O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 15 de 83

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O Mundo de Sofia

“Algo de tudo em tudo”

Empédocles também se dedicou à questão do que acontece quando sentimos algo. Como é que eu posso, por exemplo, “ver” uma flor? O que sucede então? Já alguma vez refletiste sobre isto, Sofia?

 

Caso não o tenhas feito, tens a oportunidade de o fazer agora.

 

Empédocles pensava que os nossos olhos, tal como todas as outras coisas na natureza, são constituídos por terra, ar, fogo e água. Por isso, a terra do meu olho apreende o que é feito de terra no que é visto, o ar apreende o que é feito de ar, o fogo dos olhos apreende o que é feito de fogo, e a água o que é feito de água. Se faltasse no olho um destes elementos, eu não poderia ver toda a natureza.

 

“Algo de tudo em tudo”

 

Um outro filósofo, Anaxágoras (500-428 a.C.), não estava satisfeito com a conclusão a que se tinha chegado: que um determinado elemento primordial — água, por exemplo — se pudesse transformar em tudo o que vemos na natureza. Também não aceitava a concepção segundo a qual a terra, o ar, o fogo e a água se transformavam em sangue ou ossos, pele ou cabelo.

Anaxágoras achava que a natureza era composta por ínfimas partículas que não podiam ser apreendidas pelos olhos. Segundo ele, tudo se pode dividir em partes ainda menores, havendo nessas partículas um pouco de tudo.

 

Se a pele e o cabelo não podem nascer de uma outra coisa, então tem de haver também, segundo ele, pele e cabelo no leite que bebemos e nos alimentos que comemos.

 

Dois exemplos modernos apontam para aquilo em que Anaxágoras pensou. Com a técnica “laser” podemos fabricar os chamados “hologramas”. Se um holograma representa, por exemplo, um carro e este holograma é em seguida fragmentado, veremos ainda a imagem de todo o carro, mesmo que já só tenhamos a parte do holograma que mostrava o pára-choques. Isto sucede porque todo o motivo está presente em cada parte, mesmo a mais reduzida.

 

O nosso corpo também é basicamente formado desta maneira. Se eu raspar uma célula da pele do meu dedo, o núcleo da célula não contém apenas a descrição da minha pele. Na mesma célula, há igualmente a descrição dos meus olhos, da minha cor de cabelo, do número e aspecto dos meus dedos, etc. Em cada célula do corpo há uma detalhada descrição da constituição de todas as outras células do meu corpo. Em cada célula há, portanto, “algo de tudo”. A totalidade encontra-se na partícula mais reduzida.

 

Anaxágoras chamou “sementes” a estes elementos infinitamente divisíveis a partir dos quais se formam os vários corpos. Vimos que segundo Empédocles o amor unia entre si as várias partes que formavam os corpos na sua globalidade. Também Anaxágoras imaginava uma espécie de força que, por assim dizer, produzia a ordem e criava homens, animais, flores e árvores. Designava esta força por “espírito” ou razão.

Anaxágoras é também digno de nota por ser o primeiro filósofo em Atenas de que temos notícia. Era oriundo da Ásia Menor, mas foi viver para Atenas com cerca de quarenta anos. Aí, foi acusado de impiedade e teve que deixar novamente a cidade.

 

Afirmara, entre outras coisas, que o Sol não era nenhum Deus, mas uma massa incandescente, maior que a península do Peloponeso.

 

Anaxágoras interessava-se muito por astronomia. Acreditava que todos os corpos celestes eram feitos da mesma substância que a terra. Ficou convencido disto após ter examinado um meteorito. Por isso, era lícito pensar, segundo ele, que existissem homens noutros planetas. Além disso, esclareceu que a Lua não brilhava por si mesma, mas era iluminada pela terra. Por fim, explicou a formação dos eclipses solares.

 

PS. Obrigado pela atenção, Sofia. Talvez tenhas que ler este capítulo duas ou três vezes até compreenderes tudo. Mas a compreensão implica um pequeno esforço pessoal. Dificilmente admirarias uma amiga que soubesse tudo se isso não lhe tivesse custado nada.

 

A melhor resposta para a questão do elemento primordial e das transformações na natureza tem de esperar até amanhã. Conhecerás então Demócrito. Não revelo mais nada!

Sofia estava na toca e espreitava para o jardim. Tinha que tentar ordenar os seus pensamentos depois de tudo o que tinha lido.

 

Era óbvio que a água se podia tornar gelo ou vapor.

 

Mas a água não podia transformar-se numa melancia, visto que mesmo uma melancia era constituída por algo mais que água. Mas se estava tão certa disso, era porque o tinha aprendido. Poderia saber que o gelo era constituído apenas por água se não o tivesse aprendido? Nesse caso, teria que ter observado muito bem de que modo a água passava a gelo e como o gelo se derretia.

 

De novo, Sofia procurava pensar por si mesma sem aplicar o que tinha aprendido de outros.

 

Parmênides recusara-se a aceitar qualquer forma de devir. E quanto mais ela refletia sobre isso, mais se convencia de que, de um certo ponto de vista, ele tinha razão. A sua razão não podia aceitar que “algo” se transformasse subitamente em “algo” completamente diferente.

 

Tinha sido muito corajoso da parte dele dizer isto, porque tivera de negar todas as alterações na natureza, que todo o homem podia observar.

 

De certeza que muita gente se tinha rido dele.

Também Empédocles se tinha mostrado genial ao explicar que o mundo tinha necessariamente de ser constituído por mais do que um só elemento. Desta forma, todas as alterações na natureza eram possíveis, sem que alguma coisa se transformasse de fato.

 

O antigo filósofo grego tinha descoberto isto com o simples uso da razão. Naturalmente, tinha observado a natureza, mas não tivera nenhuma possibilidade de efetuar análises químicas, ao contrário da ciência moderna.

 

Sofia não sabia se estava particularmente convencida de que tudo era constituído por terra, ar, fogo e água. Mas o que é que isso importava?

 

Em princípio, Empédocles tinha razão. A nossa única possibilidade de aceitarmos todas as alterações que os nossos olhos vêem sem perdermos o juízo, é admitirmos mais do que uma substância.

 

Sofia achava a filosofia particularmente cativante porque podia seguir todas as reflexões com o seu próprio entendimento — sem ter de recordar tudo o que aprendera na escola. Verificou que, na verdade, não se pode aprender filosofia, mas talvez se pudesse aprender a “pensar” filosoficamente.