O Medo Mais Profundo
Capítulo 9
NUM TEMPO SURPREENDENTEMENTE CURTO, ELES organizaram tudo. Myron contou seu plano a Terese, que o escutou sem interrupções. Ao término, ela começou a dar telefonemas. Em nenhum momento perguntou por que ele estava procurando o doador ou qual ligação havia entre os dois. A regra tácita de novo, pensou Myron.
Em uma hora, um furgão equipado com uma câmara portátil de cinegrafista chegou ao Dakota. O diretor do centro hematológico de Bergen County – uma central próxima de transplantes de medula, em Nova Jersey – concordara em desmarcar quaisquer compromissos para uma entrevista imediata com Terese Collins, a extraordinária apresentadora de TV. Ah, o poder daquela caixa de plástico idiota...
Eles tomaram a Harlem River Drive até a ponte George Washington, cruzaram o Hudson e saíram na Jones Road, em Englewood, Nova Jersey. Após estacionarem, Myron pegou a câmera. Mais pesada do que imaginara. Terese mostrou a ele como segurá-la, encostá-la ao ombro e mirar. Havia um quê de bazuca naquele procedimento todo.
– Você acha que eu deveria usar um disfarce? – perguntou Myron.
– Por quê?
– As pessoas ainda me reconhecem da época de jogador.
Ela fez uma careta.
– Sou muito famoso em alguns círculos.
– Caia na real, Myron. Você é um ex-atleta universitário. Se alguém, por um milagre, reconhecer você, vai achar que teve sorte e não terminou na sarjeta, como vários outros.
– É justo.
– Outra coisa, que vai ser quase impossível para você.
– O quê?
– Você vai ter que manter fechada essa boca grande – respondeu Terese.
– Hum.
– Você é só o câmera aqui.
– Preferimos ser chamados de “artistas fotográficos”.
– Faça o seu papel apenas. Confie em mim para lidar com ele.
– Posso ao menos usar um pseudônimo? – Ele encostou o olho no aparelho. – Pode me chamar de Lens. Ou Scoop. Entendeu? Lente da câmera e furo de reportagem...
– Que tal Bozo? Não, espera, seria sinônimo.
Todo mundo gosta de bancar o engraçadinho.
Quando os dois entraram na recepção da clínica, as pessoas se viraram para Terese e deram outra vez aquele olhar disfarçado. Myron percebeu que aquele era o primeiro dia em que saía com ela em público. Nunca imaginara que fosse tão famosa.
– É assim em todos os lugares a que você vai? – sussurrou ele.
– Em geral, sim.
– Isso incomoda você?
– Besteira.
– O quê?
– Essas celebridades que se queixam das pessoas olharem para elas. Sabe como uma celebridade fica irritada? Quando ela vai a um lugar e não é reconhecida.
Myron sorriu.
– Você deve se sentir realizada, então.
– É alguma nova forma de demonstrar cinismo?
A recepcionista anunciou:
– O Sr. Englehardt vai recebê-la agora.
Ela conduziu-os por um corredor com paredes finas de gesso mal pintadas. O diretor estava sentado atrás de uma mesa de madeira plástica. Devia ter quase 30 anos, era esmirrado e tinha um queixo pequeno.
Myron logo notou os computadores: um sobre a mesa, outro numa espécie de aparador. Hum...
Englehardt deu um pulo, como se acabasse de descobrir que a cadeira estava com pulga. Os olhos se esbugalharam e se fixaram em Terese. Myron foi ignorado e sentiu-se como, bem, como um câmera. Ela deu ao diretor um largo sorriso, deixando-o perdido.
– Sou Terese Collins – disse ela, estendendo a mão. Ele só faltou ajoelhar-se para beijá-la. – Este é meu câmera, Malachi Throne.
Myron abriu um meio sorriso. Depois da discussão sobre musicais da Broadway, tinha ficado preocupado. Mas Malachi Throne? Genial. Realmente genial.
Todos trocaram amabilidades. Englehardt não parava de mexer no cabelo, tentando fazer isso com o máximo de sutileza, não como se estivesse se preparando para enfrentar uma câmera. Só que estava muito na cara. Por fim, Terese sinalizou que estavam prontos para começar.
– Onde prefere que eu me sente? – perguntou Englehardt.
– Atrás da mesa está bom. Você não concorda, Malachi?
– Atrás da mesa – repetiu Myron. – É, é o melhor lugar.
A entrevista teve início. Terese encarava o diretor do centro, que, maravilhado, não conseguia tirar os olhos dela. Myron encostou o rosto na câmera. Um profissional consumado. Artista das lentes.
Terese perguntou a Englehardt como havia entrado no ramo, seu histórico, toda aquela baboseira, para deixá-lo relaxado, numa posição confortável, não muito diferente da técnica que Myron usara com a Dra. Singh. Mantinha a postura de sempre diante das câmeras. A voz era diferente, o olhar mais firme.
– Então a central nacional de cadastro, em Washington, rastreia todos os doadores? – perguntou ela.
– Correto.
– Mas o senhor pode acessar os dados?
Englehardt deu um tapinha no computador sobre a mesa. Eles só viam a parte de trás do monitor e a tela estava virada para o diretor. Ok, pensou Myron, então é esse que está na mesa. Isso tornava as coisas um pouco mais difíceis, porém não impossíveis.
Terese olhou para seu “câmera”.
– Por que você não faz uma imagem da frente, Malachi? – Virando-se para Englehardt, acrescentou: – Se o senhor não se opuser.
– Não, não tem nenhum problema.
Myron se colocou em posição. O monitor estava apagado. Nenhuma surpresa.
Terese continuava a prender o olhar do diretor.
– Alguém no centro tem acesso ao computador do cadastro nacional?
Englehardt balançou a cabeça com firmeza.
– Sou o único.
– Por quê?
– As informações são confidenciais. Não quebramos o sigilo sob circunstância nenhuma.
– Entendo – falou ela. Myron já estava em posição. – Mas como impedir que alguém entre aqui quando o senhor não estiver por perto?
– Sempre tranco a porta da minha sala – respondeu ele, abanando o rabinho e louco para agradar. – E só se pode acessar a rede com uma senha.
– O senhor é o único que conhece essa senha?
Englehardt tentou não parecer convencido, mas não com muito afinco.
– Correto.
Quem já não viu esses programas com câmera escondida? Elas sempre filmam de ângulos estranhos e em preto e branco. A verdade é que qualquer leigo pode comprar uma facilmente, até mesmo uma que filme em cores. Não é difícil encontrar lojas que as vendem em plena Manhattan ou procurar por “lojas de espião” na internet. É possível ocultar câmeras em relógios, canetas, maletas e – as mais comuns – em detectores de fumaça, disponíveis para qualquer um com cacife suficiente. Myron tinha uma que parecia um daqueles potinhos onde se guardava negativo de filme e a colocou no peitoril da janela, com a lente apontada para o computador.
Quando estava pronta, Myron tocou o nariz com o dedo, à la Robert Redford em Golpe de mestre. Era o sinal combinado. Bolitar. Myron Bolitar. Um achocolatado. Batido, não mexido. Terese entendeu a deixa. O sorriso desapareceu de seu rosto num passe de mágica.
Englehardt pareceu surpreendido:
– Srta. Collins? Sente-se bem?
Por um momento, ela não suportou encará-lo.
– Sr. Englehardt – disse Terese por fim, com uma voz de sepultura da Guerra do Golfo. – Tenho que confessar uma coisa.
– Como assim?
– Estou aqui sob um falso pretexto.
O diretor pareceu confuso. Ela estava atuando tão bem que até Myron ficou confuso.
– Acredito sinceramente que o senhor está fazendo um trabalho importante aqui. Mas há pessoas que não estão tão certas disso.
Englehardt arregalou os olhos.
– Não estou entendendo.
– Preciso da sua ajuda, Sr. Englehardt.
– Billy – corrigiu ele.
Myron fez uma careta. Billy?
Terese não perdeu o embalo:
– Alguém está tentando prejudicar seu trabalho, Billy.
– Meu trabalho?
– O trabalho do cadastro nacional.
– Ainda não estou entendendo o que...
– Está a par do caso de Jeremy Downing?
O diretor balançou a cabeça.
– Nunca sei o nome dos pacientes.
– Ele é filho de Greg Downing, o astro do basquete.
– Ah, sim, ouvi falar nele. O garoto está com anemia de Fanconi.
– Correto.
– O Sr. Downing não vai dar uma coletiva de imprensa hoje? Para encontrar o doador?
– Exatamente, Billy. Esse é o problema.
– Como assim?
– O Sr. Downing já encontrou o doador.
– Isso é um problema?
– Não, claro que não. Quer dizer, se a pessoa for mesmo a doadora. Se estiver dizendo a verdade.
Englehardt olhou para Myron, que deu de ombros e voltou para a frente da mesa, deixando a câmera no peitoril.
– Não estou entendendo, Srta. Collins.
– Terese, por favor. Apareceu um homem alegando que é o doador compatível.
– E você acha que ele está mentindo?
– Deixe-me terminar. Ele não só alega ser o doador, como também diz que a razão pela qual se recusou a doar a medula foi o tratamento terrível que recebeu neste centro.
Englehardt quase caiu para trás.
– O quê?
– Ele falou que foi muito maltratado, que a equipe de vocês é grosseira e que está pensando até em entrar com um processo.
– Isso é ridículo.
– Provavelmente.
– Está mentindo.
– Provavelmente – repetiu ela.
– Mas ele vai ser desmascarado – insistiu o diretor. – Vamos examinar o sangue dele e provar que é um impostor.
– Mas quando, Billy?
– Ahn?
– Quando vocês vão fazer isso? Daqui a um dia? Uma semana? Um mês? Aí o mal já vai ter sido feito. Ele vai aparecer na coletiva hoje, com Greg Downing. A mídia vai estar lá em peso. Mesmo se tudo acabar se revelando falso, ninguém vai se lembrar da retratação, só da acusação.
Englehardt se endireitou na cadeira.
– Meu Deus.
– Vou ser franca com você, Billy. Muitos dos meus colegas acreditam nele. Eu, não. Sinto cheiro de publicidade. Mandei alguns dos meus melhores investigadores mergulharem no passado desse homem. Até agora não descobriram nada, e o tempo está se esgotando.
– E o que posso fazer?
– Preciso saber que não é verdade. Não posso impedir nada só porque acho que não é verdade. Tenho que saber com certeza.
– Como?
Terese mordeu o lábio inferior, como se imersa em pensamentos.
– A sua rede de computadores.
Englehardt balançou a cabeça.
– As informações aqui são confidenciais. Já expliquei isso. Não posso dizer a você...
– Não preciso saber o nome do doador. – Ela se inclinou para a frente. Myron se distanciou o máximo que pôde, tentando não parecer nenhum tipo de ameaça. – Preciso saber qual o nome que não é.
Englehardt pareceu hesitar.
– Estou sentada aqui – insistiu ela. – Não consigo ver o monitor. Malachi está perto da porta. – Terese se virou para Myron. – A câmera está desligada?
– Sim – respondeu ele, baixando-a como garantia.
– O que sugiro é o seguinte. Você procura por Jeremy Downing no seu computador. Vai aparecer o doador. Eu lhe dou o nome. Você me diz se é o mesmo. Simples, não?
Englehardt ainda não parecia convencido.
– Você não estaria violando o sigilo de ninguém – falou ela. – Não podemos ver a sua tela. Podemos até sair da sala enquanto verifica, se preferir.
O diretor não disse nada. Tampouco Terese. Ela esperava por ele. A entrevistadora perfeita. Por fim, virou-se para Myron.
– Pegue suas coisas.
– Espere.
O olhar de Englehardt perscrutava o monitor.
– Você disse Jeremy Downing?
– Sim.
Ele se encurvou sobre o teclado e digitou rápido. Segundos depois, perguntou:
– Qual é o nome do suposto doador?
– Victor Johnson.
Englehardt olhou para o monitor e sorriu.
– Não é ele.
– Tem certeza?
– Absoluta.
Terese retribuiu o sorriso.
– Era tudo de que precisávamos saber.
– Vai impedi-lo?
– Ele nem vai aparecer na coletiva.
Myron pegou o “rolo de filme” e a câmera e os dois saíram a passos rápidos pelo corredor. Lá fora, ele se virou para ela e questionou:
– Malachi Throne?
– Sabe quem é?
– Fez o papel do Face Falsa em Batman.
Terese sorriu e assentiu.
– Muito bom.
– Posso dizer uma coisa?
– O quê?
– Você me excita quando fala do Batman – respondeu ele.
– E quando não falo também.
– Você está tentando me convencer?
Cinco minutos depois, os dois assistiam à fita no furgão.