O Mundo de Sofia
Capítulo XXX: Darwin
...um barco que atravessa a vida com uma carga de genes...
Na manhã de domingo, Hilde acordou com um estrondo. O “dossiê” caíra ao chão. Tinha lido até tarde sobre Sofia e Alberto, que falavam sobre Marx. Depois adormecera meio sentada, com o “dossiê” sobre a coberta. A lâmpada tinha ficado acesa toda a noite.
O despertador na mesa de cabeceira indicava em números verdes as 8.59. Hilde sonhara com fábricas gigantescas e cidades enegrecidas pela fuligem. A um canto de uma rua uma menininha vendia fósforos. Pessoas bem vestidas, com casacos compridos, passavam sem prestar atenção.
Quando Hilde se levantou, lembrou-se dos legisladores que haviam de acordar numa sociedade organizada por eles mesmos. Hilde estava contente por acordar em Bjerkely.
Gostaria de acordar na Noruega sem saber exatamente onde e quando? Na Idade Média, por exemplo — ou numa sociedade da Idade da Pedra há dez mil anos? Hilde procurou imaginar como seria estar sentada à entrada duma caverna. Talvez estivesse a raspar uma pele. Como teria vivido uma moça de quinze anos antes de ter existido qualquer coisa como a civilização? Como pensaria, se fosse essa moça de quinze anos?
Hilde vestiu um pulôver, levantou o “dossiê” do chão e sentou-se na cama com ele para continuar a ler o que o pai escrevera.
Mal Alberto dissera “Fim de capítulo!”, alguém bateu à porta da cabana do major.
— Não temos outra escolha, pois não? — perguntou Sofia.
— Não — resmungou Alberto.
Lá fora estava um homem muito velho com cabelos compridos e barba. Na mão direita trazia um bordão de viandante, na esquerda um grande cartaz que mostrava um barco. No barco havia animais de todo o gênero.
— E quem é este senhor? — perguntou Alberto.
— O meu nome é Noé.
— Já imaginava.
— Teu antepassado, meu rapaz. Mas já não está na moda lembrarmo-nos dos antepassados, pois não?
— O que tens aí na mão?
— Uma imagem de todos os animais que foram salvos do Dilúvio Universal. Toma, minha filha, isto é para ti.
Sofia pegou no grande cartaz e o velho disse:
— E agora tenho que ir para casa, regar as videiras.
Deu um pequeno salto, bateu os calcanhares no ar e foi a saltitar em direção ao bosque, como só os homens muitos velhos e com bom humor sabem fazer.
Sofia e Alberto voltaram para dentro e sentaram-se. Sofia olhou para o grande cartaz, mas ainda não vira muito quando Alberto lho arrancou das mãos.
— Primeiro, temos de nos concentrar nas grandes linhas.
— Então começa.
— Esquecemo-nos de referir que Marx passou os últimos trinta e quatro anos da sua vida em Londres. Mudou-se em 1849 para Londres e lá morreu em 1883. Durante todo este tempo, “Charles Darwin” também viveu nos arredores de Londres. Morreu em 1882 e foi sepultado com todas as honras na abadia de Westminster como um dos grandes filhos da Inglaterra. Mas não foi apenas no tempo e no espaço que os caminhos de Marx e Darwin se cruzaram.
Marx quis dedicar a edição inglesa da sua grande obra, “O Capital”, a Darwin, mas este recusou. Quando Marx morreu, um ano após Darwin, o seu amigo Friedrich Engels disse: “Tal como Darwin descobriu a lei da evolução da natureza orgânica, também Marx descobriu a lei da evolução da história humana.”
— Compreendo. — Um outro pensador importante que também pode ser relacionado com Darwin é o psicólogo “Sigmund Freud”.
Também ele passou, mais de meio século mais tarde, os seus últimos anos de vida em Londres. Freud apontou para o fato de a teoria da evolução, tal como a sua psicanálise, ter ofendido os homens no seu “ingênuo amor próprio”.
— São nomes a mais. Vamos falar de Marx, Darwin ou Freud?
— Num sentido lato, podemos falar também de uma “corrente naturalista” que se estendeu de meados do século XIX até ao nosso. Por “naturalismo” entendemos uma concepção da realidade que não aceita nenhuma outra realidade além da natureza e do mundo sensível. Um naturalista, conseqüentemente, vê também o homem como uma parte da natureza. Primeiro que tudo, um investigador naturalista parte apenas dos fatos dados pela natureza — logo, não parte nem de especulações racionalistas nem de qualquer forma de revelação divina.
— E isso é válido tanto para Marx como para Darwin e para Freud?
— Exato. Em meados do século XIX, as palavras-chave eram “natureza”, “ambiente”, “história”, “evolução” e “crescimento”. Marx tinha referido que a consciência humana era um produto da base material de uma sociedade. Darwin provou que o homem é o resultado de uma longa evolução biológica, e o estudo de Freud do inconsciente revelou que as ações do homem se devem freqüente-mente a certos impulsos ou instintos “animais” que residem na sua natureza.
— Acho que compreendo mais ou menos o que queres dizer com naturalismo. Mas não devíamos falar de um de cada vez?
— De Marx já falamos. Falemos então sobre Darwin. Talvez ainda te lembres de que os pré-socráticos queriam encontrar “explicações naturais” para os processos da natureza. Do mesmo modo, para isso tinham de se libertar de antigas explicações mitológicas, Darwin teve de se libertar da doutrina cristã vigente sobre a criação do homem e dos animais.
— Mas ele era um filósofo?
— Darwin era biólogo e naturalista. Foi o cientista que nos últimos tempos fez vacilar a visão bíblica do lugar do homem na Criação, mais do que qualquer outro.
— Então vais falar sobre a teoria da evolução de Darwin.
— Vamos começar pelo próprio Darwin. Nasceu em Shrewsbury em 1809. O seu pai, o doutor Robert Darwin, era um médico conhecido e foi muito severo na educação do filho. Quando Charles freqüentava a escola superior de Shrewsbury, o reitor descreveu-o como um rapaz que vadiava e dizia bobagens, sem fazer nada de útil. Por útil, entendia ele o estudo dos verbos gregos e latinos. E quando falava de vadiar pensava no fato de Charles colecionar todo o tipo de coleópteros.
— Deve ter-se arrependido dessas palavras.
— Ainda durante o seu curso de teologia, Darwin já se interessava mais por aves e insetos que pelos estudos. Por isso, não fez nenhum exame em teologia com boa nota. Mas, paralelamente ao curso de teologia, conseguiu obter uma certa fama como naturalista. Interessava-se também por geologia, que era naquela época a ciência mais em expansão.
Depois de ter feito o seu exame final de teologia em Cambridge, em Abril de 1813, viajou pelo Norte do País de Gales, para estudar formações rochosas e procurar fósseis. Em Agosto do mesmo ano, com apenas vinte e dois anos, recebeu uma carta que havia de ser determinante para toda a sua vida...
— O que estava escrito nessa carta?
— A carta era do seu amigo e professor John Steven Henslow. Escreveu que lhe tinham pedido para dar o nome de um naturalista que pudesse viajar com o capitão Fitzroy, o qual recebera da parte do governo o encargo de desenhar uma carta geográfica da ponta meridional da América do Sul, e que achava Darwin a pessoa mais qualificada para essa tarefa. Não sabia nada sobre o salário para o investigador procurado, mas a viagem duraria dois anos...
— Como consegues fixar tudo de memória?
— Nada mais fácil, Sofia.
— E ele aceitou?
— Ele tinha uma grande vontade de aproveitar a oportunidade, mas naqueles tempos os jovens não faziam nada sem o consentimento dos pais.
Darwin perguntou ao pai, que concordou depois de muita hesitação — e ainda pagou a viagem do filho. No que diz respeito ao salário, viu-se logo que não estava previsto...
— Ah...
— O navio pertencia à Marinha Inglesa e chamava-se “H. M. S. Beagle”. Largou de Plymouth a 27 de Dezembro de 1831 em direção à América do Sul e só regressou a Inglaterra em Outubro de 1836. Os dois anos passaram a cinco e a viagem à América do Sul tornou-se uma volta ao mundo. E estamos a falar da viagem de investigação mais importante da época moderna.
— Eles viajaram mesmo à volta do mundo?
— No verdadeiro sentido da palavra, sim. A partir da América do Sul, a viagem prosseguiu pelo Pacífico em direção à Nova Zelândia, Austrália e África do Sul.
Daqui, navegaram novamente para a América do Sul para regressarem finalmente a Inglaterra. O próprio Darwin afirmou que a viagem com o Beagle fora o acontecimento mais importante de toda a sua vida.
— Não devia ser fácil ser naturalista no mar, pois não?
— Durante o primeiro ano, o “Beagle” navegou de um lado para o outro ao longo costa sul-americana. Isso deu a Darwin a oportunidade de se familiarizar em terra com o continente. De importância decisiva foram também os numerosos desembarques nas ilhas Galápagos no oceano Pacífico, a oeste da América do Sul. Deste modo, ele recolheu material precioso que era progressivamente enviado para o seu país. Guardou para si as numerosas reflexões que fez sobre a natureza e a evolução da vida. Quando regressou a casa, com apenas vinte e sete anos, era já um famoso naturalista. E secretamente tinha já uma idéia clara daquilo que seria a sua teoria da evolução. No entanto, passaram muitos anos até ele publicar a sua obra principal. Porque Darwin era um homem cauteloso, Sofia, e assim deve ser sempre um naturalista.
— Como se chama essa obra principal?
— Bom, houve várias. Mas o livro que desencadeou em Inglaterra os debates mais acesos foi “A Origem das Espécies”, publicado em 1859. O seu título completo era “On the Origin of Species by Means of Natural Selection or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life”. Este título comprido é basicamente um resumo da teoria de Darwin.
— Então devias traduzi-lo para mim.
— Isso não é fácil, porque os conceitos que aparecem nele foram traduzidos de diversos modos desde então. Uma tradução atual poderia ser: “Sobre a Origem das Espécies por Meio de Seleção Natural ou a Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida”.
— É um título muito rico em conteúdo.
— Vamos analisá-lo parte por parte. Na “Origem das Espécies”, Darwin apresentou duas teorias ou teses principais: primeiro, partiu do princípio de que todas as plantas e animais existentes hoje descendem de formas anteriores primitivas. Pressupôs também uma evolução biológica.
Em segundo lugar, afirmou que esta evolução se devia à “seleção natural”.
— Por que motivo são os mais fortes que sobrevivem?
— Vamos concentrar-nos primeiro na idéia de evolução. Isso por si só não era particularmente original. Em certos meios, a aceitação de uma evolução biológica já estava muito difundida cerca do ano 1800. O zoólogo francês “Jean de Lamarck” já dera o tom. Ainda antes dele, o avô de Darwin, “Erasmus Darwin”, apresentara a teoria segundo a qual plantas e animais tinham evoluído a partir de algumas espécies primitivas.
Mas ninguém tinha fornecido uma explicação aceitável para o modo como essa evolução se tinha dado. E, por isso, também não eram adversários muito perigosos para a Igreja.
— Ao contrário de Darwin?
— Sim, e havia um motivo para isso. Tanto os religiosos como muitos cientistas seguiam a doutrina bíblica segundo a qual as diversas espécies vegetais e animais são imutáveis. Partiam do princípio de que cada espécie animal tinha nascido de uma vez para sempre através de um único ato criador. E, além disso, esta concepção cristã estava de acordo com a de Platão e Aristóteles.
— Como assim?
— A teoria das idéias de Platão pressupunha que todas as espécies animais eram imutáveis, uma vez que eram criadas segundo o arquétipo da respectiva idéia ou forma. O fato de as espécies animais serem imutáveis era também um ponto assente na filosofia de Aristóteles. Mas justamente no tempo de Darwin, fizeram-se algumas observações e descobertas que punham em risco esta concepção tradicional.
— Que tipo de observações e descobertas foram?
— Em primeiro lugar, descobriram-se cada vez mais fósseis e em segundo lugar descobriram-se grandes fósseis dos ossos de animais extintos. O próprio Darwin se admirou ainda com o fato de se terem encontrado fósseis de animais marinhos em montanhas. Ele mesmo fizera essas descobertas nos Andes, na América do Sul. Mas o que faziam animais marinhos nos Andes, Sofia? Sabes responder-me?
— Não.
— Havia quem achasse que homens ou animais os tinham deixado aí. Outros achavam que Deus tinha criado esses fósseis de animais marinhos para induzir em erro os incrédulos.
— E o que pensava a ciência?
— A maioria dos geólogos seguia uma “teoria da catástrofe”, segundo a qual a Terra fora assolada várias vezes por grandes cheias, terremotos e outras catástrofes que tinham destruído todas as formas de vida. Uma catástrofe desse gênero é descrita na Bíblia: o Dilúvio Universal, devido ao qual Noé construiu a sua arca. Após cada catástrofe, Deus teria renovado a vida na Terra criando plantas e animais novos — e mais perfeitos.
— Nesse caso, os fósseis seriam as marcas de todas as formas de vida anteriores que tinham sido exterminadas por essas catástrofes gigantescas?
— Exato. Dizia-se, por exemplo, que os fósseis eram as marcas de animais que não tiveram lugar na arca. Mas quando Darwin partiu com o Beagle, levou consigo o primeiro volume da obra “Principles of Geology” do geólogo inglês “Charles Lyell”. Ele achava que a geografia atual da Terra — com montanhas altas e vales profundos — era o resultado de uma evolução muito longa e lenta e afirmava que alterações muito pequenas podiam provocar grandes alterações geográficas se se tivesse em consideração grandes espaços de tempo.
— Em que tipo de mudanças estava ele a pensar?
— Nas mesmas forças que ainda hoje atuam: o tempo e o vento, degelos, terremotos e desabamentos. Diz-se que o gotejar constante fura a pedra, não pela sua força, mas pela sua ação contínua. Lyell defendia que essas transformações pequenas e progressivas podiam alterar completamente a natureza num grande espaço de tempo. Darwin compreendeu que esta idéia não podia explicar só por si o motivo pelo qual encontrara nos Andes fósseis de animais marinhos. Mas nunca se esqueceu, durante toda a sua vida de investigador, que “mudanças pequenas e progressivas” podem levar a alterações dramáticas se pensarmos no fator tempo.
— Ele pensava que uma explicação semelhante podia ser aplicada à evolução dos animais?
— Sim, e fez a si mesmo essa pergunta. Mas, como eu disse, Darwin era um homem prudente. Ponderava longamente as questões antes de ousar dar as respostas. Deste modo, usava o método de todos os verdadeiros filósofos, que afirma: é importante perguntar mas não é preciso pressa para responder.
— Compreendo.
— Um fator decisivo na teoria de Lyell era a idade da terra. No tempo de Darwin estava muito difundida a opinião de que Deus tinha criado a Terra há cerca de seis mil anos. Tinha-se calculado este número contando todas as gerações desde Adão e Eva até ao presente.
— Que ingenuidade!
— Sabemos sempre mais posteriormente. Darwin estimou a idade da Terra em trezentos milhões de anos. Uma coisa era clara: nem a teoria de Lyell da evolução biológica progressiva nem a própria teoria da evolução de Darwin faziam sentido se não se tinha em conta períodos muito extensos.
— Qual é a idade da Terra?
— Hoje sabemos que a Terra tem alguns milhares de milhões de anos.
— Já é suficiente... — Até agora, concentramo-nos num dos argumentos de Darwin a favor de uma evolução biológica, o da “presença estratificada de fósseis” nas várias formações rochosas. Um outro argumento era a “distribuição geográfica” das espécies vivas. A viagem de pesquisa de Darwin forneceu material novo e extremamente rico. Ele vira com os próprios olhos que as diversas espécies animais de uma região se podiam distinguir entre si graças a diferenças mínimas. Fez algumas observações interessantes principalmente nas ilhas Galápagos, a oeste do Equador.
— Conta!
— Trata-se de um grupo de ilhas vulcânicas muito próximas entre si. Por isso não havia grandes diferenças na flora e fauna. Mas Darwin estava interessado justamente nas pequenas diferenças. Em todas as ilhas encontrou grandes tartarugas gigantes, que diferiam sempre um pouco de ilha para ilha. Teria Deus realmente criado uma raça específica de tartarugas gigantes para cada ilha?
— É pouco provável.
— Mais importante ainda foi o que Darwin observou na vida das aves das ilhas Galápagos. De ilha para ilha variavam as espécies de tentilhões — principalmente na forma do bico. Darwin demonstrou que estas variações estavam intimamente relacionadas com o modo como os tentilhões se alimentavam nas diversas ilhas. O tentilhão de bico afiado vivia de pinhões, o tentilhão pequeno vivia de insetos, o tentilhão de bico mais grosso alimentava-se de insetos que viviam nos troncos e nos ramos. Cada uma destas espécies tinha um bico que se ajustava perfeitamente ao modo de se alimentar. Poderiam todos estes tentilhões descender de uma mesma espécie de tentilhão? Essa espécie tinha-se adaptado de tal forma ao seu ambiente nas diversas ilhas, com o decurso dos anos, que tivessem surgido finalmente novas espécies de tentilhões?
— Foi essa a conclusão a que ele chegou?
— Foi. E provavelmente Darwin só se tornou um “darwinista” nas ilhas Galápagos. Ocorreu-lhe também que a fauna nesse pequeno arquipélago apresentava grandes semelhanças com muitas espécies que ele vira na América do Sul. Tinha Deus criado de uma vez por todas estes animais ligeiramente diferentes uns dos outros — ou teria havido uma evolução? Teve cada vez mais dúvidas de que as espécies fossem imutáveis. Mas faltava-lhe ainda uma boa explicação para o modo como poderia suceder uma evolução ou uma adaptação ao mundo. O que ele possuía era um argumento a favor do parentesco entre todos os animais na Terra.
— Qual era?
— Era o desenvolvimento dos fetos nos mamíferos. Se comparares os fetos do cão, morcego, coelho e homem no mesmo estádio primitivo, quase não vês diferenças. Só num estádio muito mais tardio do desenvolvimento dos fetos podes distinguir fetos de homens e de coe-lhos. Seria isso um indício de que somos parentes afastados?
— Mas ele ainda não tinha encontrado uma explicação para o modo como a evolução para espécies diferentes se tinha dado?
— Ele continuava a refletir sobre a teoria de Lyell acerca das pequenas transformações que tinham grandes efeitos com o decorrer do tempo. Mas não encontrou uma explicação que pudesse servir como princípio universal. Conhecia a teoria de Lamarck, que reconhecera que as diversas espécies animais tinham desenvolvido exatamente aquilo de que precisavam. E considerara que as girafas tinham um pescoço muito comprido por se terem esticado durante muitas gerações para chegar às folhas das árvores. Lamarck achava, portanto, que as características que um indivíduo adquire através do próprio esforço são legadas à descendência. Mas a teoria de que as “características adquiridas” eram hereditárias foi recusada por Darwin — precisamente porque Lamarck não podia provar as suas teses ousadas. Porém havia outra coisa — e muito mais próxima — na qual Darwin pensava cada vez mais. Podes dizer que o verdadeiro mecanismo da evolução das espécies estava à frente do seu nariz.
— Estou muito curiosa.
— Preferia que descobrisses esse mecanismo por ti. Por isso, pergunto: Se tens três vacas, mas apenas comida suficiente para duas, o que fazes?
— Tenho de abater uma vaca.
— Exato... e que vaca havias de abater?
— Aquela que dá menos leite.
— Estás a falar a sério?
— Sim, é lógico.
— É exatamente isso que os homens fazem desde há milênios. Mas ainda sobram duas vacas. Partindo do princípio que queres fazer reprodução com uma, qual é que escolhes?
— A que dá mais leite. Nesse caso, a vitela será também uma boa vaca leiteira.
— Preferes boas vacas leiteiras às más? Então, só nos falta uma tarefa. Se gostas de caçar e tens dois cães de caça, mas tens de dar um deles, que cão conservarias para ti?
— Ficaria com aquele que tivesse melhor faro para a caça.
— Preferirias, portanto, o melhor cão de caça, sim. E é assim, Sofia, que os homens criam os animais há mais de dez mil anos. As galinhas nem sempre puseram cinco ovos por semana, as ovelhas não tiveram sempre tanta lã e os cavalos não foram sempre tão fortes e rápidos como são hoje. Os homens fizeram uma “seleção artificial”. Isso também é válido para o reino vegetal. Não plantamos batatas más se queremos ter renovos melhores. Não nos damos ao trabalho de ceifar espigas sem grãos. Segundo Darwin, não há duas vacas, duas espigas, dois cães e dois tentilhões iguais. A natureza apresenta uma enorme variedade. Nem na mesma espécie há dois indivíduos totalmente iguais. Tu mesma te apercebeste disso quando bebeste o líquido azul.
— Podes ter a certeza!
— Darwin tinha que pôr a questão: poderia haver também na natureza um mecanismo análogo? Seria possível que a natureza também fizesse uma “seleção natural” dos indivíduos que devem sobreviver? E poderia esse mecanismo em longo prazo provocar o aparecimento de espécies vegetais e animais completamente novas?
— Aposto que a resposta é sim.
— Darwin ainda não conseguia imaginar exatamente como essa seleção natural podia dar-se. Mas em Outubro de 1838 — passados exatamente dois anos depois do seu regresso com o Beagle — veio-lhe às mãos por acaso um pequeno livro do economista “Thomas Malthus”. O livro tinha o título “An Essay on the Principle of Population”. O americano “Benjamin Franklin”, que tinha inventado entre outras coisas o pára-raios, dera a Malthus a idéia de escrever esse livro. Franklin referira que na natureza também tem de haver fatores limitantes, porque, de outro modo, uma única espécie vegetal ou animal ter-se-ia difundido em todo o planeta. Só por existirem muitas espécies diversas é que elas se equilibram umas às outras.
— Compreendo.
— Malthus desenvolveu esta idéia e aplicou-a à situação demográfica da Terra. Explicou que a capacidade de procriação do homem é tão grande que nasciam sempre mais crianças do que as que podiam sobreviver. E uma vez que a produção de alimento nunca pode andar a passo com o crescimento populacional, um grande número de pessoas está condenado a sucumbir na luta pela existência. Conseguirão sobreviver — e conseqüentemente assegurar a subsistência da sua família — só aqueles que melhor se impuserem na luta pela sobrevivência.
— Parece lógico.
— E era justamente esse o mecanismo universal de que Darwin estivera à procura. De repente, tinha uma explicação para o modo como decorria a evolução: a “seleção natural” na luta pela sobrevivência, graças à qual quem está melhor adaptado ao ambiente continuará a viver e a reproduzir-se. Era a segunda teoria por ele proposta no seu livro “A Origem das Espécies”. Ele escreveu: “O elefante reproduz-se mais lentamente do que todos os outros animais, e eu tive o cuidado de calcular o mínimo provável da sua reprodução natural. Podemos ter como bastante seguro que ele inicia a reprodução aos trinta anos e a mantém até ao nonagésimo ano de vida, e que durante este período gera seis crias e vive até aos cem anos. Neste caso, ao cabo de 740 a 750 anos haveria cerca de 19 milhões de elefantes descendentes de um primeiro casal.”
— Para não falar dos milhares de ovos de um único bacalhau.
— Darwin explicou ainda que a luta pela sobrevivência entre as espécies mais semelhantes é freqüentemente mais dura, porque lutam pelo mesmo tipo de alimento. E, nessa altura, são as pequenas diferenças — as pequenas vantagens em relação à média — que são determinantes. Quanto mais dura é a luta pela sobrevivência mais rapidamente se dá o desenvolvimento de novas espécies. Só os indivíduos mais bem adaptados ao ambiente sobrevivem: todos os outros se extinguem.
— Então, quanto menos alimento e quanto mais descendência há, mais rápida é a evolução?
— Não se trata apenas de alimento. Também pode ser importante não se ser devorado por outros animais. Pode ser uma vantagem ter uma certa cor de camuflagem, poder correr rapidamente, aperceber-se da presença de animais inimigos — ou pelo menos ter mau sabor. Um veneno que mate um predador é também importante. Não é por acaso que muitos cactos são venenosos, Sofia. No deserto, quase só crescem cactos. E por isso estão particularmente expostos aos ataques dos animais herbívoros.
— Além disso, a maior parte dos cactos têm picos.
— A capacidade de reprodução tem também uma importância fundamental. Darwin estudou bem a polinização. As plantas, com os seus perfumes e as suas cores, atraem os insetos que contribuem para a difusão do pólen. O canto dos pássaros também é importante para a reprodução. Um touro lento e melancólico, que não se interessa por vacas, não é importante para a história da sua espécie. A única tarefa do indivíduo é atingir a maturidade sexual e reproduzir-se, para conservar a espécie. É como uma longa estafeta, em que aqueles que, por algum motivo, não conseguem transmitir os genes são sempre excluídos. Deste modo, a raça melhora progressivamente. A resistência às doenças também é uma característica que se conserva nas variantes que sobrevivem.
— Então tudo melhora progressivamente?
— A seleção contínua faz com que aqueles que estão adaptados a um determinado ambiente — ou a um determinado nicho ecológico — sobrevivam nesse ambiente. Mas aquilo que é uma vantagem num ambiente pode não sê-lo noutro. Para alguns dos tentilhões das ilhas Galápagos, a capacidade de voar era muito importante, mas não se o alimento tem que ser escavado do solo e não existem animais predadores. Justamente porque na natureza há tantos nichos é que se desenvolveram tantos animais com o decurso do tempo.
— Mas há apenas uma espécie humana. — Sim, porque os homens possuem uma capacidade fantástica de se adaptar às mais diversas condições de vida. Darwin ficou impressionado quando viu como os índios da Terra do Fogo conseguiam sobreviver num clima tão frio. Se os homens junto ao equador têm uma pele mais escura do que os habitantes das regiões setentrionais é porque a pele escura protege da luz solar. Homens de pele branca que se expõem demasiado ao sol estão mais sujeitos ao cancro de pele.
— A pele branca também é uma vantagem quando se vive num país a norte?
— Claro, senão os homens teriam por toda a parte a pele escura. Mas a pele branca tem mais facilidade em produzir um certo tipo de vitaminas — do grupo D —, e isso é muito importante nas regiões que têm pouco sol. Hoje, isso tem pouca importância porque tomamos vitaminas através da alimentação, mas nada é casual na natureza: tudo se deve àquelas pequenas variações que atuaram por um número infinito de gerações.
— Isso é uma idéia fantástica.
— É, não é? Podemos agora resumir a teoria de Darwin deste modo...
— Despacha-te!
— ...dizendo que: a matéria-prima responsável pela evolução da vida na Terra são as contínuas “variações” entre indivíduos dentro de uma mesma espécie. E é a alta “taxa de natalidade” que permite que uma pequena percentagem deles consiga sobreviver. O mecanismo na base da evolução é a “seleção natural” na luta pela sobrevivência. Esta seleção faz com que apenas os mais fortes ou os que se adaptam melhor consigam sobreviver.
— Parece lógico. Como foi recebido o livro sobre a origem das espécies?
— Desencadeou uma grande celeuma. A Igreja protestou fortemente e o meio científico inglês dividiu-se. No fundo, estas reações não eram estranhas, uma vez que Darwin eliminara em parte Deus do ato criador. Mas algumas pessoas, mais iluminadas, disseram que era obra muito maior criar alguma coisa que contivesse em si as possibilidades de desenvolvimento do que criar todas as coisas de uma vez por todas, determinadas nos mínimos detalhes.
De repente, Sofia levantou-se de um pulo do seu sofá.
— Olha, ali! — exclamou. Apontava para a janela. Junto ao lago, um homem e uma mulher passeavam de mão dada. Estavam completamente nus.
— São Adão e Eva — afirmou Alberto. — Mais tarde ou mais cedo, tinham de compartilhar a mesma irrealidade da Chapeuzinho Vermelho e da Alice. Por isso apareceram aqui.
Sofia foi à janela para ver melhor, mas o par desapareceu rapidamente entre as árvores.
— Porque, segundo Darwin, o homem evoluiu dos animais?
— Em 1871, publicou “The Descent of Man”, “A Descendência do Homem”, no qual evidencia as semelhanças existentes entre os homens e os animais, e defende que os seres humanos e os símios antropóides devem ter-se desenvolvido a partir de um antepassado comum. Entretanto, tinham-se encontrado os primeiros fósseis de crânios de um tipo humano extinto, primeiro numa pedreira no Rochedo de Gibraltar e alguns anos mais tarde em Neandertal, na Renânia. Por estranho que pareça, houve menos reação em 1871 do que em 1859, o ano em que Darwin publicara “A Origem das Espécies”, se bem que, de fato, a tese de que o homem descendia de animais já estava implícita no primeiro livro. E como eu já disse, quando morreu em 1882, Darwin foi sepultado com muitas honras como um pioneiro da ciência.
— E obteve no fim fama e glória?
— No fim, sim. Mas antes disso chamaram-lhe o homem mais perigoso de Inglaterra.
— Meu Deus!
— “Esperemos que não seja verdade, mas se é esperemos que não se venha a saber”, disse uma senhora da alta sociedade. Um cientista conhecido disse uma coisa semelhante: “uma descoberta humilhante, e quanto menos se falar dela, melhor”.
— Desse modo, quase demonstraram que o homem é aparentado com a avestruz!
— Sim, bem podes dizer isso. Mas é fácil para nós criticar. Muitas pessoas se sentiram forçadas a rever a sua opinião sobre a narração bíblica da Criação. O jovem autor “John Ruskin” exprimiu-o do seguinte modo: “Se os geólogos pudessem deixar-me em paz! No fim de cada versículo da Bíblia ouço as suas marteladas.”
— E as marteladas eram as dúvidas quanto à palavra de Deus?
— Era isso que ele queria dizer, porque não foi apenas a interpretação literal da descrição bíblica a ser abalada. A teoria de Darwin afirmava também que variações totalmente “casuais” tinham criado o homem. E mais, Darwin reduziu o ser humano a um produto de uma coisa tão “desprezível” como a luta pela existência.
— Darwin explicou o modo como nascem essas “variações casuais”?
— Estás a tocar no ponto mais frágil da sua teoria.
Darwin tinha apenas idéias muito vagas sobre a hereditariedade. Alguma coisa desaparece no cruzamento. Um casal nunca tem dois filhos exatamente iguais e isso já representa uma certa variação. Por outro lado, dificilmente surge alguma coisa verdadeiramente nova. Além disso, há plantas e animais que se reproduzem através de germinação ou simples divisão celular, logo sem cruzamentos.
Para explicar como se criam estas variações viria depois o chamado neodarwinismo, que completou a teoria de Darwin.
— Conta!
— Toda a vida e toda a reprodução andam à volta da divisão celular. Quando uma célula se divide em dois, formam-se duas células exata-mente iguais com o mesmo material genético. Por divisão celular entendemos, portanto, que uma célula se copia a si mesma.
— Sim?
— Mas, por vezes, há erros minúsculos neste processo — e por isso a célula copiada não é totalmente igual à célula mãe. Este fenômeno é chamado “mutação” na biologia moderna.
As mutações podem ser insignificantes ou, pelo contrário, levar a transformações evidentes nas características do indivíduo. Podem ser diretamente prejudiciais e, neste caso, os “mutantes” são constante-mente eliminados. Muitas doenças também se devem a mutações. Mas, por vezes, uma mutação pode fornecer ao indivíduo precisa-mente aquela característica positiva da qual precisa para se poder impor na luta pela sobrevivência.
— Um pescoço mais comprido, por exemplo?
— A explicação de Lamarck para o longo pescoço das girafas era que as girafas tinham esticado constantemente o pescoço para comerem as folhas das árvores. Mas, segundo Darwin, as características adquiridas pelo hábito não podiam ser transmitidas. Para Darwin, o pescoço comprido das girafas era uma variação natural dos pescoços dos seus antepassados. O neodarwinismo completa esta tese indicando a causa de tais variações.
— As mutações.
— Sim. Algumas mutações casuais no material genético deram a alguns antepassados das girafas um pescoço ligeiramente mais longo do que a média. Variação que se pode ter tornado positiva e importante num período de escassez de alimento: quem chegava aos ramos mais altos das árvores conseguia sobreviver melhor.
Podemos ainda imaginar que algumas destas “primeiras girafas” desenvolveram a capacidade de esgravatar alimento do solo. Passado muito tempo, uma espécie animal pode ter-se dividido em duas novas espécies animais.
— Compreendo.
— Vou dar exemplos mais recentes do mecanismo da seleção natural. O princípio é muito simples.
— Diz.
— Em Inglaterra há uma espécie de borboleta que vive nos troncos claros das bétulas. Se recuarmos ao século XIII, podemos verificar que a maior parte destas borboletas eram de um tom cinzento-claro. Por que, Sofia?
— Para não serem vistas pelos pássaros.
— De quando em quando, nasciam exemplares mais escuros e isso se devia a mutações casuais. O que te parece que aconteceu às variantes escuras?
— Eram mais visíveis, e por isso presa fácil dos pássaros.
— De fato, nesse ambiente, ou seja, nos troncos claros das bétulas, a cor escura não era uma característica favorável, razão pela qual as borboletas de cor clara se multiplicaram muito. Mas, em seguida, aconteceu uma coisa no ambiente: com a industrialização, em muitas localidades, os troncos brancos tornaram-se mais escuros por causa da fuligem. O que aconteceu então a estas borboletas?
— Foi a vez de os exemplares escuros se desvencilharem melhor.
— Precisamente, e não foi necessário muito tempo para o seu número aumentar. De 1848 a 1948 a quantidade dos exemplares escuros passou, em algumas zonas, de um a noventa e nove por cento. O ambiente tinha mudado, e não era uma vantagem ter-se cor clara, pelo contrário! Os exemplares brancos eram imediatamente eliminados pelos pássaros mal pousavam nos troncos. Mas houve uma nova transformação do ambiente: um uso mais limitado do carbono e melhores instalações de filtragem tornaram nos últimos anos o ambiente mais limpo.
— Então agora os troncos das bétulas são novamente brancos?
— Por esse motivo as borboletas estão a voltar à cor branca. É o que chamamos “adaptação” e estamos a falar de uma lei da natureza. Há também outros exemplos que mostram como os seres humanos intervieram no ambiente.
— A que é que te referes?
— Tentou-se eliminar animais nocivos recorrendo a várias substâncias venenosas.
De início, o resultado foi positivo, mas quando pulverizamos um campo ou um pomar com inseticidas, provocamos na realidade uma pequena catástrofe ecológica para os elementos nocivos que queremos exterminar. E devido a mutações contínuas, pode desenvolver-se um grupo de fatores nocivos mais resistentes contra o veneno usado. Estes “vencedores” têm mais possibilidades de sobreviver e tornam-se cada vez mais difíceis de eliminar justamente porque o ser humano tentou destruí-los. São as variantes mais resistentes que sobrevivem.
— Terrível!
— Mesmo no nosso corpo tentamos eliminar parasitas nocivos: refiro-me às bactérias.
— Usamos a penicilina ou antibióticos.
— Uma cura à base de penicilina representa realmente uma “catástrofe ecológica” para estes hóspedes indesejados, mas, pouco a pouco, algumas bactérias resistem inclusivamente à penicilina. Temos de recorrer a doses cada vez maiores, e no fim...
— No fim saem-nos pela boca, talvez tenhamos de começar a disparar contra elas.
— Isso seria talvez um pouco exagerado. Mas é evidente que a medicina moderna criou um sério dilema. Não se trata apenas do fato de as bactérias se terem tornado mais resistentes do que eram.
Antigamente, muitos bebês morriam destas doenças, e sobreviviam muito poucos. Num certo sentido, a medicina moderna eliminou a seleção natural. Mas aquilo que ajuda o indivíduo pode, em longo prazo, enfraquecer a capacidade de resistência da humanidade às doenças. Quer dizer que a capacidade hereditária dos homens de resistir a doenças sérias torna-se mais fraca.
— É uma perspectiva terrível.
— Mas um filósofo tem de referir isso. Uma questão completamente diferente é a de saber quais são as suas conseqüências. Tentemos fazer um pequeno resumo.
— Faz favor!
— Podemos dizer que a vida é uma grande loteria onde apenas vemos os bilhetes vencedores.
— O que queres dizer?
— Aqueles que perderam na luta pela existência, desapareceram. Por detrás de cada espécie animal e vegetal sobre a face da Terra, há milhões de anos de extrações de “bilhetes perdedores”. Todas as espécies animais e vegetais presentes hoje no mundo devem ser consideradas, pelo menos por enquanto, “vencedoras” na grande loteria da vida.
— Porque apenas os melhores sobrevivem.
— Podemos dizer isso. E agora vamos ver o cartaz que Noé te deu. Sofia passou-lhe o cartaz. De um lado, havia a imagem da arca de Noé, noutro estava desenhada a árvore genealógica de todas as diferentes espécies animais. Era esse o lado que Alberto lhe queria mostrar.
— O esquema mostra a subdivisão das diferentes espécies animais e vegetais: podes ver como cada espécie pertence a diversos grupos e classes.
— Sim, estou a ver.
— O homem pertence, juntamente com os símios, aos chamados primatas. Todos os primatas são mamíferos e todos os mamíferos pertencem ao grupo dos vertebrados, que por sua vez pertence ao grupo dos animais pluricelulares.
— Faz lembrar Aristóteles.
— É verdade. Mas o esquema não mostra apenas qual é a subdivisão das espécies modernas. Também diz algo sobre a história da evolução. Podes ver, por exemplo, que os pássaros se separaram dos répteis, que por sua vez se separaram dos anfíbios, que por sua vez se separaram dos peixes.
— Sim, é muito claro.
— Cada vez que uma destas linhas se divide, é porque houve mutações que levaram à formação de novas espécies.
Deste modo, no decurso de milhões de anos formaram-se os diversos grupos e classes de animais. Mas este esquema é muito simplificado: na realidade hoje existe mais de um milhão de espécies animais, e este milhão é apenas uma pequena parte de todas as espécies animais que viveram na Terra. Como vês, um grupo animal como o dos trilobites extinguiu-se completamente.
— E em baixo temos os animais unicelulares.
— Alguns desses não mudaram provavelmente desde há alguns milhões de anos. Vês também uma linha que vai desde estes organismos unicelulares até ao reino vegetal porque, muito provavelmente, as plantas provêm da mesma célula primordial que os animais.
— Estou a ver, mas agora tenho uma pergunta.
— Sim?
— Donde vem essa célula primordial? Darwin deu uma resposta?
— Eu disse-te que era um homem prudente, mas neste aspecto especulou um pouco. Ele escreveu: “Se (e que se!) pudéssemos imaginar uma pequena poça de água quente, onde todo o tipo de sais de amônia e fósforo, a luz, o calor, a eletricidade estivessem presentes, e onde se tivesse criado um composto protéico, apto a sofrer mutações ainda mais complexas...
— Sim, e então?
— Darwin estava a imaginar de que modo a primeira célula viva se podia ter formado da matéria inorgânica. E mais uma vez acertou no alvo. A ciência de hoje pensa que a primeira forma de vida nasceu numa “pequena poça de água quente” tal como Darwin a imaginara.
— Continua!
— Um esboço sumário deve ser o suficiente. Lembra-te de que estamos a deixar Darwin e a dar um salto para as mais recentes investigações sobre a origem da vida na terra.
— Isso põe-me um pouco nervosa. Ninguém sabe como a vida surgiu?
— Talvez não, mas cada vez mais peças do quadro se ajustam para for-mar a imagem de como a vida pode ter surgido. 374
— Continua!
— Devemos primeiro que tudo ter presente que toda a forma de vida na terra, vegetal ou animal, é constituída pelas mesmas substâncias. A definição mais simples da vida é: cada ser vivo possui um metabolismo e reproduz-se autonomamente. Este processo é dirigido por uma substância a que chamamos ADN. Desta substância são feitos os cromossomos, ou seja, o material genético que se encontra em qualquer célula viva. O ADN é uma molécula, ou melhor, uma macromolécula, muito complexa. A pergunta é: como nasceu a primeira molécula de ADN?
— Como?
— A Terra foi criada quando se formou o sistema solar há cerca de 4’500 milhões de anos. Inicialmente era uma massa incandescente, mas pouco a pouco, a crosta terrestre arrefeceu. E, segundo a ciência moderna, a vida surgiu há cerca de três a quatro mil milhões de anos.
— Parece inacreditável.
— Só podes dizer isso depois de teres ouvido o resto.
Antes de mais, deves reparar que a Terra era muito diferente do que é hoje. Visto que não havia nenhuma forma de vida, nem sequer havia oxigênio na atmosfera. O oxigênio livre só foi criado com a fotossíntese das plantas. O fato de não existir oxigênio era importante: é impossível que os fundamentos da vida, que podem dar origem ao ADN, tivessem nascido numa atmosfera rica em oxigênio.
— Por que?
— Porque o oxigênio é uma substância muito reativa: antes de poderem formar complicadas moléculas de ADN, estes tijolos da molécula de ADN ter-se-iam oxidado.
— Está bem.
— Por isso sabemos com segurança que hoje não pode nascer nenhuma forma nova de vida, nem uma bactéria ou vírus.
Por isso, toda a vida na Terra deve ter a mesma idade. Um elefante tem uma árvore genealógica tão longa como a da mais simples bactéria. Podemos dizer que um elefante, ou um homem, é na realidade uma colônia de animais unicelulares porque em cada célula do nosso corpo temos exatamente o mesmo material genético. A receita pela qual somos o que somos está em cada célula do nosso corpo.
— É estranho.
— Um dos grandes mistérios da vida é que, todavia, as células dos animais pluricelulares têm a capacidade de se especializarem numa função particular, porque as diversas características hereditárias não estão ativas em todas as células. Algumas destas características, ou genes, estão “ativadas”, outras “desativadas”. Uma célula hepática produz proteínas diferentes das de uma célula nervosa ou de uma célula da pele. Mas em todas encontramos a mesma molécula de ADN que contém toda a receita do organismo de que estamos a falar.
— Continua!
— Quando não havia oxigênio na atmosfera, não havia sequer, à volta do globo terrestre, uma camada protetora de ozônio. Isso significa que não havia nada a deter as radiações provenientes do espaço. Isto também é importante porque, muito provavelmente, estas últimas tiveram um papel decisivo na formação das primeiras moléculas complexas. Uma radiação cósmica foi a energia que uniu as diversas substâncias químicas presentes na Terra para formar macromoléculas complexas.
— Está bem.
— Vou recapitular: para que se possam constituir as moléculas complexas de que se forma a vida, pelo menos duas condições têm de ser satisfeitas: “não pode existir oxigênio na atmosfera e não deve haver obstáculo às radiações provenientes do espaço”.
— Compreendo.
— Na pequena “poça de água quente” — ou “sopa primordial”, como lhe chama a ciência moderna, formou-se a dada altura uma macro-molécula muito complexa, que tinha a estranha capacidade de se poder dividir. E com isto se iniciou a longa evolução, Sofia. Se quisermos simplificar um pouco, diremos que já podemos falar do primeiro material genético, do primeiro ADN ou da primeira célula viva. Ela continuou a dividir-se; desde o primeiro momento sucederam mutações constantes. Depois de um espaço de tempo muito longo, sucedeu que os organismos unicelulares se uniram para constituir organismos pluricelulares mais complexos. Do mesmo modo, teve início a fotossíntese das plantas, e assim se formou uma atmosfera rica em oxigênio. Este acontecimento teve um efeito duplo: antes de mais, a atmosfera permitiu que se pudessem desenvolver animais aptos a respirar com os pulmões. Além disso, a atmosfera protegeu a vida das radiações nocivas provenientes do espaço. Na realidade, estas radiações, importantes “centelhas” para a criação da primeira célula, são também prejudiciais para toda a vida animada.
— Mas a atmosfera não se formou da noite para o dia. Como conseguiram sobreviver as primeiras formas de vida?
— A vida nasceu primeiro no oceano, aquilo a que chamamos a “sopa primordial”. Aí, as primeiras formas de vida puderam desenvolver-se protegidas das radiações perigosas. Só muito mais tarde, quando a vida no oceano criou a atmosfera, é que os primeiros anfíbios subiram para terra. Já falamos do resto. Estamos aqui sentados numa cabana de um bosque e olhamos em retrospectiva para um processo que durou três ou quatro mil milhões de anos. E foi justamente em nós que este processo teve consciência de si mesmo.
— Mas achas que foi tudo mero acaso?
— Não disse isso. O cartaz de Noé mostra-nos que a evolução tinha uma direção. Durante milhões de anos desenvolveram-se animais dotados de um sistema nervoso cada vez mais complexo e com um cérebro cada vez maior. Pessoalmente não acho que tenha sido um acaso. O que é que tu pensas?
— O olho humano não pode ter surgido por mero acaso.
Não achas que haja um significado por detrás do fato de podermos ver o mundo que nos rodeia?
— A evolução do olho também surpreendeu Darwin. Não conseguia imaginar que uma coisa tão bela e delicada pudesse ter nascido devido à seleção natural. Sofia olhou para Alberto.
Pensou como era estranho ela estar a viver naquele momento, o fato de viver apenas aquela vez e de não tornar a viver. De repente, exclamou:
— “Então que vale a eterna criação? Coisas criadas ao nada reduzir!” Alberto fixou-a severamente:
— Não podes falar assim, minha filha. Essas são as palavras do diabo.
— Do diabo?
— Ou de Mefistófeles — no “Fausto” de Goethe.
— O que querem dizer exatamente estas palavras?
— Enquanto Fausto morre, e olha retrospectivamente para a sua longa vida — diz num tom triunfante: “És tão belo, demora-te! Por séculos E séculos de meus terrenos dias Não se apaga o vestígio Agora mesmo, Somente em pressentir tanta delícia, Gozo ditoso o mais celeste instante.”
— Que bonito!
— Mas agora é a vez do diabo. Mal Fausto morre exclama:
“Acabou-se! Palavra sem sentido! Acabou-se por quê? Acabou e nada, É tudo a mesma coisa! Então que vale A eterna criação? Coisas criadas Ao nada reduzir! “Está acabado!...Que quer isto dizer? É exatamente Como se nunca fosse, e toda via Circula, como tendo inda existência! Preferira ao que acaba o vácuo eterno.”3
— Que pessimismo. Gostei mais da primeira citação. Apesar de a sua vida ter terminado, Fausto viu um significado nos vestígios que deixou atrás de si.
— Não é uma conseqüência da teoria da evolução de Darwin sentirmo-nos parte de alguma coisa de grande onde a menor forma de vida tem um significado na totalidade? Nós somos o planeta vivo, Sofia! Somos a grande embarcação que navega à volta de um sol ardente no universo. Mas cada um de nós é também um barco que atravessa a vida com uma carga de genes. Quando a tivermos transportado até ao porto seguinte, não teremos vivido em vão. Bjornstjerne Bjornson exprimiu a mesma idéia no poema “Salmo II”:
“Louva o eterno na nossa vida que criou todas as coisas! Na manhã da ressurreição o mínimo é dado, apenas as formas se perdem. A estirpe gera a estirpe, e alcança poderes crescentes; a espécie gera a espécie em milhões de anos Mundos morrem e nascem. Na alegria de viver, tu, a quem foi concedido ser uma flor desta primavera, goza um dia em honra do eterno na condição de homem; oferece o teu óbolo até ao surgir do eterno, respira num único e imperceptível fôlego o dia eterno!”
— Que bonito!
— Mas agora vamos terminar. Digo apenas: fim de capítulo!
— Pára com essa tua ironia!
— Fim de capítulo, disse eu. Presta atenção ao que eu te digo!