O Mundo de Sofia
“Um curinga em Atenas”
Sócrates, Sofia! Ainda não discutimos tudo o que lhe diz respeito, como compreendeste. Dissemos algumas coisas sobre o seu método. Mas qual era o seu projeto filosófico?
Sócrates era um contemporâneo dos sofistas. Como eles, preocupava-se com o homem e com a vida humana, não com os problemas dos filósofos da natureza. Um filósofo romano — Cícero — disse alguns séculos mais tarde que Sócrates trouxera a filosofia do céu para a terra, a introduzira nas cidades e nas casas e que tinha forçado os homens a refletirem sobre a vida e os costumes, o bem e o mal.
Mas Sócrates diferia dos sofistas num ponto importante. Não se considerava um sofista — uma pessoa instruída ou sábia. Ao contrário dos sofistas, não pedia remuneração pelo seu ensino.
Não, Sócrates denominava-se filósofo, no sentido mais genuíno do termo. Um “filósofo” é, na realidade, um “amante da sabedoria”, alguém que aspira a adquirir a sabedoria.
Estás a seguir-me, Sofia?
É importante no teu curso que compreendas a diferença entre um sofista e um filósofo. Os sofistas eram pagos pelas suas exposições mirabolantes e esses “sofistas” estiveram presentes durante toda a história.
Refiro-me a todos os mestres-escola ou sabichões que estão satisfeitos com o seu pouco saber ou que se gabam de saber muito acerca daquilo que, na realidade, não conhecem. Certamente já deparaste, embora sejas jovem, com alguns desses “sofistas”. Um verdadeiro filósofo, Sofia, é alguém completamente diferente, sim, é exatamente o contrário.
Um filósofo apercebe-se bem que, no fundo, sabe muito pouco. Precisamente por isso ele procura sempre atingir o verdadeiro conhecimento. Por isso, Sócrates era um homem extraordinário. Sabia claramente que nada sabia acerca da vida e do mundo. E mais importante ainda: o fato de saber tão pouco atormentava-o.
Um filósofo é, portanto, alguém que reconhece que há muitas coisas que não entende. E isso aflige-o. Deste ponto de vista, é porém mais sábio que todos os que se gabam do seu pretenso saber.
“A pessoa mais sábia é aquela que sabe que não sabe”, como eu disse. O próprio Sócrates dizia que sabia apenas uma coisa, isto é, que nada sabia. Presta atenção a isto, porque mesmo entre filósofos esta declaração é uma coisa rara. Além disso, pode ser perigoso declará-lo publicamente. Aqueles que perguntam são sempre os mais perigosos. Não é perigoso responder. Uma simples pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas.
Conheces a história dos trajes novos do rei, Sofia?
Na realidade, o rei ia nu, mas nenhum dos seus súbditos ousou dizê-lo. E, de repente, uma criança exclamou que o rei estava nu. Era uma criança corajosa, Sofia.
Deste modo, também Sócrates ousou esclarecer quão pouco os homens sabem. Já falamos acerca da semelhança entre filósofos e crianças.
Vou ser mais preciso: a humanidade é confrontada com questões importantes, para as quais não encontra facilmente as respostas corretas. Temos, então, duas alternativas: podemos enganar-nos a nós mesmos e ao resto do mundo e fingir que sabemos tudo o que é preciso saber. Ou podemos fechar os olhos perante as grandes questões e desistir de uma vez por todas de ir mais longe. Desta forma, a humanidade divide-se em duas partes. Em geral, os homens ora estão totalmente seguros ou são indiferentes.
(Uns e outros rastejam na pele do coelho!) É como as cartas, quando se divide um baralho. Colocam-se as cartas pretas num monte e as vermelhas num outro. Mas de vez em quando surge um curinga no baralho, que não é copas nem paus, nem ouros nem espadas. Sócrates era como um curinga em Atenas. Não tinha certezas absolutas, nem era indiferente. Sabia apenas que nada sabia — e isso preocupava-o, por isso se tornou filósofo — uma pessoa que não desiste e que procura incansavelmente o saber.
Conta-se que uma vez um ateniense perguntou ao oráculo de Delfos quem era o homem mais sábio de Atenas. O oráculo respondeu: Sócrates.
Quando Sócrates soube disso ficou verdadeiramente admirado. (Acho que ele riu, Sofia!) Foi imediatamente para a cidade e procurou alguém que fosse tido por ele e por outros como sábio. Mas quando se provou que esse homem não conseguia responder com clareza às suas perguntas, Sócrates reconheceu por fim que o oráculo tinha razão.
Para Sócrates, era importante encontrar um fundamento seguro para o nosso conhecimento. Acreditava que esse fundamento residia na razão humana. Devido à sua forte convicção na razão humana, ele era um racionalista.
“O verdadeiro conhecimento leva a agir corretamente”
Já referi que Sócrates julgava ouvir dentro de si uma voz divina, e essa “consciência” dizia-lhe o que estava certo. Quem soubesse o que era o bem, praticaria o bem. Segundo ele, o verdadeiro saber leva a agir corretamente. E apenas aquele que age corretamente se torna um verdadeiro homem.
Quando agimos mal, é porque não sabemos agir melhor. Por isso é tão importante alargar o nosso saber. Para Sócrates, tratava-se especificamente de encontrar definições totalmente claras e universais para o que é justo e o que é injusto. Ao contrário dos sofistas, ele achava que a faculdade de distinguir o justo do injusto residia na razão e não na sociedade.
Talvez não consigas engolir facilmente a última frase, Sofia. Vou tentar mais uma vez: Sócrates achava impossível que alguém fosse feliz se agisse contra as suas próprias convicções. E aquele que sabe como atingir a felicidade vai, certamente, fazê-lo. Por isso, quem sabe o que está certo, fará o que está certo. Ninguém deseja ser infeliz, pois não?
O que te parece, Sofia?
Podes viver feliz se estiveres sempre a fazer coisas que, no fundo do coração, não aches corretas? Há muitas pessoas que mentem e roubam constantemente, outras que lançam calúnias. Pois bem!
Sabem que isso não é correto — ou justo, se preferires. Mas acreditas que isso as faz felizes? Sócrates não acreditava.
Depois de ter lido a carta sobre Sócrates, Sofia guardou-a rapidamente na caixa e saiu de gatas para o jardim.
Para se poupar a perguntas eventuais acerca de onde tinha estado, decidiu estar em casa antes que a mãe tivesse regressado das compras. Além disso, Sofia tinha prometido lavar a louça. Mal abriu a torneira, a mãe entrou com dois enormes sacos de plástico.
— Ultimamente, andas com a cabeça nas nuvens, Sofia.Sofia respondeu sem refletir:
— Passava-se exatamente o mesmo com Sócrates!
— Sócrates?A mãe esbugalhou os olhos. — Que pena ter de o pagar com a vida — continuou Sofia muito pensativa.
— Sofia! Já não sei o que hei de fazer!
— Sócrates também não. A única coisa que ele sabia era que não sabia nada. E, no entanto, era o homem mais sábio de Atenas. A mãe ficou pura e simplesmente estupefata. Por fim, afirmou:
— Aprendeste isso na escola?Sofia abanou energicamente a cabeça.
— Aí não aprendemos nada... A grande diferença entre um professor e um verdadeiro filósofo é que o professor acha que sabe muito, e procura constantemente colocar à força na cabeça dos alunos aquilo que sabe.
O filósofo procura ir ao fundo das questões com os seus alunos.
— Bom, estamos a falar de coelhos brancos. Mas vou querer saber com que tipo de namorado é que tu andas. Se não, começo a pensar que ele não é bom da cabeça. Sofia voltou-se de costas para o lava-louça, apontando com a escova para a mãe.
— Ele é bom da cabeça.
Mas é como um pernilongo que incomoda os outros, para lhes incutir uma nova maneira de pensar.
— Pára com isso. Acho que parece um pouco pretensioso e impertinente. Sofia inclinou-se de novo para o lava-louça.
— Ele não é sábio nem impertinente. Mas procura atingir o verdadeiro saber. Essa é a grande diferença entre um verdadeiro curinga e as outras cartas do baralho.
— Disseste curinga? Sofia acenou afirmativamente.
— Já alguma vez refletiste no fato de, num baralho, haver muitas copas e ouros? Também há muitas espadas e paus. Mas há apenas um curinga.
— De que coisas tu falas, pequena!
— Que perguntas tu fazes!
A mãe tinha arrumado todas as compras. Pegou no jornal e foi para a sala de estar. Sofia teve a sensação de que ela fechara a porta com mais força do que era habitual. Quando acabou de lavar a louça, foi para o quarto. Pusera o lenço de seda vermelho juntamente com as peças do Lego, bem em cima do armário. Retirou-o e observou-o atentamente. Hilde...