O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 50 de 83

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O Mundo de Sofia

“Misticismo”

As imagens que Plotino usa fazem-nos recordar a parábola da caverna de Platão. Quanto mais nos aproximamos da entrada da caverna mais nos aproximamos da origem de tudo o que existe. Mas, ao contrário da clara bipartição da realidade em Platão, o pensamento de Plotino denota uma experiência do todo. Tudo é Uno — porque tudo é Deus. Mesmo as sombras na caverna de Platão são um fraco reflexo do Uno.

 

Plotino experimentou algumas vezes no decurso da sua vida a fusão da sua alma com Deus. Damos a isso o nome de “experiência mística”.

 

Plotino não era o único a ter essas experiências, que foram relatadas por homens de todos os tempos e culturas.

 

Podem descrever a sua experiência de um modo completamente diferente, mas as suas descrições apresentam muitas semelhanças importantes. Vamos analisar algumas dessas semelhanças.

 

“Misticismo”

Uma experiência mística é uma experiência de unidade com Deus ou com o “mundo espiritual”. Muitas religiões afirmam que entre Deus e a Criação há um abismo; mas o místico sente que esse abismo não existe. Os místicos e as místicas sentem uma “fusão com Deus”.

 

Sucede que aquilo a que geralmente chamamos “eu” não é o nosso verdadeiro eu. Por breves momentos, podemos ter a experiência de uma identificação com um eu maior. Alguns chamam-lhe Deus, outros “mundo espiritual”, “natureza absoluta” ou “universo”. Na fusão, o místico sente que “se perde a si mesmo”, desaparece ou perde-se em Deus, tal como uma gota de água “se perde” quando se mistura no oceano. Um místico indiano disse outrora o seguinte:

 

“Quando eu existia, Deus não existia. Agora, Deus existe e eu já não existo.”

 

O místico cristão “Angelus Silesius” (1624-1677) afirmou: “A gota torna-se oceano quando atinge o oceano, a alma torna-se Deus quando alcança Deus”.

 

Talvez estejas a pensar que não é muito agradável “a idéia de se perder a si mesmo”. Compreendo o que pensas, Sofia, mas o importante é que aquilo que tu perdes é inferior em relação ao que ganhas. Perdeste quanto à forma que possuis de momento, mas ao mesmo tempo compreendes que na realidade és algo infinitamente maior. És todo o universo. És a alma do mundo, Sofia. És Deus. Se tens de renunciar a ti mesma como Sofia Amundsen, podes consolar-te com a idéia de que um dia perderás o teu “eu quotidiano”. O teu verdadeiro eu — que só podes descobrir quando consegues libertar-te a ti mesma — é, para os místicos, um fogo maravilhoso que arde eternamente.

 

Mas uma experiência mística deste gênero nem sempre vem por si mesma. Muitas vezes, o místico tem de percorrer uma via de purificação e de iluminação para poder encontrar Deus. Essa via consiste numa vida simples e na meditação. De repente, o místico atinge então a sua meta e pode exclamar: “eu sou Deus” ou “Eu sou Tu!”.Encontramos em todas as grandes religiões correntes místicas, e aquilo que os místicos escrevem sobre a sua experiência mística revela notáveis semelhanças, apesar das diferenças culturais. Só quando o místico tenta dar uma interpretação religiosa ou filosófica à sua experiência mística é que o ambiente cultural se torna manifesto.

 

Na “mística ocidental” — ou seja, no judaísmo, no cristianismo e no islamismo — o místico afirma sentir o encontro com um Deus pessoal. Apesar de Deus estar presente na natureza e na alma humana, está além deste mundo. Na “mística oriental” — ou seja, no hinduísmo, no budismo e na religião chinesa — o místico experimenta uma fusão total com Deus ou com a “alma do mundo”. “Eu sou a alma do mundo”, poderá dizer o místico, ou “eu sou Deus”.

 

Porque Deus não só está presente no mundo, como não está em qualquer outro lugar.

 

Antes de Platão, havia fortes correntes místicas, principalmente na Índia. “Swami Vivekananda”, que contribuiu para a difusão do hinduísmo no Ocidente, afirmou: “Tal como certas religiões do mundo afirmam que um homem que não acredita num Deus pessoal transcendente é ateu, nós afirmamos que um homem que não acredita em si mesmo é ateu. Não acreditar na grandeza da própria alma é aquilo que chamamos ateísmo”.

 

Uma experiência mística também pode ser importante do ponto de vista da ética.Um presidente da Índia, “Radhakrishnan”, afirmou um dia: “Deves amar o teu próximo como a ti mesmo, porque tu és o teu próximo. Só uma ilusão te leva a pensar que o teu próximo é um outro em relação a ti mesmo”.

 

Homens que não pertençam a nenhuma religião também podem relatar experiências místicas. De repente, vivem algo a que chamam “consciência cósmica” ou “sentimento oceânico”. Sentem-se arrancados ao tempo e vêem o mundo “do ponto de vista da perspectiva da eternidade”.

 

Sofia sentou-se na cama.

 

Tinha de verificar se ainda possuía corpo. Ao ler sobre Plotino e os místicos, tivera a sensação de flutuar pelo quarto, sair pela janela e sobrevoar a cidade. Vira todas as pessoas em baixo, na praça, voara mais alto sobre o mar do Norte e a Europa até ao Sara e às extensas savanas de África.

 

Todo o globo terrestre se tornara um ser vivo e esse ser era Sofia. “Eu sou o mundo”, pensava ela. Todo o universo, que tantas vezes lhe parecera insondável e inquietante — era o seu próprio eu. O universo continuava a ser grande e majestoso, mas, nesse momento, ela sentia-se tão grande como o universo.

 

Essa sensação maravilhosa extinguiu-se rapidamente, mas Sofia tinha a certeza de que nunca a esqueceria. Algo parecia ter saído de si e ter-se misturado com tudo, tal como uma gota de corante pode tingir um copo de água.

 

Quando tudo passou, teve a sensação de que acordava com dores de cabeça de um sonho espantoso. Sofia verificou com uma certa desilusão que tinha um corpo que tentava levantar-se da cama. Tinha dores nas costas por ter estado tanto tempo deitada de barriga para baixo enquanto lia a carta de Alberto Knox. Mas sentira qualquer coisa de que nunca se esqueceria.

Por fim, conseguiu pôr-se de pé. Furou as folhas e colocou-as junto às outras lições no “dossiê”. Depois, saiu para o jardim.

 

Os pássaros chilreavam como se o mundo tivesse sido criado de novo. Atrás das velhas coelheiras as bétulas eram de um verde-claro tão intenso que parecia que o Criador ainda não terminara a diluição das cores.

 

Poderia de fato pensar que tudo era um Eu divino?

 

Poderia pensar que possuía uma alma que era uma “centelha do fogo”? Se assim fosse, ela mesma era um ser divino.