O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 27 de 83

Páginas do PDF

O Mundo de Sofia

“Uma voz divina”

Vou precisar: a capacidade de dar à luz crianças é uma faculdade natural. Da mesma forma, todos os homens podem compreender as verdades filosóficas, usando simplesmente a razão. Quando alguém “recorre à razão”, retira qualquer coisa de si mesmo.

 

Precisamente por se fingir ignorante, Sócrates obrigava as pessoas a usarem a razão. Sócrates podia simular ignorância ou parecer mais estúpido do que na realidade era: a famosa “ironia socrática”.

 

Desta forma, ele conseguia sempre descobrir os pontos fracos na forma de pensar dos atenienses. Isto podia passar-se no centro de uma praça, ou seja, em público. Um encontro com Sócrates podia levar o interlocutor a fazer papel de estúpido, ou a ser ridicularizado perante uma grande assistência.

 

Por isso, não é de espantar que ele se tivesse tornado incômodo e muito irritante — principalmente para aqueles que detinham o poder. Sócrates dizia que Atenas era como um cavalo indolente, e ele era uma espécie de pernilongo que lhe picava o flanco para o manter desperto. (O que é que se faz com o pernilongo, Sofia? Sabe-me dizer?)

 

“Uma voz divina”

Sócrates picava os seus próximos no flanco, não tendo, porém, a intenção de os atormentar. Havia algo nele que não o deixava agir de outra forma. Repetia freqüentemente que ouvia interiormente uma voz divina. Sócrates insurgia-se, por exemplo, com a condenação de pessoas à morte. Além disso, recusava-se a denunciar inimigos políticos. Por fim, isso iria custar-lhe a vida.

 

No ano de 399 a.C. foi acusado de “corromper a juventude” e de “inventar novos deuses”. Por uma maioria apertada, foi declarado culpado por um júri de 500 membros.

 

Podia ter pedido clemência. Poderia, pelo menos, ter salvado a sua vida, se estivesse disposto a deixar Atenas.

 

Mas se o tivesse feito, não teria sido Sócrates, porque a própria consciência — e a verdade — eram mais importantes do que a vida. Insistia que só agira para o bem do Estado, mas, mesmo assim, foi condenado à morte. Pouco tempo depois, e em presença dos seus amigos mais próximos, bebeu uma taça de cicuta.

 

Por que, Sofia? Por que é que Sócrates teve de morrer?

 

Há muitas pessoas que ainda fazem esta pergunta. Mas ele não foi o único na história a ir até às últimas conseqüências e a morrer em nome das suas convicções. Já mencionei Jesus e entre Jesus e Sócrates há, de fato, muitas afinidades. Vou referir apenas algumas.

Tanto Jesus como Sócrates eram já considerados pelos seus contemporâneos pessoas enigmáticas. Nenhum deles escreve a sua mensagem, por isso estamos completamente dependentes da imagem que os seus discípulos nos dão deles. Sabe-se, no entanto, que ambos eram mestres na arte de comunicar. Além disso, expressavam-se de uma forma clara, o que tanto poderia encantar como irritar.

 

E ambos acreditavam ser portadores de uma mensagem maior que eles mesmos. Desafiavam aqueles que detinham o poder na sociedade porque criticavam todas as formas de injustiça e de abuso de poder. E ainda: esta atividade custou a ambos a vida.

 

Inclusivamente nos processos contra Jesus e Sócrates vemos claros paralelismos.

 

Ambos poderiam ter talvez pedido clemência e salvo assim as suas vidas. Mas acreditavam estar a trair as suas convicções se não fossem até ao fim. E o fato de terem enfrentado a morte de cabeça erguida tornou-os dignos da confiança de todos, mesmo após a morte.

 

Se faço este paralelismo entre Jesus e Sócrates não é porque os ache semelhantes.

 

Queria apenas sublinhar que é impossível dissociar a sua mensagem da sua coragem.