O Medo Mais Profundo
Capítulo 1
UMA HORA ANTES DE SEU mundo explodir feito um tomate maduro perfurado por um salto agulha, Myron dava uma mordida num bolo recém-saído do forno, que tinha um gosto suspeito de naftalina.
– E aí? – perguntou a mãe.
Com muito custo, Myron conseguiu engolir e responder:
– Nada mau.
A mãe balançou a cabeça, desapontada.
– Que foi? – indagou Myron.
– Sou advogada. Você deveria mentir melhor.
– Você fez o melhor que pôde.
A mãe deu de ombros e apontou para o, ahn, bolo:
– É a primeira vez que faço, bubbe. Tudo bem, pode dizer a verdade.
– Parece naftalina.
– Parece o quê?
– Aquela coisa que tem nos banheiros públicos. Nos mictórios. Eles colocam por causa do cheiro, acho.
– E você come isso?
– Não...
– Será que é por isso que seu pai fica tanto tempo no banheiro? Comendo naftalina? E eu aqui achando que era o problema na próstata.
– Estou brincando, mãe.
Ela sorriu. Seus olhos azuis estavam avermelhados, e colírio nenhum conseguia clareá-los. Era um vermelho que só se alcançava com um choro constante, algo que não combinava com o estilo zombeteiro da mãe.
– Eu também, espertalhão. Você acha que é o único na família com senso de humor?
Myron não disse nada. Olhou para o “ bolo” com medo, ou talvez esperança, de que fosse rastejar para longe dele. Nos mais de trinta anos em que vivia naquela casa, a mãe nunca tinha assado nada – fosse da própria cabeça, com receita ou algum produto pré-pronto. Mal conseguia ferver água se não recebesse instruções muito precisas e praticamente nunca cozinhara, embora fizesse uma pizza congelada muito ruim no micro-ondas, depois de apertar o painel numérico com dedos ágeis que lembravam a performance de um dançarino profissional. Não, para a família Bolitar, a cozinha era mais um local de reuniões, que nada tinha a ver com culinária, mesmo a do tipo mais rústico. A mesa redonda servia para empilhar revistas, catálogos e as caixas de comida chinesa do restaurante. O fogão se envolvia em menos ação do que os filmes de Bergman. Era apenas um adereço, como aquelas bíblias enormes que ficam abertas na cômoda de um quarto.
Havia alguma coisa errada, definitivamente.
Eles estavam sentados na sala, com seu sofá modulado branco, de couro falso antiquado, e o tapete tingido de azul-esverdeado, cujos pelos emaranhados faziam Myron se lembrar de um forro de vaso sanitário. Pela janela panorâmica, ele lançava olhares furtivos para a placa de “Vende-se” no jardim, como se fosse um disco voador que tivesse acabado de aterrissar e algo sinistro estivesse prestes a sair dali.
– Cadê meu pai?
A mãe fez um gesto entediado com a mão em direção à porta.
– Está no porão.
– No meu quarto?
– Seu antigo quarto. Você já se mudou, lembra?
Claro que sim: saíra de casa em idade muito precoce, nada menos que aos 34 anos. Especialistas em educação infantil salivariam e balançariam a cabeça em desaprovação ao filho pródigo que tinha preferido permanecer no casulo do porão muito depois do prazo adequado para a borboleta se libertar. Myron, entretanto, poderia argumentar o contrário, alegando que, durante gerações e na maioria das culturas, a prole vivia na casa paterna até a idade madura. A adoção dessa filosofia poderia, na verdade, contribuir para o bem da sociedade, ajudando as pessoas a permanecerem enraizadas em algo tangível, naquela era de desintegração do núcleo familiar. Se ninguém engolisse essa linha de raciocínio, Myron podia tentar outra: ele tinha dezenas na manga.
Contudo, a verdade era bem simples: ele gostava de ficar no subúrbio com os pais – mas confessar essa fraqueza era algo tão interessante quanto a oitava faixa de um CD do Air Supply.
– E o que ele está fazendo? – perguntou Myron.
– Seu pai acha que você só vai chegar daqui a uma hora.
Myron balançou a cabeça, intrigado.
– E o que está fazendo no porão?
– Ele comprou um computador e está brincando com ele lá embaixo.
– Meu pai fez isso?
– Pois é... O homem não consegue trocar uma lâmpada sem manual de instruções e, de repente, vira Bill Gates. Navegando no barco.
– Na verdade, na rede – corrigiu Myron.
– O quê?
– Chamam de rede, mãe: net, internet.
– Mas como se navega numa rede? Rede é para pescar.
– É uma rede de computadores, eles estão conectados.
– Bem, seja o que for, seu pai fica lá o tempo todo, tecendo a rede ou sei lá o quê. Conversa com pessoas, Myron. É o que ele me conta. Com estranhos. Como fazia na época de radioamador, lembra?
Por volta de 1976, os pais judeus do subúrbio checavam por rádio se não havia policiais no caminho até a delicatéssen. Eram comboios enormes de Cadillacs Seville. Rua 10 com a 4 livre, câmbio.
– E isso não é tudo – continuou ela. – Ainda está escrevendo suas memórias. Um homem que não sabe fazer a lista de supermercado sem consultar um manual de estilo de repente começa a achar que é um ex-presidente.
Eles estavam vendendo a casa; Myron ainda não conseguia acreditar naquilo. Seus olhos perambulavam pelo entorno tão familiar, detendo-se nas fotos penduradas na parede da escada. Dava para ver a família envelhecendo pelas roupas e penteados – saias e costeletas aumentando e diminuindo; franjas, suede e tie-dye; jaquetões e calças de boca de sino; smokings de babado, cafonas demais até para um cassino de Las Vegas –, os anos passando como em um desses comerciais depressivos de seguro de vida. Myron observava suas jogadas de basquete na época da escola: um lance livre na liga suburbana, no sexto ano, uma disparada pelo meio do campo no oitavo, uma cesta no ensino médio. A série terminava com fotos de capa da Sports Illustrated, duas de quando jogava na Duke e uma de sua perna engessada, com a manchete ESSE É O FIM? em letras garrafais (todos sabiam que a resposta era um SIM! num corpo maior ainda).
– E qual é o problema? – perguntou ele.
– Não disse que era um problema – respondeu a mãe.
Myron balançou a cabeça, decepcionado.
– E você é uma advogada...
– Dando mau exemplo?
– Não é de admirar que eu nunca tenha me candidatado a um cargo público.
Ela cruzou as mãos no colo.
– Precisamos conversar.
Myron não gostou do tom.
– Mas não aqui – acrescentou a mãe. – Vamos dar uma volta no quarteirão.
Ele assentiu e os dois se levantaram. Antes que alcançassem a porta, o celular tocou. Myron o sacou com uma rapidez que faria inveja a qualquer pistoleiro de faroeste. Pigarreou e atendeu com uma voz aveludada, profissional:
– MB Representações Esportivas. Myron Bolitar falando.
– Bela voz – comentou a pessoa do outro lado.
Esperanza Diaz era a secretária de longa data, e agora sócia, na MB Representações Esportivas (o M era de Myron e o B, de Bolitar, a quem interessar possa).
– Pensei que fosse Lamar – disse ele.
– Ele não ligou ainda?
– Não.
Quase pôde vê-la franzir a testa.
– Estamos completamente atolados aqui.
– Aqui não. Estou tomando fôlego para a volta ao trabalho.
– Tomando fôlego como Pavarotti antes da Maratona de Boston.
– Hum... Mandou mal.
– Cale a boca.
Lamar Richardson era um jogador de beisebol do Golden Globe, bom rebatedor, que estava sem agente no momento – “sem agente” era um termo que os empresários da área esportiva murmuravam, da mesma forma que um mufti sussurra “Alá é grande”. Em busca de uma empresa que o representasse, tinha reduzido a lista de opções a três agências: dois conglomerados gigantescos, com escritórios do tamanho de um hipermercado, e a já insignificante mencionada, mas muito intimista e acolhedora MB.
Myron viu a mãe parada à porta. Trocou o celular de ouvido e perguntou:
– Mais alguma coisa?
– Você nunca vai adivinhar quem ligou – disse Esperanza.
– Elle e Claudia querendo outro ménage à trois?
– Aaahh, quase isso.
Ela não iria lhe contar: com seus amigos, tudo era um game show.
– Dê uma dica.
– Ex.
Myron pareceu levar um tranco.
– Jessica.
Esperanza soltou um pééé.
– Lamento, errou de vagabunda.
Myron estava curioso. Tivera apenas dois relacionamentos longos na vida: um com Jessica, indo e vindo, durante os últimos treze anos (agora mais indo que vindo). E antes disso, bem, seria necessário voltar a...
– Emily Downing?
Esperanza fez um plim-plim.
Uma imagem súbita perfurou seu coração como uma lâmina certeira. Viu Emily sentada no sofá surrado do porão da fraternidade, lançando-lhe aquele sorriso, de pernas cruzadas, vestindo o blusão do time da escola, num número bem maior que o dela, gesticulando para ele.
Sua boca ficou seca.
– O que ela queria?
– Não sei. Mas disse que precisa falar com você. Ela é meio ambígua, sabe. Tudo o que diz tem duplo sentido.
Com Emily era assim.
– Ela é boa de cama? – questionou Esperanza.
Por ser uma bissexual muito ativa, a sócia via todo mundo como possível parceiro. Myron se perguntou como seria aquilo, ter e avaliar tantas opções. Então decidiu não imaginar. Homem sábio.
– O que ela falou exatamente?
– Nada específico. Desfiou uma série de palavras palpitantes: urgente, questão de vida ou morte, assunto gravíssimo, etc., etc.
– Não quero falar com Emily.
– Imaginei. Se ligar de novo, quer que eu me livre dela?
– Por favor.
– Más tarde, então.
Ele desligou quando uma segunda imagem já o golpeava, como uma onda que vem de surpresa na praia. Último ano na Duke. Emily muito calma jogando o blusão do time na cama dele e saindo. Não muito depois, casou-se com o homem que arruinaria a vida de Myron.
Respire profundamente, disse a si mesmo. Inspire e expire. Isso.
– Está tudo bem? – perguntou a mãe.
– Tudo.
Ela balançou outra vez a cabeça, decepcionada.
– Não estou mentindo – replicou Myron.
– Certo, claro, ótimo, é normal respirar como numa ligação de telessexo. Escute, se não quer contar para sua mãe...
– Não quero contar para minha mãe.
– ... que criou você e...
Myron ignorou-a, como de costume. Ela estava outra vez divagando, voltando ao passado. Era uma coisa que fazia muito. Uma hora, era moderna, uma feminista pioneira que marchou ao lado da jornalista Gloria Steinem, prova viva de que “Lugar de mulher é em casa... e na Câmara e no Senado”, como estava escrito em sua velha camiseta. Na frente do filho, contudo, a roupa progressista caía no chão, revelando a yenta fofoqueira, com a babushka na cabeça, que havia sob o sutiã queimado. Essa dubiedade contribuiu para uma infância interessante.
Os dois saíram da casa. Myron mantinha os olhos na placa de “Vende-se”, como se ela pudesse de repente sacar uma arma. Em sua mente surgiu uma imagem inédita: o dia ensolarado em que a mãe e o pai tinham chegado ali pela primeira vez, de mãos dadas, a barriga dela revelando a gravidez, os dois assustados e animados, percebendo que aquela casa de três quartos iria ser o navio que singraria os mares da vida. Agora, gostassem ou não, essa viagem estava chegando ao fim. Hora de esquecer aquela bobagem de “quando se fecha uma porta, outra se abre”. A placa de “Vende-se” simbolizava o término – da juventude, da meia-idade, da família, do universo de duas pessoas que ali tinham levado suas vidas, lutando, criando os filhos, trabalhando.
Caminharam pela rua. Folhas se amontoavam ao longo do meio-fio, o sinal mais óbvio de um outono suburbano, sopradas por máquinas que zumbiam como helicópteros sobre Saigon. De propósito, Myron passou por elas, fazendo-as estalar sob seus tênis; ele gostava do som, não sabia bem por quê.
– Seu pai falou com você – começou a mãe, com um tom de pergunta – sobre o que aconteceu com ele.
Myron sentiu uma pontada no estômago. Mergulhou nas folhas, levantando mais alto as pernas e pisando com mais força.
– Sim.
– O que ele disse exatamente? – quis saber a mãe.
– Que sentiu umas dores no peito enquanto eu estava no Caribe.
A casa dos Kaufmans sempre fora amarela, mas a nova família proprietária a havia pintado de branco. Parecia estranha naquela cor, deslocada. Algumas residências agora estavam todas em alumínio, já outras ganharam anexos e suas cozinhas e quartos foram remanejados. Os jovens moradores da antiga casa dos Millers se livraram dos canteiros externos de flores nas janelas, outrora sua marca registrada. Os novos donos da residência dos Davis tinham retirado os arbustos maravilhosos que Bob aparava todo fim de semana. A Myron, aquilo parecia um exército invasor arrancando os estandartes dos conquistados.
– Ele não queria contar – continuou a mãe. – Você conhece seu pai. Ainda acha que precisa resguardar você.
Myron assentiu, parado em meio às folhas.
– Foram mais que dores no peito – acrescentou ela.
Ele congelou.
– Foi um infarto de verdade – prosseguiu a mãe, sem olhá-lo nos olhos. – Ele ficou na UTI por três dias. – A mãe começou a pestanejar, os olhos marejados. – A artéria estava quase toda entupida.
Myron sentiu a garganta se contrair.
– Essa situação o transformou. Sei quanto você o adora, mas precisa aceitar isso.
– Aceitar o quê?
– Que seu pai está ficando velho – respondeu ela, numa voz suave e firme. – Eu estou ficando velha.
Ele refletiu um instante.
– Estou tentando.
– Mas...?
– Mas vejo essa placa de “Vende-se”...
– Madeira, tijolo e prego, Myron.
– O quê?
Ela atravessou uma pilha de folhas e segurou em seu braço.
– Me escute. Você fica aí com essa cara de enterro, mas essa casa não é a sua infância. Não faz parte da sua família. Não respira, pensa ou sente. É só madeira, tijolo e prego.
– Vocês moram aí há mais de 35 anos.
– E daí?
Ele se virou e continuou andando.
– Seu pai quer ser honesto com você – prosseguiu ela –, mas você não está facilitando as coisas.
– Por quê? O que eu fiz?
A mãe olhou para o céu, como se procurasse inspiração divina, e se pôs a caminhar. Myron seguia a seu lado. Ela deu o braço ao filho e se apoiou nele.
– Você sempre foi um excelente atleta. Verdade seja dita, diferente do seu pai, que era um desastre.
– Eu sei.
– Certo. Você sabe porque seu pai nunca fingiu ser o que não era. Permitia que você o visse como um ser humano, vulnerável. E isso teve um efeito estranho: você passou a adorá-lo mais ainda. Você o transformou em algo quase mítico.
Myron não teve o que argumentar. Dando de ombros, replicou:
– Eu o amo.
– Eu sei, querido. Mas ele é apenas um homem. Um bom homem. Que está ficando velho agora, assustado. Seu pai sempre quis que você o visse como humano. Mas não assustado.
Myron manteve a cabeça baixa. Não dá para imaginar os pais fazendo certas coisas – sexo é o exemplo mais comum. A maioria das pessoas não consegue, e provavelmente sequer tentou, imaginar pegar os pais em flagrante. Naquele momento, todavia, ele tentava evocar outro tabu: o pai sentado sozinho no escuro, com a mão no peito, assustado. Essa visão, embora possível, era dolorosa, insuportável. Quando falou novamente, sua voz saiu tensa:
– E o que devo fazer então?
– Aceitar as mudanças. Seu pai está se aposentando. Trabalhou a vida inteira e, como a maioria dos machões imbecis daquela época, sua noção de valor próprio está ligada ao trabalho. Portanto, tem passado por um período difícil. Não é mais o mesmo. Você não é mais o mesmo. O relacionamento de vocês está mudando, e nenhum dos dois gosta de mudanças.
Myron ficou em silêncio, esperando por mais.
– Aproxime-se dele um pouco – aconselhou a mãe. – Ele deu apoio a você a vida inteira. Ele nunca vai pedir, mas agora é sua vez.
Ao dobrarem a última esquina, Myron viu um Mercedes estacionado em frente à placa de “Vende-se”. Perguntou-se por um instante se seria um corretor mostrando a casa. O pai estava no jardim conversando com uma mulher. Gesticulava muito e sorria. Fitou o seu rosto: a pele áspera que sempre dava a impressão de uma barba por fazer; o nariz proeminente com o qual costumava “socá-lo” durante as lutas de brincadeira, às gargalhadas; as pálpebras caídas e os tufos de cabelo grisalho que permaneciam, teimosos, após a basta cabeleira negra ter ido embora. Myron sentiu um aperto no coração.
O pai o viu e acenou.
– Veja quem apareceu!
Emily Downing se virou e lhe deu um sorriso tenso. Myron a encarou em silêncio. Cinquenta minutos haviam se passado. Mais dez e o salto alto esmagaria o tomate.