O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 43 de 83

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O Mundo de Sofia

Capítulo XII: O Helenismo

 

 

...uma centelha do fogo...

 

O professor de filosofia enviava as suas cartas diretamente para a sebe, mas, devido a um hábito antigo, na manhã de segunda-feira, Sofia foi espreitar à caixa do correio.

 

Estava vazia, e também não seria de esperar outra coisa.

 

Começou a andar por Klöverveien. De repente, viu no chão uma fotografia. A fotografia mostrava um jipe branco com uma bandeira azul, onde estava escrito “ONU”. Seria a bandeira da ONU?

Sofia voltou a fotografia, e só então reparou que se tratava de um postal. Para “Hilde Möller Knag, a/c de Sofia Amundsen.... O postal tinha um selo norueguês, e o carimbo: Contingente ONU, sexta-feira, 15 de Junho de 1990.

 

15 de Junho! Era o aniversário de Sofia!

 

No postal estava escrito:

 

“Querida Hilde: imagino que deves estar a festejar o teu aniversário. Ou já passa um dia? De qualquer modo, não faz diferença para o teu presente; desfrutarás dele durante toda a tua vida.

 

Dou-te os parabéns mais uma vez. Talvez compreendas agora porque é que mando o postal, para a Sofia. Tenho a certeza de que ela to dará.

 

P.S.: A mãe contou-me que perdeste a carteira. Prometo reembolsar-te das 150 coroas. Receberás certamente um novo cartão de estudante na escola antes que ela feche para o Verão.

 

Um abraço do pai”.

Sofia ficou imóvel, como colada ao asfalto. Quando é que o último postal tinha sido carimbado? Algo lhe dizia que o postal com a praia tinha um carimbo de Junho — se bem que ainda faltasse um mês até lá. Não tinha fixado...

 

Olhou para o relógio e correu de volta a casa. Nesse dia ia chegar atrasada. Sofia abriu a porta e foi apressadamente para o quarto.

 

Aí, debaixo do lenço de seda vermelho encontrou o primeiro postal dirigido a Hilde.

 

Sim — também tinha o carimbo do dia 15 de Junho, o aniversário de Sofia e a véspera das férias de Verão.

 

Enquanto corria para o supermercado, onde queria encontrar Jorunn, Sofia tinha muitas perguntas na cabeça.

 

Quem era Hilde? Como é que o pai dela achava evidente que Sofia a encontraria? Não fazia sentido nenhum que ele lhe enviasse os postais em vez de os enviar diretamente à filha. Era impensável que ele não soubesse o endereço da filha. Seria tudo uma brincadeira? Quereria fazer uma surpresa à filha no seu dia de anos servindo-se de uma moça totalmente desconhecida como correio?

Seria por esse motivo que Sofia tinha tido um mês de antecedência? Servia-se dela como intermediária porque o presente de aniversário que queria dar à filha consistia numa nova amiga? Era esse o presente de que “desfrutaria durante toda a vida”?

 

Se esse estranho homem estava de fato no Líbano, como é que podia ter descoberto o endereço de Sofia? Mas não era tudo: Sofia e Hilde tinham pelo menos duas coisas em comum. Se Hilde também fazia anos a 15 de Junho, tinham nascido no mesmo dia.

 

E ambas tinham um pai que viajava muito. Sofia sentiu-se arrastada para um mundo mágico. Afinal, talvez não fosse assim tão estúpido acreditar no destino. Mas ela não devia tirar conclusões apressadas; tudo aquilo podia ter uma explicação natural. Mas como é que Alberto Knox podia ter descoberto a carteira de Hilde, se Hilde vivia em Lillesand, que ficava a mais de cem quilômetros de distância? E porque é que Sofia encontrara aquele postal no chão? Teria caído da mala do carteiro, antes de ter chegado à caixa do correio de Sofia? Porque é que ele perdera precisamente aquele postal?

 

— Tu és completamente doida! — exclamou Jorunn, quando encontrou Sofia no supermercado.

 

— Desculpa. Jorunn fixou-a com um olhar severo, como uma professora.

 

— Espero que tenhas uma boa explicação.

— Tem a ver com a ONU — respondeu Sofia. — Fui retida no Líbano por uma milícia inimiga.

 

— Tu estás é apaixonada. Correram para a escola tão rapidamente quanto as suas pernas lhes permitiram.

 

O teste de religião, para o qual Sofia não tinha estudado, foi distribuído na terceira hora. Na folha estava escrito:

 

Concepção da vida e tolerância

 

1. Faz uma lista daquilo que um homem pode saber. Faz depois uma lista daquilo em que apenas podemos acreditar.

 

2. Indica alguns fatores que determinam a concepção de vida para um homem.

 

3. O que é que entendemos por consciência? Achas que é igual para todos os homens?

 

4. O que é que se entende por “prioridade de valores”?

Sofia refletiu um bom bocado antes de começar a escrever. Poderia aproveitar alguma coisa do que aprendera com Alberto Knox? Tinha de aproveitar, porque há muitos dias que não olhava para o livro de religião. Mal tinha começado a escrever, as frases brotaram.

 

Sofia escreveu que podemos saber que a Lua não é um queijo e que no seu lado oculto também há crateras, que tanto Sócrates como Jesus foram condenados à morte, que todos os homens têm de morrer mais tarde ou mais cedo, que os grandes templos da Acrópole foram construídos cerca do ano 400 a.C. após as guerras contra os Persas e que o oráculo grego mais famoso era o de Delfos. Como exemplos daquilo em que podemos acreditar, Sofia escreveu que, nos outros planetas, há vida ou não, que Deus existe ou não, que há vida após a morte ou não, e que Jesus era filho de Deus ou apenas um homem inteligente. “De qualquer modo, não podemos saber de onde vem o mundo” escreveu ela, por fim.

 

“O universo pode ser comparado a um coelho gigantesco que é retirado de uma grande cartola. Os filósofos procuram subir para um dos pêlos finos do coelho, para poderem fixar nos olhos o grande ilusionista. Se eles o conseguirão algum dia é uma questão em aberto. Mas se um filósofo sobe para as costas de outro, irão chegando progressivamente mais acima na delicada pelagem do coelho, e então, segundo a minha opinião pessoal, existe a possibilidade de eles o conseguirem um dia. PS. Na Bíblia, podemos ler sobre uma coisa que pode ter sido um dos pêlos finos na pelagem do coelho.

 

Esse pêlo é designado por torre de Babel e foi totalmente destruída porque não agradava ao ilusionista que os homens fossem subindo ao longo dos pêlos do coelho branco que ele acabara de criar.”

 

Era a vez da pergunta seguinte. “Indica alguns fatores que determinam a concepção de vida para um homem.” A educação e o ambiente eram obviamente fatores importantes. Os homens que viviam no tempo de Platão tinham uma concepção de vida diferente da dos homens de hoje, simplesmente porque viviam num outro tempo e num outro meio. De resto, as experiências adquiridas também eram importantes. Mas a razão humana também é importante na determinação de uma concepção de vida. A razão não era determinada pelo meio, era comum a todos os homens. Talvez se pudesse comparar o meio e as relações sociais às condições presentes na caverna de Platão.

 

Por intermédio da razão, o indivíduo pode tentar sair da escuridão da caverna. Mas essa viagem exige uma grande dose de coragem pessoal. Sócrates era um bom exemplo de um homem que, com o auxílio da razão, se conseguiu libertar das concepções predominantes no seu tempo.

 

No fim, ela escreveu: “Hoje em dia, homens de países e culturas diferentes têm um contato cada vez mais estreito entre si. Por isso, no mesmo bloco residencial, podem viver cristãos, muçulmanos e budistas. E nesse caso é importante tolerar a crença dos outros em vez de se perguntar por que é que não têm todos a mesma crença”.

 

Sim, Sofia achou que com aquilo que aprendera com o seu professor de filosofia já ia bastante longe. Podia ainda usar uma parte de razão inata e aquilo que ouvira ou lera noutros contextos.

 

Começou a responder à terceira pergunta. “O que é que entendemos por consciência? Achas que é igual para todos os homens?” Sobre isto, tinha-se discutido muito na aula. Sofia escreveu:

 

“Consciência é a capacidade dos homens para reagirem ao que é justo e ao que é injusto. Segundo a minha opinião pessoal, todos os homens têm esta capacidade, ou seja, a consciência é inata. Sócrates teria dito o mesmo. Mas aquilo que a consciência diz pode variar muito de homem para homem. É necessário pensar se os sofistas não estavam numa pista importante.

Eles achavam que o meio em que cada indivíduo cresce, determina aquilo que ele acha ser correto e aquilo que ele acha ser errado. Sócrates, pelo contrário, achava que a consciência era igual em todos os homens. Talvez tivessem todos razão. Apesar de nem todos os homens se envergonharem de andar nus, a maior parte arrepende-se quando trata mal outro homem.

 

Além disso, temos de sublinhar que uma coisa é ter uma consciência e outra coisa é usá-la. Em situações isoladas pode parecer que os homens agem de uma forma totalmente inconsciente, mas, segundo a minha opinião pessoal, também neles há uma forma de consciência, mesmo quando está bem escondida.

 

Pode também parecer que alguns homens não têm racionalidade, mas isso deve-se apenas ao fato de não a usarem.

 

PS. A razão e a consciência podem ser comparadas a um músculo. Se não se usa um músculo, ele vai-se tornando mais fraco e flácido.”

 

Faltava apenas uma pergunta. “O que é que se entende por “prioridade de valores”?

 

Sobre isto também tinham discutido muito ultimamente.

Podia, por exemplo, ser importante andar de carro para nos podermos deslocar depressa de um lugar para outro.

 

Mas se andar de carro provocasse a morte das florestas e a poluição da natureza, estava-se perante uma “escolha de valores”. Após uma reflexão profunda, Sofia achava ter chegado à convicção de que florestas saudáveis e uma natureza pura eram mais importantes do que a possibilidade de chegar depressa ao trabalho. Deu mais exemplos. Por fim, escreveu: “É minha opinião pessoal que a filosofia é mais importante do que a gramática inglesa. Por isso, seria uma prioridade de valores sensata se a disciplina de filosofia fosse admitida no plano de estudos e o horário da aula de inglês fosse reduzido.”

 

No último intervalo, o professor chamou Sofia à parte.

 

— Já li o teu teste de religião — disse. — Estava em cima do monte dos testes.

 

— Espero que tenha gostado.

 

— Era precisamente sobre isso que queria falar contigo. Em muitos aspectos, deste respostas muito maduras. Surpreendentemente maduras, Sofia. E autônomas. Tinhas feito os trabalhos de casa?

 

Sofia começou a torcer as mãos.

— Mas tinha dito que as reflexões pessoais são importantes para si.

 

— Há limites.

 

Sofia fixou o professor nos olhos. Achava que o podia fazer depois de tudo o que tinha vivido nos últimos dias.

 

— Eu comecei a estudar filosofia — afirmou. — É um bom fundamento para opiniões autônomas.

 

— Mas não vai ser fácil classificar o teu trabalho. Na verdade, só te posso dar um cinco ou um um.

 

— Porque respondi tudo certo ou tudo errado? É isso que quer dizer? — Dou-te o cinco. Mas na próxima vez tens de fazer os trabalhos de casa.À tarde, quando Sofia chegou a casa, vinda da escola, atirou a pasta para a escada e foi imediatamente para a toca.

 

Havia um envelope amarelo sobre as raízes grossas. As bordas estavam quase secas, portanto Hermes devia ter estado ali há um bom bocado.

 

Sofia levou o envelope consigo e entrou em casa.