O Mundo de Sofia
“A Academia de Platão”
Sofia sentou-se num tronco, junto a uma pequena clareira. Tinha na mão o grande envelope amarelo. Abriu-o, retirou várias folhas escritas e começou a ler:
“A Academia de Platão”
Que bom ver-te, Sofia!
Claro que quero dizer, em Atenas. Penso ter-me finalmente apresentado, não achas?
E uma vez que também te apresentei Platão, podemos começar imediatamente.
Platão (428-347 a.C.) tinha 29 anos quando Sócrates teve de beber a taça de cicuta. Fora discípulo de Sócrates por muito tempo e seguiu atentamente o processo instaurado contra ele. Que Atenas pudesse condenar à morte o homem mais nobre da cidade não provocou nele apenas uma impressão indelével; isso iria determinar a orientação de toda a sua atividade filosófica.
Para Platão, a morte de Sócrates demonstrou muito claramente qual é a contradição que pode existir entre as condições de fato numa sociedade e o que é verdadeiro e ideal.
Platão, ao transcrever o discurso da Apologia de Sócrates, desempenhou uma importantíssima tarefa. Aí narrou tudo o que Sócrates expôs ao tribunal.
Com certeza recordas ainda que Sócrates não escreveu nada pela sua própria mão.
Muitos pré-socráticos haviam-no feito, mas a maior parte dos seus textos não se conservou para a posteridade.
No que diz respeito a Platão, pensa-se que todas as suas obras principais se conservaram. (Além da Apologia de Sócrates, escreveu um conjunto de cartas e mais de trinta e cinco diálogos filosóficos). Se estes escritos se conservaram deve-se ao fato de Platão ter fundado perto de Atenas a sua própria escola filosófica, num pequeno bosque, que tinha o nome do lendário herói grego Academo. A escola de filosofia de Platão recebeu assim o nome de Academia (sinônimo também de universidade). (Desde então, foram abertas em todo o mundo milhares de academias. Falamos ainda de “acadêmicos” e de “disciplinas acadêmicas”).
Na Academia de Platão lecionava-se filosofia, matemática e ginástica. Talvez o termo “lecionar” não seja o mais adequado. Na Academia de Platão também se usava o diálogo vivo. Não é por acaso que o diálogo tenha sido a sua forma privilegiada de escrita.
“O eternamente verdadeiro, eternamente belo e eternamente bom”
No início deste curso de filosofia, eu disse-te que, por vezes, vale a pena perguntar qual o projeto de um determinado filósofo. E por isso pergunto agora: o que é que Platão queria descobrir?
Para resumir em poucas palavras:
Platão interessava-se por um lado pela relação entre aquilo que é eterno e imutável e, por outro, por aquilo que “flui”. (Exatamente como os pré-socráticos!).
Dissemos que tanto os sofistas como Sócrates se tinham afastado das questões da filosofia da natureza e se tinham interessado mais pelos homens e pela sociedade. E isso está certo; mas tanto os sofistas como Sócrates se ocupavam também, de certa maneira, da relação que existe entre o que é eterno e constante — e aquilo que “flui”.
Preocupavam-se com esta questão quando se tratava da moral humana e dos ideais ou virtudes da sociedade. Os sofistas achavam, grosso modo, que o conceito de justiça e de injustiça variava de cidade-estado para cidade-estado e de geração para geração. A questão da justiça e da injustiça seria, portanto, algo “fluido”. Sócrates não podia aceitar isto. Acreditava em regras ou normas eternas e intemporais para o procedimento humano. Quando usamos apenas a nossa razão, segundo ele, podemos compreender todas essas normas imutáveis, porque a razão humana é justamente algo eterno e imutável.
Estás a seguir-me, Sofia?