, assemelhando-se a uma casa mal-assombrada que tivesse tomado esteroides. A maioria dos apartamentos, inclusive o de Win, possuía mais metros quadrados que muitos principados europeus. No ano anterior, depois de uma vida morando na casa dos pais no subúrbio, Myron tinha finalmente se mudado do porão para um loft no SoHo, com a namorada, Jessica. Foi um grande passo, o primeiro sinal de que, após mais de uma década, ela estava pronta para comprometer-se. Assim, os pombinhos se deram as mãos e mergulharam na vida em comum. E, como muitos desses mergulhos que as pessoas dão na vida, este acabou numa barrigada feia.
Mais gritos de êxtase.
Myron encostou o ouvido na porta. Gritos, sim, e uma trilha sonora. Nada ao vivo, chegou à conclusão. Abriu a porta. Os gemidos vinham da sala de TV. Win nunca usava aquele ambiente para, ahn, filmagens. Ele suspirou e passou pela soleira.
O amigo usava seu uniforme de mauricinho casual: calça cáqui, mocassim sem meia e camisa de uma cor tão berrante que não se podia olhar diretamente para ela. Os cachos louros haviam sido repartidos com a precisão de um avarento dividindo a conta do almoço; a pele tinha cor de porcelana chinesa, com toques rosados nas bochechas, como se coradas após uma tacada de golfe. Sentava-se em posição de lótus, as pernas num ângulo que o homem não fora feito para atingir. As mãos descansavam sobre os joelhos, os dedos indicador e polegar formando dois círculos. Um yuppie zen. Europeu do Velho Mundo colidindo com o Oriente antigo. O doce aroma do dinheiro misturado ao do forte incenso asiático.
Win inspirou por vinte segundos, prendeu a respiração e expirou pelo mesmo tempo. Estava meditando, é claro, mas à sua maneira. Não escutava sons calmantes da natureza ou sininhos: preferia uma trilha sonora de filmes pornográficos dos anos 1970, que soava como alguém tocando uma guitarra de brinquedo na tentativa de imitar Jimi Hendrix, mas falhando miseravelmente. Ouvir aquilo era o bastante para fazer uma pessoa sair correndo em busca de uma injeção de antibiótico.
Win não ficava de olhos fechados. Não visualizava veados saciando a sede num regato ou quedas-d’água suaves derramando-se em verdes folhagens, nem nada nessa linha. O olhar permanecia fixo na televisão; mais especificamente, em vídeos caseiros dele com um pot-pourri de mulheres no êxtase da paixão.
Myron entrou na sala. Com a mão espalmada, Win fez sinal para que esperasse, então ergueu o indicador a fim de mostrar que precisava de mais um momento. Myron arriscou uma olhada para a tela, viu corpos se contorcendo e deu as costas.
Alguns segundos depois, Win disse:
– Olá.
– Gostaria de deixar registrada minha repugnância.
– Anotado.
Com movimentos fluidos, saiu da posição de lótus e pôs-se de pé. Tirou o vídeo do aparelho e guardou-o numa caixa com a etiqueta Anon 11. Myron sabia que Anon queria dizer anônima – isso significava que ele havia esquecido o nome da parceira ou nunca soubera.
– Não acredito que você faça isso – disse Myron.
– Outra lição de moral? – perguntou Win, com um sorriso. – Que bonito.
– Me permita perguntar uma coisa.
– Claro, por favor.
– Uma coisa que sempre quis saber.
– Sou todo ouvidos.
– Deixando minha repugnância de lado por um instante...
– Não por mim – interrompeu ele. – Gosto muito quando você se mostra superior.
– Você diz que isso – Myron indicou vagamente o vídeo e a TV – é bem relaxante.
– Sim.
– Mas também... mesmo sendo tão repugnante... não deixa você excitado?
– Nem um pouco.
– É isso que não entendo.
– Ver a relação não me excita. Pensar nela tampouco. Vídeo, revista de mulher pelada, pornografia de internet, nada disso me excita. Para mim, nada substitui a coisa ao vivo. Precisa haver uma parceira presente. O resto apenas me faz cócegas. É por isso que nunca me masturbo.
Myron ficou em silêncio.
– Algum problema? – indagou Win.
– Só estou pensando por que diabo fui perguntar isso.
Win abriu um pequeno armário da dinastia Ming que fora convertido num frigobar, pegou uma lata de achocolatado e jogou-a para o amigo. Para si mesmo, serviu uma dose de conhaque. A sala estava repleta de antiguidades caras, tapeçarias magníficas, tapetes orientais e bustos de homens com cabelo comprido e encaracolado. Não fosse pelos aparelhos eletrônicos de última geração, poderia ser o recinto de um palácio dos Médicis.
Eles sentaram-se nas cadeiras de costume.
– Você parece preocupado – comentou Win.
– Tenho um caso para nós dois.
– Ah.
– Sei que prometi não fazer mais isso. Porém, essa é uma espécie de circunstância especial.
– Entendo – falou Win.
– Você se lembra de Emily?
Ele girou o líquido no copo, como sempre fazia.
– Namorada de faculdade. Costumava fazer sons de macaco durante o sexo. Largou você no início do último ano. Casou com o seu arqui-inimigo, Greg Downing. Abandonou-o também. Provavelmente ainda faz sons de macaco.
– Ela tem um filho que está doente.
Myron explicou rapidamente a situação, deixando de fora a parte sobre sua possível paternidade. Se não conseguia falar sobre isso com Esperanza, com Win, então, não havia como entrar no assunto.
Ao término, Win comentou:
– Não deve ser muito difícil. Você vai conversar com a médica amanhã?
– Vou.
– Descubra o que puder sobre quem toma conta dos registros.
Win pegou o controle remoto e ligou a televisão. Ficou zapeando porque todos os canais mostravam comerciais e porque... bem, era homem. Parou na CNN. Terese Collins estava apresentando o noticiário.
– Essa adorável Srta. Collins vem nos visitar amanhã?
Myron assentiu.
– O voo chega às dez.
– Ela tem vindo bastante.
– É.
– A coisa entre vocês dois está – Win contraiu o rosto, como se alguém lhe tivesse mostrado um caso particularmente asqueroso de micose – ficando séria?
Myron olhou para Terese na tela.
– Ainda é muito recente.
Estava passando uma maratona de Tudo em família. Pediram comida chinesa e assistiram a dois episódios. Myron tentou mergulhar na felicidade de Archie e Edith, mas não deu certo. Seus pensamentos ficavam retornando a Jeremy. Ele conseguiu afastar o tema da paternidade, concentrando-se, como Emily lhe pedira, na doença e na tarefa em questão. Anemia de Fanconi... Myron pensou em pesquisar sobre ela na internet.
– Volto daqui a pouco.
– O próximo episódio é o do funeral de Stretch Cunningham – lembrou Win.
– Quero ver uma coisa no computador.
– O episódio em que Archie faz a elegia fúnebre.
– Eu sei.
– Em que ele diz que nunca imaginou que Stretch Cunningham fosse judeu por causa do “ham” no sobrenome. Presunto, porco, saca?
– Conheço o episódio, Win.
– E você vai perder?
– Você tem gravado.
– E daí?
Os dois se encararam, confortáveis em meio ao silêncio. Depois de um tempo, Win disse:
– Desembucha.
Myron nem hesitou:
– Emily contou que sou pai do garoto.
Win aquiesceu.
– Ah.
– Você não parece surpreso.
O amigo pegou outro camarão com os hashis.
– Você acredita nela?
– Sim.
– Por quê?
– Por um motivo simples: é muito difícil mentir sobre isso.
– Mas Emily mente bem, Myron. Sempre mentiu para você. Na faculdade. Quando Greg desapareceu. Mentiu no tribunal sobre o comportamento dele com as crianças. Traiu o noivo na noite anterior ao casamento quando dormiu com você. E, se está dizendo a verdade agora, mentiu por quase treze anos.
Myron refletiu sobre isso e afirmou:
– Acho que agora está dizendo a verdade.
– Você acha, Myron.
– Vou fazer um exame de sangue.
Win deu de ombros.
– Se você acha imprescindível...
– Como assim?
– Vou deixar minha frase falar por si mesma.
Myron fez uma careta.
– Você não acabou de dizer que preciso ter certeza?
– De jeito nenhum – respondeu Win. – Só estava mostrando o óbvio. Não disse que isso faria diferença.
– Você está me deixando confuso.
– E se você for realmente o pai biológico do garoto? Que diferença isso faz?
– Espere aí, Win. Nem você pode ser tão frio assim.
– Pelo contrário. Por mais estranho que pareça, estou falando de coração.
– Não estou entendendo.
Win girou outra vez o conhaque no copo, estudou sua cor de âmbar e deu um gole. Suas bochechas ficaram um pouco coradas.
– Mais uma vez, vou falar com toda clareza: não importa o que o exame diga, pois você continuará não sendo o pai de Jeremy Downing. Greg é o pai dele. Você pode ser o doador do esperma. Pode ser um acidente da luxúria e da biologia. Pode ter fornecido uma simples estrutura celular microscópica que se combinou com outra, ligeiramente mais complexa. Mas não é o pai desse garoto.
– Não é tão simples assim, Win.
– É, sim, meu amigo. O fato de que você resolveu misturar as coisas não muda nada. Posso demonstrar se você quiser.
– Estou escutando.
– Você ama seu pai, certo?
– Você sabe a resposta.
– Sei. Mas o que faz dele seu pai? O fato de que um dia subiu na sua mãe e ficou gemendo depois de tomar uns drinques? Ou a forma como ele amou e cuidou de você nos últimos 35 anos?
Myron olhou para a lata de achocolatado.
– Você não deve nada a esse garoto – continuou Win – e ele não deve nada a você. Vamos tentar salvar a vida dele, se é isso que você quer, mas nada além.
Myron ficou pensando. A única coisa mais assustadora do que um Win irracional era quando ele fazia sentido.
– Talvez você esteja certo.
– Mas você ainda não acha que seja tão simples assim.
– Não sei.
Na televisão, Archie aproximava-se do púlpito, com um solidéu na cabeça.
– Já é um começo – retrucou Win.