O Medo Mais Profundo

Harlan Coben · Capítulo 36 de 43

Páginas do PDF

O Medo Mais Profundo

Capítulo 36

ELES NÃO ENCONTRARAM JEREMY DOWNING. Myron procurou em todos os aposentos, em cada armário, no porão e na garagem. Nada. Os federais entraram com ele. Começaram a derrubar paredes. Usaram um sensor térmico em busca de cavernas subterrâneas ou esconderijos. Nada. Na garagem, encontraram uma van branca. Na parte de trás, acharam um tênis vermelho do garoto.

Isso foi tudo.

Furgões de reportagem, dezenas deles, amontoavam-se na entrada de acesso à casa. Um garoto sequestrado, o pai famoso baleado e em estado crítico, um potencial serial killer sob custódia, a ligação com Stan Gibbs e a famosa acusação de plágio – a história estava recebendo cobertura total, 24 horas por dia, com música de fundo, banners de chamada, feito a morte da princesa. Repórteres com penteados cheios de laquê exibiam suas expressões de notícia triste e cobriam o caso com frases como “a vigília continua”, “já se passaram X horas de busca”, “atrás de mim encontra-se o covil”, “permaneceremos de plantão até...” etc.

Uma fotografia recente de Jeremy, a do site de Emily, aparecia o tempo todo nos programas. Espectadores ligavam fornecendo pistas, mas até aquele momento nenhuma delas tinha levado a nada.

E as horas se passavam.

Emily foi até a cena do crime. Apareceu em todos os noticiários: de cabeça baixa, andando apressadamente até um carro que esperava, como uma criminosa detida, o clarão dos flashes criando um efeito estroboscópico grotesco. Cinegrafistas se acotovelavam, empurrando-se para fora do caminho, para captar um vislumbre da mãe devastada se afundando no banco de trás do carro. Conseguiram até uma imagem sua, por sobre o banco do carona, chorando. Excelente jornalismo.

O cair da noite trouxe holofotes. Voluntários e agentes da lei vasculhavam os terrenos ao redor em busca de sinais recentes de covas e escavações. Nada. Trouxeram cães. Nada. Falaram com vizinhos. Alguns “nunca tinham confiado naquela família”, mas a maioria veio com o discurso-padrão: “Pareciam pessoas de bem, uma gente muito tranquila.”

Tentaram interrogar Edwin Gibbs na delegacia de Bernardsville, mas ele não quis falar. Clara Steinberg se tornou sua advogada. Ficou com ele. Assim como Stan. Os dois tentavam convencê-lo a contar algo, imaginou Myron, mas, até aquele momento, em vão.

Na velha casa de fazenda, o vento soprava. O joelho problemático de Myron doía, cada passo provocando uma pontada. Aquela dor era imprevisível, chegando quando bem queria e se instalando como um hóspede indesejado. Não havia nenhum benefício colateral nela – não se podia prever o tempo ou algo do gênero. Durante alguns dias, apenas doía. Não podia fazer nada. Ele se aproximou de Emily e passou o braço em torno dela.

– Ele ainda está por aí – falou ela para a escuridão.

Myron não disse nada.

– Totalmente sozinho. E está de noite. Deve estar assustado.

– Vamos encontrá-lo, Em.

– Myron?

– Sim?

– Será que isso é mais uma punição por aquela noite?

Outro grupo de busca retornou, os ombros caídos de resignação, talvez derrota. É muito estranho: querem encontrar algo, mas ao mesmo tempo não querem.

– Não – respondeu Myron. – Acho que você estava certa. Nosso erro foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. E talvez haja um preço a pagar por se ter algo tão bom.

Ela fechou os olhos, mas não chorou. Myron permaneceu ao seu lado. O vento uivava, espalhando as vozes ao redor como folhas mortas e gravetos, e sussurrando nos ouvidos como um amante assustador.