O Mundo de Sofia
“Três filósofos de Mileto”
Desta forma, a filosofia libertou-se da religião. Podemos afirmar que os filósofos da natureza deram os primeiros passos em direção a um modo de pensar “científico”. Assim, abriram caminho a toda a posterior ciência da natureza.
Quase tudo o que os filósofos da natureza disseram e escreveram perdeu-se para a posteridade. O pouco que sabemos encontramo-lo nos escritos de Aristóteles, que viveu duzentos anos após os primeiros filósofos. Mas Aristóteles resume apenas os resultados a que os filósofos anteriores tinham chegado. O que significa que não podemos saber sempre de que forma é que chegaram às suas conclusões. Mas sabemos o suficiente para podermos afirmar que o projeto dos filósofos gregos consista nas questões que estavam relacionadas com o elemento primordial nas transformações da natureza.
“Três filósofos de Mileto”
O primeiro filósofo de que temos notícia é Tales, da colônia grega de Mileto, na Ásia Menor. Ele viajava freqüentemente. Diz-se que, certa vez, teria medido a altura de uma pirâmide no Egito, medindo a sombra da pirâmide no momento em que a sua própria sombra estava tão alta como ele. Além disso, conseguiu prever um eclipse do Sol no ano 585 a.C.
Para Tales, a água era a origem de todas as coisas. Não sabemos exatamente o que ele queria dizer com isto. Talvez quisesse dizer que toda a vida começa na água — e que toda a vida se torna de novo água quando se inicia a degradação.
Quando esteve no Egito, viu certamente como os campos ficavam férteis quando o Nilo abandonava as terras que constituíam o seu delta.
Talvez tenha visto também como as rãs e os vermes surgiam à luz do sol depois de ter chovido.
Além disso, é provável que Tales se tenha questionado quanto ao modo como a água se pode tornar gelo e vapor — e de novo água.
Afirma-se que Tales disse que “tudo está cheio de deuses”. Apenas podemos avançar hipóteses sobre a interpretação desta frase. Talvez tivesse pensado que a terra era a origem de tudo, desde as flores e as sementes, até às abelhas e baratas. Tinha chegado à conclusão de que a terra estava cheia de pequenos “gérmenes da vida” invisíveis. O que é certo é que não estava a pensar nos deuses homéricos.
O filósofo seguinte de que temos conhecimento é Anaximandro, que viveu igualmente em Mileto. Para ele, o nosso mundo é apenas um dos muitos que nascem de algo e perecem em algo que ele denominou o infinito. É difícil dizer o que queria significar com o termo infinito, mas sabemos que não pensava, ao contrário de Tales, numa substância totalmente determinada. Talvez quisesse dizer que aquilo, a partir do qual tudo é criado, tem de ser completamente diferente de tudo o que é criado. E visto que tudo o que é criado é finito, tudo o que lhe é anterior ou posterior tem de ser infinito. É claro que o elemento primordial não podia ser, assim, simples água. Um terceiro filósofo de Mileto era Anaxímenes (cerca de 570-526 a. C.). Para ele, o ar era o elemento primordial de todas as coisas. Anaxímenes conhecia, naturalmente, a teoria de Tales sobre a água. Mas de onde surge a água? Para Anaxímenes, a água era ar condensado. Nós sabemos que, ao chover, a água é condensada a partir do ar. Quando a água é ainda mais condensada, torna-se terra, segundo Anaxímenes. Talvez tivesse visto que, quando o gelo se derrete, “expele” terra e areia.