O Mundo de Sofia
Capítulo IV: Os Filósofos da Natureza
...do nada, nada pode nascer...
Quando, nessa tarde, a mãe chegou a casa do trabalho, Sofia estava sentada no balanço e meditava sobre que relação poderia existir entre o curso de filosofia e Hilde Möller Knag, que não receberia nenhum postal de aniversário do seu pai.
— Sofia! — chamou a mãe de longe — Há aqui uma carta para ti!
Sofia assustou-se. Ela tinha recolhido o correio, por isso a carta tinha de ser do filósofo. O que havia de dizer à mãe? Ergueu-se lentamente do balanço e foi ter com a mãe.
— Não tem selo. Provavelmente é uma carta de amor.
Sofia pegou nela.
— Não a queres abrir?
O que é que havia de dizer?
— Já ouviste falar de pessoas que abrem cartas de amor quando a mãe, por detrás, espreita de soslaio?
Era preferível que a mãe acreditasse que se tratava de uma carta de amor. Era uma situação extremamente penosa, visto que Sofia era ainda bastante nova para receber cartas de amor; mas seria ainda mais desagradável se se viesse a saber que ela recebia, por correspondência, um curso de um filósofo inteiramente desconhecido que brincava ao gato e ao rato com ela.
Era um envelope branco, pequeno. Já no quarto, Sofia leu as três perguntas que o envelope continha: “Haverá um elemento primordial a partir do qual tudo é gerado? Será que a água se pode transformar em vinho? Como é que a terra e a água se podem transformar numa rã viva?”.
Sofia achou estas perguntas absurdas, mas andou com elas na cabeça durante toda a tarde. Na manhã seguinte, na escola, refletiu nas três perguntas pela ordem apresentada.
Haveria um “elemento primordial”, a partir do qual tudo fosse gerado? Mas se houvesse um elemento a partir do qual tudo o que está no mundo fosse produzido, como é que este elemento poderia transformar-se de repente num dente-de-leão ou num elefante?
Passava-se o mesmo com a pergunta sobre a água: poder-se-ia transformar em vinho? Sofia já tinha ouvido dizer que Jesus tinha transformado água em vinho, mas não interpretara esta história literalmente. E se Jesus tinha de fato transformado água em vinho, era um milagre, algo que normalmente não era possível. Sofia não tinha dúvidas sobre o fato de haver uma grande percentagem de água no vinho e em muitas plantas e animais.
Mas mesmo que um pepino fosse constituído por noventa e cinco por cento de água, teria de haver algo mais que fizesse com que um pepino fosse um pepino e não apenas água.
E havia ainda a questão da rã. O seu professor de filosofia tinha um fraco por rãs.
Sofia poderia eventualmente aceitar que uma rã fosse feita de terra e água, mas nesse caso a terra não podia ser feita de um só elemento. Se a terra fosse composta de muitos elementos diversos, era possível pensar que a terra juntamente com a água produzisse uma rã. Se a terra e a água fizessem um desvio pelos ovos da rã e pelos girinos,bem entendido. É que uma rã não podia simplesmente crescer numa horta, mesmo que fosse regada muito escrupulosamente.
Quando, nessa tarde, regressou a casa da escola, havia uma carta grossa dirigida a ela na caixa do correio. Sofia foi para a toca, como já fizera nos dias anteriores.