O Mundo de Sofia
“Política”
A segunda como cidadão livre e responsável. A terceira como pesquisador e filósofo, Aristóteles sublinha que estas três formas se completam para que o homem possa ter uma vida feliz. Ele recusava, portanto, qualquer tipo de parcialidade.
Se vivesse hoje, talvez dissesse que um homem que apenas cuida do seu corpo vive tão parcialmente e tão mal como aquele que apenas usa a cabeça. Ambos os extremos são expressão de uma conduta errada de vida.
No que diz respeito à relação com o próximo, Aristóteles também aconselha um “meio termo”. Não devemos ser cobardes nem temerários, mas corajosos. (Pouca coragem significa cobardia, demasiada coragem significa temeridade). Também não devemos ser avarentos nem esbanjadores, mas generosos. (Ser pouco generoso é avareza, ser muito generoso é esbanjamento).
O mesmo é válido para a alimentação. Comer pouco é perigoso, mas comer muito também é perigoso. A ética de Platão e de Aristóteles faz recordar a ciência médica grega: só através da harmonia e da moderação me torno um homem feliz ou “harmonioso”.
“Política”
A idéia de que o homem não deve levar nada ao extremo, na vida, está também patente na visão aristotélica da sociedade. Aristóteles afirmava que o homem é um “ser social”. Na sua opinião, sem a sociedade à nossa volta não somos verdadeiros homens. A família e a cidade satisfazem as necessidades vitais mais básicas como a alimentação e o calor, o casamento e a educação dos filhos. Todavia, a forma mais elevada de comunidade humana só pode ser, para Aristóteles, o Estado.
Com isto coloca-se a questão: como é que o Estado deveria ser organizado? (Ainda te recordas do Estado platônico dos filósofos?). Aristóteles menciona várias formas boas de governo. Uma delas é a “monarquia” — significa que há um único chefe supremo do Estado. Para que esta forma de Estado seja boa, não pode degenerar em “tirania”, caso em que um único soberano governa o Estado em seu próprio proveito. Uma outra forma boa de Estado é a “aristocracia”. A aristocracia é o governo de um grupo restrito de indivíduos. Esta forma de Estado tem de se precaver para não degenerar numa oligarquia, um regime no qual apenas são salvaguardados os interesses de poucas pessoas.
Uma terceira forma de Estado é a “democracia”. Mas também esta forma de Estado tem o seu lado contrário.
Uma democracia pode facilmente degenerar numa “oclocracia” que significa governo da multidão. (Mesmo que Hitler não se tivesse tornado chefe de Estado da Alemanha, muitos pequenos nazis teriam podido estabelecer uma terrível “oclocracia”). Isto era Platão, Sofia.
“A concepção da mulher”
Finalmente, temos de dizer algo acerca da opinião de Aristóteles sobre a mulher. Infelizmente, não era tão animadora como a de Platão.
Aristóteles pensava que algo faltava à mulher. Ela é um “homem incompleto”. Na reprodução, a mulher é passiva e receptora, enquanto o homem é ativo e doador. Por isso, segundo Aristóteles, a criança herdava apenas as características do homem.
Todas as características da criança estavam contidas no sêmen do homem. A mulher é como o terreno que recebe e conserva a semente, enquanto o homem é o próprio “semeador”. Ou, dito de uma forma verdadeiramente aristotélica: o homem dá a “forma”, a mulher dá a “matéria”. É surpreendente e lamentável que um homem tão perspicaz como Aristóteles se pudesse enganar de tal A concepção aristotélica da mulher é particularmente grave porque se tornou predominante durante a Idade Média, e não a de Platão.
Deste modo, também a Igreja herdou uma concepção da mulher para a qual não há justificação nenhuma na Bíblia.
Jesus não era de modo algum inimigo das mulheres!
Por agora não digo mais nada! Mas continuarás a ter notícias minhas.
Após ter lido duas vezes o capítulo acerca de Aristóteles, Sofia meteu de novo as folhas no envelope amarelo e olhou ao seu redor. Viu logo que estava tudo desarrumado. No chão, havia livros e “dossiês”. Do armário saíam camisas, meias e “jeans”. Em cima da cadeira, junto à escrivaninha, estavam vestidos sujos, misturados.
Sofia sentiu um impulso irresistível de “arrumar”.
Em primeiro lugar, despejou todas as gavetas do armário.
Pôs os vestidos no chão. Era importante começar tudo do princípio. Assim, deu-se ao trabalho de dobrar cuidadosamente todas as peças de vestuário, e de as colocar nas prateleiras. No armário havia sete prateleiras. Sofia reservou uma para as cuecas e para as camisolas, outra para meias e uma para calças. Deste modo encheu por ordem todas as prateleiras do armário. Nunca teve dúvidas sobre o lugar de cada peça de roupa. As coisas que deviam ser lavadas colocou — as num saco de plástico que encontrara na prateleira do fundo.
Só uma única peça de roupa lhe dava problemas. Era uma meia branca comprida, normalíssima. O problema não era apenas o fato de a segunda meia faltar. A meia nunca pertencera a Sofia.
Observou a meia branca durante alguns minutos. Não havia nenhum nome escrito.
Mas Sofia tinha uma forte suspeita de quem era a dona.
Atirou-a para a prateleira mais alta juntamente com o saco de peças de Lego, a fita de vídeo e o lenço de seda vermelho.
Era a vez do chão. Sofia separou livros e “dossiês”, revistas e cartazes — exatamente como o seu professor de filosofia tinha descrito no capítulo sobre Aristóteles. Quando o chão já estava despachado, fez primeiro a cama, e em seguida passou à escrivaninha.
No fim de tudo, pôs as folhas sobre Aristóteles num monte ordenado. Pegou num “dossiê” vazio e num furador, furou as folhas e juntou-as por ordem no “dossiê”. Colocou o “dossiê” no armário, junto à meia branca. Mais tarde, iria à toca buscar a caixa dos biscoitos.
A partir daí, devia haver ordem nas coisas. Sofia não pensava apenas nas coisas do quarto. Depois de ter lido acerca de Aristóteles sabia que era igualmente importante manter a ordem em conceitos e idéias. Para estas questões, tinha reservado a prateleira especial no cimo do armário.
Era o único ponto do quarto sobre o qual ela ainda não tinha controlo total. Há duas horas que não ouvia a mãe. Desceu ao rés-do-chão. Tinha de dar comida aos animais antes que a mãe acordasse. Na cozinha, debruçou-se para o aquário dos peixes dourados. Um dos peixes era negro, o segundo laranja e o terceiro branco e vermelho.
Por isso os batizara de “Diabrete”, “Caracolinho, Dourado” e “Chapeuzinho Vermelho”. Enquanto espalhava a comida para os peixes dourados, ia dizendo:
— Vocês pertencem à parte animada da natureza. Por isso, conseguem assimilar o alimento, podem crescer e podem multiplicar-se. Mais precisamente, vocês pertencem ao reino animal. Assim, podem movimentar-se e observar o quarto. Para ser mais precisa, vocês são peixes, por isso podem respirar com as guelras e nadar de um lado para o outro na água da vida.
Sofia fez girar a tampa da caixa da comida dos peixes dourados. Estava contente com a classificação dos peixes dourados na ordem da natureza — e principalmente com a expressão “água da vida”.
Agora era a vez dos periquitos. Sofia deitou comida nos comedouros e disse:
— Queridos Tom e Jerry!
Vocês são hoje dois belos periquitos porque se desenvolveram a partir de pequenos ovos de periquito, e só porque a “forma” desses ovos era tornarem-se periquitos vocês não se tornaram papagaios palradores.
Sofia foi ao banheiro, onde estava a indolente tartaruga numa grande caixa. Quando a mãe de Sofia tomava uma ducha, gritava que um dia havia de matar aquele animal. Mas até então, tinha-se ficado por essa mera ameaça. Sofia tirou uma folha de salada de um frasco grande e colocou-a na caixa.
— Querida Govinda — dizia — tu não pertences propriamente ao grupo dos animais mais velozes. Mas és um animal que pode ter experiência de uma parte minúscula do grande universo em que vivemos. Consola-te, porque não és a única que não pode sair da sua forma.
Sherekan devia estar lá fora a caçar ratos, porque essa era a natureza dos gatos. Sofia passou pela sala de estar para ir ao quarto da mãe. Na mesa havia um vaso com narcisos. As flores amarelas pareceram inclinar-se respeitosamente quando Sofia passou. Sofia ficou algum tempo parada e passou dois dedos pelas corolas.
— Vocês também pertencem à parte animada da natureza — disse ela. Deste ponto de vista, vocês têm um certo privilégio em relação ao vaso em que estão. Mas infelizmente, vocês não têm capacidade para o sentir.
Sofia entrou silenciosamente no quarto da mãe. Ela dormia profundamente, mas Sofia colocou-lhe uma mão sobre a cabeça.
— Tu estás entre os mais felizes de todos — disse. — Porque não és apenas animada,como os lírios do campo. E não és apenas um ser vivo, como Sherekan ou Govinda. És um ser humano, e por isso possuis a rara faculdade de pensar.
— O que estás para aí a dizer, Sofia?A mãe despertou mais depressa do que era habitual.
— Estou a dizer que pareces uma tartaruga preguiçosa.
De resto, posso informar-te de que arrumei o meu quarto. Pus mãos à obra com um cuidado filosófico. A mãe sentou-se na cama.
— Eu já vou — disse. — Podes preparar-me o café?Sofia sabia fazer o café, e pouco depois estavam as duas na cozinha a tomar café, suco e cacau. Passado pouco tempo, Sofia perguntou:
— Já alguma vez pensaste porque é que vivemos?
— Ah, tu nunca desistes.
— Não, porque desta vez sei a resposta. Neste planeta vivem homens para que alguém possa dar um nome a todas as coisas.
— Ah, sim? Nunca tinha pensado nisso.
— Nesse caso tens um grave problema, porque o homem é um ser racional. Se não pensas, não és um ser humano.
— Sofia!
— Imagina que aqui só viviam plantas e animais. Nesse caso, ninguém poderia distinguir “gatos” de “cães”, “lírios” de “arbustos”. As plantas e os animais também vivem, mas só nós podemos classificar a natureza em grupos ou classes.
— Tu és realmente a filha mais estranha que eu tenho — disse então a mãe.
— Espero que sim — afirmou Sofia. — Todos os homens são mais ou menos estranhos. Eu sou um ser humano, por isso sou um tanto ou quanto estranha. Tu tens só uma filha, por isso sou a mais estranha.
— O que eu quis dizer foi que tu me assustas com esta... conversa. — Nesse caso, Assustas — te facilmente.
Um pouco mais à tarde, Sofia regressou à toca.
Conseguiu levar a grande caixa dos bolos para o quarto, às escondidas da mãe. Primeiro, juntou todas as folhas pela ordem correta, furou-as e colocou-as no “dossiê” antes do capítulo sobre Aristóteles. Por fim, escreveu no canto superior direito de cada folha o número da página.
Já tinha mais de cinqüenta páginas. Sofia estava quase a fazer o seu próprio livro de filosofia. Não o escrevia, mas era escrito de propósito para ela. Ainda não tivera tempo para pensar de modo algum nos trabalhos de casa para segunda-feira. Talvez houvesse teste de religião, mas o professor sempre dissera que, para ele, o que importava eram o empenho pessoal e a reflexão individual. Sofia tinha a sensação de começar a ter uma certa preparação para ambas as coisas.