O Mundo de Sofia
“Jesus”
Esses profetas são designados por “profetas da salvação”.
Vou ser mais conciso: o povo de Israel viveu feliz sob o reinado do rei David.
Quando as coisas começaram a correr pior para os israelitas, os profetas profetizaram a vinda de um novo rei da estirpe de David. Este “Messias”, ou “filho de Deus”, havia de “salvar” o povo, restaurar Israel como potência, e construir um “reino de Deus”.
“Jesus”
Bom, Sofia. Parto do princípio de que me estejas a seguir. As palavras-chave são “Messias”, “Filho de Deus”, “salvação” e “Reino de Deus”. De início, tudo isto tinha um significado político. Mesmo na época de Jesus, muitos imaginavam o novo messias como chefe político, militar e religioso do mesmo calibre que o rei David. O salvador era, portanto, visto principalmente como libertador nacional, o qual poria fim ao sofrimento dos judeus sob o domínio romano.
Mas também se levantaram outras vozes. Já dois séculos antes do nascimento de Cristo, outros profetas tinham anunciado que o messias prometido seria o redentor de todo o mundo. Ele não libertaria apenas os israelitas do jugo estrangeiro, mas libertaria todos os homens do pecado e da culpa — e também da morte. A esperança numa salvação neste sentido da palavra também estava difundida em todo o mundo helenístico.
E veio então Jesus. Ele não é o único que surge como o messias prometido e, tal como outros, usa as palavras “filho de Deus”, “reino de Deus”, “Messias” e “salvação”. Deste modo, parte das antigas profecias. Vai para Jerusalém e é venerado pelas massas como salvador do povo.
Assim, faz lembrar os antigos reis que eram entronizados através de um “ritual de elevação ao trono” característico. Ele também é ungido pelo povo. “O tempo está completo”, afirma, “o reino de Deus chegou”.
É importante notar tudo isto. Mas agora tens de prestar muita atenção: Jesus distinguia-se dos outros que se apresentavam como messias por afirmar muito claramente não ser um chefe militar ou político. A sua tarefa era muito maior. Anunciava a salvação e
o perdão de Deus para todos os homens, por isso podia andar entre os homens e dizer: “Os teus pecados são-te perdoados.” Pronunciar isto era inaudito. Por isso, também não foi preciso muito tempo para os escribas levantarem protestos contra Jesus. Por fim, empenharam-se também na preparação do seu suplício.
Vou explicar melhor: muitos homens no tempo de Jesus esperavam um messias que havia de restabelecer o reino de Deus com grande poder e esplendor (isto é, com a espada e com a lança). A expressão “reino de Deus” está presente como fio condutor na mensagem de Jesus — aliás com um significado muito mais alargado. Jesus apresentava o reino de Deus como amor pelo próximo, solicitude para com os fracos e perdão para todos os que erraram.
Encontramos aqui uma modificação drástica no significado de uma expressão antiga e em parte militar. Os homens esperavam um líder militar que proclamasse o reino de Deus. Chega então Jesus de túnica e sandálias e explica que o reino de Deus ou o “Novo Testamento” significa: “Deves amar o próximo como a ti mesmo.” Além disso, ele afirmou que devemos amar os nossos inimigos. Se nos dão uma bofetada, não devemos pagar na mesma moeda, mas apresentar a outra face.
E devemos perdoar — não sete vezes, mas setenta vezes sete. Durante a sua vida, Jesus mostrou que não desdenhava falar com prostitutas, publicanos corruptos e indivíduos politicamente subversivos.
Mas ele ainda vai mais longe: afirma que um filho que dissipou toda a herança — ou um publicano corrupto que extraviou dinheiro — é perante Deus justo desde que se dirija a Ele e peça perdão, porque tal é a generosidade de Deus na Sua graça.
Mas ele vai ainda mais longe — e agora tens de te segurar: Jesus dizia que esses “pecadores” eram perante Deus mais justos —, e mereciam preferencialmente o seu perdão — do que aqueles que se orgulhavam da sua própria virtude.
Jesus insistia em que nenhum homem pode julgar por si se é digno do perdão de Deus. Não nos podemos salvar a nós mesmos. (Muitos gregos acreditavam nisto!). Quando Jesus apresenta as suas severas exigências éticas no “sermão da montanha” não era apenas porque quisesse mostrar a vontade de Deus. Ele quer também mostrar que nenhum homem é justo perante Deus. O perdão de Deus é ilimitado, mas devemos dirigir-nos a ele pela oração para obtermos o perdão.