O Mundo de Sofia
“Os semitas”
Em muitas culturas indo-européias a crença na “metempsicose” era também muito importante; assim, no hinduísmo, o objetivo de cada crente é ser libertado um dia da migração das almas. E sabemos que Platão também acreditava na migração das almas.
“Os semitas”
E agora vamos aos semitas, Sofia. Trata-se aqui de uma cultura completamente diferente, com uma língua também completamente diferente. Originariamente, os semitas provinham da península árabe, mas a cultura semítica expandiu-se igualmente em diversas regiões do globo. Desde há mais de dois mil anos, os judeus vivem afastados da sua pátria original. A história e a religião semíticas afastaram-se muito das suas raízes geográficas devido ao cristianismo. Além disso, a cultura semítica estendeu-se a todo o mundo através da expansão do islamismo.
As três religiões ocidentais — judaísmo, cristianismo e islamismo — têm uma base semítica. O “Alcorão”, o texto sagrado do islamismo, e o “Antigo Testamento” estão escritos em línguas semíticas aparentadas. Uma das palavras do Antigo Testamento para “Deus” tem a mesma raiz lingüística que o “Alá” dos muçulmanos. (A palavra “alá” significa simplesmente “Deus”).
No cristianismo, o quadro é mais complicado. O cristianismo também tem uma base semítica. Mas o “Novo Testamento” foi escrito em grego, e quando a teologia cristã foi formulada, recebeu a influência das línguas grega e latina, e conseqüentemente da filosofia grega.
Sabemos que os indo-europeus acreditavam em muitos deuses. Os semitas adotaram muito cedo a crença num único Deus, que é designada por “monoteísmo”. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo a existência de um só Deus é uma idéia fundamental.
Uma outra característica semítica é a concepção linear da história. Significa que a história era vista linearmente. Deus criou o mundo, e nesse momento começou a história, que terminará no dia do “juízo final”, quando Deus julgar os vivos e os mortos.
Uma característica importante das três grandes religiões ocidentais é precisamente o papel da história. Deus intervém na história e esta existe apenas para que Deus realize a sua vontade no mundo. Tal como outrora Deus conduziu Abraão à Terra Prometida, dirige a vida dos homens através da história até ao dia do juízo, momento em que todo o mal do mundo será destruído.
Devido à importância da ação divina na história, os semitas ocupam-se da historiografia desde há muitos milhares de anos. As raízes históricas estão no centro dos seus escritos religiosos.
Ainda hoje, a cidade de Jerusalém é um importante centro religioso para judeus, cristãos e muçulmanos. Isto diz alguma coisa acerca da base histórica comum a estas três religiões. Existem em Jerusalém importantes sinagogas (judias), igrejas (cristãs) e mesquitas (muçulmanas). Por isso é tão trágico que esta cidade se tenha tornado um pomo de discórdia — que os homens se matem aos milhares, porque não conseguem chegar a acordo acerca de quem deve ter o domínio da “cidade eterna”.
Esperemos que a ONU consiga um dia que Jerusalém se torne um ponto de encontro religioso das três religiões!
(Sobre esta parte prática do curso de filosofia não vamos dizer mais nada por enquanto. Deixamos isso ao pai de Hilde. Tu sabes que ele é observador da ONU no Líbano, não é verdade? Para ser mais preciso, posso revelar-te que ele presta serviço como major. Se começas a entrever uma relação, é porque é correta. Por outro lado, não quero antecipar o curso dos acontecimentos).
Caracterizamos a visão como o sentido mais importante para os indo-europeus. É espantoso o importante papel que a audição desempenha na área semítica. Não é por acaso que o ato de fé judaico começa com as palavras “Ouve, Israel!”. No Antigo Testamento, lemos como os homens “ouviam” as palavras do Senhor, e os profetas judeus iniciavam as suas predições com a fórmula “assim falou Jeová” (deus). No cristianismo, também se dá importância a “ouvir” a palavra de Deus. As cerimônias religiosas hebraicas, cristãs e muçulmanas são caracterizadas principalmente pela leitura em voz alta dos textos sagrados.
Mencionei também que os indo-europeus produziam imagens e esculturas dos seus deuses. Para os semitas, era proibido representar Deus.
Isto significa que eles não podiam produzir imagens ou esculturas de Deus nem de tudo o que fosse sagrado.
Também no Antigo Testamento se afirma que os homens não podem criar nenhuma imagem de Deus. Esta norma é ainda hoje válida para o islamismo e para o judaísmo.